A FAMLIA FORSYTE

Terceiro Volume - A Nova Gerao


        JOHN GALSWORTHY


Coleco Dois Mundos


Livros do Brasil


Digitalizao e Arranjo


Agostinho Costa


Este livro foi digitalizado para
ser lido por Deficientes Visuais


        1 - O Proprietrio        
2 - No Tribunal        
3 - A Nova Gerao (Fim)

        
Admiravelmente traduzido pela grande escritora brasileira Rachel de Queiroz, conclui-se com este terceiro volume o clebre romance de John Galsworthy, "A Famlia        
Forsyte", que o pblico ledor portugus transformou num "best-seller", em paralelo com o assinalado        
xito da sua adaptao televisiva.
Rachel de Queiroz tenta explicar-nos porqu quando escreveu: "Graas a laboriosas pesquisas, cheguei  convico de que a maioria das pessoas l romances para divertimento. 
Assim  e assim ser sempre.
Sejam, porm, quais sejam os seus motivos, eu alimento para com todos os leitores de romances um sentimento ardente de afeio, e, por nada no mundo, procuraria 
decepcion-los. Nunca! Estabelecido isso, ouso declarar, na paz do meu        
corao e na serenidade da minha conscincia, que, se eles desejam divertimento, conseguiro isso dentro das pginas deste livro. Tero divertimento s mancheias 
nesta histria dos Forsyte. Encontraro divertimento e talvez algo mais duradoiro, se o procurarem. Digo tudo isto com todas as reservas e qualificaes que a estrita 
verdade exige        
de qualquer pronunciamento de opinio. Mr. Galsworthy jamais ser considerado ftil por ningum, e nem mesmo os mais exigentes leitores o julgaro desinteressante."


COLECO DOIS MUNDOS



JOHN GALSWORTHY


PRMIO NOBEL


A FAMLIA FORSYTE


III - A NOVA GERAO


TRADUO DE RACHEL DE QUEIROZ


EDIO "LIVROS DO BRASIL" LISBOA



Ttulo da edio original: THE FORSYTE SAGA


Para Charles Scribner


From out the fatal loins of those two foes 
A pair of star-crossed lovers take their life."

(Romeu e Julieta)


Nota: Neste livro a paginao  inferior


NDICE


PRIMEIRA PARTE

I - Encontro .................................... 9
II - A linda Fleur Forsyte ........,................ 28
III - Em Robin Hill .............................. 36
IV - O mausolu .................................. 45
V - A charneca nativa ........................... 55
VI - Jon ......................................... 65
VII - Fleur ....................................... 71
VIII - Idlio na relva .............................. 78
IX - Goya ..................................... 83
X - Trio ....................................... 95
XI - Dueto ....................................... 102
XII - Capricho .................................... 109

SEGUNDA PARTE

I - Me e filho .............................. 119
II - Pais e filhas ................................. 126
III - Encontros ................................... 142
IV - Em Green Street ........................... 153
V - Negcios exclusivos dos Forsyte .............. 160
VI - A vida privada de Soames .................. 168
VII - June auxilia ................................. 179
VIII - Freio nos dentes ........................... 185
IX - leo sobre o fogo ............................ 192
X - Deciso .................................... 201
XI - Timothy profetiza ........................... 206

TERCEIRA PARTE

I - As recordaes de Jolyon ..................... 219
II - Confisso ................................... 228
III - Irene ....................................... 235
IV - Soames medita .............................. 240
V - Ideia fixa ................................. 248
VI - Desespero ................................... 253
VII - Embaixada ................................. 262
VIII - A cantiga sombria ........................... 271
IX - Sob o velho carvalho ....................... 277
X - O casamento de Fleur ........................ 280
XI - O ltimo dos velhos Forsyte .................. 291


PRIMEIRA PARTE


CAPTULO I - ENCONTRO


Na tarde de 12 de Maio de 1920, Soames Forsyte saiu do Knightsbridge Hotel, onde estava hospedado, com a inteno de visitar a exposio de pintura de uma galeria 
em Cork Street e dar uma olhadela para o futuro. Ps-se a caminhar. Desde a guerra, nunca apanhara um txi, se o podia evitar. Na sua opinio, os motoristas eram 
gente estpida e incivil, embora, agora que a guerra terminara, com a oferta de mo-de-obra a tornar-se muito maior que a procura, eles, de acordo com os costumes 
da natureza humana, j fossem voltando aos modos antigos. Mas Soames no lhes perdoava, identificando-os intimamente com desagradveis lembranas, e agora, obscuramente, 
como todos os membros da sua classe, identificando-os tambm com a revoluo. A enorme ansiedade que o maltratara durante a guerra e a ansiedade maior que o possura 
depois de iniciada a paz produzira consequncias psicolgicas importantes na sua tenaz natureza. Tantas vezes se imaginara arruinado que deixara de acreditar na 
possibilidade material desse facto. Pagando quatro mil libras anuais de imposto sobre a renda, ningum pode propriamente queixar-se. Uma fortuna de um quarto de 
milho - sobrecarregada apenas com a manuteno de uma filha e da esposa, distribuda em vrios empregos de capital - oferecia uma garantia substancial at mesmo 
contra aquela "ideia selvagem" de um levantamento de capitais. Quanto  confiscao dos proventos de guerra, isso era-lhe inteiramente favorvel, porque no auferira 
directamente nenhum e aquilo "servia os direitos dos mutilados de guerra"! No entanto, o preo dos quadros subira mais que tudo, e ele hoje realizava mais com as 
suas coleces do que nunca pensara antes do incio da guerra. Os raids areos tambm tinham agido benficamente sobre um esprito congnitamente cauteloso e tornado 
mais spero um carcter j de si intratvel. O perigo de se ver inteiramente dispersa faz que uma pessoa se torne menos apreensiva quanto a disperses mais parciais, 
decorrentes de impostos e moratrias - enquanto o hbito de condenar a imprudncia dos Alemes conduz naturalmente a condenar os trabalhistas, se no abertamente, 
pelo menos no santurio da nossa alma.
Soames caminhava. Tinha muito tempo a perder, pois Fleur s iria encontrar-se com ele na galeria s quatro horas, e ainda eram apenas duas e meia. Era bom para ele 
caminhar - tinha o fgado ligeiramente inflamado e os nervos  flor da pele. A mulher estava sempre fora quando ele vinha para a cidade e a filha ficava a revolver 
os armazns, como costumavam fazer agora as raparigas, depois da guerra. Alis, ele ainda deveria dar graas a Deus por ela ser to jovem que no a convocaram para 
nenhum trabalho de guerra. No que ele no houvesse apoiado a guerra com toda a sua alma, desde o incio, mas seria muito diferente ter de apoi-la com os corpos 
de sua mulher e sua filha - havia uma marca arcaica dentro dele, fixada no se sabe por quem, que o fazia abominar qualquer extravagncia emocional. Por exemplo, 
opusera-se tenazmente a que Annette - que ainda era to atraente em 1914, pois s tinha trinta e quatro anos - fosse para a Frana, sa chre patrie, como se pusera 
a dizer, tratar dos seus braves poilus. Arruinar a sade e a beleza! Como se ela fosse realmente uma enfermeira! E, decididamente, sustara aquele entusiasmo. Que 
costurasse para eles em casa ou lhes fizesse meias de l! Ela no fora, naturalmente, mas desde ento nunca mais se mostrara a mesma. Crescera a sua m tendncia 
de troar do marido, no abertamente, mas por mil maneiras indirectas. Quanto a Fleur, a guerra resolvera o desagradvel problema em que se debatiam:

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se deviam ou no mand-la para um colgio. Era melhor para ela manter-se afastada da me, enquanto ela se preocupava com a guerra, e afast-la tambm dos raids areos 
e do impulso de fazer coisas extravagantes. De forma que a confiou a um internato de uma cidade do Oeste do pas, que lhe pareceu digno da filha, e sentiu horrivelmente 
a falta dela. Fleur! Nunca- se arrependera do impulso que o fizera cham-la por esse nome estrangeiro - embora tal nome significasse uma acentuada concesso ao francs. 
Fleur! Um lindo nome - e uma linda rapariga. Porm inquieta - muito inquieta e voluntariosa! Sabendo muito bem a extenso do poder que tinha sobre o pai, Soames 
muitas vezes reflectira no erro que cometia em adorar e amimar excessivamente a filha. Um velho a adorar algum! J tinha sessenta e seis anos! J estava em declnio, 
mas no o sentia, porque - felizmente talvez -, considerando a juventude e a beleza de Annette, o seu segundo casamento resultara numa associao muito fria. Ele 
s experimentara na vida uma nica paixo - por sua primeira mulher, Irene. Sim, e aquele indivduo, o seu primo Jolyon, que fugira com ela, andava muito abatido, 
diziam. No era de admirar - com setenta e dois anos e j com vinte anos do terceiro casamento!
Soames parou um momento na sua caminhada para se apoiar s grades do Row. Um stio ideal para reminiscncias, a meio caminho daquela casa de Park Lane, onde ele 
nascera e onde lhe haviam morrido os pais, e a pequena casa de Montpellier Square, onde, trinta e cinco anos atrs, decorrera a sua primeira edio de casamento. 
Agora, depois de vinte anos da segunda edio, aquela velha tragdia parecia-lhe sucedida numa existncia anterior - existncia que terminara com o nascimento de 
Fleur, em lugar do filho que ele desejara. J h muitos anos que ele deixara de lamentar, mesmo vagamente, o filho que no lhe nascera, pois Fleur preenchera as 
aspiraes do seu corao. Afinal, ela usava-lhe o nome, e ele ainda no consentia em encarar a possibilidade de a ver mud-lo. E realmente, se alguma vez meditava 
em tal calamidade, consolava-se com o vago pensamento de que a faria to rica que ela poderia deixar de usar, e mesmo extinguir, o nome do homem que viesse a ser 
seu marido. E porque no,

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se, segundo o parecia, as mulheres eram actualmente iguais aos homens? E Soames, secretamente convencido de que elas no o eram, passava vigorosamente a mo pelo 
rosto, at encontrar o confortador volume do seu queixo. Graas aos seus hbitos abstmios, no se tornara gordo, nem flcido, o nariz continuava plido e afilado, 
o bigode grisalho cortado curto, o olhar inalterado. Uma ligeira inclinao corrigia a expanso que lhe dera ao rosto o alteamento da fronte provocado pelas entradas 
no cabelo grisalho. Poucas mudanas operara o tempo no "mais avisado" dos jovens Forsyte, segundo dissera Timothy - o ltimo dos velhos Forsyte, que completara recentemente 
o seu centsimo primeiro aniversrio. A sombra dos pltanos caa-lhe sobre o caro chapu de feltro. Ele abandonara as cartolas - no valia a pena mostrar-se rico 
num tempo como o de agora. Pltanos! Os seus pensamentos dirigiam-se para Madrid - na Pscoa que precedera a guerra, ele, desejoso de fazer um juzo definitivo sobre 
um determinado quadro de Goya, viajara at l, a fim de estudar o pintor na sua prpria terra natal. E Goya impressionara-o - grande classe, real gnio! E, por mais 
alto que estivesse cotado, a sua cotao tenderia sempre a subir. A segunda fase da mania do pblico por Goya seria ainda maior que a primeira. E ele comprou o quadro. 
Naquela visita  Espanha, Soames fizera uma coisa que nunca havia feito antes: encomendara uma cpia de um fresco chamado La Vendimia, onde havia uma figura de rapariga 
com as mos nos quadris que lhe recordara a filha. Tinha agora essa cpia na sua galeria de Mapledurham - e achava-a medocre: ningum pode copiar Goya. No entanto, 
ficava a olh-la longamente, quando a filha no estava em casa, por amor de uma certa reminiscncia irresistvel que havia na luz, no erecto equilbrio da figura, 
na separao das sobrancelhas castanhas e arqueadas, nos olhos escuros e sonhadores. Era curioso que Fleur tivesse olhos escuros - porque os da me eram azuis! Porm, 
os olhos da av Lamotte eram escurssimos. Recomeou a andar em direco a Hyde Park Corner. Em toda a Inglaterra no havia mudana maior que no Row! Nascido praticamente 
dentro dos seus limites, Soames podia record-lo desde o ano de 1860. Quando era garoto, traziam-no entre as crinolinas,

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para apreciar os dandies de suas, montando a cavalo numa postura de drages de cavalaria, os penteados de grandes caracis transbordantes e as cartolas brancas, 
o ar displicente daquilo tudo, o homenzinho de pernas tortas, metido numa sobrecasaca vermelha, que costumava introduzir-se por entre os elegantes, com vrios ces 
presos em trelas na mo, tentando sempre vender um a sua me: spaniels, galgos italianos, que farejavam a crinolina de Emily - j hoje no se via desses ces. Alis, 
j no se v nada fino, distinto, alm de trabalhadores sentados em estpidas filas, sem nada para olhar, mulherzinhas espalhafatosas de calas e chapu de coco 
montando escarranchadas, ou errticos coloniais em horrendos sendeiros de aluguer, e, aqui e alem, rapariguinhas montadas em pneis, velhos senhores dando exerccio 
ao fgado ou um oficial de cavalaria a treinar o seu amimal. Nem um puro-sangue, nem grooms, nem cortesias, nem mexericos - nada. S as rvores eram as mesmas - 
as rvores, indiferentes s geraes e ao declnio da espcie humana. Uma Inglaterra democrtica, desgrenhada, apressada, ruidosa e aparentemente sem nenhuma elevao. 
E algo de exigente e requintado que havia na alma de Soames revoltava-se contra aquilo. Fora-se para sempre o borough fechado, fidalgo e envernizado! Riqueza havia 
- oh, sim,, ele prprio era um homem mais rico do que seu pai jamais fora. Mas as maneiras, o saber, a qualidade, tudo desaparecera, engolfado numa enorme, horrenda 
e acotovelante multido, que tresandava a gasolina. Pequenas excrescncias de gentileza e fidalguia apareciam ainda aqui e alm, dispersas  chtives, como diria 
Annette, mas nada de firme e coerente para se olhar. E nessa nova barafunda de pssimas maneiras e decadncia moral, sua filha - flor da sua vida - andava mergulhada. 
E quando os tais trabalhistas apanhassem o Poder - se algum dia o apanhassem -, o pior ento sucederia!
Passou sob o arco, que, felizmente, j no estava desfigurado pelo seu holofote. "Era melhor que eles pusessem um holofote no prprio caminho e iluminassem bem a 
sua preciosa democracia!" E encaminhou os passos ao longo das fachadas de clubes de Picadilly. George Forsyte, naturalmente, devia estar
sentado  sacada do Iseeum. Engordara tanto que passava quase todo o tempo ali, semelhante a um olho imvel, sardnico,

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zombeteiro, anotando a decadncia dos homens e das coisas. E Sloames apressou o passo, sentindo-se, como sempre, constitucionalmente incomodado sob o olhar do primo. 
Diziam que George, em plena guerra, escrevera uma carta aos jornais, assinada "Um Patriota", queixando-se contra a histeria do Governo, que cortara as raes de 
aveia dos cavalos de corrida. Sim, l estava ele, alto, enorme, limpo, bem barbeado, com os cabelos lisos e ainda abundantes, perfumados sem dvida pelas melhores 
loes, com um papel cor-de-rosa na mo. Bem, aquele no mudara! E talvez pela primeira vez na vida Soames sentiu uma espcie de simpatia por aquele homem chocarreiro. 
Com o seu peso, os seus cabelos repartidos com perfeio, o olhar taurino, era como uma garantia de que a velha ordem ainda teria algum brilho. Viu George agitar 
o papel rseo, como se o convidasse a subir - talvez quisesse perguntar-lhe qualquer coisa acerca das suas propriedades. Ainda estavam sob a direco de Soames, 
porque, apesar de se ter transformado em scio comanditrio do escritrio naquele doloroso perodo de vinte anos atrs, quando se divorciara de Irene, Soames, quase 
insensivelmente, retivera entretanto nas suas mos o controle dos negcios pessoais dos Forsyte.
Hesitando apenas um momento, fez um gesto de assentimento e subiu. Desde a morte do cunhado, Montague Dartie, em Paris - sobre a qual ningum poderia fazer um juzo 
certo seno que no se tratara de suicdio-, o Iseeum Club tornara-se mais respeitvel aos olhos de Soames. Tambm George, sabia-o ele, deixara para trs as loucuras 
da mocidade, entregara-se definitivamente s alegrias da mesa, comendo tudo o que servisse para lhe diminuir o peso, e possuindo apenas "um ou dois cavalicoques 
para lhe darem interesse  vida". E Soames reuniu-se pois ao primo na varanda, sem o embaraador sentimento de indiscrio que at ento sentira.

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George estendeu-lhe a mo aberta.
- No o vejo desde a guerra - disse. - Como vai sua mulher?
- Vai bem, obrigado - respondeu friamente Soames.
Alguma obscura piada arredondou a gorda face de George e os olhos dele alegraram-se.
- Aquele belga, Profond,  actualmente membro deste clube.  um scio extraordinrio.
- Realmente! - murmurou Soames. - A respeito de que me queria voc falar?
- A respeito do velho Timothy. Pode esticar as canelas a qualquer momento. Creio que j fez o testamento.
- Sim.
- Bem, voc ou qualquer pessoa deve ir dar-lhe uma olhadela...  o ltimo da irmandade. J fez cem anos, sabe. Dizem que parece uma mmia. Onde  que voc o vai 
pr? Deveria ter direito a uma pirmide.
Soames sacudiu a cabea.
- Em Highgate, no mausolu da famlia.
- Sim, creio que as velhotas sentiriam a falta dele, se o pusessem em qualquer outro lugar. Dizem que ele ainda toma um certo interesse pelo que come. Teima em viver, 
voc compreende. Ser que ns outros temos alguma coisa dos velhos Forsyte? Em dez deles, a mdia de idade  oitenta e oito anos. Andei a verificar isso.
-  tudo? - perguntou Soames. - Tenho de ir andando. "Diabo insocivel!", pareciam dizer os olhos de George.
- Sim,  tudo. V v-lo no mausolu onde est. O velho deve querer fazer alguma profecia. - A careta morreu-lhe nas gordas curvas do rosto, e George acrescentou: 
- Vocs, advogados, j inventaram algum meio de ludibriar esse infernal imposto sobre a renda? Atinge os que tm rendimentos fixos de herana como o Diabo em pessoa. 
Eu, que estava acostumado a ter por ano duas mil e quinhentas libras, tenho agora umas miserveis mil e quinhentas. E o custo da vida duplicou.
- Ento - murmurou Soames - o turf est em perigo. Sobre o rosto de George agitou-se um sardnico movimento
de autodefesa.
- Bem - disse ele -, obrigaram-me a no fazer nada, e aqui estou eu, secando ao sol, ficando cada dia mais pobre. Esses trabalhistas tencionam tomar conta de tudo 
de uma hora para a
outra. E que  que voc pretende fazer da vida,

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quando isso acontecer? Eu vou trabalhar seis horas por dia, ensinando aos polticos como apreciar uma pilhria. Aceite o meu palpite, Soames, entre para o Parlamento, 
garanta as suas quatrocentas libras e d-me o emprego.
E, como Soames se retirava, George voltou  sua cadeira na varanda.
Soames avanou por Picadilly, mergulhado em reflexes decorrentes das palavras do primo. Ele sempre fora trabalhador e poupado... George sempre prdigo e mandrio. 
No entanto, se comeasse realmente uma confiscao, seria ele - o trabalhador e o econmico - o prejudicado! Aquilo era a negao de todas as virtudes, o desmoronar 
de todos os princpios dos Forsyte! Poderia a civilizao construir-se sobre outros princpios? Soames achava que no. Bem, de qualquer modo no lhe confiscariam 
os quadros, pois no lhes conheceriam o valor. Porm, que poderiam eles valer, ento, se aqueles manacos se pusessem a dissolver o capital?
"No me importo comigo", pensava ele. "Na minha idade. posso viver com quinhentas libras por ano, sem sentir nenhuma diferena."- Mas Fleur! Aquela fortuna to amplamente 
capitalizada, aqueles tesouros to cuidadosamente escolhidos e guardados, eram tudo para a filha. E se as coisas se alterassem de tal maneira que j no lhe fosse 
possvel deix-los para ela, ento a vida no teria sentido. E que lhe adiantava ir ver aquela louca exposio futurista, a fim de saber se aquilo tinha algum futuro?
No entanto, ao chegar  galeria de Cork Street, Soames pagou o seu shilling, agarrou um catlogo e entrou. Umas dez pessoas rondavam por l. Soames ps-se a andar 
e dirigiu-se para o que lhe pareceu representar um candeeiro de rua depois da coliso de um nibus. Estava afastado uns trs passos da parede e tinha esta legenda: 
"Jpiter". Examinou a coisa com curiosidade, pois agora dedicava uma certa ateno  escultura. "Se isto  Jpiter", pensou ele, "gostaria de saber com que se parece 
Juno." E subitamente viu Juno - do lado oposto. Parecia-se com uma bomba que possusse dois braos, ligeiramente recoberta de neve.

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E estava ainda a olh-la, esgazeado, quando dois dos visitantes se aproximaram. "patant!", ouviu um deles dizer.
"Que gria!", rosnou Soames para si prprio.
A voz do outro rapaz replicou:
- Tolice, meu velho. Isso a  uma pilhria. Ao fabricar esse Jpiter e essa Juno, o autor pensava: "Vamos ver at onde vai a capacidade de engolir do idiota do 
pblico." E vocs engoliram ambos.
- Voc  que  um cretino! Vospovich  um inovador. Ento no v a stira que h nesta escultura? O futuro das artes plsticas, da msica, da pintura e at mesmo 
da arquitectura, est na stira. O povo j est farto at  garganta de sentimentalismos.
-Bem, pois eu no deixo assim mesmo de me interessar um pouco pela beleza. E combati durante a guerra. O senhor deixou cair o seu leno, cavalheiro.
Soames viu um leno erguido defronte de si. Agarrou-o com uma certa suspeita natural e aproximou-o do nariz. Tinha o cheiro autntico - uns longes de gua-de-colnia 
- e as suas iniciais a um canto. Ligeiramente tranquilizado, ergueu os olhos at ao rosto do rapaz: orelhas sensveis, boca risonha, com um bigode que parecia uma 
escova sobre os cantos dos lbios - tudo isso junto a uma aparncia normalmente vestida.
- Obrigado - disse ele. E, movido por uma espcie de irritao, acrescentou: - Gostei de ouvi-lo dizer que aprecia o que  belo. Isso  raro, hoje em dia.
- Adoro-o - retorquiu o moo. - Porm, o senhor e eu somos os ltimos da velha guarda, sir.
Soames sorriu.
- Se realmente se interessa por pintura - disse ele -, tome o meu carto. Posso mostrar-lhe alguns belos quadros, num domingo destes, se o senhor quiser descer o 
rio e chegar at l.
-  muito gentil, sir. Correrei para l, como um pssaro. O meu nome  Mont. Michael Mont. - E tirou o chapu.
Soames, j lamentando aquele impulso, ergueu ligeiramente o chapu em resposta, com um olhar de vis para o companheiro do rapaz,

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que exibia uma gravata purpurina, umas suas espantosas e um ar escarninho - como se fosse um poeta!
Era aquela a primeira indiscrio que Soames cometia desde h muitssimo tempo, e, sentindo necessidade de se isolar, sentou-se num gabinete lateral. Que demnio 
o possura, fazendo-o oferecer o seu carto quele jovem estouvado, que se fazia acompanhar de um fenmeno daqueles?
E Fleur, sempre no fundo do seu pensamento, mostrou-se como a figurinha que salta de dentro de um relgio ao bater das horas. Na parede oposta ao pequeno gabinete 
havia uma enorme tela com grandes borbulhas quadradas cor de tomate pintadas nela, e nada mais - tanto quanto Soames podia ver do lugar onde estava. Olhou para o 
catlogo: "N.o 32 A Cidade Futura - Paul Post." "Deve ser stira, tambm", pensou Soames. "Que coisa!" Mas o seu segundo impulso foi mais cauteloso. No devia condenar 
apressadamente. Aquelas criaes riscadas e listradas de Monet tinham-se tornado um trunfo - delas saiu a escola "listrada". E Gauguin. Porque, mesmo depois das 
Ps-impressionistas, houvera alguns pintores que no eram de desprezar. E, na verdade, durante os trinta e oito anos da sua vida de connoisseur, assistira a tantos 
"movimentos", vira variar tanto o fluxo e o refluxo do gosto e da tcnica, que no se poderia dizer nada de definitivo alm de que havia dinheiro a ganhar a cada 
mudana da moda. Aquilo, pois, tambm poderia ser um desses casos a respeito dos quais se deve ou sufocar um instinto primordial ou perder o mercado.
Ergueu-se e parou diante do quadro, procurando com esforo olh-lo com os olhos das outras pessoas. Acima das borbulhas cor de tomate havia o que lhe pareceu um 
pr-do-sol, at que algum, de passagem, comentou: "Ele traou maravilhosamente os avies, no traou?" Por baixo das borbulhas havia uma listra branca com riscas 
verticais pretas, s quais at ento Soames no pudera atribuir qualquer significao, quando outro visitante notou: "Que expresso ele soube dar a esse fundo!" 
Expresso? Expresso de qu? Soames voltou para a sua cadeira. A coisa era "rica", como o teria dito seu pai. Expresso! Ah, mas segundo ouvira, agora, no Continente, 
todos eram expressionistas!

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De forma que a coisa j estava ento a chegar ali! E Soames recordou a primeira epidemia de gripe em 1887-ou 88-, partida da China, conforme se dizia. Aquilo era 
uma epidemia legtima!
Apercebeu-se da presena de uma mulher e de um rapaz, em p, entre ele e a Cidade do Futuro. Estavam de costas, mas subitamente Soames ps o seu catlogo diante 
do rosto, e, puxando o chapu sobre a testa, olhou pela frincha que se formara entre os dois obstculos. No podia enganar-se com aquele dorso, ainda elegante, embora 
os cabelos se houvessem tornado grisalhos. Irene! A sua esposa divorciada - Irene! E o rapaz, sem dvida, era o filho dela-filho daquele vJolyon Forsyte -, o filho 
deles, seis meses mais velho que Fleur. E, remoendo no esprito os amargos dias do divrcio, ergueu-se a fim de sair do campo visual deles. Mas, rapidamente, voltou 
a sentar-se. Ela voltara a cabea para falar ao filho. O perfil ainda se mantinha to jovem que os cabelos grisalhos pareciam empoados para uma mscara e os seus 
lbios sorriam de um modo como jamais Soames, seu primeiro possuidor, os vira sorrir. Admitiu, irritado, que ela ainda era bonita e, de corpo, quase to jovem como 
sempre. E como o rapaz sorrira em resposta  me! A emoo constrangeu o corao de Soames. Aquele espectculo feria o seu sentimento de justia. Invejava a Irene 
aquele sorriso do rapaz. Ultrapassava de muito o sorriso que lhe dava Fleur, e era concedido indevidamente. Aquele rapaz deveria ser filho dele, Fleur deveria ser 
filha dela, se Irene houvesse procedido bem. Tirou o catlogo da frente do rosto. Se ela o visse, melhor! Era uma lembrana da sua m conduta em presena do filho, 
que decerto no sabia nada a esse respeito, seria provavelmente um salutar toque do dedo daquela Nmesis que, certamente, cedo ou tarde, a visitaria. Depois, consciente 
de que tais pensamentos eram extravagantes num Forsyte da sua idade, Soames olhou o relgio. Mais de quatro! Fleur estava atrasada. Fora a casa da prima, Imogen 
Cardigan, e l deveriam ter-se entretido a tagarelar e a fumar. Ele ouviu o rapaz rir e dizer vivamente: "Garanto, mam, que este  um dos desvalidos da tia June."
- Paul Post. Sim, creio que , querido.
A ltima palavra provocou um pequeno choque em Soames.

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Nunca ouvira Irene us-la. Foi ento que ela o viu. Nos olhos de Soames deveria ter aparecido algo idntico ao olhar sardnico de George Forsyte, porque a mo enluvada 
de Irene crispou-se nos folhos da saia, as sobrancelhas ergueram-se, o rosto tornou-se de pedra. E ela saiu dali.
- Isso  uma garantia - disse o rapaz, segurando-lhe de novo o brao.
Soames ps-se de p e seguiu-os. O rapaz era bonito, com um queixo de Forsyte, profundos olhos cinzentos, mas com qualquer coisa de ensolarado levemente espalhado 
sobre ele, como se o houvessem borrifado com um copo de velho sherry - o sorriso, talvez, ou os cabelos. Muito melhor do que o mereciam - aqueles dois! Saram-lhe 
da vista, entraram na sala vizinha, e Soames continuou a olhar a Cidade do Futuro, mas no a via. Um leve sorriso encrespava-lhe os lbios. Sentia um certo desprezo 
pela veemncia dos seus sentimentos durante todos aqueles anos. Fantasmas! Mas afinal, quando envelhecemos, que vemos atrs de ns alm de fantasmas?  verdade que 
havia Fleur! E ele fixou o olhar na entrada. J estava atrasada - mas na certa ainda o iria fazer esperar! E subitamente apercebeu-se de uma espcie de brisa humana 
- um pequeno e esguio vulto vestido num djibbah verde-mar, com um cinto de metal e uma rede a prender-lhe os cabelos de ouro avermelhado, j estriados de branco. 
Ela conversava com os frequentadores da galeria e havia algo de familiar no seu aspecto - os olhos, o queixo, o cabelo, o esprito-, algo que sugeria um pequeno 
e feroz terrier antes do seu jantar. Sem dvida nenhuma era June Forsyte! A sua prima June - e caminhando directamente para o seu esconderijo! Ela sentou-se junto 
dele, mergulhada numa reflexo qualquer, agarrou um caderninho e ps-se a escrever notas a lpis..Soames continuava sentado imvel. Que coisa infernal aquilo do 
parentesco! "Repugnante", ouviu-a murmurar. Depois, como pressentindo a presena de um estranho, ela olhou-o. Acontecera o pior.
- Soames!
Soames voltou ligeiramente a cabea.
- Como vai? - disse ele. - No a vejo h vinte anos.

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- Pois . Que foi que o trouxe aqui?
- Os pecados - respondeu Soames. - Que droga!
- Droga! Oh, sim, naturalmente. Este pintor ainda no tem cartaz.
- Nunca o ter - disse Soames. -  um peso morto.
- Naturalmente que .
- Como  que sabe?
- Esta galeria  minha. Soames bufou de surpresa.
- Sua? Por que diabo mantm uma exposio como esta?
- No trato a Arte como secos e molhados. Soames apontou para a Cidade do Futuro.
-Olhe para aquilo. Quem ir viver numa cidade como aquela?
June contemplou o quadro por um momento.
- uma viso - disse ela.
- Coa breca!
Houve um silncio, depois June ergueu-se. " doida!", pensou ele.
- Bem - disse Soames -, voc encontrar aqui o seu irmo, junto com uma mulher muito minha conhecida. Se quer um bom conselho, feche esta exposio.
June olhou-o.
- Oh, Forsyte! - disse, saindo imediatamente.
Havia um ar de perigosa deciso na sua leve e alada figura. Forsyte! Naturalmente, ele era um Forsyte. E ela tambm o era! Porm, desde o momento em que, rapariga 
ainda, June trouxera Bosinney para lhe despedaar a vida, Soames nunca perdoara isso  prima - e nunca o perdoaria. E agora era - ainda solteira - proprietria de 
uma galeria de arte! Subitamente, Soames apercebeu-se de quo pouco andava informado sobre os feitos e atitudes da sua famlia. As velhas tias da casa de Timothy 
j haviam morrido h muitos anos e no havia nenhum ponto de reunio para as novidades. Que tinham feito todos eles durante a guerra? O filho de Roger filho fora 
ferido, o segundo filho de St. John Hayman morrera, o primognito de Nicholas filho recebera uma alta condecorao, ou coisa parecida.

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Todos haviam participado um pouco da luta, segundo acreditava. Aquele filho de Jolyon e Irene  que deveria ser muito moo para combater, e a sua prpria gerao 
era velha de mais, embora Giles Hayman houvesse conduzido ambulncias da Cruz Vermelha e Jesse Hayman ocupasse um posto na milcia civil - aqueles "Siameses" sempre 
haviam sido uns camaradas no desporto! Quanto a si prprio, fizera doao de uma ambulncia automvel, lera os jornais at adoecer, atravessara muitas angstias, 
no comprara roupas, perdera sete quilos de peso. E no sabia que mais poderia fazer na sua idade. Com efeito, pensando nisso agora, impressionou-o o facto de a 
sua famlia ter encarado esta guerra de modo muito diferente de como encarara a guerra dos Boers - acusada de haver esgotado todos os recursos do Imprio.  verdade 
que na outra guerra o seu sobrinho Val Dartie fora ferido, o primeiro filho de Jolyon morrera de tifo, os "Siameses)" haviam ido para a frica com o seu regimento 
de cavalaria e June servira como enfermeira. Mas tudo aquilo fora considerado extravagncia - enquanto "nesta" guerra toda a gente cooperara com o seu quinho, tanto 
quanto lhe era possvel, evidentemente. Parecia ser a prova do crescimento de alguma coisa - ou o declnio de uma outra coisa. Seria que os Forsyte tinham ficado 
menos individualistas, mais imperiais, menos provincianos? Ou era simplesmente porque todos odiavam os Alemes? Porque no vinha Fleur, obrigando-o a sair dali? 
Viu June, Irene e o rapaz voltarem juntos da outra sala e passarem pelo extremo oposto. O rapaz parou defronte de Juno. E subitamente, do outro lado da esttua, 
Soames avistou a sua prpria filha com os super-clios erguidos ao mximo. Pde ver os olhos dela a deslizarem de lado para o rapaz, e o rapaz olh-la tambm. Ento 
Irene enfiou a mo no brao do filho e f-lo andar. Soames viu-o olhando em torno e Fleur a olh-los enquanto os trs se afastavam.
Uma voz disse calorosamente:
- Um pouco obscuro, no , sir?
Era o rapaz que lhe apanhara o leno e que passava de novo por ali. Soames assentiu com a cabea.
- No sei at onde eles iro.

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- Oh, tudo acabar muito bem, sir- respondeu animadamente o rapaz. -No vo para lugar nenhum.
A voz de Fleur disse:
- Ol, pap! C est o senhor! - precisamente como se fosse ela quem estivera esperando.
O rapaz, tirando o chapu, continuou o caminho.
- Bem - disse Soames, olhando-a de cima a baixo -, voc  o que se pode chamar uma moa pontual!
Aquele seu tesouro preciosssimo era de estatura mediana, com cabelos curtos, castanho-escuros, os olhos tambm castanhos, um pouco afastados, tinham as crneas 
to brancas que luziam ao seu mover, e em repouso eram quase sonhadores sob o branco purssimo das plpebras franjadas de clios pretos muito espessos. Tinha um 
perfil encantador e nada do pai no rosto, salvo o queixo resoluto. Sabendo que a sua expresso se abrandava quando a olhava, Soames franziu o cenho, para preservar 
o seu ar pouco emotivo, caracterstico dos Forsyte. Sabia que ela estava sempre a aproveitar-se da sua fraqueza.
Enfiando a mo pelo brao do pai, ela perguntou:
- Quem  aquele rapaz?
- Apanhou o meu leno. Conversvamos acerca de quadros.
- Est com inteno de comprar isto, pap?
- No - disse Soames, chocarreiro. - Nem aquela Juno para que estava a olhar.
Fleur pendurou-se no brao dele.
- Oh, no diga!  uma exposio fantasmagrica!
Na porta de entrada passaram pelo rapaz chamado Mont e pelo seu companheiro, mas Soames deteve-se ante um quadro intitulado Os Intrusos Sero Perseguidos e mal se 
apercebeu do cumprimento do moo.
- Bem - perguntou ele na rua -, quem foi que encontrou em casa de Imogen?
- A tia Winifred e aquele Monsieur Profond.
- Oh - resmungou Soames. - Aquele sujeito! Que  que a sua tia v nele?
- No sei. Parece interessante. A mam diz que gosta dele. - Soames rosnou. - O primo Val e a mulher tambm estavam l.
- O qu! - exclamou Soames. - Pensava que eles tinham voltado para a frica do Sul.

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- Oh, no! Venderam a fazenda. O primo Val vai treinar cavalos de corrida no Sussex. Arranjaram uma linda casa nobre antiga. Convidaram-me para ir l.
Soames tossiu. As notcias eram-lhe desagradveis. - Como  a mulher dele?
- Muito calada, mas bonita, achei eu. Soames tossiu novamente.
- O seu primo Val  um sujeito meio doido.
- Oh! No, pap. Os dois adoram-se. Prometi ir no sbado ou na prxima quarta-feira.
- Treinar cavalos de corrida!-disse Soames. Era uma extravagncia, mas no uma razo para o seu desagrado. Por que diabo no ficara o sobrinho na frica do Sul? 
O seu divrcio j fora assunto bastante desagradvel, mesmo no levando em conta o casamento de Val com a filha do cmplice de sua mulher. E, alm disso, irm de 
June, irm tambm daquele rapaz para quem Fleur estivera a olhar junto  bomba-deusa. Se no tomasse cuidado, ela acabaria por saber tudo acerca daquelas velhas 
desgraas! Coisa desagradvel! Estavam a rond-lo, naquela tarde, como um enxame de abelhas! - No gosto disso! -acrescentou.
- Quero ver os cavalos de corrida - disse Fleur - e eles prometeram-me que eu montaria. O primo Val no pode andar muito, como sabe, mas monta perfeitamente. Vai 
ensinar-me a galopar.
- Corridas! - disse Soames. -  uma pena que a guerra no tenha acabado com isso! Creio que ele herdou a mania do pai.
- No sei nada a respeito do pai dele.
- No - retorquiu Soames com asco. - Ele interessava-se por cavalos e quebrou o pescoo em Paris ao subir uma escada. Foi um alvio para a sua tia.
E franziu o cenho  lembrana do inqurito que ele realizara em Paris, seis anos atrs, a respeito daquela queda de escada, pois Montague Dartie no o poderia realizar. 
Era uma escada comum, normalssima, numa casa onde jogavam bacarat. As suas vitrias, ou o modo como as celebrara, haviam subido  cabea do cunhado.

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O inqurito policial francs fora muito negligente e aquilo dera-lhe um trabalho.
Uma palavra de Fleur distraiu-lhe a ateno.
- Olhe. As pessoas que estavam connosco na galeria!
- Que pessoas? - resmungou Soames, que sabia perfeitamente de quem se tratava.
- Eu acho aquela mulher linda.
- Vamos entrar na confeitaria - disse abruptamente Soames. E, segurando-lhe o brao com a mo como uma garra, f-la entrar na casa. O gesto, partindo de Soames, 
era surpreendente, e ele perguntou quase ansioso: - Que  que voc quer?
- Oh, no quero nada. Tomei um cocktail e comi um lunch enorme.
- Temos de tomar alguma coisa, uma vez que estamos aqui - murmurou Soames, segurando-lhe o brao. - Dois chs - pediu. - E duas daquelas tortas de nozes.
Porm, mal se sentara, a alma dele saltou da cadeira. Aqueles trs - aqueles trs vinham a entrar! Ouviu Irene dizer qualquer coisa ao filho e a resposta do rapaz:
- Oh, no, mam. Este lugar  muito bom. E os trs sentaram-se.
Naquele momento, um dos mais penosos da sua existncia, rodeado de fantasmas e de sombras do passado, na presena das duas nicas mulheres que amara no mundo - a 
mulher de quem se divorciara e a filha -, Soames tinha muito menos receio delas que da sua prima June. Ela podia fazer uma cena - podia apresentar os dois primos, 
ela era capaz de tudo. Mordeu apressadamente a torta e um pedao de noz entalou-se na dentadura. E, procurando arranj-la com o dedo, olhava para Fleur.
Ela mastigava, sonhadora, mas os seus olhos no se afastaram do rapaz. O Forsyte dentro de Soames disse: "Pensa, sente, e ests perdido!" E mexia desesperadamente 
os dedos. Dentadura! Seria que Jolyon usava uma dentadura? Seria que aquela mulher tambm usava dentadura? Houvera um tempo em que a vira sem usar nada! Isso era 
alguma coisa, de qualquer modo, e nunca lhe poderia ser roubado. E ela sabia disso, embora pudesse sentar-se ali calma e senhora de si, como se nunca houvesse sido 
sua mulher.

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Um humor cido percorreu-lhe o sangue de Forsyte, uma dor subtil, que apenas a espessura de um cabelo separava do prazer no seu corao. Se ao menos June no tomasse 
de repente o freio nos dentes!
" claro, tia June."
Ento ele chamava tia  irm? Bem, na verdade, ela j devia ter cinquenta anos.
-  claro que acho muito bonito voc estim-los. Apenas, aceitar aquilo tudo...
Soames arriscou um olhar. Os olhos bem abertos de Irene estavam pousados devotamente no filho. Ela tivera aquele olhar para Bosinney, para o pai daquele menino e 
para o filho! Tocou no brao de Fleur e disse:
- Bem, j est farta?
- S mais um, pap, por favor.
Ela ia adoecer! E Soames dirigiu-se  caixa a fim de pagar. Quando voltou, viu Fleur de p junto  porta, segurando um leno que evidentemente o rapaz lhe entregara.
- F. F. - ouviu-a dizer. - Fleur Forsyte... sim,  meu. Muito obrigada.
Santo Deus! Ela imitara a cena que lhe contara ter-se passado na galeria!
- Forsyte? Mas  tambm o meu nome. Talvez sejamos primos.
- Na verdade! Devemos ser. No h outros. Eu vivo em Mapledurham. E o senhor?
- Em Robin Hill.
As perguntas e as respostas sucederam-se to rapidamente que tudo estava dito antes que ele pudesse levantar um dedo. Viu o rosto de Irene animar-se ante um sentimento 
violento, fez uma ligeira inclinao de cabea e segurou o brao de Fleur.
- Vamos! - disse ele. Ela no se moveu.
- No ouviu, pap? No  esquisito? Os nossos nomes so os mesmos. Seremos primos?
- O qu? Forsyte? Talvez primos afastados.
- O meu nome  Jolyon, sir. Jon, na intimidade.
- Oh! Ah! - disse Soames. - Sim, primos afastados. Como vai? Prazer em v-lo. Adeus.
E afastou-se.
- Muitssimo obrigado - disse ainda Fleur. - Au revoir!
- Au revoir! - ouviu o rapaz responder.

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CAPTULO II - A LINDA FLUR FORSYTE


Ao sair da confeitaria, o primeiro impulso de Soames foi censurar a filha por ter deixado cair o leno, mas ela poderia muito bem responder-lhe: "Aprendi consigo!" 
O seu segundo impulso fora deixar que as coisas adormecidas continuassem assim. Ela perguntou meigamente:
- Porque  que no gosta daqueles primos, pap? Soames ergueu o canto do lbio.
- Que  que lhe faz pensar isso?
- Cela se voit.
"Salta aos olhos!" Que maneira de explicar as coisas!
Depois de vinte anos de vida com uma mulher francesa, Soames ainda tinha uma precria simpatia pela lngua dela, linguagem de teatro e cmplice, no seu esprito, 
de todos os refinamentos da ironia domstica.
- O qu? - perguntou ele.
- O pap deve conhec-los, e no deu mostras disso. Vi-os a olharem para ns.
- Nunca vi aquele rapaz em toda a minha vida - respondeu Soames, falando com absoluta verdade.
- No, mas j tinha visto as outras, querido.
Soames tornou a olh-la. Que bicho a mordera? Seria que Winifred, Imogen ou Val Dartie lhe haviam dito qualquer coisa?

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A mais longnqua referncia ao velho escndalo sempre fora cuidadosamente afastada dos ouvidos da rapariga, e Winifred estava prevenida de que Fleur no devia ouvir 
um murmrio sequer a tal respeito, quando estivesse em sua casa. Tanto quanto a filha o poderia saber, ele nunca fora casado antes. Mas os olhos escuros da pequena, 
cujo lampejo meridional e limpidez s vezes o assustavam, encontraram os seus com perfeita inocncia.
- Bem - disse ele -, o seu av e o av dele, que eram irmos, tiveram uma briga. As duas famlias no se conhecem uma  outra.
- Que romntico!
"Bem, que  que ela agora quer dizer com isto?", pensou o pai. Aquela palavra parecia-lhe extravagante e perigosa - era como se ela houvesse dito: "Que lindo!"
- E devem continuar a no se conhecerem uma  outra - acrescentou ele, lamentando imediatamente a ameaa que havia na sua voz.
Fleur sorria. Na poca actual, quando os jovens se orgulhavam em escolher os seus prprios caminhos e no prestavam a mnima ateno a qualquer espcie de preconceitos 
de decncia, ele dissera exactamente as palavras necessrias para desafiar a desobedincia da filha. E ento, recordando a expresso do rosto de Irene, tornou a 
suspirar.
- Que espcie de briga? - ouviu Fleur perguntar.
- Por causa de uma casa.  uma histria muito velha para Lhe interessar. O seu av morreu no dia em que voc nasceu. Tinha noventa anos.
- Noventa? E ainda h mais Forsytes alm desses?
- No sei - disse Soames. - Esto todos dispersos agora. Os da velha gerao morreram todos, excepto Timothy.
Fleur bateu as mos.
- Timothy? No  delicioso?
- Absolutamente - argumentou Soames.
Ofendia-o o facto de ela considerar Timothy "delicioso" - uma espcie de insulto  sua estirpe. Esta nova gerao zombava de tudo o que fosse slido e tenaz. "Voc 
deve ir ver o velho. Talvez ele queira fazer alguma profecia." Ah! Se Timothy pudesse ver a ruidosa Inglaterra dos seus sobrinhos-netos,

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certamente se abriria em imprecaes. E involuntariamente Soames lanou uma olhadela ao Iseeum. Sim, George ainda estava  janela, com o mesmo papel cor-de-rosa 
na mo.
- Onde  Robin Hil, pap?
Robin Hill! Robin Hill, que centralizara toda aquela tragdia! Que quereria ela saber?
- No Surrey - murmurou ele. - Perto de Richmond. Porqu?
- E a tal casa  l?
- Que casa?
- A casa que provocou a briga.
- Sim. Mas porque  esse interesse todo? Vamos voltar para casa amanh.  melhor que cuide dos seus vestidos.
- Ora,, pap! J cuidei de tudo. Ento  uma intriga de famlia?  como na Bblia ou em Mark Twain... a coisa mais excitante do mundo! Que parte tomou o pap no 
caso?-
- No se preocupe com isso.
- Oh! Ento no tenho de tomar parte no dio?
- Quem lhe mandou tomar parte?
- Voc, querido.
- Eu? Eu disse que no tinha nada com isso.
-  exactamente o que eu penso. Ento est bem.
Ela era esperta de mais para ele, fine, como s vezes lhe chamava Annette. E ele disse, para lhe distrair a ateno, parando em frente de uma loja:
- Vi aqui uma renda que, pensei, h-de agradar-lhe. Depois que pagou a renda e voltaram a caminhar, Fleur
perguntou:
- No acha que a me daquele rapaz , na idade dela, a mulher mais linda, que j viu?
Soames estremeceu. Era incrvel como ela conseguira perturb-lo.
- No sei se reparei nela.
- Oh, querido, vi muito bem o cantinho dos seus olhos.
- Voc v tudo... e muito mais, est a parecer-me!
- Com quem se parece o marido dela? Deve ser seu primo em primeiro grau, j que o seu pai e o dele eram irmos.
- Segundo eu soube, j morreu - disse Soames com sbita veemncia. - Deixei de o ver h mais de vinte anos.
- Que era ele?
- Pintor.
-  uma coisa bonita.
As palavras "Se quer ser-me agradvel, tire essa gente da cabea" subiram aos lbios de Soames, mas conteve-as. No devia consentir que ela lhe percebesse os sentimentos.
- Ele insultou-me certa vez - respondeu.
Os vivos olhos da moa demoraram-se no rosto do pai.
- Bem vejo! O pap no se vingou, e isso ainda o ri. Pobre pap! Fico cada vez mais interessada!
Ele sentia-se realmente como uma pessoa deitada no escuro com um mosquito a zumbir-lhe junto ao rosto. Aquela pertincia da parte de Fleur era nova para ele, e, 
quando chegaram ao hotel, ele disse, aborrecido:
- Fiz o que pude. E agora chega de falar daquela gente. Vou ficar l em cima at  hora do jantar.
- Eu fico sentada aqui.
Com um olhar de despedida para a filha, reclinada numa poltrona - olhar meio de ressentimento!, meio de adorao-, Soames entrou no elevador e subiu at ao seu apartamento 
no quarto andar. Parou junto  sacada da sala de estar, que dava para o Hyde Park, e ficou a tamborilar os dedos no peitoril. Os seus sentimentos estavam confusos, 
colricos, perturbados. O latejar daquela velha ferida, cicatrizada pelo tempo e por novos interesses, misturava-se ao desprazer e  inquietao. Alm disso, sentia 
uma ligeira dor na boca, que o pedao de noz magoara. Annette j teria voltado? No que ela pudesse ser-lhe de qualquer utilidade naquela emergncia. Sempre que 
a mulher llhe fazia perguntas a respeito do seu primeiro casamento, ele mandava-a calar, e ela no sabia nada acerca dessa unio, alm de que fora a grande paixo 
da vida do marido e que o seu casamento com ela, Annette, no fora mais que um arranjo domstico. Ela,, alis, sempre lanara mo dessa circunstncia e utilizara-a, 
por assim dizer, comercialmente. Soames escutou, Um som - o vago murmrio de movimentos femininos

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- vinha at ele atravs da porta. Annette chegara. E ele bateu  porta.
- Quem ?
- Eu - disse Soames.
Annette estava a mudar de roupa e ainda no se vestira de todo - uma bela figura defronte do espelho. Havia uma certa magnificncia nos seus braos, nas espduas, 
nos cabelos- que tinham escurecido depois que ele a conhecera-, no rolio do pescoo, na seda das suas roupas ntimas, nos grandes olhos azuis de clios escuros. 
Aos quarenta anos, Annette ainda era, indiscutivelmente, to bonita como sempre fora. Uma rica propriedade, uma excelente dona de casa, uma me bastante sensvel 
e afectuosa. Se ao menos ela no fosse s vezes to francamente cnica a respeito das relaes entre ambos! Soames, que no tinha mais afeio pela mulher do que 
ela tinha por ele, sentia uma espcie de mgoa na sua susceptibilidade britnica por ela nunca ter tentado pr o mais tnue vu de sentimento sobre a associao 
deles. Igual  maioria dos seus conterrneos e suas mulheres, ele mantinha a opinio de que o casamento deve ser baseado no amor recproco e que, quando o amor de 
um casamento desaparece, ou quando se descobre que o amor nunca existiu, e a unio carece portanto dessa base indispensvel, no se deve admitir isso. Se o casamento 
existe e o amor falta - devemos proceder como se o amor existisse! Marido e mulher concordam ambos nesse ponto - sem o cinismo, o realismo e a imoralidade dos Franceses!
E, acima de tudo, isso  necessrio no interesse da propriedade. Ele sabia que ela sabia que ambos sabiam que no havia amor entre os dois, mas ele ainda esperava 
que ela no admitisse tal coisa, por palavras ou por obras, e no podia compreender quando ela se referia  hipocrisia dos Ingleses. E perguntou:
- Quem foi que voc convidou para o Shelter na prxima semana?
Annette, delicadamente, dava aos lbios um toque de bton embora Soames sempre tivesse desejado que ela no o fizesse.
- A sua irm Winifred, os Cardigan - e deu aos olhos um leve toque de negro - e Prosper Profond.
- Esse belga? Porqu?
Annette volveu preguiosamente o pescoo, tocou nos clios e disse:
- Ele diverte Winifred.
- Prefiro algum que divirta Fleur. Ela  voluntariosa de mais.
- Voluntariosa?  a primeira vez que percebe isso, meu amigo? Ela nasceu voluntariosa, como voc diz.
Numca perderia aquele sotaque afectado ao pronunciar os "ar"? Tocou no vestido que ela tirara e perguntou:
- Que andou a fazer?
Annette olhou para o reflexo do marido que se projectava no espelho. Os seus lbios sorriram, meio alegre, meio ironicamente:
- Andei a divertir-me.
- Oh! - respondeu Soames, de mau humor. - Com ninharias, imagino. - Era essa a sua expresso para designar a incompreensvel peregrinao de loja em loja com que 
as mulheres se comprazem. - Fleur j preparou as toilettes de Vero?
- Voc no me pergunta pelas minhas.
- Voc no se importa se eu pergunto ou no.
- Realmente. Bem, j preparou. E eu preparei as minhas... terrivelmente caras.
- Hum! - resmungou Soames. - Que  que esse tal Profond faz na Inglaterra?
Annette soergueu as sobrancelhas, que acabara de arranjar.
- Tem um iate.
- Ah!  um sujeito aborrecido.
- s vezes - retorquiu Annette. E o seu rosto mostrava uma expresso de divertimento. - Mas s vezes  muito divertido.
- Ele tem sangue de negro. Annette endireitou-se.
- Sangue de negro? A me dele era armnienne.
- Ento  isso - resmungou Soames. - Ele percebe alguma coisa de quadros?
- Percebe de tudo...  um homem do mundo.
- Bem, arranje algum para Fleur. Quero distra-la. Vai no sbado para casa de Val Darte e da mulher. No gosto nada disso.

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- Porque no?
J que os motivos no podiam ser explicados sem entrar na histria da famlia, Soames respondeu apenas:
- Sero mais aborrecimentos. J os tenho de sobra.
- Gostei de Mrs. Val.  muito calada e bonita.
- No sei nada sobre ele, excepto... Mas isto  novo. - E Soames apanhou um vestido de ltimo modelo de sobre a cama.
Annette recebeu-o das mos dele.
- Quer abotoar-me os colchetes?
Soames abotoou-a. Olhando uma vez por sobre o ombro da mulher, em direco ao espelho, viu a expresso do seu rosto, um pouco divertida, um pouco contida, como dizendo: 
"Obrigada, voc nunca h-de aprender!" No, graas a Deus ele no era um francs! E acabou com um gemido e estas palavras:
- Est decotado de mais. - E atravessou a porta, desejoso de se afastar da mulher e voltar para junto de Fleur.
Annette apanhou um arminho de p de arroz e exclamou subitamente:
- Que vous tes grossier!
Ele conhecia a expresso... e compreendia-a.
A primeira vez que a ouvira, confundira-a com grocei - taberneiro. E, quando se informou melhor, no soube se deveria ficar aliviado ou no. Ele no era grosseiro! 
Se era grosseiro, que seria ento esse sujeito do quarto vizinho, que arrotava horrendamente todas as manhs, ou as pessoas que se reuniam na sala do hotel e consideravam 
elegante s falar de modo que toda a gente pudesse ouvi-las - a grasnar idiotices!
Grosseiro porque dissera que o vestido dela estava decotado de mais! Pois estava mesmo! E saiu sem dar resposta.
Chegando  sala, pela entrada do fundo, viu imediatamente Fleur, no mesmo lugar onde a deixara: sentada, de pernas cruzadas, balanando lentamente o p calado em 
meia de seda e sapatinho cinzento, sinal certo de que estava a sonhar. Os olhos dela tambm o atestavam - ficavam assim ausentes, s vezes. Mas de repente ela voltou 
a si e ficou to viva e inquieta como um macaquinho. Entendia de tudo, to cnscia de si - e tinha s dezanove anos! Qual
era aquela palavra odiosa? Flapper (1) - horrveis jovens, esganiadas, ruidosas, com as pernas  mostra! As piores delas eram como pesadelos, as melhores pareciam 
anjos empoados! Fleur no era uma flapper, no era uma dessas raparigas que s se exprimiam em gria - essas mulherzinhas sem educao. No entanto, era assustadoramente 
voluntariosa, cheia de vida e decidida a gozar essa vida. Gozar! A palavra no despertava qualquer terror puritano em Soames, mas despertava-lhe o terror adequado 
ao seu temperamento. Ele sempre receara gozar o dia de hoje, com medo de j no gozar o dia de amanh. E era assustador que a filha dispusesse de idntica salvaguarda. 
A prpria maneira como a pequena se afundava na poltrona o mostrava: perdida nas suas cismas. Ele nunca se perdera em qualquer cisma, nunca houvera nada que o raptasse 
do mundo. De quem ela herdara aquilo  que ele no o sabia! De Annette  que no!  verdade que Annette, quando era rapariga e ele rondava em torno dela, tinha s 
vezes um olhar cismador. Bem, mas j o perdera!
Fleur ergueu-se da poltrona com um modo inquieto e dirigiu-se para uma mesa de escrever. Apanhando tinta e papel, comeou a escrever uma carta, como se no tivesse 
tempo para respirar antes de a acabar. E de sbito avistou o pai. O ar de desesperada absoro desvaneceu-se e ela sorriu, atirou um beijo e fez uma cara engraada, 
como se estivesse um pouco intrigada e um pouco maada.
Ah! Ela era fine, fine.

*1. Flapper - expresso em moda na dcada de 1920 para designar as esbeltas raparigas do ps-guerra. (N. da T.)

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CAPTULO III - EM ROBIN HILL


Jolyon passara o dcimo nono aniversrio do filho calmamente em Robin Hill, tratando dos seus negcios. Fazia tudo calmamente, nestes ltimos tempos, porque o seu 
corao andava muito dbil, e, como todos os da famlia, desagradava-lhe a ideia de morrer.
"A qualquer momento - e nada de abalos." Ele recebera aquilo com um sorriso- a reaco natural dos Forsyte diante de uma verdade desagradvel. Porm, sentindo um 
aumento de sintomas, quando, de comboio, regressava a casa, compreendeu bem a sentena que pesava sobre ele. Deixar Irene, o filho, a casa, o trabalho - embora trabalhasse 
muito pouco ultimamente! Deixamos, para penetrar na escurido desconhecida - para o estado inimaginvel, para o nada total, onde no poderia ter conscincia sequer 
do vento que lhe atirava folhas sobre o tmulo, nem do cheiro das ervas e da relva, para aquele nada que, por mais que ele houvesse feito para o conceber, nunca 
conseguira. Pelo contrrio, conservara mesmo a esperana de poder ver ainda aqueles que amava! Para realizar mentalmente isso, seria preciso afrontar muitas angstias 
pungentes. Antes de chegar a casa, no dia da consulta, resolvera esconder o seu estado a Irene. Tinha de ser mais cuidadoso que homem nenhum fora at ento, porque
a menor coisa poderia trair o seu segredo e abal-la tanto como o abalara a ele. O mdico dissera-lhe que tudo o mais estava bem - e setenta anos no  uma grande 
idade. Ele disporia de muito tempo ainda - se pudesse.
Tal concluso, a que vinha obedecendo h dois anos, desenvolveu amplamente o lado mais subtil do carcter de Jolyon. Sendo j de natureza pouco violenta - excepto 
quando tinha os nervos excitados-, Jolyon tornou-se o controle feito homem. Aquela doentia pacincia dos velhos que no conseguem excitar-se era mascarada nele pelo 
sorriso que os lbios mantinham sempre, at quando estava s. E estudava continuamente todas as maneiras de encobrir a sua forada falta de actividade.
Troando de si prprio por trabalhar to pouco, fingiu ter-se convertido  Vida Simples, abandonou o vinho e os charutos e comeou a beber uma qualidade especial 
de caf que no continha cafena. Em resumo, resguardou-se tanto quanto o seria possvel a um Forsyte da sua condio, sob a gide da sua indulgente ironia. livre 
de indiscries, j que a mulher e o filho estavam em Londres, passara os lindos dias de Maio a arrumar calmamente os seus papis, de forma a poder morrer qualquer 
dia sem trazer inconveniente para ningum, e organizou um relatrio completo sobre o estado das suas propriedades. Fechou toda a documentao no velho armrio chins 
que fora de seu pai, guardou a chave num envelope e escreveu sobre ele estas palavras: "Chave do armrio chins, onde se encontra um relatrio completo sobre os 
meus haveres. J. F." Ps o envelope no bolso interior do casaco, de maneira que ficasse sempre com ele, em caso de acidente. E ento, pedindo o ch, foi tom-lo 
sob o grande carvalho.
Tudo vive sob sentena de morte, e Jolyon, cuja sentena apenas era mais precisa e mais premente, j se acostumara tanto a ela que, tal como toda a gente, pensava 
noutras coisas. Pensava agora no filho.
Jon fazia dezanove anos naquele dia, e no chegara ainda a nenhuma deciso sobre a sua vida. Educado, no em Eton, como o pai, nem em Harrow, como o irmo mais velho, 
mas num desses estabelecimentos que so indicados como libertos dos males

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do sistema das Public School e detentores apenas do que elas tm de bom - e realizam ou no tais vantagens -, Jon acabara o curso em Abril, perfeitamente ignorante 
do que desejava ser. A guerra, que prometia prolongar-se indefinidamente, terminara exactamente quando ele j estava prestes a entrar para o exrcito, seis meses 
antes do tempo devido. Isso apanhara-o to de repente que ainda no se acostumara  ideia de que, agora, j poderia escolher por si mesmo. Travara diversas discusses 
com o pai, onde, depois de afirmar calorosamente que estava pronto a dedicar-se a qualquer coisa - excepto, naturalmente, a Igreja, o Exrcito, a advocacia, o palco, 
a Bolsa, a medicina, o comrcio e a engenharia -, Jolyon conclura claramente que Jon no estava disposto a ocupar-se com coisa alguma. Ele prprio tambm se sentira 
assim, quando tinha a mesma idade. Mas com ele, aquele agradvel vcuo fora cedo ocupado por um casamento prematuro, de to infelizes consequncias. Forado a tornar-se 
agente de seguros do Loyd's, voltara  prosperidade antes que o seu talento artstico frutificasse. Mas Jon no nascera para pintor: Jolyon convencera-se disso quando 
tentara ensinar o rapaz a desenhar porquinhos e outros animais e, graas a essa averso por tudo, ele concluiu que o rapazinho talvez viesse a ser um escritor. Mantinha 
porm a opinio de que a experincia era necessria at mesmo para essa profisso - de forma que conviria a Jon ir para a Universidade, viajar e frequentar jantares 
elegantes. Depois disso, ver-se-ia, ou melhor, no se veria nada, decerto. Mas jon, mesmo diante de todas essas sedues, continuava indeciso. Tais discusses com 
o filho haviam confirmado em Jolyon a sua dvida: se o mundo mudara realmente. O povo dizia que aquela era uma nova Era. E com a profundidade de algum que no est 
radicado de mais a nenhuma era, Jolyon compreendia que, sob uma superfcie ligeiramente diversa, a Era ainda era justamente a que fora. O gnero humano continuava 
dividido entre duas espcies: os poucos que traziam a "especulao" na alma e os muitos que no tinham nada. E havia ainda um crculo de hbridos, tal como ele prprio, 
a separar as duas espcies. Jon parecia ter o seu quinho na especulao. E o pai considerava isso uma m expectativa.
Com uma expresso mais profunda no seu sorriso habitual, ouvira o rapaz dizer, quinze dias atrs:
- Eu gostaria de experimentar a agricultura, pap. No lhe sairia muito caro. Parece-me a nica espcie de existncia que no acarreta mal para ningum. Excepto 
a arte, naturalmente, em que no posso sequer pensar.
Jolyon acentuou o sorriso e respondeu:
- Muito bem. Quer regressar ao que era o primeiro dos Jolyon, em 1760. Isso prova a teoria dos ciclos, e, incidentalmente, no h dvida de que voc conseguir plantar 
melhores nabos do que ele.
Um pouco constrangido, Jon respondeu:
- Mas no acha que seja um belo projecto, pap?
- Provavelmente, meu filho. E, se realmente deseja fazer isso, f-lo- melhor que muitos homens... o que j no  pouco.
A si mesmo, entretanto, ele disse: "No far nada disso. Vou dar-lhe quatro anos. De qualquer forma,  um trabalho sadio e sem perigos."
Depois de discutir o assunto e de consultar Irene, escreveu  filha, Mrs. Val Dartie, perguntando-lhe se eles conheciam algum fazendeiro vizinho nos Downs que recebesse 
Jon como praticante. A resposta de Holly foi entusistica. Havia um sujeito excelente, muito pertinho, e ela e Val achavam magnfica a ideia de Jon ir viver com 
eles.
O rapaz deveria pois partir no dia seguinte.
Misturando o ch com uma gota de limo, Jolyon olhava para as folhas do velho carvalho e para aquela paisagem que ele apreciava havia j trinta e dois anos. A rvore 
sob a qual estava no parecia nem um dia mais velha.
To jovens as folhinhas de ouro queimado, to velha a casca cinzento-esverdeada e alvacenta do tronco! Uma rvore carregada de recordaes, que ainda poderia viver 
centenas de anos, e, a menos que algum brbaro a cortasse, veria a velha Inglaterra atravessar todas as coisas de agora!
Lembrava-se de certa noite, trs anos antes, quando, olhando da janela, com o brao em torno de Irene, vira um avio alemo rondando, segundo lhe pareceu, sobre 
o velho carvalho.

38 - 39

No dia seguinte encontraram uma cratera de bomba num campo da granja de Gage. Isso fora antes de ele saber que estava sob sentena de morte. Quase desejara que a 
bomba acabasse com ele. Ter-se-ia poupado a uma poro de inquietaes, a muitas horas de frio medo comprimindo-lhe a boca do estmago. Contara viver at  idade 
normal de todos os Forsyte - oitenta e cinco ou mais, quando Irene tivesse setenta anos. Agora ela sentir-lhe-ia a falta. E ainda existia Jon, mais importante na 
vida dela que o prprio marido, Jon, que adorava a me.
Sob aquela rvore, o velho Jolyon soltara o seu ltimo suspiro, enquanto esperava a chegada de Irene, que caminhava atravs do campo. E Jolyon cismava absurdamente 
se, j que pusera as suas coisas numa ordem perfeita, no seria melhor fechar os olhos e ir-se embora tambm. Havia algo de pouco digno naquele apego parasitrio 
ao fcil fim de uma vida, da qual s lamentava duas coisas: o longo afastamento entre ele e o pai, quando era jovem, e a tardia realizao do seu casamento com Irene.
Donde estava sentado, podia ver um grupo de macieiras em flor. Nada na Natureza o comovia tanto como rvores frutferas em flor e o seu corao doeu-lhe de sbito 
porque nunca mais as veria florir de novo. Primavera! Decididamente, nenhum homem deveria ser obrigado a morrer enquanto o seu corao estivesse bastante jovem para 
apreciar a beleza!
Os melros cantavam incansavelmente nos arbustos, as cotovias voavam alto, as folhas sobre ele cintilavam e sobre o campo despejava-se uma gama inimaginvel de verde 
das folhagens tempors, douradas pela luz uniforme do sol, que se ia desfazendo no azul esfumado do horizonte longnquo.
As flores de Irene, nos seus canteiros, desabrochavam individualmente naquela tarde - pequenas afirmaes alegres de vida. S pintores chineses e japoneses, e talvez 
Leonardo, sabiam reproduzir esse pequeno ego desabrochado em cada flor pintada, em cada pssaro ou animal-o ego, o sentimento da espcie e, ao mesmo tempo, a universalidade 
da vida. Esses, sim,  que eram homens! "No fiz nada que possa viver!", pensava Jolyon. "Fui um amador, um simples amador, nunca um criador. Afinal, ainda deixo 
Jon atrs de mim, quando partir."

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Que sorte o rapaz no ter sido apanhado por aquela guerra pavorosa! Poderia tambm ter sido morto, tal como o pobre Jolly fora, h vinte anos atrs, no Transval. 
Jon faria alguma coisa, algum dia, se, imaginativo como era, a Era no o estragasse! O seu desejo de se dedicar  agricultura no devia ser mais que uma inclinao 
sentimental e provavelmente a ltima. E nesse momento exacto viu os dois regressando atravs do campo: Irene e o rapaz, vindos ambos da estao, de braos dados. 
E, erguendo-se, caminhou at ao novo roseiral, para os encontrar.
Naquela noite, Irene entrou no quarto do marido e sentou-se junto  janela. Ficou sentada, sem falar, at que ele disse:
- Que sucedeu, meu amor?
- Tivemos um encontro hoje.
- Com quem?
- Com Soames.
Soames! Ele afastara esse nome do seu pensamento j h dois anos, pois sentia que era mau para si. E agora o corao batia-lhe de modo desconcertante, como se quisesse 
deslizar de dentro do peito.
Irene continuou calmamente:
- Ele e a filha estavam na exposio e depois na confeitaria onde tommos ch.
Jolyon ergueu-se e ps-lhe a mo no ombro.
- Como est ele?
- Grisalho, mas, no resto, o mesmo.
- E a moa?
- Bonita. Alis, Jon achou-a linda.
O corao de Jolyon bateu mais forte. O rosto da mulher tinha uma expresso endurecida e enigmtica.
- Voc disse... - comeou ele.
- No. Mas Jon sabe o nome deles. A pequena deixou cair o leno e ele apanhou-o.
Jolyon sentou-se na cama. Que m sorte!
- June estava consigo? Ela meteu-se na histria?
- No. Mas tudo decorreu de uma maneira estranha e desagradvel, e Jon percebeu-o.
Jolyon aspirou longamente o ar e disse:

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- Muitas vezes perguntei a mim mesmo se procedamos bem mantendo tudo isso oculto dele. E ele acabar por descobri-lo sozinho, qualquer dia.
- Quanto mais tarde, melhor, Jolyon. Os jovens tm o julgamento to severo, to duro! Quando voc tinha dezanove anos, que pensaria de sua me se ela houvesse feito 
o que eu fiz?
Sim! Era esse o caso. Jon idolatrava a me e nada sabia das tragdias, das inexorveis necessidades da vida, nada das garras que prendem as criaturas a um casamento 
infeliz, nada de cime e paixo - no conhecia nada disso ainda!
- Que foi que lhe disse?
- Que eram parentes, mas que ns no nos dvamos com eles. Que voc nunca gostara muito da famlia deles, nem eles de si. Creio que ele ir fazer-lhe perguntas.
Jolyon sorriu.
- Esse promete ocupar o lugar dos raids areos. Afinal, j se sentia a falta deles.
Irene fitou-o.
- Ns sabamos que isso aconteceria qualquer dia. Ele respondeu, com uma sbita energia:
- No admito a ideia de que Jon possa vir a censur-la. No o deve fazer, nem em pensamento. Ele tem imaginao e compreender, se tudo lhe for explicado claramente. 
Creio que ser melhor falar com ele antes que o informem de outra maneira.
- Ainda no, Jolyon.
Isso era muito dela - no tinha capacidade de previso e nunca ia ao encontro de um aborrecimento. E afinal - quem o poderia dizer? - talvez ela tivesse razo. Era 
mau agir contrariando o instinto maternal. Talvez fosse melhor deixar o rapaz ignorante, se possvel - at que a experincia lhe desse elementos bastantes para julgar 
com justeza todos os valores daquela velha tragdia, at que o amor, o cime e a saudade houvessem aperfeioado a sua caridade. Como antes, poderiam continuar a 
tomar precaues - todas as precaues possveis. E muito depois de Irene o ter deixado, ele ficou acordado, recapitulando essas precaues. Precisava de escrever 
a Holly, dizendo que Jon no conhecia nada a respeito da histria da famlia. Holly era discreta,

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deveria contar com a discrio do marido, cuidaria disso! Jon poderia levar a carta com ele, quando fosse para l no dia seguinte. E, assim, o dia em que ele pusera 
em ordem os seus documentos terminou com as badaladas do relgio do estbulo. E outro dia comeou para Jolyon, nas sombras de uma desordem espiritual que no pode 
ser arranjada com nenhum documento...
No seu quarto, que fora outrora a nursery, Jon estava tambm desperto, presa de uma sensao desmentida por todos os que ainda no a sentiram: amor  primeira vista! 
Sentira o comeo disso quando vira aqueles olhos escuros a brilharem sobre ele, do outro lado da Juno - a convico de que ela era "o seu sonho". De forma que tudo 
o que se seguira lhe parecera ao mesmo tempo natural e miraculoso. Fleur! O nome dela, sozinho, j era bastante para algum terrivelmente susceptvel ao encanto 
das palavras. Numa idade homeoptica, quando rapazes e raparigas eram coeducados e to misturados na vida que o sexo ficava quase abolido, Jon era singularmente 
retrgrado. A sua modern school recebia apenas os rapazes e as suas frias eram passadas em Robin Hill, com colegas ou apenas na companhia dos pais. Nunca fora, 
pois, antecipadamente vacinado contra os germes do amor graas a pequenas inoculaes do veneno. E agora, no escuro, a sua temperatura subia rapidamente. Conservava-se 
deitado, insone, recordando Fleur - rememorando-lhe as palavras, especialmente aquele "Au revoir!", to meigo e to vivo.
Estava ainda to desperto pela madrugada que se levantou, calou uns sapatos de tnis, vestiu umas calas e uma camisola, desceu em silncio a escada, e passou pela 
varanda do escritrio. Comeava a clarear e vinha de fora um cheiro de relva. "Fleur!", cismava ele. "Fleur!" Fora de casa, tudo estava misteriosamente branco e 
nada despertara ainda, excepto os pssaros, que iniciavam os seus gorjeios. "Vou at ao bosque", resolveu ele. Correu atravs do campo, chegou ao lago exactamente 
quando o Sol comeava a erguer-se e passou para o bosque. Campnulas azuis tapetavam o cho e sobre o local pairava um certo mistrio, como se o ar fosse ali composto 
de uma qualidade mais romntica. Jon
aspirou-lhe a frescura e ps-se a contemplar as campnulas na luz da madrugada. "Fleur!" Combinava bem com ela! E ela vivia em Mapledurham,

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um nome bonito, tambm, l pelas margens do rio. Poderia procurar no mapa. Queria escrever-lhe. E ela responderia? Oh! Responderia. Ela dissera: "Au revoir!" No 
dissera adeus. Que sorte ter deixado cair o leno. Nunca a teria conhecido se no fosse aquilo. E quanto mais ele pensava naquele leno mais a sua sorte lhe parecia 
espantosa. Fleur! Sentia-se prestes a escrever um poema.
Jon permaneceu entregue a esses devaneios durante mais de meia hora, depois voltou para casa, e, agarrando uma escada de mo, subiu at  janela do seu quarto. Depois, 
lembrando-se de que deixara aberta a janela do escritrio, desceu e fechou-a, aps ter retirado a escada, para afastar quaisquer sinais dos seus feitos da madrugada. 
Aquilo era profundo de mais para ser revelado a qualquer alma mortal - at mesmo  sua me.

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CAPTULO IV - O MAUSOLU


H casas cujas almas passaram para o limbo do tempo, deixando os seus corpos no limbo de Londres. Essa ainda no era inteiramente a condio da casa de Timothy em 
Bayswater Road, porque a alma de Timothy ainda mantinha um p no corpo de Timothy Forsyte e Smither mantinha a atmosfera imutvel - o cheiro de cnfora e de vinho 
do Porto daquela casa, cujas janelas s eram abertas duas vezes ao dia, para arejar.
Para a imaginao dos Forsyte, aquela casa era hoje uma espcie de caixa de plulas chinesa - uma srie de leitos, no ltimo dos quais jazia Timothy.
Ningum conseguia avist-lo - pelo menos era o que diziam os membros da famlia que, levados pelo velho hbito ou pela saudade dos ausentes, batiam l e pediam notcias 
do velho tio. Assim era Francie, hoje inteiramente emancipada de Deus - ela confessava francamente o seu atesmo-, Euphemia, emancipada do velho Nicholas, Winifred 
Dartie, emancipada do seu "homem do mundo".
 verdade que, afinal, toda a gente agora estava emancipada ou dizia que o estava - o que talvez no fosse realmente a mesma coisa.
Quando Soames tomou pois a direco da estao de Paddington,

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na manh seguinte quele encontro, no tinha muita esperana de ver Timothy em carne e osso. O seu corao abalou-se um pouco enquanto ficou de p, em plena luz 
do sol, na soleira recm-lavada daquela pequena casa onde quatro Forsyte haviam vivido - e hoje s um restava, tal como uma mosca de Inverno-, a casa donde Soames 
entrara e sara vezes sem conta, liberto ou sobrecarregado com o fardo dos mexericos da famlia, a casa dos "velhos" de um outro sculo, de uma outra era.
A vista de Smither, ainda espartilhada at s axilas - porque as tias Hester e Juley nunca tinham considerado elegante a nova moda de espartilhos aparecida l por 
1903-, trouxe um plido sorriso amigvel aos lbios de Soames. Smither, ainda fielmente arranjada dentro dos velhos moldes, no mnimo pormenor, uma criada inestimvel, 
sorriu tambm para ele, com estas palavras:
-  Mr. Soames, depois deste tempo todo! Como vai, sir? Mr. Timothy vai ficar muito contente quando souber que o senhor esteve aqui.
- Como vai ele?
- Oh! J est razoavelmente caduco, sir. Porm, na verdade,  um homem extraordinrio. Como eu disse a Mrs. Dartie, quando ela esteve aqui da ltima vez: "Miss Forsyte, 
Miss Juley e Miss Hester gostariam de ver como ele ainda aprecia uma ma assada." Mas est inteiramente surdo. E eu s vezes penso que  uma felicidade. Porque 
no sei mesmo o que teramos feito com ele durante os raids areos.
- Ah - disse Soames. - E que  que vocs lhe faziam?
- Deixvamo-lo deitado na cama e ligvamos a campainha para a adega, de forma que pudssemos ouvir se ele tocasse. Nunca o deixaramos perceber que havia uma guerra. 
Como eu disse  cozinheira: "Se Mr. Timothy tocar,  preciso fazer o que ele mandar. E eu subo. As minhas finadas patroas teriam um ataque se soubessem que ele tocou 
e ningum atendeu." Porm, ele dormiu como um santo durante todos os raids. E durante um raid que ocorreu de dia estava a tomar banho. E foi uma sorte, porque poderia 
ter visto o povo a correr  rua e a olhar para o cu... ele vai sempre olhar a rua, pela janela.
- Com efeito! - murmurou Soames. Smither estava a ficar
tagarela! - Quero apenas dar uma olhadela e ver se precisa de alguma coisa.
- Sim, sir. Creio que no h nada, s um cheiro de ratos na sala de jantar, que no sabemos donde vem.  engraado que tenham aparecido l, onde no h uma migalha 
desde o dia em que Mr. Timothy deixou de descer para as refeies... exactamente antes da guerra. Mas so uns bichos esquisitos: a gente nunca sabe onde vo aparecer.
- Ele levanta-se da cama?
- Oh, sim, sir! Faz um pouco de exerccio, entre a cama e a janela, todas as manhs, para no se arriscar a uma mudana de ar. E vive muito satisfeito: todos os 
dias, regularmente, pede o testamento, e fica com ele um pouco. Isso  uma grande consolao para ele.
- Bem, Smither, eu quero v-lo, se for possvel, pode ser que tenha qualquer coisa para me dizer.
Smither corou, por cima dos seus espartilhos.
- Oh, que momento! Quer que eu o acompanhe numa volta pela casa, sir, enquanto mando a cozinheira preparar Mr. Timothy?
- No, v voc mesmo prepar-lo - disse Soames. - Eu posso dar a volta pela casa sozinho.
Ningum gosta de se mostrar comovido diante de ou trem. e Soames sentia que iria comover-se rondando por aquelas salas, to saturadas de recordaes. Quando Smither, 
estalando de excitao, o deixou, Soames entrou na sala de jantar e aspirou-lhe o odor. Na sua opinio, no era um cheiro de ratos, mas de um comeo de caruncho, 
e ele examinou o forro. No podia afirmar se aquela camada de pintura era da idade de Timothy. A sala fora sempre a mais moderna da casa, e um dbil sorriso encurvou 
os lbios e as narinas de Soames. Paredes de um rico verde encimavam os painis de carvalho e um pesado lustre de metal pendia do tecto, dividido por imitaes de 
vigas. Os quadros haviam sido comprados por Timothy no Jobson's, sessenta anos atrs: trs naturezas-mortas assinadas Snyder, dois desenhos levemente coloridos, 
representando um rapaz e uma moa, que tinham as iniciais "J. R." - Timothy sempre pretendera que essas iniciais deveriam significar "Joshua Reynolds", mas Soames, 
que admirava os desenhos,

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descobrira que elas significavam apenas John Robinson - e um Morland duvidoso, onde se via um pnei branco. Grandes reposteiros vermelho-escuros, dez cadeiras de 
mogno, de dorsos altos e assentos tambm vermelho-escuros, um tapete turco, uma mesa de jantar de mogno to grande quanto a sala era pequena - tal era a sala em 
que Soames no se recordava de ter havido a menor mudana, nem na alma nem no corpo, desde que ele tinha quatro anos de idade. Olhou especialmente para os dois desenhos 
e pensou: "Comprarei isso, no dia do leilo."
Da sala de jantar passou para o escritrio de Timothy. No se lembrava de jamais ter entrado naquela sala. Era cheia de livros do cho at ao tecto, e ele olhou-os 
com curiosidade. Uma das paredes parecia devotada a livros educativos que a firma de Timothy publicara h duas geraes passadas - havia ali s vezes vinte exemplares 
do mesmo livro. Soames leu-lhes os ttulos e encolheu os ombros. Na parede do meio viam-se exactamente os mesmos livros que havia na biblioteca de James, em Park 
Lane - facto que o fez supor que o pai e Timothy tinham ido juntos um dia ao mesmo livreiro e feito a aquisio de um idntico lote de livros. Aproximou-se da terceira 
parede com mais interesse. Ali, naturalmente, deveriam estar os livros do gosto pessoal de Timothy. E estavam. Os livros no eram livros, eram imitaes de madeira. 
A quarta parede era toda ocupada por uma grande janela, coberta por pesadas cortinas.
E, junto  janela, uma grande cadeira com uma estante de leitura de mogno pregada a ela, onde se via um nmero amarelecido do Times datado de 6 de Julho de 1914 
-dia em que pela primeira vez Timothy deixou de descer, como se se preparasse para a guerra - e parecia estar a esper-lo. A um canto estava um globo representando 
este mundo nunca visitado por Timothy, profundamente convencido da irrealidade de tudo que no fosse a Inglaterra e permanentemente medroso do mar, no qual se sentira 
muito mal certa vez, numa tarde de domingo, em 1836, num passeio de barco organizado em Brighton, em companhia de Juley e Hester, Swithin e Hatty Chessman - tudo 
por culpa de Swithin, que estava sempre a inventar coisas e que, graas a Deus, tambm se sentira mal. Soames sabia tudo a esse respeito, pois ouvira a
narrativa seguramente umas cinquenta vezes da boca de cada um dos seus participantes. Caminhou at ao globo e f-lo girar, o objecto soltou um leve estalido e moveu-se 
cerca de dois centmetros, levando consigo uma louva-a-deus que morrera sobre ele na latitude 44.
"Mausolu", pensou Soames. George tinha razo. E dirigiu-se para o lado da escada. A meio caminho, parou diante da caixa de vidro de pssaros empalhados que haviam 
sido a delcia da sua infncia. No pareciam nem um dia mais velhos, suspensos em arames sobre ervas dos pampas. Se se abrisse a caixa, os pssaros no gorjeariam, 
mas o conjunto todo dissolver-se-ia em p, supunha Soames. Seria melhor p-la assim mesmo no leilo! E subitamente tomou-o uma saudade da tia Ann - pobre velha tia 
Ann! - segurando-o pela mo, defronte da gaiola de vidro, e dizendo: "Olhe, Soames! No so lindos e brilhantes, esses beija-flores?" Soames recordava a sua resposta: 
"No esto a beijar flor nenhuma, tia." Devia ter ento seis anos, vestido num fato de veludo preto com colarinho azul - lembrava-se muito bem daquele fato! A tia 
Ann, com os seus caracis postios, as suas mos que pareciam aranhas e o seu grave e velho sorriso aquilino - uma linda dama antiga, a tia Ann! E ele caminhou para 
a porta da sala de estar. A cada um dos lados dessa porta estavam grupos de miniaturas. Essas, certamente ele compraria! Miniaturas das suas quatro tias, uma do 
seu tio Swithin, adolescente, e uma do tio Nicholas ainda menino. Haviam sido pintadas todas por uma jovem senhora amiga da famlia-em 1830-, quando as miniaturas 
eram consideradas coisa muito elegante, principalmente sendo, como eram, pintadas em marfim. Muitas vezes ele ouvira a histria dessa moa: "Muito talentosa, meu 
caro. Ela tinha, na verdade, um fraco por Swithin, mas pouco depois ficou tuberculosa e morreu, como Keats - "ns sempre dissemos isso."
Bem, c estavam elas! Ann, Juley, Hester, Susan - quase uma menina. Swithin, com os seus olhos azuis cor do cu, faces de rosa, caracis amarelos, colete branco 
- grande como sempre-, e Nicholas, semelhante a um cupido, com o olhar voltado para o cu. E agora que pensava nisso, via que o tio Nick sempre fora assim - um homem 
encantador at  morte. Sim, a moa devia ter tido talento,

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e as miniaturas conservavam um certo cachet prprio. Soames abriu a porta da sala de estar. Fora tudo espanado, os mveis estavam descobertos, as cortinas corridas, 
precisamente como se as tias ainda a ocupassem, na sua paciente espera. E um pensamento lhe ocorreu: "Quando Timothy morresse - porque no? - no seria quase um 
dever conservar aquela casa, como a de Carlyle, e pr do lado de fora uma placa e franque-la aos visitantes? Um espcime de residncia vitoriana - "entrada um shilling 
com direito ao catlogo." Afinal, era o que poderia haver de mais completo, e talvez a coisa mais morta de Londres hoje em dia. Perfeita no seu gosto especial e 
na sua cultura - isto , se ele levasse de volta, para a sua prpria coleco, os quatro quadros de Barbizon que lhes dera. As paredes ainda azul-celeste, as cortinas 
verdes, bordadas com flores vermelhas e fetos, as tenazes de ferro fundido defronte do guarda-fogo, o armrio de mogno, com portas de vidro, onde se viam pequenos 
bibelots, os escabelos estufados, Keats, Shelley, Southey, Cowper, Coleridge, o Corsrio de Byron (e nada mais) e os poetas vitorianos numa prateleira de estante. 
O armrio com embutidos de madreprola, forrado de pelcia vermelho-escura, cheio das relquias de famlia: o primeiro leque de Hester, as fivelas dos sapatos do 
pai, o "Superior Dosset", trs escorpies engarrafados, um amarelssimo dente de elefante mandado da ndia pelo tio-av Edgar Forsyte, que trabalhara no comrcio 
de juta, um pedao de papel, recoberto com uma escrita semelhante a patas de aranha, recordando sabe Deus o qu! E quadros cobrindo as paredes - todos aguarelas, 
salvo aqueles quatro Barbizon, parecendo estrangeiros ali, ou pelo menos visitantes duvidosos - quadros brilhantes e ilustrativos: Falando s Abelhas, Chamando o 
Barco e dois no estilo de Frith - cheios de casquilhos e crinolinas-, presentes de Swithin. Oh. muitos, muitos quadros, para os quais Soames j olhara milhares de 
vezes, numa espantada fascinao, uma maravilhosa coleco de molduras luzentes, douradas, esculpidas.
E o piano de cauda, bem espanado, hermeticamente fechado como sempre, e o lbum de algas do mar da tia Juley, e as cadeiras de pernas esbeltas, mais fortes do que 
pareciam. A um dos lados da lareira, o sof de seda carmesim, onde a tia Ann, e depois dela a tia Juley,

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gostavam de se sentar, em frente da luz, espigadas como um fuso, e, do outro lado da lareira, a nica cadeira confortvel, de costas para a luz, propriedade da tia 
Hester. Soames no podia tirar os olhos dali: parecia v-las todas, sentadas em redor de si.
Ah, a atmosfera da sala, mesmo agora, a abundncia de estofos, de cortinas de renda engomada, os saquinhos de lavanda, as asas ressequidas de abelhas. "No", pensava 
ele, "no resta outra igual, devia ser conservada." Sim, coa breca, poderiam rir daquilo, mas, graas a um amvel padro de vida nunca abandonado, graas a um luxo 
de tacto, de nariz, de olhos e sentimentos,-.aquele ambiente era muito superior ao vcuo de hoje em dia - com os seus comboios subterrneos e automveis, o tabagismo 
perptuo, as pernas cruzadas, as raparigas de colo nu, que mostravam em baixo at aos joelhos e em cima at  cintura - espectculo agradvel para o stiro que h 
em todo o Forsyte, mas que dificilmente realiza a ideia que eles tm a respeito de uma senhora -, com os ps enrolados em torno das pernas da cadeira enquanto esto 
 mesa e os seus "At logo" e os seus "Meu velho" e as suas gargalhadas - raparigas que lhe davam arrepios todas as vezes que via Fleur em companhia delas, como 
tambm lhe davam arrepios as mulheres mais velhas, de olhar duro e que sabiam cuidar da vida. No! As suas velhas tias, se nunca abriram o esprito a nada, nem os 
olhos, nem mesmo as janelas, pelo menos tinham maneiras, tinham um padro de vida, tinham reverncia pelo passado e pelo futuro.
Com um sentimento quase de choque, fechou a porta e subiu a escada na ponta dos ps. As paredes mantinham-se na mesma perfeita ordem de h cinquenta anos, forradas 
todas de papel oleado. Ao cimo da escada, hesitou entre quatro portas. Qual delas seria a de Timothy? E escutou. Um som, semelhante ao que faz um garoto a cavalgar 
um cavalo de pau, chegou-lhe aos ouvidos. Devia ser Timothy! Bateu, e a porta foi aberta por Smither, com o rosto muito vermelho.
Mr. Timothy estava a dar o seu passeio, e ela no conseguira faz-lo esperar pelo sobrinho. Se Mr. Soames quisesse ir para o fundo do quarto, poderia v-lo atravs 
da porta.

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Soames foi para o fundo do quarto e ficou a olhar.
O ltimo dos velhos Forsyte estava de p, movendo-se para diante e para trs, com a mais impressionante lentido e uma perfeita concentrao nos seus problemas ntimos. 
O percurso era feito entre a cama e a janela, numa distncia de mais ou menos trs metros. A parte inferior do seu rosto quadrado, que h muito tempo no via navalha, 
estava coberta por uma barba de neve, cortada o mais rente possvel, e o queixo parecia to largo como a fronte, povoada de cabelos inteiramente brancos, enquanto 
o nariz e as faces eram de um tom amarelo. Uma das mos segurava uma forte bengala, a outra enfiava-se na gola do robe de chambre, sob o qual se podia ver os seus 
tornozelos calados de meias de l e os ps enfiados em sandlias leves. A expresso era a de um menino contrariado, ocupado em fazer algo muito difcil. De cada 
vez ele dava a volta e erguia a bengala, depois batia com ela no cho, como para mostrar que poderia dispens-la.
- Ainda parece forte - disse Soames, sustendo o flego.
- Oh, sim, sir. O senhor devia v-lo tomar banho.  uma maravilha, adora banhar-se.
E aquelas palavras, ditas em voz alta, deram uma explicao a Soames: Timothy voltara  primeira infncia.
- Ele toma algum interesse pelas coisas em geral? - perguntou, tambm em voz alta.
- Oh, sim, sir. Interessa-se pela comida e pelo testamento. Vale a pena v-lo, virando e revirando o testamento na mo, sem o ler, naturalmente. E pergunta sempre 
tambm o preo dos consolidados- e eu escrevo uma cotao para ele, em letras bem grandes,  claro. Escrevo sempre a mesma - a de 1914, quando ele leu pela ltima 
vez. Pedimos ao mdico que lhe proibisse ler os jornais quando a guerra rebentou. Oh, ele deve ter sentido muito a falta, a princpio, mas logo se acostumou, porque 
compreendia que aquilo o fatigaria. E ele  uma maravilha para poupar energia, como ele mesmo costumava dizer s minhas finadas patroas, que Deus tenha em Sua guarda! 
Vivia a ralhar com elas por causa disso, todas trs eram to activas, lembra-se, Mr. Soames?
- Que acontecer se eu entrar no quarto? - perguntou Soames.- Ser que ele se lembra de mim? Fui eu que fiz o testamento dele,

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sabe, depois de Miss Hester ter morrido, em 1907.
- Oh, isso - respondeu Smither, indecisa - no posso assumir a responsabilidade de dizer. Creio que ele o reconhecer,  realmente um homem maravilhoso para a idade 
que tem.
Soames atravessou a porta e, esperando que Timothy se voltasse, disse em voz alta:
- Tio Timothy!
Timothy arrastou a meia volta e parou. - Quem ? - perguntou ele.
- Soames! - gritou Soames no tom mais alto da sua voz, segurando-lhe a mo: - Soames Forsyte!
- No! - disse Timothy. E, deixando cair pesadamente a bengala no cho, continuou a andar.
- No pareceu incomodar-se - disse Soames.
- No, sir - disse Smither, inteiramente abatida. - O senhor v, ele ainda no acabou o exerccio. Com ele, tem de ser cada coisa por sua vez. Creio que hoje  tarde 
ele vai perguntar-me se o senhor veio por causa do gs, e h-de ser um trabalho faz-lo compreender quem era.
-Acha que deveria ter um homem aqui para cuidar dele? Smither levantou as mos.
- Um homem! Oh, no. A cozinheira e eu damos conta perfeitamente. Um homem estranho, aqui, haveria de o pr louco imediatamente. E as minhas patroas no gostariam 
da ideia de haver um homem dentro de casa. Alm disso, temos orgulho em cuidar dele.
- O mdico vem sempre?
- Todas as manhs. Fez um preo especial para tantas visitas, e Mr. Timothy est to acostumado que d muito pouca ateno, excepto para mostrar a lngua.
- Bem - disse Soames, voltando-se. -  uma coisa triste e d-me muita pena.
- Oh, sir - respondeu ansiosamente Smither -, no pense assim. Agora, que no se preocupa com coisa alguma,  que realmente ele est a gozar a vida.  como eu digo 
 cozinheira. Mr. Timothy  mais homem do que antes. O senhor v, quando ele no est a andar ou a tomar banho, est a comer, e quando no est a comer est a dormir.

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 sempre assim. No tem uma dor ou uma preocupao que o atormente.
- Bem - disse Soames -, realmente  alguma coisa. Vou-me embora. De qualquer modo, deixe-me ver o testamento dele.
- Tenho de esperar um pouco para o apanhar, sir. Ele esconde-o debaixo do travesseiro, e pode ver-me enquanto estiver acordado.
- Quero apenas ver se  o mesmo que eu fiz - disse Soames. - D uma olhadela  data, qualquer dia, e mande-me dizer.
- Sim, sir, porm, tenho a certeza de que  o mesmo, porque eu e a cozinheira fomos as testemunhas - no se lembra? - e l esto os nossos nomes, no mesmo lugar 
onde os escrevemos.
- Muito bem - disse Soames. Lembrava-se. Smither e Jane haviam sido consideradas testemunhas idneas, e, no recebendo nada no testamento, no havia receio de que 
elas apressassem a morte de Timothy. Isso fora - ele prprio o admitira - uma precauo lamentvel, mas Timothy fizera questo dela, e, afinal, a tia Hester j lhes 
deixara um bom legado. - Muito bem - acrescentou Soames. - Adeus, Smither. Cuide dele, e, se ele disser qualquer coisa, preste ateno e mande-me contar.
- Oh, sim, Mr. Soames. Pode ficar descansado. Foi to agradvel v-lo. A cozinheira vai ficar excitadssima quando eu contar a sua visita.
Soames apertou-lhe a mo e desceu a escada. Ficou de p, durante dois grandes minutos, junto ao porta-chapus no qual pendurara tantas vezes o seu prprio chapu. 
" assim que tudo passa", pensava ele. "Passa e recomea de novo. Pobre velho!" E apurou o ouvido, como se o rudo de Timothy arrastando o seu cavalo de pau pudesse 
descer do andar de cima ou o fantasma de um velho rosto se pudesse mostrar entre as bandeiras e uma velha voz pudesse dizer: "Ora vejam,  o querido Soames, e ns 
que j estvamos a notar que j no o vamos h uma semana inteira!"
Nada - nada! Apenas o cheiro de cnfora e a rstia de sol carregada de poeira que vinha da janela alta. A velha casa! Um mausolu! E, girando sobre os calcanhares, 
saiu e apanhou o comboio.

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CAPTULO V - A CHARNECA NATIVA


"Os seus ps sobre a charneca nativa, O seu nome - Val Dartie."
Com este pensamento, Val Dartie, com quarenta anos de idade, saa bem cedinho, naquela mesma manh de quinta-feira, da velha casa senhorial que alugara ao norte 
do Sussex Downs. O seu destino era Newmarket. No ia l desde o Outono de 1899, quando fugira de Oxford para assistir ao Cambridgeshire.
Parou  porta para beijar a mulher e ps uma garrafa de vinho do Porto no bolso.
- No puxe muito pela sua perna, Val, e no aposte de mais.
Apertando a face dela contra a sua e com os olhos dentro dos dela, Val sentia seguros tanto a perna como o bolso. Seria bem moderado. Holly tinha sempre razo - 
tinha uma aptido natural para isso. Para ele, o facto no era to notvel como para os outros - que o sabiam meio-sangue Dartie. Desde o seu romntico casamento 
com a prima, durante a guerra dos Boers, fora-lhe perfeitamente fiel, e isso j durava h vinte anos - e fiel sem nenhum sentimento de sacrifcio ou tdio. Ela era 
to viva, to esperta, que sempre o vencia em tudo. Como eram primos, haviam decidido - desnecessariamente, na verdade - que no teriam filhos. Embora um pouco mais 
plida, ela ainda guardava as feies,

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a esbeltez e os cabelos escuros da mocidade. Val admirava particularmente a capacidade que Holly tinha de viver a sua prpria vida, ao lado da vida dele, que ela 
partilhava inteiramente. E cada vez montava melhor a cavalo. Abandonara a msica, comeara a ler tremendamente - novelas, poesias, tudo. Na fazenda deles, na colnia 
do Cabo, cuidara dos garotinhos das negras e das mulheres de modo maravilhoso. Era realmente perfeita, embora no fizesse alarde disso e no tivesse "ares". E, apesar 
de no ser notvel pela humildade, Val acabara por sentir que ela lhe era superior - e no lhe tinha rancor por isso, o que representava um grande tributo. Toda 
a gente poderia ver que ele nunca olhava para Holly sem que ela o notasse, mas que ela, muitas vezes, o olhava sem que o marido o percebesse.
Beijaram-se  sada de casa, porque no o poderiam fazer na plataforma da estao onde ela o iria levar para trazer o carro de volta. Queimado e crestado pelo clima 
da colnia e pelas vicissitudes da convivncia eterna com os cavalos, com o handicap da perna defeituosa - relquia da guerra dos Boers e que provavelmente o livrara 
de morrer na ltima guerra -, Val ainda tinha muito do rapaz que fora nos tempos do seu namoro: o seu sorriso era ainda amplo e encantador, os clios mais escuros 
e espessos que nunca, com os olhos de um cinzento brilhante fuzilando entre eles, as sardas mais acentuadas, o cabelo um pouco grisalho nas frontes. Via-se logo 
que era um homem que vivera activamente "entre cavalos", num clima ensolarado.
Dando a volta ao carro, junto ao porto, perguntou:
- Quando vem Jon?
- Hoje.
- Quer alguma coisa para ele? Posso trazer no sbado.
- No. Mas pode vir no mesmo comboio que Fleur:  uma e quarenta.
Val deu toda a velocidade ao Ford - ainda dirigia como um homem de pas novo e ms estradas, que recusa comprometer-se e espera o Diabo a qualquer volta.
- Aquela  uma pequena que sabe o que quer - disse ele. - Essa visita incomoda-a?

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- Sim.
- O tio Soames e o seu pai... foi um pouco desastrado, no?
- Ela no sabe de nada, ele tambm no sabe, e nada deve ser dito, naturalmente. Ser apenas por cinco dias, Val.
Segredo inviolvel! Muito bem! Se Holly achava que estava bem, estava bem. Olhando astutamente para ele, ela disse:
- Notou como ela praticamente se fez convidar?
- No!
- Pois foi. Que  que pensa dela, Val?
- Bonita e inteligente. Mas  capaz de tudo, se se enfurecer.
- Estive a pensar - murmurou Holly - se ela representa a mulher moderna. Uma pessoa sente-se estrangeiro ao chegar  ptria no meio disto tudo.
- Voc? Voc adapta-se s coisas to rapidamente! - Holly deslizou a mo para o bolso do casaco dele. - Voc vence qualquer um em sabedoria - disse Val, animador. 
- Que  que voc pensa daquele belga, Profond?
- Penso que ele  realmente "um bom diabo", como dizem. Val fez uma careta.
- Parece-me uma ave estranha, principalmente para amigo da nossa famlia. Na verdade, a nossa famlia anda em guas bem turvas, com o tio Soames casado com uma francesa 
e seu pai casado com a primeira mulher de Soames. Os nossos avs teriam um ataque se vissem isto!
- Isso aconteceria com os avs de todo o mundo, meu caro.
- Este carro - disse Val subitamente - precisa que eu lhe bata. No tem pernas para aguentar a subida: tenho de arranjar maneira de lhe enfiar o focinho na descida 
se quiser apanhar o comboio.
Aquela terminologia traa o seu interesse exclusivo por cavalos, interesse que sempre o impedira de simpatizar realmente com um automvel, e a conduo do Ford sob 
as suas mos, comparada com a conduo de Holly, era sempre digna de nota. No entanto, conseguiu apanhar o comboio.
-Tome cuidado, ao voltar para casa. Esse diabo, se puder, acaba por atir-la ao cho. Adeus, querida.
- Adeus - respondeu Holly. E ele beijou-lhe a mo.
No comboio, depois de um quarto de hora de indeciso entre lembranas de Holly,

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o seu jornal da manh, a paisagem luminosa e as suas remotas recordaes de Newmarket, Val mergulhou nos mistrios de um livrinho quadrado, todo cheio de nomes, 
pedigrees, garanhes e notas acerca de feitos e formas de cavalos. O Forsyte que havia nele conseguira prevalecer no mais forte do sangue e cada dia abafava mais 
o Dartie que tentava subsistir fracamente. Voltando  Inglaterra, depois da venda lucrativa da fazenda e das coudelarias na frica do Sul e observando que o sol 
luzia raramente, Val dissera a si mesmo: "Preciso absolutamente de descobrir um novo interesse na vida, ou este pas s me dar tdio. Caadas s, no basta. Vou 
criar cavalos e trein-los." E, com a agudeza e a deciso adquiridas graas  longa residncia num pas novo, Val vira logo o ponto fraco da moderna criao. Viviam 
todos hipnotizados pelas modas e pelos preos altos. Ele iria comprar os cavalos pela estampa e deixar que os nomes se fizessem!
No entanto, j estava hipnotizado pelo prestgio de uma certa raa! Meio consciente disso, pensava: "H qualquer coisa no diabo deste clima que faz que andemos sempre 
dentro do mesmo crculo. Mas, de qualquer forma, tenho de possuir um exemplar de sangue Mayfly."
E, com esses pensamentos, atingiu a Meca das suas esperanas. Era uma daquelas calmas reunies favorveis a quem preferia antes olhar cavalos do que a boca dos bookmkers, 
e Val encaminhou-se para o paddock. Os seus vinte anos de vida colonial haviam-no afastado do dandismo em que nascera e dado a simplicidade essencial ao criador 
de cavalos, aguando-lhe o olhar contra o ridculo das afectaes de linguagem de certos ingleses e o papaguear de certas inglesas. Holly no fazia nada daquilo, 
e Holly era o seu modelo. Observador rpido, com recursos, Val ia logo ao corao de uma transaco, a um cavalo. E, com essa sua maneira de proceder, interessava-se 
agora por uma potra de sangue Mayfly, quando uma voz suave disse:
- Mr. Val Dartie? Como vai sua senhora? Espero que v bem. - E viu junto dele aquele belga que encontrara em casa de sua irm Imogen. - Prosper Profond.. encontrmo-nos 
num almoo - explicou a voz.
- Como vai? - murmurou Val.
- Vou muito bem - respondeu Monsieur Profond, sorrindo com uma certa brandura inimitvel. "Um bom diabo", chamara-lhe Holly. Bem, ele parecia-se um pouco com um 
diabo, com a sua barbicha preta e pontuda, um ar meio sonolento e bem-humorado, olhos bonitos, inesperadamente inteligentes.
- H aqui um cavalheiro que deseja conhec-lo,., um primo seu... Mr. George Forsyde.
Val viu um grande vulto, um rosto barbeado, taurino, um pouco inclinado, com um ar sardnico a luzir no olhar cinzento. Lembrava-lhe um pouco os velhos tempos em 
que o pai o levava a jantar no Iseeum Club.
- Muitas vezes assisti a corridas em companhia de seu pai - disse George. - Como vai a sua criao? Gostaria de comprar um dos meus sendeiros?
Val fez uma careta, para esconder a sbita impresso de que o flego lhe faltava no peito. Eles no acreditavam em nada, nem mesmo em cavalos. George Forsyte, Prosper 
Profond! O Diabo em pessoa no ficaria mais desiludido que aqueles dois.
- Eu no sabia que o senhor era um apaixonado por corridas - disse ele a Prosper Profond.
- E no sou. Sou pelos iates. S me preocupo com iates, mas gosto de me avistar com os meus amigos. Eu trouxe um almoo, Mr. Val Dartie... um almocinho. Se aceita 
qualquer coisa, tenho algumas provises, no muitas, no meu carro.
- Obrigado - retorquiu Val. - O senhor  muito amvel. Mas eu pretendo ir-me embora dentro de um quarto de hora.
- Acabaremos antes disso. Mr. Forsyde vem.
E Mr. Profond, com o seu sotaque meloso, insistia, apontando com o dedo enluvado: "Um carrinho, com um almocinho." E ps-se a andar, elegante, sonolento, distante, 
seguido por George Forsyte, limpo, gigantesco, com o seu ar de truo.
Val continuou a olhar para a potra Mayfly. George Forsyte, realmente, j era um velho, mas aquele Profond deveria ter a sua idade. Val sentia-se extremamente jovem 
e tinha a impresso de que a potra Mayfly era um brinquedo que ambos cobiavam. O animal perdera a realidade.

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"Esta guazinha", parecia-lhe ouvir a voz de Monsieur Profond, "que  que o senhor v nela? Todos ns devemos morrer!"
E George Forsyte, amigo ntimo de seu pai, ainda a frequentar corridas! A raa Mayfly - haveria alguma melhor que outra? Era muito capaz de receber uma inutilidade 
em troca do seu dinheiro.
"No, cos diabos", resmungou subitamente. "Se no  bom criar cavalos, no  bom fazer nada no mundo. Para que foi que vim aqui? Vou compr-la."
Voltou as costas  pista e ficou a olhar o refluxo de visitantes no paddock. Velhos connoisseurs, vistosos camaradas de ar astuto, judeus, treinadores que ostentavam 
o ar de quem nunca cometeu o pecado de olhar para um cavalo em toda a vida, altas e sedutoras mulheres de ar lnguido ou mulheres masculinizadas que falavam em voz 
aguda, rapazes que procuravam mostrar que levavam aquilo a srio, dois ou trs deles apenas com um nico brao!
"A vida aqui dana uma ronda", pensava Val. "Um sino toca, os cavalos correm, o dinheiro muda de dono. Depois o sino volta a tocar, os cavalos correm de novo e o 
dinheiro volta para donde veio."
Mas, alarmado com a prpria filosofia, voltou ao porto do paddock, a fim de assistir a um galope da potra Mayfly. Ela caminhava bem. E Val encaminhou-se para o 
"carrinho". O "almocinho" era daquela espcie com que muitos homens sonham, mas apenas poucos gozam, e, depois de terem terminado, Monsieur Profond voltou para o 
paddock em companhia de Val.
- A sua esposa  uma senhora encantadora - foi o seu surpreendente comentrio.
- A mais encantadora que conheo - replicou secamente Val.
- Sim - continuou Monsieur Profond. - Tem um rosto lindo. Eu admiro mulheres lindas.
Val olhou-o suspeitoso, mas havia algo de bondoso e directo no pesado diabolismo do seu companheiro, e isso desarmou-o por um instante.
- Sempre que o senhor quiser, estarei pronto a proporcionar-lhes um pequeno cruzeiro no meu iate.

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- Obrigado - disse Val, de novo irritado. - Ela odeia o mar.
- Tambm eu - retorquiu Monsieur Profond.
- E que  que ento o senhor faz nesse iate? Os olhos do belga sorriram.
- Oh, no sei. J fiz tudo. Esta  a ltima coisa em que me ocupo.
- Deve ser uma ocupao... pelo menos cara. Eu precisaria de uma razo mais forte que a sua.
Monsieur Prosper Profond ergueu os superclios e estendeu o seu grande lbio inferior.
- Sou um homem abastado-disse ele.
- O senhor esteve na guerra?
- S-sim. Tambm fiz isso. Fui atingido pelos gases. Foi um "pequeno" desagradvel. - E sorriu, com um profundo e sonolento ar de prosperidade, como se ela derivasse 
do seu nome. Val no pde decidir se ele dizia "pequeno" em vez de "pouco" por deficincia de linguagem ou por pura afectao. O sujeito era evidentemente capaz 
de tudo. E entre o crculo de compradores que rodeava a potra, que vencera a sua corrida, Monsieur Profond disse: - O senhor  comprador no leilo?
Val acenou que sim. Mas, com aquele sonolento Sat ao seu lado, sentia-se com carncia de f. Embora protegido contra os golpes da Providncia pela previdncia do 
av, que lhe deixara uma renda inalienvel de mil libras por ano,  qual se somavam as outras mil de Holly, legadas tambm pelo av dela, Val no dispunha de capital 
para grandes despesas, pois dispendera quase tudo o que realizara com a venda da sua fazenda na frica do Sul nas suas novas instalaes do Sussex. E ps-se a pensar: 
"Bolas! J est acima das minhas possibilidades!" O seu limite - seiscentas libras - fora excedido, e ele deixou de lanar no leilo. A potra passou para setecentas 
libras e cinquenta guinus. E ele comeava a afastar-se, vexado, quando a voz de Monsieur Profond lhe disse ao ouvido:
- Bem, comprei essa potra, mas no a quero. Leve-a e oferea-a  sua senhora.
Val olhou para o sujeito com renovada suspeita, mas o bom humor nos olhos do outro era tal que ele no pde ofender-se.

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- Fiz uma boa poro de dinheiro durante a guerra - comeou Monsieur Profond, em resposta quele olhar. - Tinha fbricas de armamentos. E gostaria de gastar esse 
dinheiro. Estou a ganhar cada vez mais. E gasto muito pouco comigo prprio. Gosto que os meus amigos participem do meu dinheiro.
- Posso comprar-lha pelo preo que lhe custou - disse Val com sbita deciso.
- No - disse Monsieur Profond. - Leve-a. No a quero.
- No pense nisso! No se pode..,
- Porque no? - sorriu Monsieur Profond. - Sou um amigo da sua famlia.
- Setecentas libras e cinquenta guinus no so um mao de cigarros - disse Val, impaciente.
- Muito bem. Pois ento o senhor guarde-a at que eu a reclame. Entretanto, faa o que quiser com ela.
- Enquanto ela for sua - disse Val -, no me importo.
- Ento est bem - murmurou Monsieur Profond, afastando-se.
Val olhava-o. Ele podia ser "um bom diabo", mas naquele instante no o parecia. Viu-o reunir-se a George Forsyte e depois no voltou a v-lo.
Passou aquela noite, depois das corridas, na casa da me, em Green Street.
Winifred Dartie, com sessenta e dois anos, estava maravilhosamente conservada, levando-se em conta os trinta e trs anos em que suportara Montague Dartie, at ter 
a sorte de ser libertada por um feliz acidente de escada em Frana. E era para ela uma violenta alegria ver de volta da frica do Sul o seu filho favorito, v-lo 
to pouco mudado e ter simpatizado com a mulher dele. Winifred, que l por 187..., antes do seu casamento, estivera na linha de vanguarda da liberdade, prazeres 
e elegncia, confessava que a sua juventude fora muito ultrapassada pelas donzelas de hoje em dia. Pareciam, por exemplo, encarar o casamento como um incidente, 
e Winifred muitas vezes lamentava no ter feito o mesmo, pois um segundo, terceiro ou quarto incidente poderia ter-lhe garantido um companheiro de menos luzidas 
bebedeiras.  verdade que, apesar de tudo, ele lhe dera Val, Imogen, Maud, Benedict

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- j quase coronel e mutilado da guerra -, nenhum dos quais se divorciara at ento. A correco dos filhos sempre surpreendia os que lhes recordavam o pai, mas, 
como ela gostava de verificar, todos eram Forsyte, saam ao seu sangue, com excepo talvez de Imogen. A filha do seu irmo, Fleur,  que realmente intrigava Winifred. 
A rapariga era to inquieta como qualquer outra das jovens modernas. "Ela  uma pequena chama numa corrente de ar", dissera uma vez Prosper Profond depois de um 
jantar. Mas Fleur no se agitava inconscientemente, nem falava no registo mais alto da voz.
O slido forsytismo do carcter de Winifred instintivamente pressentia o sentimento que havia no ar - os hbitos das raparigas modernas e a divisa delas: "Ou tudo 
ou nada! Gasta, que amanh talvez estejamos pobres!" Ela discernia entretanto uma qualidade compensadora em Fleur: quando a pequena punha os seus desejos numa determinada 
coisa, no descansava enquanto no a conseguisse - acontecesse o que acontecesse depois-, embora ainda fosse moa de mais para demonstrar isso abertamente.
Alm disso, a pequena era uma "linda coisinha" e herdara da me o bom gosto francs para se vestir - considerao da maior importncia para Winifred, uma apaixonada 
do "estilo" e da distino que to cruelmente a decepcionara no caso de Montague Dartie.
Discutindo Fleur com Val, ao pequeno-almoo de sbado, Winifred desvelou ante o filho um pouco do esqueleto da famlia.
- Aquele caso entre o seu sogro e a sua tia Irene, Val... uma coisa velha como o mundo, realmente... Fleur no deve ouvir a menor aluso a ele. Poderia causar muitos 
aborrecimentos. O seu tio Soames faz muita questo disso. De forma que voc deve ter cuidado.
- Sim! Mas surgiu uma complicao infernal. O irmo mais novo de Holly vem morar connosco, para praticar agricultura. E j est l em casa.
- Oh! - disse Winifred. - Que gaffe! Como  ele?
- S o vi uma vez em Robin Hill, quando estivemos aqui, em mil novecentos e nove. Estava pintado de listras azuis e amarelas e era um bonito menino.

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Winifred pensou que, com efeito, devia ser bonito, e disse em tom de consolao:
- Bem, Holly  muito sensvel, saber como levar as coisas. No vou dizer nada ao seu tio, pois isso s iria atorment-lo.  uma grande consolao t-lo de novo 
perto de mim, meu filho, agora que j estou a ficar velha.
- A ficar velha! Porqu? A senhora est mais jovem que nunca. Esse tal Profond, mam, que tal ?
- Prosper Profond! Oh!  o homem mais divertido que conheo.
Val rosnou qualquer coisa e contou a histria da potra.
- Isso  muito dele - murmurou Winifred. - Faz toda a espcie de coisas.
- Pois olhe - disse asperamente Val -, a nossa famlia no tem tido muita sorte com essa casta de gente. So brilhantes de mais para ns.
Aquilo era verdade, e Winifred demorou um pouco antes de responder:
- Oh, bem! Mas ele  um estrangeiro, Val. Devemos ser condescendentes.
- Bem, de qualquer forma, vou tratar da potra e trein-la para ele.
Beijou a me, pedindo-lhe a bno, recebeu um beijo, deixou-a para procurar o seu bookmaker no Iseeum Club e depois encaminhou-se para a Victoria Station.

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CAPTULO VI - JON


Mrs. Val Dartie, depois de vinte anos de residncia na frica do Sul, sentia-se "profundamente apaixonada" - felizmente por algo que lhe pertencia, pois o objecto 
da sua paixo era a paisagem que se descortinava das suas janelas, na luz fria e clara dos verdes Downs. Aquilo era a Inglaterra, finalmente! A Inglaterra, mais 
linda ainda do que ela o sonhara. Com efeito, a sorte guiara Val Dartie na escolha de um stio no South Downs, realmente encantador quando o sol brilhava. Holly 
herdara bastante do olhar do pai para aprender a rara qualidade dos seus contornos e a sua irradiao calcria. E subir pelas ravinas e vaguear entre Chanctonbury 
e Amberley era tambm uma delcia, que ela raramente partilhava com Val, cuja admirao pela Natureza se confundia com um instinto forsytiano de possuir um pedao 
daquilo ou de calcular as condies da relva para os exerccios dos seus cavalos.
Dirigindo o Ford, de volta para casa, com uma divertida lentido, ela prometia a si mesma que o primeiro emprego que faria de Jon seria lev-lo consigo e mostrar-lhe 
a paisagem sob aquele cu de Maio.
Ela esperava o irmo mais novo com todas as suas reservas de maternidade ainda no esgotadas por Val. Na visita de trs dias a Robin Hill, logo depois da sua chegada 
 ptria, no se avistara com o rapaz, que estava ento no colgio, de maneira que a sua recordao dele era igual  de Val:

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um rapazinho queimado de sol, todo listrado de azul e amarelo e emboscado junto ao lago.
Aqueles trs dias em Robin Hill haviam sido excitantes, tristes, embaraantes. Lembranas do irmo morto, lembranas do namoro com Val, o envelhecimento do pai, 
que j no via h vinte anos - algo funreo na sua irnica gentileza, que no podia escapar a algum que tinha um instinto muito subtil, e, acima de tudo, a presena 
da madrasta - que ela vagamente identificava com a "moa de cinzento" dos seus tempos de criana, quando o av ainda era vivo e Mademoiselle Beauce se zangara tanto 
com aquela intrusa que viera dar-lhe aulas de msica. Tudo isso confundia e torturava um esprito que sonhara encontrar Robin Hill imutvel. Mas Holly era adepta 
da teoria de guardar as coisas para si mesma - e tudo parecera ter-se passado muito bem.
O pai beijara-a quando ela se despediu, com lbios que - ela tinha a certeza - estavam a tremer.
- Ento, minha querida - dissera ele -, a guerra no mudou Robin Hill, pois no? Se ao menos voc houvesse podido trazer Jolly de volta! Ser que concorda com as 
invenes dos espiritistas? Quanto a mim, creio que quando o carvalho morre, morre de verdade. - E ao sair do aconchego do abrao da filha, ele provavelmente compreendeu 
que se trara, porque reassumiu logo o seu tom de ironia. - Espiritismo... palavra esquisita. Quanto mais insistem em prov-la, s conseguem desvirtu-la.
- Como? - perguntou Holly.
- Ora! Olhe para as fotografias de presenas desencarnadas.  preciso algo material... de sombra e luz, para poder apanhar a fotografia. E com isso acabamos por 
chamar a qualquer matria esprito e a qualquer esprito matria. No sei para qu.
- Mas o senhor no acredita na sobrevivncia da alma, pap?
Jolyon olhara-a e a tristeza que ela lhe leu no rosto impressionou-a profundamente.
- Bem, minha filha, eu gostaria de que algo escapasse  morte. Mas, pelo que pude verificar durante a vida, nada mais vi alm de telepatia, subconscincia, tudo 
emanaes deste mundo, e que no podem portanto provar nada. Pudera eu! Mas os desejos geram pensamentos, no geram evidncias.

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Holly encostara os lbios  testa do pai com o sentimento de que aquilo confirmava a teoria dele de que toda a matria estava a tornar-se esprito - aquela fronte 
parecia realmente quase insubstancial.
A mais pungente lembrana daquela visita foi, contudo, quando, despercebida, viu a madrasta ler para si mesma uma carta de Jon. Aquilo, pensou Holly, era a coisa 
mais linda a que ela j assistira. Irene, absorvida na carta do filho, estava sentada junto a uma janela, e a luz caa-lhe sobre o rosto e sobre os finos cabelos 
grisalhos, os lbios moviam-se sorridentes, os olhos escuros riam, danavam, enquanto a mo que no segurava a carta estava cerrada contra o aperto. Holly recuou 
como ante uma viso de perfeito amor, convencida de que Jon deveria ser encantador.
Quando o viu, ao chegar da estao, com uma maleta em cada uma das mos, sentiu as suas predisposies confirmadas. Jon parecia-se um pouco com Jolly, aquele perdido 
dolo da sua infncia, mas era menos enrgico, menos sisudo, com olhos mais profundos e cabelos de uma cor mais viva, porque no usava chapu, de qualquer forma, 
um "irmozinho" interessantssimo!
A sua polidez um pouco hesitante encantou Holly, j habituada  arrogncia de maneiras dos jovens, e ele sentia-se perturbado porque ela ia conduzir o carro de volta 
para casa, em vez de ser ele a conduzi-lo. No queria guiar um pouco? No, eles no tinham carro em Robin Hill - desde a guerra,  claro -, de forma que ele s experimentara 
guiar automvel uma nica vez, e esbarrara num barranco, de modo que Holly no devia pensar em experimentar-lhe a habilidade... O seu riso, suave e contagioso, era 
muito atraente, embora aquelas coisas que ela estava a ouvir fossem quase obsoletas. Quando chegaram a casa, o pai entregou-lhe uma carta, que ela leu enquanto o 
irmo se lavava - uma rpida carta, que entretanto deveria ter custado muito esforo:

Minha filha,

Voc e Val no devem esquecer que Jon nada sabe a respeito da histria da famlia. A me dele e eu ainda o consideramos
muito moo para isso. O rapaz  muito afectuoso e  a menina dos olhos dela. Verbum sapientibus.
Seu pai afectuoso - F.

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Era tudo, mas renovou em Holly um sentimento de inquietao ante o pensamento da prxima vinda de Fleur.
Depois do ch, ela cumpriu a promessa que fizera a si mesma e levou Jon at  colina. Tiveram uma longa conversa, sentados no cho coberto de saras e urzes,  beira 
de uma antiga pedreira de greda.
Florinhas do campo estrelavam o declive verde, cotovias e tordos cantavam no matagal e de vez em quando uma gaivota, procurando a terra, girava muito branca contra 
o cu plido, onde uma Lua vaga ia subindo. Uma fragrncia deliciosa chegava at eles, como se criaturinhas invisveis estivessem a destilar e a desprender perfumes 
sob as folhas da relva.
Jon, que cara em silncio, disse subitamente:
- Isto  maravilhoso! O voo das gaivotas, os chocalhos das ovelhas...
- Voo das gaivotas, chocalhos das ovelhas... Voc  um poeta, menino!
Jon suspirou.
- Oh, no! No tenho jeito!
- Experimente! Na sua idade, eu fazia poesia.
- Voc? A mam tambm me diz que experimente! Tem alguns dos seus versos que me mostre?
- Meu caro - murmurou Holly -, estou casada h dezanove anos. E s escrevi versos quando me queria casar.
- Oh - disse Jon, com o rosto voltado para o outro lado.
A nica face que a irm podia ver era de uma cor magnfica. Estaria Jon "fisgado", como dizia Val? J? Mas, se era assim, tanto melhor, porque no se aperceberia 
da jovem Fleur. Alm disso, na segunda-feira j ele iniciaria o seu aprendizado de agricultura. E Holly sorriu. Era Burns que seguia o arado, ou apenas Piers Plowman?

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Actualmente, parecia que todos os rapazes e todas as raparigas eram poetas, a julgar pelos livros que lia deles na frica do Sul, importados de Hatchus & Bumphards. 
E, com efeito, bons. Oh! Com efeito, muito melhores que os seus velhos versos. Mas a verdade  que a poesia desenvolvera-se muito dos tempos dela para c - simultaneamente 
com os automveis. Uma outra longa conversa depois do jantar, junto  lareira do hall de baixo, deu-lhe a sensao de que pouco lhe faltava para conhecer inteiramente 
o rapaz - excepto uma certa coisa de real importncia. Despediu-se dele  porta do quarto de dormir que lhe preparara com a convico de que iria am-lo e que Val 
iria gostar dele. Era vivo, mas no em excesso, era um esplndido ouvinte, simptico, reticente acerca de si mesmo. Evidentemente amava o pai e adorava a me e gostava 
mais de montar a cavalo, remar e esgrimir do que de jogar quaisquer jogos. Salvava mariposas da luz das velas, no podia suportar aranhas, mas preferia atir-las 
pelas janelas, enroladas em papel, a mat-las. Numa palavra, era adorvel. Holly foi para a cama a pensar que Jon sofreria terrivelmente se algum o ferisse. Mas 
quem o feriria?
Jon, por seu lado, sentou-se desperto junto  janela, tendo  mo um papel e um lpis: escrevia o seu primeiro "poema de verdade". Fazia-o  luz da vela, porque 
a luz do luar no chegaria para isso e dava apenas para cobrir tudo com um ar meio sobrenatural, como um revestimento de prata. Uma noite realmente propcia  companhia 
de Fleur - passear com ela, lev-la at s colinas, e mais longe ainda.
E Jon, com a sua fronte ingnua profundamente enrugada, riscava o papel, apagava o que escrevera, tornava a escrever - fazia tudo o que era necessrio para a realizao 
de um trabalho de arte - e sentia o que devem sentir os primeiros ventos da Primavera quando praticam os seus cantos iniciais por entre os rebentos das flores. Jon 
era um desses rapazes - raros, alis - cujo amor da beleza, trazido do lar, no se estragara na vida do colgio. Guardara-o escondido consigo, naturalmente, de maneira 
que nem o mestre de desenho o percebesse, mas l estava, rico e luminoso, dentro de si. E o seu poema parecia-lhe to mesquinho e enftico quanto a noite era alada. 
Mas, mesmo assim, continuava. Era uma tolice,

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mas era melhor que nada como expresso do inexprimvel. E pensou com uma espcie de decepo: "No poderei mostr-lo  mam." Dormiu maravilhosamente bem, quando 
dormiu, submerso pela novidade.

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CAPTULO VII - FLEUR


Para evitar complicaes de perguntas que no poderiam ser respondidas, tudo o que Holly disse a Jon foi: - Vem uma moa com Val, para passar o fim-de-semana. Pela 
mesma razo, a Fleur fora dito apenas o seguinte:
- Temos um rapaz a passar uns tempos connosco.
Os dois poldros, como Val lhes chamava nos seus pensamentos, encontraram-se entretanto de uma maneira que, sendo imprevista, no deixava nada a desejar. Foram apresentados 
por Holly:
- Este  Jon, meu irmo, Fleur  sua prima, Jon.
Jon, que atravessava uma varanda, saindo da luz forte do sol, ficou to confuso pela natureza providencial daquele milagre que teve tempo de ouvir Fleur dizer calmamente 
"Como est?", como se nunca o houvesse visto antes - e compreendeu pelo imperceptvel movimento que ela fizera com a cabea que ele nunca a vira antes. Inclinou-se 
entretanto por sobre a mo dela de um modo entusistico e ficou mais silencioso que uma pedra. Sabia que seria melhor no falar. Uma vez, quando menino, surpreendido 
a ler,  noite, quando deveria estar a dormir, ele dissera, desculpando-se: "Estava s a virar as folhas, mam." E a me respondeu: "Jon, nunca minta, porque o seu 
rosto desmente sempre o que voc est a dizer."
Essa frase de Irene determinara nele uma falta de confiana

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que sempre o impossibilitara de dizer mentiras. Escutou entretanto as rpidas e agudas observaes de Fleur sobre a beleza de tudo, obsequiou-a com doces e geleia 
e saiu dali o mais depressa que pde. Dizem que no delirium tremens v-se um objecto fixo, normalmente escuro, que subitamente muda de forma e de posio. Jon via 
o objecto fixo: tinha olhos escuros e cabelos mais ou menos escuros tambm, mudava de posio, mas nunca de forma. E a conscincia de que havia entre ele e o citado 
objecto um entendimento secreto - entretanto impossvel de compreender - abalava-o tanto que ele ps-se a esperar febrilmente e comeou a recopiar o seu poema - 
que, naturalmente, nunca ousaria mostrar a ela - at que o som de cavalos em marcha o fez erguer-se, e, olhando pela janela, viu-a a cavalgar em companhia de Val. 
Era evidente que ela no perdia tempo, mas o espectculo encheu-o de mgoa. Se ainda no houvesse recuado, no seu assustado xtase, teria sido tambm convidado para 
o passeio. E, sentando-se junto  janela, viu-a desaparecer, aparecer de novo na volta da estrada, esconder-se e emergir mais uma vez, por um minuto, no claro contorno 
dos Downs. "Tmido estpido!", pensou ele. "Perco sempre as minhas oportunidades."
Porque no tinha ele confiana em si e rapidez? E, enterrando o queixo nas mos, imaginava o passeio que poderia estar a dar na companhia dela. Um fim-de-semana 
no era mais que um fim-de-semana, e j perdera trs horas dele. Conheceria algum, sem ser ele prprio, capaz de ser to idiota? No conhecia.
Vestiu-se cedo para o jantar e foi o primeiro a descer. No queria perder mais tempo. Mas no pde encontrar-se com Fleur, que chegou em ltimo lugar. Sentou-se 
defronte dela, na mesa do jantar, e aquilo era terrvel,-impossvel dizer qualquer coisa, com receio de dizer a coisa indevida, impossvel manter os olhos fixos 
nela de um modo natural, em suma, era impossvel tratar normalmente algum que, em imaginao, ele j levara s colinas, e at mais longe, consciente, durante todo 
o tempo, de que deveria parecer, no s a ela mas a todos, um rematado idiota, Sim, era terrvel! E ela estava a conversar to bem, roando com uma asa viva este 
assunto e aquele.
Era maravilhoso que ela houvesse aprendido uma arte que a ele parecia to desagradavelmente difcil!

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Ela deveria consider-lo um caso perdido, com toda a certeza.
Os olhos da irm, fixos nele com certo espanto, fizeram-no por fim olhar para Fleur, mas instantaneamente os olhos dela, grandes e vivos, pareceram dizer-lhe: "Oh, 
pelo amor de Deus!", obrigando-o a olhar para Val, enquanto uma careta deste ltimo o fazia olhar para a sua costeleta, que afinal no tinha olhos nem fazia caretas, 
comendo-a apressadamente.
- Jon pretende ser agricultor - ouviu Holly dizer. - Agricultor e poeta.
Ele olhou repreensivamente para a irm, viu-lhe o cmico bater das plpebras, semelhante ao do pai, e riu, comeando a sentir-se melhor.
Val contava o incidente de Monsieur Prosper Profond, e nada poderia ser mais favorvel, porque, ao fazer a sua narrativa, ele olhava para Holly, enquanto Fleur o 
escutava com os superclios ligeiramente carregados, como preocupada com qualquer coisa, e Jon sentia-se realmente livre para a olhar. Ela trajava um vestido branco 
muito simples e muito bem feito, tinha os braos nus e trazia uma rosa branca nos cabelos. E aquele momento de contemplao livre, seguindo-se aos primeiros instantes 
de constrangimento, fizeram que Jon a visse sublimada, como algum que v no escuro uma rvore esguia, recebia-a como o verso de um poema que cintila diante dos 
olhos do esprito ou uma melodia que flutua  distncia e depois morre.
Ele conjecturava qual seria a idade dela - pois parecia muito mais senhora de si e experiente do que ele. Porque no podia ele dizer que j se haviam falado? Lembrou-se 
subitamente do rosto de Irene no encontro da confeitaria - enigmtico, magoado, quando ela respondeu: "Sim, so parentes, mas no nos damos com eles." Era impossvel 
que sua me, que amava a beleza, no admirasse Fleur, se a conhecesse!
S com Val, depois do jantar, ele bebia deferentemente o seu clice de vinho do Porto e respondia s perguntas que lhe fazia esse recm-encontrado cunhado.
Quanto  equitao - sempre a primeira considerao para Val -, podia dispor do cavalo castanho, arri-lo e desarri-lo pessoalmente

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e tomar mais ou menos conta do animal, Jon disse que estava acostumado a fazer isso tudo em casa, percebendo que subira imediatamente na estima do seu hospedeiro.
- Fleur - disse Val - ainda no monta muito bem, mas tem jeito. Naturalmente, o pai dela  incapaz de distinguir um cavalo de uma carriola. Seu pai monta?
- Montava, mas actualmente ele... voc sabe, ele... Parou, tanto odiava a palavra "velho". Seu pai estava velho - e no estava velho. No, nunca!
- Realmente - murmurou Val. - Eu conheci seu irmo em Oxford, anos atrs... aquele que morreu na guerra dos Boers. Tivemos uma luta em New College Gardens. Foi uma 
histria esquisita - acrescentou ele, pensativo. - Muita coisa decorreu dessa luta.
Os olhos de Jon arregalaram-se. Tudo o impelia para pesquisas histricas, quando a voz da irm disse gentilmente da porta: "Venham c os dois!" E ele ergueu-se com 
o corao pulsando por uma coisa muitssimo mais moderna.
Como Fleur declarara que deveria ser maravilhoso ir para fora de casa, todos lhe realizaram o desejo. A luz do luar branqueava tudo e um velho relgio de sol fazia 
uma grande sombra. Dois macios de buxo, em ngulo recto, escuros e quadrados, fechavam a entrada do pomar. Fleur circundou esse obstculo.
- Venham! - gritou ela. Jon olhou os outros e seguiu a pequena que corria por entre as rvores, semelhante a um fantasma. Tudo nela era adorvel, espumante, e sentia-se 
no ar um cheiro de velhos troncos e de urtigas, Fleur desapareceu. Ele pensou que a perdera, e de repente quase caiu sobre ela. que estava de p, quieta. - No  
bonito? - exclamou Fleur.
- Realmente! - respondeu Jon.
Ela avanou, inclinou-se sobre umas florinhas, apertando-as entre os dedos, e disse:
- Creio que posso chamar-lhe jon?
- Tambm o creio.
- Muito bem. Voc sabe que existe uma velha intriga entre as nossas famlias?
- Intriga? Porqu? - gaguejou Jon.

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-  tudo to romntico e ingnuo! Foi por isso que eu dei a entender que nunca nos tnhamos encontrado. Vamo-nos levantar cedo, amanh de manh, e dar um passeio 
antes do pequeno-almoo, para esclarecer isso? Detesto tratar lentamente as coisas. E voc?
Jon murmurou um assentimento entusistico.
- s seis horas, ento - disse ela. - Achei a sua me linda.
- Sim, ela  linda - disse Jon fervorosamente.
- Adoro toda a espcie de beleza - continuou Fleur -, quando  excitante. No gosto absolutamente nada da arte grega.
- No? No gosta de Eurpides?
- Eurpides? Oh, no! No posso suportar dramas gregos. Acho que a beleza  sempre vivaz. Gosto de olhar para um quadro, por exemplo, e depois correr para fora. 
No posso suportar uma poro de coisas reunidas. Olhe! - Ela ergueu o seu ramo florido.- Isto  melhor que todo o pomar, no ? - E subitamente, com a outra mo, 
segurou a mo de Jon. - De todas as coisas do mundo, no acha que a prudncia  a mais pavorosa? Cheire o luar!
Encostou o ramo ao rosto de Jon e este assentiu estouvadamente que, entre todas as coisas do mundo, a prudncia era a pior, e, inclinando-se, beijou a mo que segurava 
o ramo.
- Isso  bonito,  uma coisa dos tempos antigos - disse Fleur calmamente. - Voc  terrivelmente calado, Jon. Alis, eu gosto do silncio, quando ele  animado. 
- E soltou a mo. - Voc desconfiou que eu deixei cair o meu leno de propsito?
- No! - gritou Jon, profundamente chocado.
- Bem, pois deixei. Vamos voltando, ou ento eles pensam que nos afastmos de propsito.
E novamente ela correu como um fantasma por entre as rvores. Jon seguiu-a, sentindo o amor no corao, enquanto o luar cobria tudo com a sua luminosidade branca 
e extraterrena. Chegaram ao local donde tinham partido e Fleur ps-se a andar pausadamente.
- Isto aqui  realmente maravilhoso - disse ela, sonhadora, dirigindo-se a Holly.

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Jon guardou silncio, desejando, com poucas esperanas, que
ela considerasse aquele silncio movimentado, mas Fleur apenas lhe dirigiu uma despedida distrada e lenta, o que o fez pensar que estivera a sonhar.
No seu quarto, Fleur atirou fora o vestido, e, envolvida numa camisa sem forma, com a rosa branca ainda nos cabelos, parecia uma musm, sentada de pernas cruzadas 
na cama, escrevendo  luz da vela:

Queridssima Cherry,

Acho que estou apaixonada. Ele  quase um menino, meu primo em segundo grau, cerca de seis meses mais velho, mas, na realidade, dez anos mais novo que eu. Os rapazes 
sempre se apaixonam por moas mais velhas, e as moas por rapazes mais novos, ou ento por velhos senhores de quarenta anos. No ria, mas os olhos dele foram as 
coisas mais verdadeiras que j vi, e ele , na verdade, divinamente silencioso! Tivemos um primeiro encontro romntico em Londres, junto  Juno de Vospovitch. E 
agora ele est a dormir no quarto vizinho, enquanto o luar cobre o jardim. Amanh de manh, antes que qualquer pessoa acorde, iremos passear por este pas de fadas 
que  o Downs. H uma velha intriga entre as nossas famlias, o que torna a coisa realmente apaixonante. Sim! E eu vou precisar de subterfgios, usar o seu nome 
para convites fingidos... se... voc sabe o qu. Meu pai no quer que ns tenhamos amizade um com o outro, mas no posso evitar isso. A vida  muito curta. Ele tem 
a me mais bonita do mundo, com cabelos brancos e uns olhos muito escuros no rosto jovem. Estou hospedada em casa da irm dele, que  casada com meu primo. Est 
tudo numa complicao danada, mas pretendo arrancar explicaes dela amanh. Ns sempre falmos do amor como de uma brincadeira desportiva. Pois bem, tudo aquilo 
era tolice: s o comeo  que  brincadeira - e quanto mais depressa descobrir isso, minha cara, melhor para si.
Jon - no  grafia fontica,  diminutivo de Jolyon, que  o nome de famlia, na nossa famlia, dizem -  da espcie dos que iluminam e desaparecem. Tem cerca de 
um metro e setenta de altura

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- ainda est a crescer e suponho que vai ser poeta. Se se rir de mim, rompo consigo para sempre. Estou a ver diante de ns toda a espcie de dificuldades, mas bem 
sabe que quando quero uma coisa obtenho-a. Um dos principais eleitos do amor  que se sente o ar como que habitado - como quem v um rosto no luar-, e a gente sente-se 
a danar e leve ao mesmo tempo, com uma sensao engraada, tal como um contnuo cheiro de laranjeiras em flor. Este  o meu primeiro amor, e sinto que ser o ltimo, 
o que  um absurdo, naturalmente, de acordo com todas as leis da Natureza e da moral. Se se rir de mim, sou capaz de a matar, e se falar nisto a algum, nunca mais 
lhe perdoo.  isto mesmo, e creio at que acabarei por no mandar esta carta. De qualquer modo, vou dormir sobre ela. Ento, boa noite, minha Cherryzinha!

Sua Fleur

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CAPTULO VIII - IDLIO NA RELVA


Quando aqueles dois jovens Forsyte emergiram da ravina e ergueram o rosto para o Sol no havia uma nica nuvem no cu e os Downs estavam cobertos de orvalho. Tinham 
feito um certo esforo para subir a encosta e resfolegavam um pouco. Se tinham alguma coisa a dizer, no a diziam, e caminhavam em plena manh, em jejum, sob o canto 
das cotovias. A fuga de casa fora divertida, mas na liberdade das alturas o sentimento de conspirao desapareceu e deu lugar  mudez.
- Ns cometemos um erro - disse Fleur, depois de j terem subido uma milha. - Estou com fome.
Jon tirou do bolso uma barra de chocolate. Partilharam-na ambos, e ento as suas lnguas desataram-se. Discutiram a natureza das suas vidas domsticas recprocas, 
a existncia prvia de ambos, e tudo tinha um qu de fascinante irrealidade, naquelas altitudes solitrias. S havia uma coisa slida no passado de Jon: a me. E 
uma nica coisa slida no passado de Fleur: o pai. E daquelas duas figuras, que eram vistas  distncia, com expresso desaprovadora, falaram pouco.
O Down mergulhava e erguia-se depois contra Chanctonbury Ring, avistava-se alm um pedao distante de mar e um grande gavio voava contra o Sol nascente, de forma 
que o pardo-escuro
das suas asas parecia vermelho. Jon tinha paixo por pssaros e uma aptido natural para se manter imvel, a espi-los, sem os assustar. Dotado de uma vista excelente 
e com muito boa memria para aquilo que o interessava, era capaz de os distinguir a todos pelo ouvido. Mas em Chanctonbury Ring no havia nenhum - a grande faia 
imponente estava vazia de vida e quase provocava arrepios quela hora matinal.
Era agora a vez de Fleur. Ela falou de ces e da maneira como as pessoas os tratavam. Era horrvel v-los presos a correntes. Ela tinha vontade de matar gente capaz 
disso. Jon estava atnito ao v-la to humanitria. Ela conhecia um co. pertencente a um proprietrio vizinho, que de tanto viver acorrentado, num canto da capoeira, 
fizesse o tempo que fizesse, acabara por perder a voz de tanto ladrar!
- E a misria disso - acrescentou ela veementemente -  que se o desgraado no ladrasse a cada pessoa que passava no seria mantido ali acorrentado. Acho que os 
homens so uns brutos. Duas vezes soltei o cachorro, s escondidas, e ele quase me mordeu em ambas as vezes. Depois, parecia que ia ficar louco de alegria, mas acabava 
sempre por voltar para casa, e l o acorrentavam de novo. Se eu pudesse, acorrentava tambm o dono dele. - Jon via os dentes e os olhos dela a luzir. - Tinha vontade 
de o marcar na testa com uma palavra: "Bruto". Isso haveria de o ensinar!
Jon concordou que seria um bom remdio.
-  o sentimento de propriedade - disse o rapaz - que faz que as pessoas acorrentem o que  seu. A gerao passada no pensava noutra coisa seno em propriedade. 
E foi por isso que houve a guerra.
- Oh - disse Fleur -, nunca pensei nisso. A sua famlia e a minha brigaram por causa de uma propriedade. E, de certo modo, ns j esquecemos isso, e creio que a 
sua gente tambm.
- Oh, sim, felizmente. Acho que eu no tenho a menor habilidade para ganhar dinheiro.
- Se voc tivesse, no creio que gostasse de si.
Jon deslizou trmulamente a sua mo sob o brao dela.

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Fleur fixou o olhar no espao em frente e cantou:

Jon, Jon, the farme's son,
Stole a pig and away he run! (1)

O brao de Jon rodeou-lhe a cintura.
- Foi muito rpido - disse FLeur calmamente. - Voc faz sempre isso?
Jon deixou cair o brao, mas, quando ela riu, voltou a enla-la. E Fleur recomeou a cantar:

O who will o'er the downs so free
O who will with me ride?
O who will up and follow me? (2)

- Cante, Jon!
Jon cantou. As cotovias tambm cantavam e os sinos de uma igrejinha madrugadora soavam l longe. E eles prosseguiram, estrofe aps estrofe, at que Fleur disse:
- Oh, meu Deus! Estou com fome!
- Oh! Sinto muito. Ela encarou-o.
- Jon, voc  realmente um amor.
E apertou a mo dele contra o peito. Jon quase desmaiou de felicidade. Um co amarelo e branco, perseguindo uma lebre, afastou-os. Viram o co e a lebre desvanecerem-se 
na encosta, e Fleur disse com um suspiro:
- Ele nunca a apanhar, graas a Deus! Que horas so? O meu relgio parou. Nunca dou corda.
Jon olhou o seu relgio.
- Sim, senhor! O meu tambm parou.

*1. Jon, Jon, filho do lavrador.
Roubou um porco e fugiu a correr!
2. Oh, quem quer passear pelas dunas, livremente,
Oh, quem quer cavalgar comigo,
Oh, quem quer subir e acompanhar-me?

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E continuaram a andar de novo, mas apenas com as mos dadas.
- Se a relva estivesse enxuta - disse Fleur -, poderamos sentar-nos durante um momento.
Jon tirou o casaco, e ambos se sentaram em cima.
- Que cheiro!  tomilho!
Jon ps novamente o brao em torno da cintura da pequena, e ambos ficaram um instante em silncio.
- Ns somos uns tontos - exclamou Fleur, pondo-se de p. - Vamos chegar tremendamente atrasados, apareceremos com ar de culpa, e eles ficam logo alerta. Escute, 
Jon! Ns samos apenas para aumentar o apetite para o pequeno-almoo e perdemo-nos. Est bem?
- Sim - respondeu Jon.
- Isto  srio. Seno eles atrapalham-nos. Voc mente bem?
- Creio que no. Mas vou tentar. Fleur enrugou a testa.
- Voc bem v - disse ela. - Creio que eles no querem que ns sejamos amigos.
- Porque no?
- J lhe disse porqu.
- Mas isso  uma tolice.
- Sim, mas voc no conhece meu pai!
- Creio que ele  louco por si.
- Compreende-se, sou filha nica. E voc tambm, por parte de sua me. No  um azar? Esperaram tanto por esse nico filho... e enquanto estavam  espera foi como 
se estivessem mortos.
- Sim - respondeu Jon -, a vida  estupidamente curta. E ns queremos viver para sempre e saber tudo.
- E amar toda a gente?
- No! S quero amar uma vez... a si.
- Com efeito! Voc est a progredir! Oh, olhe!  aqui a pedreira velha. J no devemos estar muito longe. Vamos correr.
Jon seguiu-a, pensando, assustado, se a teria ofendido. A pedreira estava cheia de sol e de zumbidos de abelhas. Fleur atirou os cabelos para trs.

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- Bem - disse ela -, em caso de acidente, voc deve dar-me um beijo, Jon.
E estendeu-lhe a face. Num xtase, o rapaz beijou aquela face macia.
- Agora lembre-se: ns perdemo-nos. E deixe a coisa comigo, tanto quanto for possvel.  mais seguro. Procure mostrar-se desagradvel comigo.
Jon abanou a cabea.
- Isso  impossvel!
- S para me agradar. At s cinco horas, de qualquer modo.
- Toda a gente vai perceber - disse Jon, receoso.
- Bem, faa o melhor que puder. Olhe! L esto eles! Ponha o chapu! Oh, voc no trouxe chapu! Bem, vamos! Afaste-se de mim e mostre-se mal-humorado.
Cinco minutos depois, entrando em casa e fazendo o possvel para se mostrar de mau humor, Jon ouviu a clara voz dela, na sala de jantar:
- Oh, estou simplesmente esfomeada! Ele quer ser agricultor... e perde-se pelo campo! Esse rapaz  um idiota!

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CAPTULO IX - GOYA


O almoo acabara e Soames subira para a galeria de pintura na sua casa de Mapledurham. Estava, como Anmette dizia, "amolado". Fleur ainda no voltara para casa. 
Esperavam-na na quarta-feira, telegrafara que s viria na sexta, e agora, sexta, s viria no domingo  tarde. E c estavam a tia dela, os primos Cardigan e aquele 
sujeito Profond - e tudo vazio como um buraco, por falta de Fleur. Ele parou diante do Gauguin - nico ponto triste da sua coleco. Comprara aquela coisa horrvel 
juntamente com dois Matisse, antes da guerra, porque estavam a fazer um grande barulho acerca desses ps-impressionistas. E Soames cismava se Profond quereria comprar-lhe 
aquilo - o sujeito parecia no saber o que fazer ao dinheiro - quando ouviu a voz da irm dizer:
- Acho isso horrvel, Soames. E viu Winifred, que o seguira.
- Oh, voc acha? - disse ele secamente. - Pois dei quinhentas libras por este quadro.
- Imagine! As mulheres negras no so assim. Soames soltou um riso irritado.
- Voc no subiu aqui para me dizer isso.
- No. Voc sabe que o filho de Jolyon est em casa de Val e da mulher?
Ele voltou-se bruscamente.
- O qu?

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- Sim - assentiu Winifred. - Foi passar uns tempos com eles, para praticar agricultura. - Soames afastara-se, mas a voz da irm perseguia-o enquanto ele andava de 
c para l. - Avisei Val de que nada deveria ser dito a nenhum dos dois a respeito daquelas velhas histrias.
- Porque no me disse nada antes? Winifred sacudiu os seus fortes ombros.
- Fleur faz o que quer. Voc amimou-a de mais. Alm disso, meu filho, qual  o perigo?
- O perigo? - resmungou Soames. - Bem, ela...
Mas conteve-se. A Juno, o leno, os olhos de Fleur, as suas perguntas, e agora aquele adiamento na sua volta, - os sintomas pareciam-lhe to sinistros que, fiel 
por natureza, no queria dividi-los com ningum.
- Creio que est a dar importncia demasiada a isso - disse Winifred. - Se eu fosse voc, contava todas essas velhas histrias  pequena. No adianta pensar que 
as moas de agora so como as de antigamente. Onde elas aprendem o que sabem, no posso dizer, mas parece que entendem de tudo. - No rosto de Soames, fechado como 
sempre, passou uma espcie de espasmo, e Winifred acrescentou, apressadamente: - Se voc no quer falar com ela, posso faz-lo em seu lugar.
Soames abanou a cabea. A menos que no houvesse uma necessidade absoluta, no consentiria em revelar  filha adorada aquele velho escndalo que tanto lhe feria 
o orgulho.
- No - disse ele. - Ainda no. No, enquanto eu puder evit-lo.
- Tolice, meu caro. Lembre-se de que muita gente sabe!
- Vinte anos  muito tempo - murmurou Soames. - Alm da nossa famlia, quem mais se lembra disso?
Winifred calou-se. Inclinava-se cada dia mais para aquela paz e aquele silncio de que Montague Dartie a privara na sua mocidade. E, como os quadros a deprimiam, 
depressa saiu dali.
Soames encaminhou-se para o canto onde, lado a lado, pendiam o seu Goya autntico e a cpia do fresco La Vendimia.

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A sua aquisio do Goya autntico ilustrava muito bem a teia de interesses e paixes que enreda a mosca azul da vida humana. O antigo e nobre proprietrio do Goya 
autntico entrara na posse do quadro durante certa guerra espanhola - num saque, para falar claro. O nobre proprietrio ficou entretanto na ignorncia do valor da 
sua aquisio, at que l por 1890 um crtico empreendedor descobriu que o pintor espanhol chamado Goya fora um gnio. Era apenas um Goya regular, mas quase nico 
na Inglaterra, e o nobre proprietrio tornou-se um homem notrio. Possuidor de muitas coisas e daquela aristocrtica cultura que, independente do mero prazer dos 
sentidos, obedece ao sonoro princpio de que um gentleman deve conhecer tudo e interessar-se pela vida, tencionara no se desfazer de um objecto que, enquanto estivesse 
vivo, contribua para a sua reputao, mas, depois de morto, tencionava leg-lo  nao. Felizmente para Soames, a Cmara dos Lordes foi violentamente atacada em 
1909, e o nobre [proprietrio sentiu-se alarmado e colrico. E cismava: "Se eles pensam que de qualquer modo tm garantida a minha herana, esto muito enganados. 
Enquanto me deixaram gozar a vida calmamente, a nao poderia contar com o legado dos meus quadros por ocasio da minha morte. Mas se a nao se compraz em mortificar-me, 
em irritar-me, diabos me levem se no vendo a tralha toda! Eles no podem ao mesmo tempo apoderar-se da minha tranquilidade pblica e da minha propriedade privada!"
Revirou no esprito estas cogitaes durante vrios meses, at que numa bela manh, depois de ler o discurso de um certo estadista, telegrafou ao seu procurador, 
dizendo-lhe que trouxesse ao castelo o perito Bodkin. Depois de estudar a coleco, Bodkin - cuja opinio em mercados de quadros era to incontestvel - declarou 
que, se tivesse carta branca para vender os quadros no estrangeiro, obteria preos infinitamente melhores que na Inglaterra. E apontava a Alemanha, a Amrica e outras 
praas interessadas em vendas de arte. O esprito pblico do nobre proprietrio era muito conhecido - mas os quadros eram nicos. O nobre proprietrio meteu aquela 
opinio no seu cachimbo e fumou-a durante um ano inteiro. Ao fim desse tempo, tornou a ler no mesmo jornal novo discurso daquele mesmo estadista, e telegrafou ao 
seu procurador:

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"D carta branca a Bodkin." Foi nessa emergncia que Bodkin concebeu a ideia que impediu o Goya e algumas outras preciosidades de deixarem o pas natal do nobre 
proprietrio. Com uma das mos, Bodkin ofereceu os quadros aos compradores estrangeiros, com outra mo, organizou uma lista de coleccionadores particulares britnicos. 
Depois de obter o que ele considerava as mais altas ofertas do ultramar, submeteu os quadros e as ofertas  apreciao dos coleccionadores nacionais e convidou-os 
a mostrarem o seu patriotismo propondo uma contra-oferta. Em trs casos, nos vinte e um quadros propostos, inclusive o Goya, ele teve xito. E porqu? Um dos coleccionadores 
particulares era fabricante de botes - fazia-os em to grande nmero que desejava que sua esposa fosse chamada Lady Botes. Comprou naturalmente um dos quadros 
a alto preo e ofereceu-o ao pas. Aquilo fazia parte, diziam os seus amigos, do seu "jogo poltico". O segundo dos coleccionadores era americanfobo e comprou um 
nico quadro para "irritar os diabos dos ianques". O terceiro coleccionador foi Soames, que, mais sbrio que os outros dois, comprou um quadro, e, como viera de 
uma visita a Madrid, escolheu o Goya. Pelo que vira na Espanha, tinha a certeza de que o Goya ainda subiria de valor, no estava actualmente nas alturas, mas subiria. 
E, olhando para aquele retrato, meio  maneira de Hogarth e Monet, mas com profundas caractersticas prprias de beleza e tcnica, sentia-se perfeitamente satisfeito 
e seguro de que no cometera um engano, apesar do preo que pagara, o mais alto que j desembolsara at ento por um quadro. E l estava ele, pendurado junto  cpia 
de La Vendimia. E l estava a rapariga, a olh-lo com o seu jeito sonhador - o jeito que ele preferia, porque se sentia muito mais seguro quando ela o olhava assim.
Estava ainda mergulhado na sua contemplao quando um cheiro de charuto lhe feriu as narinas e uma voz disse:
- E ento, Mr. Forsyde, que  que o senhor pretende fazer com esta pequena coleco?
Era o belga, que, como se o seu sangue flamengo j no bastasse, tinha ainda a me armnia! Dominando uma irritao natural, Soames disse:
- O senhor  entendido em pintura?

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- Bem, eu tambm j adquiri algumas.
- Ps-impressionistas?
- S-i-m, com efeito, gosto deles.
- Que  que o senhor pensa disto? - disse Soames, apontando o Gauguin.
Monsieur Profond estendeu o lbio inferior e a barbicha pontiaguda.
- Muito bonito, com efeito. Quer vend-lo?
Soames reteve o seu "De um modo particular, no", pois no queria regatear com aquele estrangeiro.
- Sim - disse.
- Quanto quer por ele?
- O que dei.
- Muito bem - disse Monsieur Profond. -- Gostarei de adquirir esse quadrinho. Ps-impressionistas... morreram tremendamente, mas so todos divertidos. No me importo 
muito com quadros, mas j adquiri alguns... uns poucos.
- Com que  que o senhor se importa? Monsieur Profond encolheu os ombros.
- A vida dos homens  vergonhosamente parecida com a de um bando de macacos batendo-se por cocos vazios.
- O senhor  jovem - disse Soames.
Se aquele indivduo queria fazer uma generalizao, no precisava de sugerir que as formas de propriedade careciam de solidez!
- No me espanto - continuou Monsieur Profond, sorrindo. - Nascemos, morremos. Metade do mundo morre de fome, na minha ptria, financio o sustento de um grande nmero 
de crianas. Mas para qu? Seria talvez melhor que atirasse o meu dinheiro ao rio.
Soames olhou-o, depois, voltou as costas e olhou para o Goya. No entendia o que queria aquele sujeito.
- Qual a soma que devo anotar no cheque? - continuou Monsieur Profond.
- Quinhentas libras - disse Soames laconicamente. - Mas no desejo que o senhor o adquira se o seu interesse pelo quadro no chega at essa quantia.

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- Est muito bem - disse Monsieur Profond. - Gostarei muito de possuir o quadro.
Escreveu o cheque com uma caneta de tinta permanente pesadamente incrustada de ouro. Soames viu-o agir, sentindo-se pouco  vontade. Por que diabo o sujeito adivinhara 
que ele pretendia vender o quadro? Monsieur Profund estendeu-lhe o cheque.
- Os Ingleses so muito engraados a respeito de pintura - disse ele. - Assim tambm so os Franceses, e assim  o meu povo. So todos engraadssimos.
- No o compreendo - disse Soames secamente.
-  como os chapus - continuou enigmaticamente Monsieur Profond. - Pequenos ou grandes, de aba virada ou aba baixa, conforme a moda. Muito engraado.
E, sorrindo, desapareceu da galeria, azul e slido, tal como o fumo do seu excelente charuto.
Soames segurara o cheque com o sentimento de que o valor intrnseco da sua propriedade fora posto em questo. " um cosmopolita", pensou ele. vendo Profond emergir 
na varanda, em companhia de Annette, e sair em direco ao rio. O que sua mulher via naquele homem, ele no o sabia - alm do facto de ele falar a sua lngua nativa 
-, e perpassou-lhe no esprito o que Profond chamaria "uma pequena dvida": se Annette no seria bonita de mais para andar a passear com algum to "cosmopolita". 
Mesmo quela distncia, podia ver ainda o fumo azul do charuto de Profund espiralando no ar lmpido, os seus borzeguins cinzentos e o chapu cinzento - o sujeito 
era um dandy! E viu o rpido volver da cabea de Annette, to bem posta no seu lindo pescoo e nos ombros apetitosos. Aquele jeito dela de virar o pescoo sempre 
lhe parecera um pouco excessivo, no gnero rainha de beleza - e no muito distinto. E espiou-os enquanto prosseguiam no passeio, ao longo do caminho do fim do jardim. 
Um rapaz vestido num fato de flanela reuniu-se a eles - um visitante de domingo, sem dvida, que acabava de subir o rio. Soames voltou ao seu Goya. Estava ainda 
a fitar a rplica de Fleur e meditando nas notcias de Winifred, quando a voz da mulher disse:
- Mr. Michael Mont, Soames. Voc convidou-o para ver os seus quadros.

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Era o rapaz entusiasmado da exposio de Cork Street!
- Dei uma volta para o ver, sir. Moro apenas a quatro milhas de Pangibourne. Lindo dia., no acha?
Confortando-se com os resultados da sua expansividade, Soames perscrutava o visitante. A boca do rapaz era excessivamente grande e crespa - parecia estar sempre 
a fazer trejeitos. Porque no deixava crescer o resto daquele bigodinho idiota, que o tornava parecido com um bufo de music-hall? Por que diabo os jovens de agora 
deliberadamente se tornavam ridculos usando no lbio aquelas escovas? Uff! Jovens idiotas, afectados! Sob outros aspectos, ele era apresentvel, e o seu fato de 
flanela muito bem cuidado.
- Prazer em v-lo! - disse.
O rapaz, que voltava a cabea para todos os lados, parecia exttico.
- Bem vejo! - exclamou. - "Alguns" quadros!
Soames viu, com uma sensao indefinvel, que ele dirigira o comentrio  cpia do Goya.
- Sim - disse secamente. - Isso no  um Goya.  uma cpia. Mandei faz-la porque me recorda minha filha.
- Por Jpiter! Juro que conheo esse rosto, sir. Ela est aqui? A franqueza do interesse do moo quase desarmou Soames.
- Estar depois do ch - disse ele.
- Vamos ver os quadros?
E Soames recomeou aquela ronda que nunca o fatigava. No esperara muita inteligncia da parte de quem tomara uma cpia pelo original, mas,  medida que passavam 
de seco para seco, de perodo para perodo, sentia-se admirado pela franqueza e preciso dos comentrios do moo. Naturalmente agudo, e at mesmo sensual sob 
a sua mscara, Soames no tinha gasto trinta e oito anos na sua nica mania sem aprender sobre pintura algo mais que o seu valor mercantil. Ele representava, na 
verdade, o elo intermedirio entre o artista e o pblico comercial. A arte pela arte, naturalmente, era uma tolice, mas a esttica e o bom gosto eram indispensveis. 
A apreciao de um bom nmero de pessoas de bom gosto  que dava a uma obra de arte o seu permanente valor mercantil, ou, por outras palavras, era o que transformava 
um quadro numa "obra de arte". No havia nenhum padro estabelecido.


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E ele estava suficientemente acostumado a visitas sem opinio prpria e sem olhos, para se intrigar perante algum que, diante de Mauve, de James Maris, de Matthew, 
no hesitava em dar a sua opinio, franca e lcida, embora emitida numa gria irreverente. Mas s depois de ver o rapaz assobiar diante de Whistler, com as palavras: 
"O senhor acredita que ele tenha alguma vez visto uma mulher nua, sir?", Soames comentou:
- Que faz o senhor, Mr. Mont, se posso perguntar?
- Eu, sir? Eu pretendia ser pintor, mas a guerra atrapalhou-me os planos. E nas trincheiras, o senhor compreende, pus-me a sonhar com a Bolsa... lugar agasalhado 
e quente, sem barulho de mais. Porm a paz tambm atrapalhou isso... Fui desmobilizado h cerca de um ano. Que  que me recomenda, sir?
- Voc tem dinheiro?
- Bem - respondeu o rapaz -, tenho pai. Fi-lo viver durante a guerra, de modo que ele tem de me fazer viver agora. Embora eu tenha de concordar que  justo ele agarrar-se 
aos seus bens... - Soames, plido e na defensiva, sorriu. - O velho teve um ataque quando eu lhe disse que ele ainda tinha de trabalhar. Ele  proprietrio territorial, 
imagine. E isso  uma doena fatal.
- Este  o meu Goya autntico - disse Soames secamente.
- Coa breca! Este  bom! Vi uma vez um Goya em Munique que me deixou tonto. Uma velha absolutamente diablica, vestida numas rendas esplndidas. Ele  que nunca 
se preocupou com o gosto do pblico. Era um sujeito puramente "explosivo". Deve ter derrubado um monte de convenes, no tempo em que viveu. Como pintava! A pintura 
de Goya faz que a de Velzquez parea muito rgida, o senhor no acha?
- No tenho nenhum Velzquez - disse Soames. O rapaz fitou-o.
- No - disse ele. - S pases e negociantes podem possuir um quadro dele, creio eu. J pensei: porque  que os pases que esto em bancarrota no obrigam os seus 
profiteurs a comprar os seus Velzquez, e Tizianos, e outros que tais, e depois no emitem uma lei determinando que todos os possuidores de quadros de velhos mestres 
sejam obrigados a exibi-los nas galerias pblicas? Seria uma soluo.
- Vamos tomar ch?
As orelhas do rapaz pareciam pender-lhe do crnio. "Ele no  denso", pensava Soames, seguindo-lhe as premissas.
Goya, com a sua satrica e inigualada preciso, a sua linha original, o desafio das suas luzes e sombras, poderia ter reproduzido admiravelmente o grupo que se reunira 
em torno da mesa de ch de Annette, sob o caramancho. S ele. talvez, entre todos os pintores, seria capaz de fazer justia  luz do sol que se filtrava atravs 
da cortina de trepadeiras,  palidez das pratas, s xcaras de loua antiga, s finas rodelas de limo no ch de mbar plido, justia a Annette, no seu vestido 
de renda negra, havia qualquer coisa da ardente espanhola na beleza dela, embora lhe faltasse a espiritualidade daquele tipo incomum, a Winifred, com os seus cabelos 
brancos e rijamente cintada, a Soames, na sua distino grisalha, ao vivaz Michael Mont, de olhar e ouvido agudos, a Imogen, morena, apetitosa ao olhar, comeando 
a engordar ligeiramente, a Prosper Profond, com o seu ar de quem quer dizer "Bem, Monsieur Goya, qual  a utilidade que h em pintar esta pequena festa?" Finalmente, 
a Jack Cardigan, com o seu olhar fixo e luzente, o seu ar sanguneo e queimado de sol, que era como a confisso do princpio que o governava: "Sou ingls e vivo 
para manter-me em boa forma."
Era curioso notar, de passagem, que aquela mesma Imogen que, certa vez, em casa de Timothy, declarara que jamais se casaria com um "bom homem" - pois eles eram muito 
estpidos - houvesse casado com Jack Cardigan, em quem a boa sade havia destrudo todas as marcas do pecado original, e dificilmente ela poderia distinguir entre 
outros dez mil ingleses aquele que escolhera para dormir ao seu lado. E ela gostava de dizer a respeito do marido, no seu modo "divertido": "Jack vive numa boa forma 
espantosa! Nunca esteve doente um nico dia na vida. Atravessou toda a guerra sem um arranho. Vocs realmente no podem imaginar como ele  sadio!" E, realmente, 
Jack vivia em to boa forma que nem sabia ver quando ela estava a fazer flirt - o que era, de certo modo, uma consolao. Alis, ela ainda o amava, tal como se pode 
amar uma mquina desportiva - e amava os dois pequenos Cardigan feitos pelo modelo do pai.

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Os olhos dela, naquele momento, estavam justamente a comparar o marido com Prosper Profond. No havia nenhum "pequeno" desporto nem jogo que Mr. Profond no houvesse 
praticado, desde o skitte  pesca com arpo, e enjoara-se de todos eles. Imogen desejava s vezes que Jack tambm os enjoasse, mas o marido continuava a pratic-los 
todos e a falar deles com o entusiasmo singelo de um colegial que aprende hockey e garantia que quando chegasse  idade do tio Timothy ainda jogaria golf no tapete 
do quarto.
Agora mesmo, estava ele a contar os seus triunfos desportivos da manh e incitava Prosper Profond a jogar uma partida de tnis depois do ch - haveria de lhe fazer 
bem - "para se manter em boa forma"!
- Mas para que serve estar em boa forma? - disse Monsieur Profond.
- Sim, sir - murmurou Michael Mont -, para que  que o senhor quer estar em boa forma?
- Jack - gritou Imogen, encantada -, para que  que voc quer estar em forma?
Jack Cardigan fitou-os do alto de toda a sua sade. As perguntas pareciam o zumbido de um mosquito, e ele ergueu a mo para o enxotar. Durante a guerra, naturalmente, 
mantivera-se em forma para matar alemes, agora que aquilo acabara, no sabia para que estaria em forma e parecia-lhe de mau gosto qualquer explicao do princpio 
que o fazia viver.
- Mas ele tem razo - disse inesperadamente Monsieur Profond. - No nos resta mais nada alm de nos mantermos em forma.
Aquele dito, muito profundo para uma tarde de domingo, teria passado sem resposta -mas no para uma natureza azougada como a do jovem Mont.
- Isso mesmo! - exclamou ele. - Foi esta a grande descoberta da guerra. Ns todos pensvamos que estvamos a progredir... e vimos agora que estamos apenas a mudar.
- Para pior - disse Monsieur Profond afavelmente.
- Como voc  animador, Prosper! - murmurou Annette.
- Vamos jogar tnis! - disse Jack Cardigan.

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- O senhor est
a ficar corcunda. Depressa corrigiremos isso. O senhor joga, Mr. Mont?
- Bato na bola, sir.
Naquela emergncia, Soames ergueu-se, movido pelo profundo instinto de preparao do futuro que o guiava na existncia.
- Quando Fleur chegar... - ouviu ele dizer a Jack Cardigan. Ah, porque no chegava ela? Atravessou a sala de estar, o
hall, o prtico que dava para a estrada, e ficou de p, escutando a aproximao de um carro. At o campo estava endomingado, os lilases, em plena florao, embalsamavam 
o ar. Viam-se pequenas nuvens, iguais a penas de pato, iluminadas pelo sol. Vieram-lhe de sbito recordaes do dia em que Fleur nascera, e ele esperara, tomado 
de agonia, com a vida dela e a da me balanando nas mos. Salvara-a ento, para vir a ser a flor da sua vida.. E agora! Seria que ela iria trazer-lhe desgostos... 
mgoas? No estava a gostar do caminho que as coisas comeavam a tomar. Um melro quebrou-lhe a cisma com um canto vesperal! - um grande melro pousado no p da accia. 
Soames, naqueles ltimos anos, tomara um interesse real pelos pssaros, e ele e Fleur costumavam passear por ali, a espi-los. Os olhos dela eram agudos como agulhas 
e sabiam descobrir todos os ninhos. Viu o co de Fleur, um retriever, deitado numa rstia de sol, e chamou-o.
- Ol, meu velho, tambm est  espera dela!
O co aproximou-se lentamente, abanando a cauda, e Soames, mecanicamente, fez-lhe festas na cabea. O co, os pssaros, os lilases, tudo para ele era evocao de 
Fleur, nem mais, nem menos. "Sou louco de mais por ela", pensava ele. "Louco de mais!" Ele era como um homem que manda os seus navios para o mar e no os segura. 
Novamente sem seguro, tal como naquele tempo, tantos anos atrs, quando vagueava mudo e ciumento no deserto de Londres, morrendo por aquela mulher - a sua primeira 
mulher... a me daquele rapaz infernal. Ah, era o carro, finalmente! Parou, retiraram a bagagem, mas Fleur no vinha nele.
- Miss Fleur preferiu vir a p, sir.
Andar a p todas aquelas milhas? Soames fixou o homem: a cara dele mostrava um comeo de sorriso. Porque estaria ele a rir? E voltou-se rapidamente, dizendo:

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- Muito bem, Sims!
E dirigiu-se para casa. Subiu mais uma vez  galeria de quadros. Tinha dali uma vista da margem do rio, e ficou de p, com os olhos fixos l, esquecido de que se 
passaria uma hora antes de Fleur poder aparecer. Vir a p! E o sorriso do homem... O rapaz...
Afastou-se abruptamente da janela. No podia espi-la. Se ela desejava esconder-lhe alguma coisa, tinha direito a isso, ele  que no podia espi-la. O seu corao 
parecia vazio e uma amargura subia-lhe do peito at  boca. Os gritos de Jack Cardigan perseguindo a bola e o riso do jovem Mont subiam na calma da tarde e chegavam 
at ele. Soames esperava que eles estivessem a fazer aquele sujeito Profond correr. E a pequena de La Vendimia continuava com o seu brao no quadril e com os seus 
olhos sonhadores a fit-lo. "Fiz tudo o que pude por ela", pensou ele, "desde o tempo em que voc no me chegava aos joelhos. E agora voc no vai... no vai magoar-me, 
pois no?"
Mas a cpia de Goya no respondeu, brilhando na sua cor que ia comeando a escurecer. "No h vida real nisto", pensou Soames. "Porque no vem ela?"

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CAPTULO X - TRIO


Por entre todos esses Forsyte da terceira gerao, e podia-se at dizer da quarta, reunidos em Wansdon, nos Downs, um fim-de-semana que se prolongava por nove dias 
levara os traos pessoais de cada um, graas  tenacidade recproca,, a um ponto de tenso quase mxima. Nunca Fleur se mostrara to fine, Holly to vigilante, Val 
to absorto nas suas cavalarias, Jon to silencioso e perturbado. Tudo o que ele aprendeu de agricultura, durante a semana inteira, no pesaria sobre uma pluma. 
Jon, cuja natureza era essencialmente adversa  intriga e cuja adorao por Fleur o dispunha a considerar indecente qualquer Meio de esconder tal adorao, irritava-se, 
impacientava-se, embora obedecendo, aproveitando com alvio os poucos momentos em que os dois se viam a ss.
Na quinta-feira, estavam os dois na varanda da sala de estar, vestidos para o jantar, e ela disse-lhe:
- Jon, vou voltar para casa no domingo, no comboio que sai s trs e quarenta da estao de Paddington. Se voc for para casa no sbado, pode no domingo ir encontrar-me 
em Paddington e acompanhar-me depois na viagem. Voc, de qualquer modo, teria de ir para casa, no era?
Jon acenou que sim.

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- Fao tudo para estar ao seu lado - disse ele. - Queria apenas saber que necessidade eu tenho de fingir.
Fleur tocou com o dedinho a palma da mo dele.
- Voc no tem instinto, Jon. Deve deixar essas coisas comigo. Isso que existe entre a nossa gente  srio. Ns temos de manter a nossa amizade secreta, actualmente, 
se quisermos contimuar juntos. - A porta abriu-se, e ela acrescentou em voz alta: - Voc  um tonto, Jon.
Algo se revolveu dentro de Jon. Ele no podia suportar aqueles subterfgios acerca de um sentimento to natural, to irresistvel, to doce.
Na sexta-feira  noite, pelas onze horas, arrumara j a maleta e estava debruado  janela, meio infeliz, meio mergulhado num sonho relativo  estao de Paddington, 
quando ouviu um som dbil, o som que faria uma unha arranhando a porta do quarto. Voou  porta e escutou. Novamente o som, era uma unha. Abriu. Oh! Que coisa adorvel 
entrou por ela!
- Queria mostrar-te a minha mscara - disse Fleur., compondo a posio ao p da cama dele.
Jon soltou um longo suspiro e encostou-se  porta. A apario trazia uma musselina branca na cabea, um flichou envolvendo-lhe o colo nu e um vestido cor de vinho, 
cuja saia tufava em grandes folhos sob a cintura delgada. Tinha uma das mos no quadril e o outro brao erguido, em ngulo recto, segurando um leque que lhe tocava 
a cabea.
- Este leque devia ser uma cesta de uvas - sussurrou ela -, mas no trouxe a cesta para c.  o meu vestido de Goya. E esta  a atitude do quadro. Voc gosta?
-  um sonho.
A apario deu uma pirueta.
- Toque e veja. - Jon ajoelhou e tocou reverentemente na saia. - Cor de uva - continuou o murmrio -, tudo cor de uva... La Vendimia... a vindima. - Os dedos de 
Jon tocavam levemente a cintura esbelta e ele ergueu os olhos cheios de adorao. - Oh, jon - sussurrou a apario, que se inclinou depois, beijou-lhe a testa e 
se desvaneceu.
Jon ficou de joelhos, e a sua cabea caiu sobre a cama.

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Quanto tempo esteve assim, nunca o soube. O pequeno rudo da unha dela  porta, os ps, o roagar das saias - tal como num sonho -, tudo aquilo o absorvia inteiramente, 
e perante os seus olhos fechados o vulto da rapariga desenhava-se, murmurante e sorridente, e um tnue perfume de narciso flutuava no ar. Na sua fronte, onde ela 
o beijara, ele sentia um pequeno ponto frio, tal como a marca de uma flor. O amor enchia-lhe a alma, esse amor de rapaz por rapariga, que sabe to pouco e espera 
tanto que no consente em condescender com o mundo e que se transformar, com o tempo, numa fragrante lembrana, uma paixo seca, um companheiro importuno, ou, em 
muitos casos, uma vindima plena e suave, com a cor do sol nos seus cachos.
J bastante foi dito acerca de Jon Forsyte, nestas e noutras pginas, para se compreender o grande espao que se interpusera entre ele e o seu tetrav, o primeiro 
Jolyon, na sua propriedadezinha  beira-mar, no Dorset. Jon era sensitivo como uma rapariga, mais sensitivo que noventa por cento das raparigas de hoje em dia, imaginativo 
como um dos pintores "desvalidos" da sua meia-irm June, afectivo quanto naturalmente o poderia ser um filho de tal pai e tal me. E entretanto, na sua contextura 
ntima, havia algo herdado do antepassado, o fundador da famlia - uma secreta tenacidade da alma, um receio de mostrar os seus sentimentos, uma determinao especial 
para no aceitar derrotas. Rapazes sensveis, imaginativos, afectuosos, sentem-se mal nos colgios, mas Jon, instintivamente, apelara para a sua natureza secreta, 
e conseguira ser apenas normalmente infeliz nos seus tempos de escola. Apenas com sua me, at ento, ele fora inteiramente franco e natural, e quando foi para Robin 
Hill, no sbado, sentia o corao pesado porque Fleur lhe dissera que no deveria ser nem franco nem natural com aquela a quem, at ento, ele nunca escondera nada 
e no deveria dizer-lhe que eles se tinham encontrado novamente - embora ele calculasse que ela j o deveria saber. E aquela restrio parecia-lhe to intolervel 
que telegrafou uma desculpa para casa e deixou-se ficar em Londres. E a primeira coisa que a me lhe disse foi isto: - Ento voc encontrou-se l com a nossa amiguinha 
da confeitaria, Jon? Como a achou, na segunda entrevista?

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Com alvio e entusiasmo, Jon respondeu:
- Oh, lindssima, mam.
O brao de Irene apertou o dele.
Jon nunca a amara tanto como naquele minuto que parecia desmentir todos os receios de Fleur e aliviar-lhe a alma. Virou-se para olhar a me, mas havia algo no seu 
rosto sorridente, algo que ele talvez s houvesse visto antes uma vez, algo que lhe paralisou as palavras que borbulhavam dentro dele.
Podia o medo associar-se a um sorriso? Se o podia, era o medo que ele lia no rosto da me. E apressadamente Jon ps-se a falar de outras coisas, de agricultura, 
de Holly e dos Downs. Falando depressa, esperava que ela voltasse a aludir a Fleur. Mas ela no o fez. Nem o pai a mencionou, embora, naturalmente, tambm soubesse 
da estada da pequena em casa da filha. E que privao. que falta de realidade havia no seu silncio acerca de Fleur - quando ele estava com o corao cheio dela 
-, quando sua me tinha o corao to cheio de Jon e o pai tinha o seu to cheio de Irene! E assim o trio passou a tarde e a noite de sbado.
Depois do jantar, a me tocou. Parecia que procurava tocar todas as msicas que Jon preferia, e ele sentou-se, com uma das pernas dobradas, a mo mergulhada nos 
cabelos, onde os dedos de Fleur haviam estado. Olhava para a me enquanto ela tocava. mas via Fleur - Fleur no pomar, ao luar, Fleur na duna alta.  luz do sol, 
Fleur mascarada, inclinando-se, murmurando, parando, beijando-lhe a testa. Um instante, enquanto escutava, esqueceu-se de si mesmo e olhou para o pai, na outra poltrona. 
Que estaria o pai a contemplar com aqueles olhos absortos? A expresso do seu rosto era triste e enigmtica. E aquilo encheu-o de uma espcie de remorso, fazendo-o 
erguer-se e vir sentar-se no brao da cadeira de Jolyon. Dali no podia ver-lhe o rosto, e tornou a ver Fleur nas mos da me, delgadas e brancas sobre as teclas, 
no seu perfil, nos cabelos prateados. E fora, na grande sala, atravs da janela aberta, l estava a enluarada noite de Maio.
Quando foi para a cama, a me entrou no quarto. Parou junto  janela e disse:
- Esses ciprestes que seu av plantou cresceram maravilhosamente.

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Sempre achei que ficavam mais lindos  luz do luar. Queria que voc tivesse conhecido seu av, Jon.
- A mam j estava casada com o pap em vida dele? - perguntou Jon subitamente.
- No, meu querido. Ele morreu em mil oitocentos e noventa e dois . muito velho, com oitenta e cinco anos, creio eu.
- O pap parece-se com ele?
- Um pouco, mas  mais subtil, e no  to slido,  verdade.
- Conheo o retrato do av. Quem o pintou?
- Um dos "desvalidos" de June. Mas  realmente bom. Jon passou a mo sobre o brao da me.
- Fale-me da briga da famlia, mam. Ele sentiu-a estremecer.
- No, meu querido. Seu pai  que lhe deve falar qualquer dia, quando achar que o deve fazer.
- Ento isso  srio - disse Jon, com a respirao suspensa.
- Sim. - E seguiu-se um silncio, durante o qual nenhum dos dois sabia se era o brao de uma ou a mo do outro que tremia mais. - Algumas pessoas - acrescentou docemente 
Irene - pensam que faz mal ficar de costas para a Lua. Eu sempre gostei disso. Olhe para as sombras dos ciprestes! Jon, seu pai acha que devemos ira Itlia, voc 
e eu, por uns dois meses. Voc gostaria?
Jon retirou a mo do brao da me. A sua sensao era dolorosa e confusa. A Itlia em companhia da me! Uma quinzena atrs, aquilo parecia-lhe a perfeio, mas agora 
enchia-o de tristeza. E ele sentiu que aquela sugesto repentina tinha ligao com Fleur. E gaguejou:
- Oh, sim... Apenas.,, no sei. Devo ir... agora que estou a comear? Preferia pensar mais um pouco, antes de decidir.
A voz dela respondeu, fria e amorvel:
- Sim, meu querido. Pense mais um pouco. Mas  melhor viajar agora do que quando j estiver a trabalhar a srio. A Itlia com voc deve ser linda!
Jon ps o brao em torno da cintura dela, ainda delgada e firme como a de uma moa.

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- Acha que podemos deixar o pap? - disse ele fracamente, sentindo-se inteiramente vil.
- Foi seu pai que sugeriu isso. Ele acha que voc deve conhecer a Itlia antes de se instalar definitivamente em qualquer coisa.
O sentimento da prpria vileza morreu em Jon. Ele compreendia, sim, compreendia que o pai e a me no estavam a falar francamente, tal como ele prprio. Queriam 
afast-lo de Fleur. O seu corao endureceu. E, como se sentisse o desenvolvimento desse processo, a me disse:
- Boa noite, querido. Durma bem, e pense nisso mais tarde. Mas seria adorvel!
Apertou-o contra si to rapidamente que ele no pde ver-lhe o rosto. E Jon ficou de p, sentindo-se tal como se sentia quando era um garoto travesso, triste porque 
no amava os seus naquele momento, e ao mesmo tempo sentindo-se justificado aos prprios olhos.
Mas Irene, depois de parar um pouco no seu prprio quarto, atravessou o quarto de vestir e entrou no quarto do marido.
- E ento?
- Ele diz que quer pensar nisso mais tarde, Jolyon. Olhando-lhe os lbios, que mostravam um dbil sorriso, Jolyon disse calmamente:
- Seria melhor que voc me houvesse deixado falar com ele e liquidar isso. Afinal, Jon tem o instinto de um gentleman. E ele precisa apenas compreender...
- Ele no pode compreender!  impossvel.
- Creio que, na idade dele, eu teria compreendido. Irene segurou-lhe a mo.
- Voc sempre foi mais realista que Jon... e nunca foi to inocente.
- Isso  verdade - retorquiu Jolyon. -  engraado, no ? Voc e eu seramos capazes de contar a nossa histria ao mundo inteiro, sem a menor partcula de vergonha, 
mas o nosso filho faz-nos emudecer.
- Ns nunca nos importmos com que o mundo nos aprovasse ou no.
- Jon nunca nos desaprovaria!

100

- Oh, Jolyon, desaprovaria. Ele est apaixonado, sinto que est apaixonado. E dir a si mesmo: minha me casou uma vez sem amor! Como pde fazer isso? H-de parecer-lhe 
um crime! E foi um crime!
Jolyon segurou-lhe a outra mo e disse com um sorriso triste:
- Porqu, neste mundo, nascemos ns jovens? Imagine se a gente nascesse velho, e fosse ficando jovem com o passar do tempo, saberamos compreender por que razo 
as coisas acontecem, e abriramos mo de toda essa maldita intolerncia. Mas voc deve saber que, se o rapaz est realmente apaixonado, no esquecer, v ou no 
v  Itlia. Ele  de uma raa tenaz e deve compreender, por instinto, porque est a ser afastado. Nada o curar seno o choque de saber tudo.
- Deixe-me tentar, de qualquer modo.
Jolyon ficou um momento sem falar. Entre a espada e a parede - a dor de uma temida revelao e a mgoa de separar-se da mulher durante dois meses -, secretamente 
preferia a primeira, mas, se ela preferia a ltima, tinha de concordar. Afinal, devia ir habituando-se quela partida para a qual no h volta. E, segurando-a nos 
braos, beijou-lhe os olhos e disse:
- Como quiser, meu amor.

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CAPTULO XI - DUETO


Aquela "pequena" emoo, o amor, cresce quando se v ameaada de extino, Jon chegou a Paddington meia hora antes do tempo marcado, e, uma semana inteira antes, 
segundo lhe pareceu. Ficou em p junto ao balco de livros, segundo fora combinado, entre uma multido de viajantes de domingo, vestido num fato de tweed, com o 
corao a saltar-lhe no peito, tanta era a emoo. Leu o nome de todos os romances do mostrurio, e acabou por comprar um, para evitar que o caixeiro o olhasse com 
suspeita, O livro chamava-se O Corao da Pista - o que deveria significar alguma coisa, embora ele no atinasse com o que fosse. Comprou tambm A Dama do Espelho 
e O Camaroteiro.
Cada minuto era comprido como uma hora e cheio de horrficos pensamentos. Depois de dezanove minutos, ele viu-a chegar, trazendo uma maleta e um carregador que lhe 
levava a bagagem. Chegou rapidamente, mostrando-se fria. Cumprimentou-o como se ele fosse um irmo.
Jon admirava-lhe a espantosa presena de esprito.
- Ser que no podemos tomar um compartimento s para ns? - sussurrou ele.
- No vale a pena.  um comboio que pra em todas as estaes. Talvez s depois de Maindenhead. Mostre-se natural, Jon.

102

Jon torceu as feies numa carranca. Entraram. Oh, cus, mais dois animais de passageiros! Ele pagou ao carregador sem naturalidade, confuso. Aquele bruto no merecia 
nada pelo doce trabalho de carregar as malas de Fleur e olhava-os como se estivesse a compreender tudo. Fleur deixou cair A Dama do Espelho e inclinou-se para a 
frente.
- E ento? - disse ela.
- Parece que se passaram quinze dias.
Fleur concordou, e o rosto de Jon iluminou-se imediatamente.
- Mostre-se natural - murmurou Fleur, soltando uma risada. Aquilo feriu-o. Como poderia ele mostrar-se natural, com a
Itlia suspensa sobre a cabea? Queria contar-lhe a coisa com jeito, mas agora j no podia conter-se.
- Querem que eu v passar dois meses na Itlia, em companhia de minha me.
Fleur baixou os clios e ficou um pouco plida, mordendo os lbios.
- Oh! - exclamou ela.
Foi tudo o que disse, mas foi muito.
Aquele "Oh!" era apenas uma ligeira indeciso, para se preparar para a resposta. E ela veio:
- Voc deve ir!
- Ir? - disse Jon em voz estrangulada.
-  claro.
- Porm... dois meses...  horrvel.
- No - insistiu Fleur. - Seis semanas. Voc ento mostrar que me esqueceu. E encontrar-nos-emos na National Gallery, no mesmo dia em que voc voltar.
Jon riu.
- Porm, suponha que seja voc que me tenha esquecido - murmurou ele por entre o barulho do comboio. Fleur abanou a cabea. - Pode aparecer algum cretino...
O p da pequena tocou o seu.
- Nenhum cretino... - disse ela, erguendo A Dama do Espelho.
O comboio parou. Dois passageiros saram e um entrou.
- Eu morro se no ficarmos ss um instante - disse Jon.

103

O comboio ps-se em marcha e Fleur novamente se inclinou para Jon.
- Nunca hei-de esquec-lo - disse ela. - E voc?
- Nunca! Voc escreve-me?
- No. Mas voc pode escrever-me. Para o meu clube. Ela tinha um clube! Era uma pequena maravilhosa!
- Voc tentou puxar por Holly? - perguntou ele.
- Sim, mas no consegui nada. E eu no quis forar.
- Que poder haver? - perguntou Jon.
- Acabaremos por descobrir.
Um longo silncio seguiu-se, at que Fleur disse:
- Chegmos a Maindenhead. Levante-se, Jon! - O comboio parou. O passageiro saiu e Fleur puxou a porta. - Depressa - gritou ela. - Segure a porta. Mostre-se o mais 
desagradvel possvel.
Jon assoou-se e fez uma carranca. Nunca na sua vida fizera tantas carrancas! E uma senhora idosa recuou, outra segurou o trinco, que girou, mas a porta no se abriu. 
O comboio ps-se em movimento e a moa dirigiu-se para outro compartimento.
- Que sorte - exclamou Jon, voltando para junto de Fleur. - No abriu!
- Sim - disse Fleur. - Eu estava a segurar.
O comboio andava mais depressa, e Jon caiu de joelhos.
- Olhe para o corredor - murmurou ela. - E... depressa! Os lbios dela encontraram os dele. E, embora o beijo durasse
apenas dez segundos, a alma de Jon fugiu-lhe do corpo e foi para to longe que, mesmo depois de j estar sentado diante dela, ainda se mostrava plido como um morto.
Ouviu-a suspirar, e aquele som pareceu-lhe o mais precioso que jamais ouvira - uma deliciosa declarao de que ele significava alguma coisa para ela.
- Seis semanas no , na verdade, muito tempo - disse Fleur. - E voc pode facilmente transformar dois meses em seis semanas se se mostrar despreocupado e nunca 
der sinal de que est a pensar em mim. - Jon arquejou. - Voc no compreende. Jon, que isso  necessrio para os convencer? Se voc, quando voltar, no mostrar mais 
interesse por mim, eles pararo com a impertinncia a nosso respeito. S lamento a viagem no ser para a Espanha.

104

O pap diz que h uma moa num quadro de Goya, em Madrid, que se parece muito comigo. Apenas, ela no ... Temos uma cpia do quadro em casa.
Aquilo foi para Jon como um raio de sol atravessando o nevoeiro.
- Iremos para a Espanha - disse ele. - A mam no vai importar-se... ela nunca esteve l. E meu pai admira muitssimo Goya.
- Oh, seu pai  pintor, no ?
-  apenas aguarelista - disse honestamente Jon.
- Quando chegarmos a Reading, Jon, salte primeiro, v at Caversham Lock, e l espere por mim. Mandarei o carro para casa e direi que prefiro ir andando pelo atalho.
Jon agarrou-lhe a mo, agradecido, e os dois ficaram em silncio, perdidos do mundo inteiro e com um olho no corredor. Mas o comboio parecia andar agora duas vezes 
mais rpido, e o seu som perdia-se quase no som dos suspiros de Jon.
- Estamos a chegar - disse Fleur. - O atalho  horrivelmente exposto. Mais um! Oh! Jon, no se esquea de mim.
Jon respondeu com beijos. E logo depois um rapaz vermelho e distrado poderia ser visto a saltar do comboio e a correr ao longo da plataforma, procurando no bolso 
o bilhete.
Quando afinal ela se encontrou com ele no atalho, um pouco aqum de Caversham Lock, Jon fez um esforo e conseguiu um certo equilbrio. Se tinham de se separar, 
no devia fazer uma cena!
Uma brisa leve, soprando na margem do rio, agitava os ramos dos salgueiros, exibindo  luz do sol o avesso branco das folhas. e acompanhava os namorados com um suave 
murmrio.
- Eu disse ao motorista que estava com as pernas dormentes da viagem - disse Fleur. - Voc mostrou-se natural, quando saltou?
- No sei. Que  "natural"?
- O natural em voc  mostrar-se seriamente feliz. Quando o vi pela primeira vez, compreendi que no se parecia em nada com as outras pessoas.
- Foi exactamente o que eu pensei tambm quando a vi E imediatamente descobri que nunca poderia amar mais ningum.
Fleur riu.

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- Ns somos absurdamente jovens. E sonhos de amor, em jovens, so coisa antiga e fora de moda, Jon. Alm disso, representam um desperdcio incrvel. Pense em quanto 
voc poderia gozar a vida. Ainda nem sequer comeou.  uma vergonha, realmente. E o mesmo se d comigo. Nem acredito!
Jon sentiu-se mergulhado em confuso. Como poderia ela dizer tais coisas exactamente no momento em que iam separar-se?
- Se voc pensa assim - disse ele -, no poderei fazer essa viagem. Direi  mam que pretendo comear j a trabalhar. Posso sempre alegar as condies actuais do 
mundo!
- As condies actuais do mundo?
Jon enterrou profundamente as mos nos bolsos.
- Isso mesmo - respondeu. - Pense no povo, na quantidade de gente que morre por a  mngua!
Fleur abanou a cabea.
- No, eu nunca procurarei sentir-me infeliz.
- Infeliz? Mas esse estado de coisas  vergonhoso, e naturalmente todos temos de procurar melhor-lo.
- Oh, sim, eu sei isso. Mas ningum pode ajudar a massa. jon.  um caso perdido. Quando se melhora a situao deles por um lado, imediatamente eles se deixam cair 
por outro. Veja como o povo vive, sempre a lutar, a conspirar, a brigar, embora morra aos montes o tempo todo. So uns loucos!
- Voc no tem pena?
- Oh, pena... sim, mas no iria tornar-me infeliz por causa deles. No adianta.
E os dois ficaram em silncio, perturbados por aquele primeiro mergulho na natureza ntima um do outro.
- Eu acho que o povo  composto de brutos e idiotas - disse Fleur, obstinadamente.
- Eu penso que eles so uns pobres infelizes, umas pobres vtimas - retorquiu Jon.
E sentiam-se como se houvessem brigado naquele momento supremo e dramtico, com a separao j a anunciar-se, pois no podiam ir alm daquela ltima abertura entre 
os salgueiros,

106

- Bem, v ajudar as suas pobres vtimas, e no pense mais em mim.
Jon parou. O suor perlava-lhe a fronte e as pernas tremiam-lhe. Fleur tambm parara e olhava severamente para o rio.
- Eu preciso acreditar em certas coisas - disse Jon. numa espcie de agonia. - Todos temos direito  vida.
Fleur riu.
- Sim.  um direito que voc no exercer, se no tomar cuidado. Mas talvez a sua concepo de gozar a vida seja tornar-se infeliz por suas prprias mos. H muita 
gente que pensa assim.
Ela empalidecera, os seus olhos estavam escuros, os lbios eram uma linha estreita. Porque olhava obstinadamente para a gua? Jon tinha o sentimento irreal de que 
estavam a viver uma cena de romance, onde o amante  obrigado a escolher entre o amor e o dever. Mas nesse momento ela fitou-o. No podia haver nada mais embriagador 
que aquele olhar luminoso. Agiu sobre Jon exactamente como o tinir da corrente age sobre um co - trouxe-o de volta para ela. abanando a cauda e com a lngua de 
fora.
- No seja tolo - disse a moa. - O tempo  to curto! Olhe, Jon. daqui voc pode ver-me quando eu cruzar o rio. Ali, depois da curva,  que comea o bosque.
jon viu um paredo, uma chamin ou duas, um pano de parede entre rvores - e sentiu o corao a bater fortemente.
- No posso perder mais tempo. No vale a pena ir mais adiante dessa cerca... tudo  aberto para l. Vamos despedir-nos aqui.
Caminharam lado a lado, de mos dadas, silenciosamente, em direco  cerca coberta de trepadeiras, em plena florao, branca e rsea.
- O meu clube  o Talismn, em Straton Street, Picadilly. As cartas ficam inteiramente seguras, e eu passo l pelo menos uma vez por semana.
Jon acenou que sim. O seu rosto estava extremamente tenso e os olhos fitavam um ponto fixo diante de si.
- Hoje  vinte e trs de Maio - disse Fleur. - No dia nove de Julho, s trs horas, estarei defronte do Baco e Ariadne. Est certo?

107

- Est certo.
- Se voc estiver a sentir-se to triste como eu, est tudo muito bem. Deixe essa gente passar!
Um homem e uma mulher, com um garoto pela mo, passeavam, endomingados.
O ltimo deles atravessou a cancela.
- Domesticidade! - disse Fleur, encostando-se  cerca de espinheiros. As flores rodearam-na toda e um cacho cor-de-rosa encostou-se-lhe ao rosto. Jon afastou-o ciumentamente 
com a mo.
- Adeus, Jon.
Durante um segundo, ficaram com as mos estreitamente apertadas. Ento os lbios encontraram-se pela terceira vez, e quando se separaram Fleur afastou-se e correu 
em direco  cancela. Jon ficou onde ela o deixara, com a testa encostada quele cacho rseo que tocara a face da rapariga. Fora-se! Por uma eternidade - por sete 
semanas menos trs dias! E ali estava ele a v-la desaparecer. Correu  cancela. Ela caminhava rapidamente, nas pegadas do garoto endomingado. Voltou a cabea, e 
ele viu-a acenando um leve gesto de adeus. E ento ps-se a andar mais depressa, at que a famlia de passeantes lhe obstruiu a viso de Fleur.
A letra de uma cano cmica

Paddington groan.., worst ever know He gave a sepukhral Paddington groan. (1)

veio-lhe  cabea, fazendo-o correr de volta  estao de Reading. Durante todo o caminho de regresso para Londres e depois para a Wadson, Jon ficou sentado, com 
o O Corao da Pista aberto sobre os joelhos, quebrando a cabea num poema to cheio de ritmo que no comportava rima.

*1. Um gemido de Paddington.., pior nunca ouvi
Pois ele soltou um sepulcral gemido de Paddington

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CAPTULO XII - CAPRICHO


Fleur apressou-se. Tinha necessidade de movimento rpido. Estava atrasada e precisava usar de toda a sua finura quando chegasse. Passou a estao e o hotel, e estava 
prestes a tomar o ferry para atravessar o rio quando viu um botezinho, com um rapaz de p dentro dele, seguro aos ramos da margem.
- Miss Forsyte - gritou o moo. - Deixe-me lev-la para o outro lado. Vim de propsito para isso. - Ela olhou, espantadssima. - No se assuste. Acabo de tomar ch 
com a sua famlia. Pensava que ainda a veria no fim da tarde. Este  o meu caminho. Vou de volta para Pangbourne. O meu nome  Mont. Vi-a na exposio de pintura... 
no se lembra... quando seu pai me convidou para ver os quadros dele?
- Oh - disse Fleur -, sim. O leno.
Era por intermdio daquele rapaz que ela hoje tinha Jon. E, segurando-lhe a mo, Fleur pulou para o bote. Ainda comovida e sem flego, ficou sentada em silncio. 
Mas no o rapaz. Ela jamais vira algum dizer tanto em to pouco tempo. Disse-lhe a sua idade, vinte e quatro anos, o seu peso, setenta e dois quilos, a sua residncia, 
no longe dali, descreveu-lhe as suas sensaes sob o fogo e o que sentiu quando foi apanhado pelos gases, criticou a Juno, mencionou a sua prpria concepo da 
deusa, comentou a cpia de Goya,

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disse que no achava Fleur to parecida assim com La Vindimia, fez um esboo rpido das condies da Inglaterra, falou em Monsieur Profond - ou como quer que fosse 
o seu nome -, um sportman espantoso. Achava que o pai dela tinha alguns quadros "formidveis" e algumas " drogas. E fez votos para ter novas oportunidades de fazer 
com ela a travessia do rio, porque ele era, na verdade, um remador de confiana, perguntou a opinio da pequena acerca de Tchekov e deu-lhe a sua, mostrou o desejo 
que tinha de poderem os dois ir qualquer dia juntos assistir ao ballet russo, considerou o nome de Fleur Forsyte simplesmente audacioso, amaldioou o seu nome, Michael, 
e mais ainda o sobrenome, Mont, referiu-se ao pai e disse que, se ela queria ler um bom livro, deveria ler Job - o pai dele era exactamente igual a Job, quando este 
ainda possua terras.
- Mas Job s possua rebanhos e era nmada - murmurou Fleur.
- Ah - respondeu Michael Mont -, eu bem queria que o meu velho fosse nmada. No que eu cobice as terras dele. A propriedade de terras  intolervel hoje em dia. 
no acha?
- Nunca possumos terras na nossa famlia - disse Fleur. - Sempre possumos outras coisas. Creio que um dos meus tios-avs tinha uma granja em Dorset. por razes 
sentimentais, porque ns descendemos dessa zona.., mas deu-lhe mais despesas que prazer.
- Ele vendeu-a?
- No. Guardou-a.
- Porqu?
- Porque ningum a compraria.
- Bom para o velho!
- No, no foi bom para ele. O pap disse que isso o desgostava,. Chamava-se Swithin.
- Que nome estranho!
- O senhor no acha que ns estamos a distanciar-nos, em vez de nos aproximarmos? A margem est a afastar-se.
- Esplndido! - gritou Michael Mont, lanando vagamente os remos. - Gosto muito de encontrar uma pequena que sabe onde tem o nariz.
- Gosto mais de encontrar um rapaz que tambm o saiba. O jovem Mont ergueu uma das mos aos cabelos.
- Cuidado! - gritou Fleur. - Olhe o remo!
- Est bem! O remo  forte.
- O senhor no se importa de remar? - disse Fleur severamente. - Eu quero saltar.
- Ah! - exclamou Mont. - Mas, quando saltar, no a verei mais, hoje. Fini, como dizia a menina francesa quando subia para a cama, depois de terminar a orao. , 
Voc no abenoa o dia que lhe deu uma me francesa e um nome igual ao seu?
- Gosto do meu nome - disse Fleur -, mas foi o pap que me ps o nome de Fleur. A mam queria que eu me chamasse Marguerite,
- Seria um absurdo. Voc importa-se de me chamar M. M. e deixa que eu lhe chame F. F.?  do esprito da nossa poca.
- No me importo, no, contanto que possa saltar. Mont apanhou um pequeno caranguejo e respondeu:
- Olhe esse tolo!
- Por favor, reme.
- Estou a remar. - E deu algumas remadas, olhando-a com lastimosa energia. - Naturalmente voc j sabe - disse ele pausadamente - que eu vim aqui para a ver, e no 
aos quadros de seu pai?
Fleur ergueu-se.
- Se voc no remar, eu salto para a gua e vou a nado.
- Deveras? Ento eu posso saltar depois de voc.
- Mr. Mont, estou atrasada e cansada. Por favor, ponha-me imediatamente na margem.
Quando ela pisou afinal no pequeno desembarcadouro do jardim, ele ergueu-se e, agarrando os cabelos com ambas as mos olhou-a.
Fleur sorriu.
- No ria! - gritou o impossvel Mont. - Sei que vai dizer "Desaparece, pateta!"
Fleur virou-se e fez-lhe um aceno com a mo.
- Adeus, Mr. M. M. - E desapareceu por entre as roseiras Olhou para o seu relgio de pulso e para as janelas da casa,

110 - 111

que lhe pareceu curiosamente desabitada. Passava das seis! Os pombos j estavam a aninhar-se, o sol-poente batia no pombal, na nevosa plumagem dos pssaros e no 
topo das rvores do bosque. Veio-lhe aos ouvidos o som de bolas de bilhar chocando-se. Jack Cardigan, sem dvida. E o sussurrar das folhas de um eucalipto dava um 
tom meridional quele jardim ingls. Ela chegou  varanda, e ia atravess-la quando parou ao ouvir o som de vozes na sala de estar,  esquerda. Mam! E Monsieur 
Profond.
Por trs da cortina de trepadeiras da varanda, ela ouviu estas palavras:
- No posso, Annette.
Saberia o pai que ele tratava a me por "Annette"? E, como era sempre partidria do pai - os filhos tomam sempre o partido de um dos pais, quando no h harmonia 
entre o casal -, ela parou, indecisa. A me falava na sua voz baixa, agradvel, ligeiramente metlica, e ela apanhou apenas uma palavra: "Demain." E a resposta de 
Profond: "Muito bem." Fleur franziu a testa. Ouviu-se um pequeno rudo no silncio, e, depois, a voz de Profond: "Vou dar uma volta."
Fleur pulou a janela da copa. E ele apareceu, atravessou a varanda, saindo da sala de estar em direco ao jardim. O som das bolas de bilhar que ela deixara de escutar 
enquanto procurava ouvir outra coisa fez-se ouvir. Ento sacudiu-se, passou para o hall e abriu a porta da sala de estar. A me estava sentada no sof entre as duas 
janelas, de pernas cruzadas, a cabea repousando numa almofada, os lbios entreabertos, os olhos semicerrados. Parecia extraordinariamente bonita.
- Ah, c est voc, Fleur! O seu pai j comeava a afligir-se.
- Onde est ele?
- Na galeria dos quadros. Suba!
- Que  que vai fazer amanh, mam?
- Amanh? Vou a Londres com a sua tia.
- Calculei que fosse. Pode trazer-me uma sombrinha?
- De que cor?
- Verde. Todos se iro embora tambm, creio eu.
- Sim. todos. V consolar seu pai. D c um beijo.
Fleur atravessou a sala, parou, recebeu um beijo na testa,

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e viu a forma de um corpo desenhada nas almofadas do sof, ao lado da me. Ento subiu para o andar superior.
Fleur no era de modo algum uma pequena antiquada que exigisse da vida dos pais a mesma regulamentao que era imposta  sua. O que queria era governar a sua vida, 
e no a dos outros e, ademais, crescia nela o instinto de aproveitar tudo o que pudesse ser vantajoso ao seu prprio caso. Sentia que num ambiente domstico perturbado 
teria mais probabilidade de vencer a sua batalha pelo amor de Jon. Mas nem por isso deixava de se sentir magoada como uma flor por uma brusca rajada de vento. Se 
aquele homem estivera realmente a beijar a sua me, aquilo era srio - e o seu pai deveria tomar conhecimento do facto. "Demain." "Muito bem!" E a me indo a Londres! 
Entrou no seu quarto de dormir e chegou at  janela, para refrescar o rosto, que de sbito se tornara ardente.
Jon deveria estar agora na estao! Que saberia o seu pai a respeito de Jon? Provavelmente tudo - ou quase tudo!
Mudou de vestido, de maneira a parecer que j chegara h algum tempo, e correu para a galeria.
Soames continuava obstinadamente de p defronte do seu Alfred Stevens - o seu quadro predilecto. No se voltou ao som da porta que se abria, mas ela sabia que ele 
ouvira e sabia que ele estava magoado. Chegou docemente por trs do pai, ps-lhe os braos em torno do pescoo e esticou o rosto sobre o ombro dele, at que lhe 
encontrou a face. Era um golpe que nunca falhava, mas falhava agora, e ela augurou o pior.
- Bem - disse ele gelidamente -, ento j voltou!
- Isso  tudo o que tem a dizer-me, pap mau? - murmurou Fleur.
E encostou a face contra a dele.
Soames desviou a cabea tanto quanto pde.
- Porque me deixou nesta aflio, abandonando-me completamente?
- Querido, no estive a fazer mal nenhum.
- Mal nenhum! Como se voc soubesse o que  mal e o que  bem.
Fleur deixou cair os braos.

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- Pois ento, querido, conte-me o que h. E seja inteiramente franco.
E encaminhou-se para o sof junto  janela.
O pai afastara-se do quadro e estava de p. Parecia muito triste. "Ele tem ps pequenos e bonitos", pensou a pequena, procurando apanhar-lhe o olhar, que pela primeira 
vez fugia ao seu.
- Voc  a minha nica consolao - disse Soames subitamente -, e vai-se embora dessa maneira.
O corao de Fleur comeou a bater.
- Vou-me embora como, querido?
E novamente Soames lhe lanou um olhar que, se no fosse a afeio contida nele, poderia ser chamado furtivo.
- Voc sabe do que estou a falar. No quero ter nada em comum com esse outro ramo da nossa famlia.
- Sim, papazinho, mas no sei por que razo eu... eu no deva ter.
Soames girou sobre os calcanhares.
- No pretendo entrar em explicaes. Voc deve confiar em mim, Fleur!
O modo como ele disse aquelas palavras comoveu Fleur, mas ela pensou em Jon, e ficou em silncio, batendo o sapato contra o rodap da parede.
Inconscientemente, assumira uma atitude moderna, com uma perna passada sobre a outra, o queixo no punho, o outro brao atravessando o busto, e a mo segurando o 
cotovelo oposto, no havia nela uma linha que no estivesse deslocada, e no entanto, a despeito disso tudo, mantinha uma certa graa.
- Voc conhece os meus desejos - continuou Soames -, e demorou-se l quatro dias mais do que pretendia. E quero crer que aquele rapaz voltou hoje consigo. - Fleur 
ergueu os olhos para o pai. - No estou a perguntar-lhe nada - prosseguiu Soames. - Nunca fao indagaes a seu respeito.
Fleur ergueu-se subitamente, olhando atravs da janela, com o queixo ainda nas mos. O Sol desaparecera por detrs das rvores, os pombos j se tinham agasalhado 
no pombal, o som das bolas de bilhar subia at ali e uma ligeira irradiao vinha da mesa onde Jack Cardigan jogava.

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- Se isso pode faz-lo mais feliz - disse ela de repente -, prometo-lhe que no o verei durante as prximas seis semanas.
Ela no estava preparada para a espcie de tremor que empanou a nitidez da voz do pai.
- Seis semanas? Seis anos! Sessenta anos seria melhor. No se engane a si mesma, Fleur. No se engane a si mesma! - Fleur voltou-se, alarmada, e Soames aproximou-se 
para lhe olhar o rosto. - No me diga - continuou ele - que ter sido louca bastante para alimentar qualquer outro sentimento que no seja um simples capricho. E 
isso j seria de mais! - E Soames riu..
Fleur, que nunca o vira rir assim, pensou: "Ento a coisa  profunda! Oh! Que ser?" E, pondo a mo sobre o brao do pai, disse ligeiramente:
- No, naturalmente, capricho. Apenas eu gosto dos meus caprichos, mas no gosto dos seus, querido.
- Os meus caprichos! - disse amargamente Soames, voltando-lhe as costas.
A luz l fora desaparecera e coava uma brancura marmrea vinda do rio. As rvores tinham perdido toda a sua alegria de colorido. E ela sentiu uma sbita fome pelo 
rosto de Jon, pelas suas mos, pela sensao dos lbios dele contra os seus. E, cruzando apertadamente os braos sobre o peito, forou um pequeno riso.
- , I I! "Que pequena confuso", como diria Profond! Pap, no gosto daquele homem.
Ela viu-o parar e tirar qualquer coisa do bolso do peito.
- No gosta? E porqu?
- Por nada - murmurou Fleur. - Outro capricho!
- No - disse Soames. - No  capricho! - E rasgou aquilo que tinha nas mos. - Voc tem razo. Eu tambm no gosto dele!
- Olhe! - disse Fleur em voz baixa. - L vai ele! Odeio aqueles sapatos que no fazem barulho.
Sob a luz desfalecente, Prosper Profond caminhava com as mos nos bolsos, assobiando de leve sob a barba. Parou e deu uma olhadela para o cu, como se dissesse: 
"No espero muito dessa pequena Lua."
Fleur recuou.
- No parece um gatarro? - sussurrou ela.

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E o som das bolas de bilhar que se chocavam tornou a subir,
como se Jack Cardigan houvesse reduzido o gato, a Lua, o capricho e a tragdia a isto apenas: "Fora o vermelho!"
Monsieur Profond transformara o seu assobio num cantarolar que lhe saa por sob a barba. Que era aquilo? Ah, sim, o Rigoletto: "La Donna  Mobile". Exactamente o 
que ele deveria pensar. E Fleur apertou o brao do pai.
- Vagabundo! - murmurou, enquanto ele contornava a esquina da casa.
Passara j aquele triste momento que divide o dia e a noite, mas ainda havia um pouco de luz e calor, perfumado do aroma de espinheiros brancos e dos lilases no 
ar  beira-rio.
Um melro, subitamente, comeou a cantar. Jon j deveria estar em Londres, quela hora, talvez no parque, atravessando o Serpentine, pensando nela! Um leve rudo 
a seu lado f-la voltar os olhos. O pai estava ainda a amarrotar o papel entre as mos. Fleur viu que era um cheque.
- J no lhe vendo o meu Gauguin - disse Soames. - No vejo o que  que sua tia e Imogen vem nele.
- Ou a mam.
- A sua me!
"Pobre pap", pensou Fleur. "Ele numca parece feliz - e nunca  realmente feliz. No quero tornar-lhe as coisas piores, mas na certa o farei, quando Jon voltar. 
Mas agirei o mais escondido possvel."
- Vou vestir-me - disse ela.
No seu quarto, teve um mpeto de vestir o seu trajo "capricho". Era de lam de ouro com pequenos cales do mesmo tecido, apertado nos tornozelos, com uma Capa de 
pajem caindo sobre os ombros, sapatinhos cor de ouro e um elmo alado de Mercrio, tambm dourado. E por sobre tudo espalhavam-se pequenos sinos de ouro, especialmente 
no elmo. A qualquer movimento de cabea eles soavam. Quando ficou pronta, sentiu-se realmente infeliz, porque Jon no podia v-la,

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e dava-lhe pena tambm que aquele turbulento rapaz, aquele Michael Mont, no pudesse tambm v-la. Mas o gongo soara e ela desceu.
Fez sensao na sala de estar. Winifred considerou o trajo "muito interessante". Imogen estava deslumbrada. Jack Cardigan chamou-lhe "estupefaciente", "espantoso", 
"de abafar", "formidvel". Monsieur Profond, com os olhos sorridentes, disse que "achava o pequeno trajo muito lindo". A me, muito bonita no seu vestido preto, 
ficou sentada a olh-la e no disse nada. Restou apenas o pai para chamar os outros ao senso comum.
- Porque  que vestiu isso? No vai a nenhum baile de mscaras.
Fleur fez uma pirueta e os guizos tocaram.
- Capricho!
Soames olhou-a algum tempo, e depois, afastando-se, ofereceu o brao a Winifred. Jack Cardigan segurou o de Annette. Prosper Profond, o de Imogen. Fleur caminhou 
sozinha, com os seus guizos tocando...
A "pequena Lua" logo desapareceu, e a noite de Maio caiu, macia e quente, envolvendo no seu colorido roxo e na sua fragrncia bilies de caprichos, de intrigas, 
de paixes, de saudades, de desejos de homens e mulheres. Felizes estavam Jack Cardigan, que ressonava encostado ao alvo ombro de Imogen, ou Timothy, no seu mausolu, 
velho de mais para outras coisas que no fossem os desejos vegetativos de um beb. Muitos outros ficavam acordados, insones, ou sonhavam assustados com o pandemnio 
do mundo.
O orvalho caa e as flores fechavam-se. O gado j pastava nas margens do rio, sentindo com a lngua a erva gorda que no podia ver. E os carneiros, no Down, dormiam 
quietos como se fossem de pedra. Os faises, nas altas rvores de Pangbourne, as calhandras nos seus ninhos espinhentos do cimo do Wandson, as andorinhas nas goteiras 
de Robin Hill, e os pardais de Mayfair, todos dormiam um sono sem sonhos, na doura da noite calma. A potra Mayflay, mal acostumada  sua nova morada, embaraava-se 
um pouco na palha fresca, e as poucas coisas vivas dentro da noite - morcegos, mariposas, mochos - sentiam-se vigorosos dentro da escurido tpida. Mas a paz daquela 
noite jazia na calma da prpria Natureza, sem colorido nem movimento.

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Os homens e as mulheres, sozinhos, cavalgando os cavalos de pau da angstia ou do amor, arremetiam pelas ondulosas espirais do sonho, devaneavam na solido.
Fleur, debruada  janela, ouviu o relgio do hall bater doze horas, o saltar de um peixe na gua, o roar das folhas de faia agitadas pela brisa que soprava do 
rio, o distante rolar de um comboio nocturno - e de vez em quando esses sons vindos da escurido que ningum pode definir, suaves e obscuras expresses de emoes 
desconhecidas de homens e animais, aves e mquinas, ou talvez de desaparecidos Forsytes, Darties, Cardigans, em incurses nocturnas por aquele mundo onde outrora 
andaram os seus espritos encarnados. Mas Fleur no escutava esses sons, o seu esprito, longe dos desencarnados, voava com a velocidade de um comboio para uma sebe 
florida, correndo atrs de Jon, tenaz na evocao daquela imagem proibida e no som da sua voz, que era agora tabo. E, enrugando o nariz, procurava no perfume que 
vinha da noite, da margem do rio, a revivescncia daquele momento em que a mo de Jon lhe afastara do rosto o cacho de flores. Muito tempo esteve reclinada vestida 
na sua roupa de fantasia, desejosa de queimar as asas  chama da vida. Entretanto, as mariposas roavam-lhe a face, na sua peregrinao  lmpada do toucador, ignorantes 
de que nas casas dos Forsytes no h chamas abertas. At que finalmente a moa se sentiu sonolenta, e, esquecendo os seus guizos, rapidamente adormeceu.
Atravs da janela do seu quarto, deitado ao lado de Annette, Soames, insone tambm, ouvira um leve tinir, que poderia ser provocado pelas estrelas ou pelas gotas 
de orvalho caindo sobre as flores - se fosse possvel ouvir tais sons.
"Capricho!", pensou ele. "No posso dizer. Ela  voluntariosa. E que poderei fazer? Fleur!"
E pela "pequena noite" dentro ele ficou a meditar.

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SEGUNDA PARTE

CAPTULO I - ME E FILHO


Dizer que Jon acompanhara de m vontade Irene na viagem a Espanha seria mediocremente verdico. Ele foi como iria um co de boa natureza, que acompanhava a dona 
num passeio, embora tendo deixado em casa um suculento osso de carneiro. E andava sempre a pensar naquilo. Os Forsyte, quando privados do seu osso, ficam de mau 
humor, mas Jon tinha pouca disposio para o mau humor. Adorava a me, e aquela era a sua primeira viagem. A Itlia transformara-se na Espanha, mediante esta sua 
simples frase: "Preferia ir a Espanha, mam. A mam j esteve na Itlia tantas vezes, e eu gostaria que ns ambos vssemos coisas novas."
O rapaz era astuto, ao mesmo tempo que ingnuo. Nunca esqueceu que teria de reduzir os dois meses a seis semanas, e ao mesmo tempo no mostrar nenhum sinal visvel 
de que alimentava essa pretenso. E, tratando-se de algum to preso ao seu osso abandonado e to fixado a uma ideia, constituiu um razovel companheiro de viagem, 
indiferente de onde e para onde iam, superior  comida dos hotis e admirando amplamente um pas que se mantm estranho aos mais viajados ingleses. A deciso de 
Fleur, recusando-se a escrever-lhe, fora de profundo alcance, pois libertara-o de toda a febre ou esperana,  chegada a um local novo, permitindo-lhe dedicar imediatamente 
toda a sua ateno aos burricos, aos carrilhes, aos padres,

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aos ptios, aos mendigos, s crianas, aos galos de grande crista, aos sombreros, s sebes de cactos, s brancas aldeias montanhosas, s cabras, s oliveiras, s 
plancies verdejantes, aos pssaros que cantavam em leves gaiolas, s quedas de gua, ao pr-do-sol, aos meles, s mulas, s grandes igrejas, aos quadros e s montanhas 
que se azulavam num horizonte fascinador.
Como j estavam no Vero, gozaram a ausncia de compatriotas. Jon, que, tanto quanto era possvel saber-se, no tinha em si uma gota de sangue que no fosse ingls, 
sentia-se com frequncia desusadamente infeliz na presena dos seus prprios patrcios. Via que eram incapazes de qualquer extravagncia e tinham das coisas uma 
viso muito mais prtica que ele prprio. Confiou  sua me que se supunha um animal anti-social, pois achava esplndido estar longe de qualquer pessoa que pudesse 
estar a falar de coisas em que toda a gente fala. E Irene respondera simplesmente:
- Sim, Jon, eu compreendo.
Naquele isolamento, teve oportunidades nicas para apreciar o que a poucos filhos  dado ver - a amplitude do amor maternal. E esse conhecimento tornou-o mais sensvel 
ainda. O povo meridional do pas onde estavam estimulava a sua admirao pelo tipo de beleza dela. Habituara-se a chamar espanhola  me, e hoje via bem quo diferente 
ela era. A beleza de Irene no era nem inglesa, nem francesa, nem espanhola, nem italiana - era especial. E apreciava tambm, mais que nunca, a subtileza do instinto 
da me. No poderia dizer, por exemplo, se ela notara a sua absoro na pintura de Goya La Vindimia ou se ela descobriu que ele a fora rever furtivamente depois 
do almoo, e novamente, na manh seguinte, para se demorar diante do fresco toda uma meia hora, pela segunda e pela terceira vez. No era Fleur, naturalmente, mas 
era bastante parecida para lhe fazer doer o corao - dor to cara aos amantes -, recordando-a de p, junto  sua cama, com a mo a acariciar-lhe os cabelos. E, 
tendo comprado um postal que reproduzia o quadro. Jon adquiriu rapidamente o mau hbito de o trazer no bolso e de vez em quando olh-lo furtivamente, mau hbito 
que rapidamente deveria ser descoberto por uns olhos aguados pelo amor, pelo receio ou pelo cime.

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E os olhos da me eram aguados por estes trs sentimentos. Em Granada, deixou-se facilmente apanhar, sentado num banco de pedra nos jardins da colina do Alhambra, 
donde fingia contemplar a paisagem. A me, pensava ele, devia estar a examinar os potes de goivos e as accias, quando a voz dela disse:
-  o seu Goya favorito, Jon?
Ele atalhou, tarde de mais no entanto, um movimento idntico aos que fazia no colgio para esconder algum documento sub-reptcio, e respondeu:
- Sim.
- Realmente,  lindo, mas eu creio que prefiro o Guarda-Sol. Seu pai quase enlouquece com os Goya. Creio que ele os viu quando esteve aqui na Espanha em noventa 
e dois.
Em noventa e dois! Nove anos antes de ele nascer! Quais teriam sido as existncias anteriores de seu pai e de sua me? Se tinham o direito de interferir no seu futuro, 
certamente ele tinha o direito de interferir no passado de ambos! E ergueu os olhos para a me. Mas havia algo no rosto de Irene - um ar de vida duramente vivida, 
a marca misteriosa de emoes, experincias e sofrimentos - que lhe parecia, com a sua incalculvel profundidade, a sua perseguida santidade, transformar qualquer 
curiosidade numa impertinncia. A me devia ter tido uma vida maravilhosamente interessante. Era to linda e to... to... Jon no podia exprimir o que sentia acerca 
dela. Ergueu-se e ficou a contemplar a cidade, a plancie verde de searas, o anel de majestosas montanhas luzindo ao sol. A vida dela era como o passado daquela 
velha cidade mourisca, cheia, profunda, remota - e a vida dele era como a prpria infncia, desesperadamente ignorante e inocente!
Diziam que naquelas montanhas do Oeste, que se erguiam sobre a plancie azul-esverdeada, como por sobre o mar, os Fencios haviam vivido outrora - uma raa escura, 
estranha, secreta - sobre aquela terra. A vida da me era assim desconhecida para ele, to secreta como o passado fencio da cidade aos seus ps, cujos galos cantavam 
e cujas crianas brincavam e cresciam alegremente, dia a dia. E ele sentia-se magoado por ela conhecer tudo acerca dele e ele nada saber a respeito dela, excepto 
que o amava e ao pai, e que era linda.

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A sua ignorncia inexperiente - no ganhara nada com a guerra, ao contrrio de quase todos os outros rapazes - fazia-o sentir-se diminudo aos seus prprios olhos.
Naquela noite, da varanda do seu quarto, Jon ficou a olhar para os telhados da cidade, que pareciam colmeias embutidas em azeviche, marfim e ouro. E muito depois, 
j deitado, ainda ficou insone, escutando o grito dos serenos quando as horas batiam e compondo mentalmente estes versos:

Voice in the night crying, down in the all sleeping 
Spanish city darkened under her white stairs!
What says the voice its clear, lingering anguish? Jusit the watchman, teling his dateless tale of safety? Just a roald-man, flinging to the moon his song?
No! 'Tis one deprived, whose lover's heart is weeping Just his cry: "How long?" (1)

A palavra "deprived", parecia-lhe fria e pouco significativa, mas "bereaved" era por de mais definitivo, e no lhe ocorria nenhuma outra, com a mesma silabao, 
que se adaptasse ao verso "cujo corao est em pranto". J passava das duas horas quando acabou o poema, e passava das trs quando conseguiu dormir, depois de afirmar 
a si mesmo mais de vinte e quatro vezes que no pensaria mais naquilo.

*1. Voz que grita na noite, colina que dorme o seu velho sono. Escura cidade espanhola, sob as estrelas brancas!
Que dir a voz na sua clara, arrastada angstia? Ser apenas O vigia contando a sua imemorial histria de proteco? Ou apenas um noctmbulo atirando a sua cano 
 Lua?
No!  algum roubado ao seu amor, cujo corao est em pranto E o seu grito diz: "At quando?"

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No dia seguinte passou o poema a limpo e meteu-o numa das suas cartas a Fleur - cartas que sempre escrevia antes de sair do quarto, de modo a poder ficar com o esprito 
livre e capaz de ser uma boa companhia.
A meio desse mesmo dia, no terrao de azulejo do hotel, sentiu uma dor sbita na nuca, uma' estranha sensao nos olhos, um mal-estar geral. Atacara-o uma insolao. 
Os prximos trs dias passou-os em semiobscuridade, numa espessa e dolorosa indiferena perante tudo, excepto para a sensao de gelo na cabea e o sorriso da me. 
Ela no saiu um instante do quarto, nunca relaxou a sua silenciosa vigilncia, que a Jon parecia anglica. Mas havia momentos em que ele se sentia extremamente magoado 
por si mesmo e desejava intensamente que Fleur pudesse v-lo. Vrias vezes se despediu imaginariamente dela e deste mundo, com os olhos cheios de lgrimas. Preparara 
uma carta que lhe enviaria por intermdio da me - a me que lamentaria amargamente o dia em que decidira separar os dois namorados, a sua pobre me! E no lhe custou 
descobrir, ao mesmo tempo, que agora j tinha um bom pretexto para voltar para casa.
Pelas seis e meia, ouviu-se uma gasgacha de sinos - uma cascata de sons argentinos de carrilhes, que subiam da cidade, l em baixo, e vinham morrendo de carrilho 
em carrilho. Depois de os ouvir no quarto dia, disse de repente:
- Tenho vontade de voltar para Inglaterra, mam. O sol aqui  muito quente.
- Pois bem, querido. Iremos assim que estiver em condies de viajar.
E imediatamente ele se sentiu melhor - e muito vil.
Tinham passado fora cinco semanas quando iniciaram a volta para casa. A cabea de Jon recuperara a antiga lucidez, mas era obrigado a usar um chapu cuja aba a me 
forrara com seda verde e andava de preferncia na sombra. E quando a longa luta de discrio travada entre os dois chegou a esse desenlace, o rapaz cismava cada 
vez mais se Irene perceberia a urgncia que ele sentia em voltar quela de quem ela o separara. Condenado pela Providncia espanhola a passar dois dias em Madrid, 
entre dois comboios, nada seria mais natural que uma visita ao Prado. Jon fingiu a mais cuidadosa naturalidade, daquela vez,

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diante da sua rapariga de Goya. Agora, que voltava para junto da amada, podia mostrar mais segurana. Foi a me que se deteve diante do fresco e disse: - O rosto 
e o corpo dessa rapariga so um encanto. Jon ouviu-a, pouco  vontade. Seria que ela compreendia? Mas sentia mais uma vez que no tinha foras para lutar com a me 
no terreno do autodomnio e da subtileza. Por um processo supersensvel, cujo segredo nunca apanhara, a me podia sempre tomar o pulso dos seus pensamentos, conhecendo 
por instinto tudo o que ele esperava:, temia e desejava. E aquilo fazia-o sentir-se terrivelmente desconsolado e culpado, pois tinha uma conscincia, ao contrrio 
de muitos rapazes. Desejaria que ela fosse franca, quase aspirava por uma luta aberta. Mas nada disso sucedeu, e rapidamente, silenciosamente, viajaram em direco 
ao norte. E isso foi a primeira lio que Jon recebeu acerca da capacidade que tm as mulheres - muito superior  dos homens - para suportarem a provao de uma 
espera. Em Paris, tiveram de se demorar um dia ainda. Jon ficou magoado porque aquele dia foi ampliado para dois, por questes referentes a costuras e costureiras... 
como se sua me, que ficava linda com qualquer coisa, tivesse alguma necessidade de vestidos! O momento mais feliz da viagem foi quando embarcaram no barco de Folkestone. 
Encostada  amurada, com o brao no do filho, ela disse:
- Receio que no se tenha divertido muito, Jon. Mas foi um anjo para mim.
Jon apertou-lhe o brao.
- Oh, no. diverti-me muitssimo. Excepto, naturalmente, com a insolao.
E realmente, agora que o fim chegara, descobria uma espcie de encanto naquelas semanas passadas em Espanha - uma espcie de prazer doloroso, idntico ao que tentara 
descrever no seu poema acerca do clamor nocturno do sereno, um sentimento idntico ao que sentia quando ouvia Chopin, em menino, e tinha vontade de chorar. E Jon 
perguntava a si mesmo que era que o impedia de dizer  me o mesmo que ela to singelamente lhe dissera: "Voc foi um anjo para mim."

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Engraado - no se pode s vezes ser gentil e natural ao mesmo tempo! E substituiu a frase desejada por esta outra:
- Creio que vamos enjoar.
Enjoaram, chegando a Londres de certo modo aplacados, tendo estado fora seis semanas e dois dias, sem jamais terem feito a menor aluso ao assunto que nem um instante 
deixara de lhes ocupar o esprito.

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CAPTULO II - PAIS E FILHAS


Despojado da mulher e do filho pela aventura  Espanha, Jolyon achou intolervel a solido de Robin Hill. Um filsofo que dispe de tudo o que deseja  muito diferente 
de um filsofo que no possui nada do que quer. Acostumado, entretanto, se no  realidade, pelo menos  ideia da resignao, teria atravessado a sua provao se 
no fosse a interferncia de June. Ele era agora um "desvalido", na conscincia dela. E, depois de liquidar temporariamente as operaes de socorro a um gravador 
em dificuldades, June apareceu em Robin Hill quinze dias aps a partida de Irene e Jon. Ela vivia agora numa minscula casinha com um grande estdio em Chiswick. 
Como Forsyte do melhor perodo - tanto quanto o comportava a sua carncia de responsabilidade -, June resolvera a dificuldade criada por um rendimento reduzido de 
modo a satisfazer a si prpria e ao pai. Como o aluguer da galeria de Cork Street que ele lhe comprara e o seu imposto sobre a renda, grandemente aumentado, mais 
ou menos se equivaliam, ela resolveu o problema deixando de pagar ao pai o aluguel. Depois de dezoito anos de usufruto deficitrio, a galeria acabaria por compensar 
as despesas feitas - pensava ela, embora tivesse a certeza de que o pai pensava de modo muito diverso. Graas a esse plano, ainda dispunha de mil e duzentas libras 
por ano, reduziu as despesas de mesa,

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e, em vez de dois belgas cados na misria, passou a empregar uma austraca mais pobre ainda, e ficou a dispor praticamente dos mesmos rendimentos, para correr em 
auxlio dos seus "gnios".
Depois de uma estada de trs dias em Robin Hill, trouxe o pai para Londres. Nesses trs dias, descobrira o segredo que ele escondia j h dois anos, e instantaneamente 
decidira-se a cur-lo. Conhecia, na verdade, o homem indicado para isso. Ele fizera maravilhas com Paul Post, um pintor um pouco adiantado ao futurismO e impacientou-se 
com o pai porque ele ergueu as sobrancelhas ao ouvi-la dizer isso e sem querer dar-lhe ouvidos.
Naturalmente, se ele no tinha "f", nunca haveria de melhorar! Era absurdo no ter f no homem que tinha curado Paul Post, embora ele houvesse agora recado, por 
excesso de trabalho, ou por excesso de vida, mas por culpa prpria. A grande descoberta desse curador era que ele agia de acordo com a Natureza. Fizera um estudo 
especial acerca dos sintomas da Natureza - quando o doente carecia de algum sintoma natural ele supria o veneno que o provocara -, e era tudo. Ela tinha imensas 
esperanas. O pai, evidentemente, no estava a viver uma vida natural em Robin Hill, e ela tencionava fornecer-lhe os sintomas. Via bem que ele no tinha qualquer 
contacto com o tempo - o que no era natural. O seu corao carecia de um estmulo. Na sua casinha de Chiswick, ela e a austraca - uma alma agradecida, devotadssima 
a June por a ter recolhido quando ela estava prestes a adoecer de excesso de trabalho - estimulavam Jolyon de todas as maneiras, preparando-o para a cura. Mas no 
conseguiam faz-lo baixar as sobrancelhas. Como, por exemplo, quando a austraca vinha despert-lo s oito horas, exactamente quando ele comeava a dormir, ou quando 
June lhe tirava o Times das mos, porque era antinatural ler "idiotices", quando o que ele deveria fazer era tomar interesse pela "vida". E ele nunca deixava, realmente, 
de ficar atnito com os recursos dela, especialmente  noite. Para benefcio do pai, declarava ela - embora ele suspeitasse de que a filha tambm se aproveitasse 
daquilo -, reunia em torno de si a Nova Gerao, representada por aqueles dos seus membros que punham nela a marca do gnio. E, com certa solenidade,

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a Nova Gerao evolua acima e abaixo no estdio, diante dele, nos passos do fox-trot ou naquela outra forma de dana ainda mais intelectual - o one-step -., e to 
em desacordo com a msica que as sobrancelhas de Jolyon quase se perdiam nos cabelos, ao pensar na rijeza de fora de vontade que ela exigia dos danarinos. Ciente 
de que era, embora ocupasse um lugar de grande importmcia na sociedade dos aguarelistas, um desconhecido no meio daqueles que se dizem artistas, sentava-se no canto 
mais obscuro que achava e meditava a respeito de ritmo, do qual tinha uma concepo mais antiquada.
E quando June lhe trazia um rapaz ou uma pequena, ele tentava humildemente, tanto quanto lhe era possvel, guindar-se ao nvel deles e pensava: "Valha-me Deus! Isto 
 muito tolo para eles!" Como herdara do pai a sua perene simpatia pela juventude, costumava ficar muito cansado do esforo que fazia para lhes compreender os pontos 
de vista, mas tudo aquilo era estimulante, e ele nunca deixou de admirar o indomvel esprito da filha. Cada um dos gnios esperava, de nariz de lado, a oportunidade 
daquela apresentao, e June nunca deixava de os trazer um a um ao pai. Ela sentia que aquilo era excepcionalmente bom para ele - pois June reconhecia, apesar de 
adorar o pai, que o gnio era um sintoma natural que ele nunca demonstrara.
To certo quanto um homem pode estar de que ela era sua filha, ele espantava-se sempre de a ter gerado, com aqueles cabelos de um louro avermelhado, que estavam 
agora grisalhos, num tom inteiramente especial, o rostinho directo e vivo, to diferente da sua expresso subtil e irnica, a minscula estatura, quando ele e todos 
os Forsyte eram altos. E, discutindo a origem das espcies, ele discutia consigo mesmo se ela seria dinamarquesa ou celta. Celta, decerto, pela sua alminha belicosa, 
pelo seu amor por redes orientais e djibbahs. No era dizer muito afirmar que ele a preferia a toda a Nova Gerao que a cercava, embora esta ltima fosse to jovem, 
como na maior parte o era.
June tomava um desmedido interesse pelos dentes dele, porque ele ainda possua muitos desses sintomas naturais. O dentista dela descobrira neles staphylococcus aureus 
- o que naturalmente produz abcessos - e pretendia arrancar-lhos todos e prov-lo com duas fileiras completas de sintomas antinaturais.

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A tenacidade visceral de Jolyon insurgiu-se, e naquela noite, no estdio, apresentou as suas objeces. Nunca tivera abcessos e os seus dentes dariam para o resto 
da vida.
-  claro - admitiu June - que em breve lhe traro o fim da vida, se no forem arrancados!
Mas, se arrancasse os dentes, melhoraria do corao e a sua vida seria mais longa. A recalcitrncia do pai, dizia ela, era um sintoma de toda a sua atitude: ele 
queria ficar na inao, quando, pelo contrrio, deveria lutar. Porque no queria ver o homem que curara Paul Post? Jolyon sentia muito, mas a verdade  que no iria 
ver esse tal indivduo.
June irritou-se. Pondridge, o naturista - disse ela - era um homem de primeira ordem e lutava com as maiores dificuldades para atravessar a vida e fazer que dessem 
ateno  sua teoria. E era justamente aquela indiferena, aqueles preconceitos, manifestados pelo pai, que o atrasavam. Seria to maravilhoso para ambos essa cura!
- Compreendo - disse Jolyon. - Voc est a querer matar dois coelhos com uma cajadada.
- Matar no, curar! - exclamou June.
- Minha querida,  a mesma coisa.
June protestou. No era correcto dizer aquilo antes de fazer uma tentativa.
Jolyon receava no ter probabilidades de dizer aquilo, se o tentasse.
- Pap! - exclamou June. - O senhor  um caso perdido!
-  um facto - concordou Jolyon -, mas, embora seja um caso perdido, quero continuar a viver o mais tempo que puder.
"No acorde os ces que dormem." Eles agora esto calmos.
- Isso  recusar uma oportunidade  cincia - continuou June. - O senhor no tem a menor ideia de como Pondridge  dedicado. Ele pe a cincia  frente de tudo.
- Exactamente - disse Jolyon, aspirando a cigarrilha de fumo fraqussimo a que estava reduzido -, exactamente como Mr. Paul Post pe a sua arte acima de tudo, hem? 
Arte pela arte... cincia pela cincia! Eu conheo bem todo esse cl entusistico e egomanaco.

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Vivissecam uma pessoa num piscar de olhos. Tenho bastante de Forsyte em mim para os mandar passear, June.
- Pap - disse June -, se soubesse como  antiquado isso que est a dizer! Ningum pode ser indiferente a nada, hoje em dia!
- Receio - disse ele - que seja esse o nico sintoma natural que Mr. Pondridge no possa descobrir em mim. A gente nasce para ser excessivo ou moderado, minha cara. 
E, se me perdoa que eu lhe diga isto, metade da gente de agora, embora pense que  muito entusistica,  na verdade muito moderada. Vou-me aguentando mais ou menos, 
e quero continuar assim.
June ficou silenciosa, porque j tinha experincia do carcter inexorvel, da amigvel obstinao do pai. todas as vezes que se tratava da prpria liberdade de aco.
Como foi que ele a deixou perceber o motivo da ida de Irene com Jon para Espanha, era um problema que atormentava Jolyon. porque ele tinha pouca confiana na discrio 
da filha E houve acerca disso uma intensa discusso entre ambos, no decorrer da qual Jolyon 'percebeu bem a oposio fundamental que havia entre o activo temperamento 
da filha e a natureza passiva de sua esposa. E chegou mesmo a descobrir que ainda havia um resto de mgoa remanescente da velha luta que se travara entre as duas 
por sobre o corpo de Philip Bosinney, - luta na qual o elemento passivo triunfara completamente sobre o activo.
Segundo June, era loucura, e at mesmo covardia, esconder o passado a Jon. Vergonhoso oportunismo, era o que ela lhe chamava.
- Oportunismo que  o princpio por excelncia de toda a vida real, minha filha.
- Oh - exclamou June -. o senhor no pode defend-la por no ter contado nada a Jon, pap! No seu lugar, j o teria feito.
- Talvez, mas apenas porque sei que ele acabar por descobrir tudo, e  melhor que o saiba por nosso intermdio.
- Ento porque no lhe fala?  ainda aquela histria de "no acordar os ces que dormem"!

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- Minha filha - explicou Jolyon -. por nada do mundo eu agiria contra os instintos de Irene. Jon  filho dela.
- Tambm  seu filho - gritou June.
- Que  o instinto de um homem comparado com o instinto maternal?
- Bem. eu acho que isso  uma fraqueza da sua parte.
- Talvez - disse Jolyon -, talvez.
E foi tudo o que ela pde arrancar do pai, mas o assunto ficou a trabalhar na cabea de June. Ela no podia suportar a tal histria de no acordar os ces que dormem, 
e aquilo despertou nela um impulso tortuoso de forar uma deciso para o assunto. Jon tinha de saber tudo, pois s assim os seus sentimentos nascentes poderiam ser 
desfeitos ainda em boto ou, se florescessem a despeito do 'passado, conseguiriam frutificar. E resolveu procurar Fleur e julgar as coisas por si. Quando June resolvia 
qualquer coisa, o tacto transformava-se numa considerao insignificante. Afinal, era prima de Soames, e ambos se interessavam por pintura. Ela procur-lo-ia e dir-lhe-ia 
que ele devia comprar um Paul Post, ou talvez uma escultura de Bons Strummolowski, e naturalmente nada diria a seu pai sobre esse projecto. E p-lo em prtica no 
primeiro domingo, com uma aparncia to determinada que teve dificuldades em encontrar um txi na estao de Reading.
A margem do rio estava encantadora naquele dia de Junho, e June sentia-se magoada com tanta beleza. Ela, que passara toda a vida sem saber o que era a unio de duas 
criaturas, tinha um amor quase doentio pelas belezas naturais. E quando chegou s proximidades da casa de Soames, despediu o carro, porque, terminado o assunto, 
pretendia passear junto  gua luminosa e atravs do bosque. Apareceu  porta do primo como simples pedestre e mandou-lhe o seu carto. June tinha a convico de 
que, quando os seus nervos se agitavam, estava a fazer algo que valia a pena. Quando os nervos ficavam calmos, tomava a linha de menos resistncia, pois compreendia 
que no eram os motivos nobres que a impulsionavam. Foi levada a uma sala de estar,

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que, apesar de no ser no seu estilo, apresentava todas as marcas de uma luxuosa elegncia. E, dizendo a si mesma "Gosto excessivo... muita ninharia intil", viu 
num espelho, emoldurado em laca antiga, o vulto de uma moa que chegava atravs da varanda. Vestida de branco e trazendo na mo um braado de rosas tambm brancas, 
a pequena lembrava uma apario, como se um lindo fantasma houvesse irrompido do jardim.
- Como vai? - disse June, voltando-se. - Sou prima de seu pai.
- Oh, sim. Vi-a naquela confeitaria.
- Estava com meu irmo mais novo. Seu pai est?
- Deve estar quase a chegar. Saiu para um passeio rpido. June apertou um pouco os seus olhos azuis e ergueu o queixo
resoluto.
- O seu nome  Fleur, no ? Holly falou-me de si. Que  que pensa de Jon?
A moa levantou um pouco as rosas na mo, olhou-as e respondeu calmamente:
-  um ptimo rapaz.
- No se parece em nada com Holly ou comigo, pois no?
- Realmente.
"Ela  fria", pensou June. E subitamente a moa disse:
- Gostaria que me contasse por que razo as nossas famlias no se do.
E defrontando a pergunta que ela aconselhara ao pai responder, June guardou silncio. Talvez porque a pequena estava a tentar arrancar-lhe uma confidncia ou simplesmente 
porque aquilo que a gente aconselha teoricamente no  precisamente a mesma coisa que se quer fazer na altura exacta.
- Como sabe - continuou Fleur -, o meio mais seguro de fazer que uma pessoa descubra as piores coisas  deixarem-nos ignorantes. Meu pai disse-me que houve uma briga 
a respeito de propriedade. Mas no acredito nisso. Ambas as famlias tm montes de propriedades. E, afinal, eles no seriam to bourgeois assim.
June ficou rubra. Aquela palavra, aplicada ao seu av e ao seu pai, ofendeu-a.

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- Meu av era um homem extraordinariamente generoso e meu pai  igual a ele. Nenhum dos dois tinha ou tem nada de bourgeois.
- Pois ento que sucedeu? - repetiu a moa. Consciente de que aquela jovem Forsyte estava decidida a
conseguir o que queria, June imediatamente resolveu contrari-la e tomou por sua vez a ofensiva.
- Para que quer saber?
A pequena cheirou as rosas.
- Quero saber porque ningum quer contar-me.
- Bem, tratou-se de propriedade, mas de mais de uma espcie de propriedade.
- Ainda pior. Agora, na verdade, eu preciso de saber.
O pequeno rosto resoluto de June tremeu. Tinha posto um chapeuzinho redondo, e os seus cabelos estavam escondidos sob ele. Parecia realmente jovem, naquele instante, 
rejuvenescida pelo encontro.
- Escute - disse ela. - Vi-a deixar cair o seu leno no cho. Existe alguma coisa entre voc e Jon? Porque, se houver, o melhor  voc deixar cair isso tambm.
A pequena empalideceu, mas sorriu.
- Se houvesse, no seria esta a maneira de nos afastar.
Ante a coragem daquela resposta, June segurou-lhe a mo.
- Gosto de si, mas no gosto de seu pai, nunca gostei.  melhor usar de franqueza.
- A senhora veio aqui para lhe dizer isso? june riu.
- No. Vim aqui para a ver.
- Quanta amabilidade.
Aquela pequena sabia dissimular.
- Tenho duas vezes e meia a sua idade - disse june -. mas realmente, compreendo o seu sofrimento.  horrvel uma pessoa no poder agir  sua vontade.
A pequena sorriu novamente.
- Na verdade, creio que a senhora tem a obrigao de me contar.
Como aquela garota martelava no que queria.
- O segredo no  meu. Mas vou ver o que posso fazer, pois acho que tanto voc como Jon devem tomar conhecimento de tudo.

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E agora, despeo-me.
- No quer esperar pelo pap? June abanou a cabea.
- Como  que posso atravessar para o outro lado do rio?
- Levo-a no meu barco.
- Escute! - disse impulsivamente June. - A primeira vez que for a Londres, v ver-me.  aqui que moro.  noite geralmente tenho muita gente moa em casa. Mas no 
comunicarei ao seu pai as suas visitas.
A pequena acenou concordando.
Vendo-a remar no barquito, June pensava: " realmente muitssimo bonita e bem feita de corpo. Nunca pensei que Soames pudesse ter uma filha to linda. Ela e Jon 
do um par muito bonito."
O instinto da unio amorosa, frustrado para ela prpria, trabalhava sempre dentro de June. E ficou a olhar a pequena a remar de volta. Fleur tirou uma das mos do 
remo e fez um gesto de adeus, e June ps-se a passear languidamente pelos campos da margem, com uma forte dor no corao. Juventude com juventude, tal como as liblulas 
que se perseguiam e se amavam ao calor do sol. A juventude! Desde quando... quando Phil e ela - e desde ento? Ningum - ningum corporificara jamais o que ela desejava. 
E, assim, fora frustrada de tudo. Porm, que complicao com aqueles dois garotos, se eles realmente estavam apaixonados, como Holly o estivera - tal como o receavam 
seu pai, Irene e o prprio Soames! Que complicao - e que empecilhos! E o desejo veemente pelo futuro, o desprezo pelo passado - que representam o princpio activo 
da vida e se agitavam no corao daquela mulher que sempre acreditara que aquilo que algum quer  muitssimo mais importante do que o que os outros no querem. 
Enquanto isso, espiava da margem os lrios-d'gua. os salgueiros, os saltos dos peixes, aspirava o cheiro da relva, cismando como poderia forar algum a ser feliz. 
Jon e Fleur. Dois pequenos "desvalidos" - lindos, encantadores desvalidos! Que pena! Na certa algo deveria ser feito! Ningum pode permitir que uma coisa dessas

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prossiga indefinidamente. Continuou a caminhar e chegou a uma estao, afogueada e cheia de calor.
Naquela noite, fiel ao seu impulso pela aco directa - o que fazia que muitas pessoas a evitassem -, June disse ao pai:
- Pap, fui visitar essa menina Fleur. Achei-a muito atraente. No acha que no adianta escondermos a cabea debaixo da asa, pois no?
Jolyon, estremecendo, pousou o caldo de cevada e ps-se a esmigalhar o po.
- Era isso exactamente o que voc deveria fazer - disse ele, - j pensou em quem  o pai dessa menina?
- No pode o passado morto ser enterrado? Jolyon ergueu-se.
- H coisas que no podem ser enterradas.
- No concordo - insistiu June. -  isso que entrava o caminho de toda a felicidade e de todo o progresso. O senhor no compreende esta poca, pap. Hoje, certas 
coisas antigas j no tm razo de ser. Porque imagina consequncias to terrveis do que Jon possa saber a respeito da me? Quem se importa com essas coisas hoje 
em dia? As leis do casamento ainda so as mesmas que impediram Soames e Irene de obterem um divrcio, tornando necessria a sua interferncia, mas, se elas no mudaram, 
ns mudmos. De forma que j ningum se preocupa com tais leis. O casamento, sem uma perspectiva decente de libertao, fica sendo apenas uma espcie de propriedade 
de escravo. E ningum tem o direito de ser proprietrio de outra criatura. Toda a gente compreende isso hoje. Se Irene quebrou, pois, essas leis,
qUe importncia isso pode ter?
- No cabe a mim discordar do que voc est a dizer - objectou Jolyon -. mas a questo transcende muito isso.  um problema de sentimentos humanos.
- Naturalmente  - exclamou June. - Os sentimentos humanos daqueles dois garotos.
- Minha filha - disse jolyon com suave exasperao -, est a dizer tolices.
- No estou. Se eles realmente esto apaixonados um pelo outro, porque seriam infelizes por causa do passado?

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- Voc no viveu esse passado. Eu vivi-o... atravs dos sentimentos de minha mulher, atravs dos meus nervos e da minha imaginao. como  sempre possvel a quem 
ama profundamente.
June ergueu-se tambm e ps-se a caminhar agitadamente
- Se Fleur fosse filha de Philip Bosinney - disse ela - eu poderia compreend-lo melhor. Irene amou-o, nunca amou Soames.
Jolyon soltou uma exclamao surda. O seu corao comeara a bater furiosamente, mas no lhe prestava ateno, arrastado pelos seus sentimentos.
- Isso mostra quo pouco voc compreende. Nem eu, nem Jon, se o conhecesse, se importaria com um passado amoroso. O terrvel  a brutalidade da unio sem amor. Essa 
moa  a filha do homem que foi proprietrio da me de Jon. tal como o  o senhor de uma negra cativa. E esse fantasma ningum pode destruir. No o tente, June! 
 querer que nos consintamos que Jon se una  carne e ao sangue do homem que possuiu a me de Jon contra a vontade dela. No adianta medir as palavras. Quero esclarecer 
isto uma vez por todas. E agora no falemos mais nisto, ou terei de ficar sentado ali a noite inteira.
E, pondo a mo sobre o corao, Jolyon voltou as costas  filha e ps-se a olhar o Tamisa.
June, que era da raa de So Tom e s via uma coisa quando lhe punha o dedo em cima, estava seriamente alarmada. Aproximou-se e ps o brao na cintura do pai. Ainda 
no estava convencida de que ele tinha razo, e de que ela no a tinha, pois isso no era possvel da sua parte, mas estava profundamente impressionada ante o abalo 
que tal discusso provocara em Jolyon. Encostou o queixo ao ombro dele e no disse mais nada.

Depois de desembarcar a prima na outra margem, Fleur no abicou logo a terra, ficando a vaguear por entre os juncos, ao sol. A plcida beleza da tarde seduzia-a, 
embora no sentisse muita inclinao para as coisas vagas e poticas. No campo defronte do qual o seu barquinho vogava, ela via uma segadora, puxada por um cavalo 
baio. E olhava fascinada para a relva que cascateava entre as rodas: parecia to fresca e to verde! O rumor da mquina casava-se com o farfalhar dos salgueiros 
e dos lamos e o arrulhar de um pombo bravo, formando uma verdadeira cano do rio. Atravs da correnteza profunda e verde, ervas aquticas, como serpentes amarelas, 
lutavam contra a fora do rio. e na sombra, l longe, alguns animais deitavam-se preguiosamente, agitando de vez em quando as caudas. Era uma tarde propcia ao 
sonho. Ela tirou do bolso as cartas de Jon, sem efuses floreadas, descrevendo simplesmente as coisas vistas e feitas e traduzindo uma grande saudade, muito agradvel 
a Fleur. E terminavam assim: "Sempre seu, J." Fleur no era sentimental, os seus desejos eram sempre concentrados e concretos, mas, se a filha de Soames e Annette 
era capaz de alguma poesia, isso teria de desabrochar naquelas semanas de espera, em que ela ia reunindo as lembranas de jon em torno de si. Todas elas se ligavam 
a ervas e prados, flores e gua corrente. E ela revia-o nos aromas que aspirava ali. as estrelas poderiam persuadi-la de que estava ao lado dele, no centro do mapa 
da Espanha. E, pelas madrugadas, uma teia de aranha matinal, a enevoada promessa do dia caindo sobre o jardim, personificavam Jon aos olhos da rapariga.
Dois cisnes brancos aproximaram-se majestosamente, enquanto ela relia as suas cartas, seguidos por uma linha de seis filhos, que guardavam regularmente uma distncia 
mnima entre a cauda de um ao bico do outro - uma flotilha de barcos cinzentos. Fleur guardou as cartas, agarrou os remos e rumou para o desembarcadouro. Atravessando 
o relvado, perguntava a si mesma se falaria ao pai na visita de June, porque, se ele tivesse conhecimento disso pelo mordomo, estranharia a filha no lhe ter dito 
nada. Aquilo talvez lhe proporcionasse novo pretexto para arrancar dele a verdade sobre a briga de famlia, e, resolvida, dirigiu-se  estrada, ao encontro do pai.
Soames fora visitar um terreno que as autoridades locais destinavam a um sanatrio para doentes dos pulmes. Fiel ao seu individualismo de nascena, no tomava parte 
nos negcios locais. contentando-se em pagar a sua parte nas quotas organizadas entre os proprietrios.

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No podia, no entanto, manter-se indiferente a esse novo e perigoso projecto. O local era a cerca de meia milha de sua casa. Concordava inteiramente na necessidade 
de abrigar e tratar os tuberculosos, mas no ali. Que o fizessem mais longe. : tomou, em consequncia, a atitude caracterstica de todo o Forsyte legtimo: nada 
tinha que ver com os prejuzos dos outros e o Estado que cumprisse as suas obrigaes sem prejudicar em nada as vantagens naturais que ele adquirira ou herdara. 
Fraude, o esprito mais liberto da sua gerao de Forsyte
- excepto talvez o de Jolyon filho -, perguntara-lhe uma vez, no seu jeito malicioso: "Voc j viu alguma vez, o nome de um Forsyte numa petio pblica qualquer, 
Soames?", Era verdade,
- devia ser assim mesmo, mas aquele sanatrio depreciaria os arredores, e ele estava portanto pronto a assinar qualquer protesto que se fizesse contra aquilo. Regressando, 
com a sua deciso recm-tomada. avistou Fleur que lhe vinha ao encontro.
Ultimamente a pequena demonstrava-lhe mais afeio que nunca, e os calmos dias que ele passava com ela, ali na casa de campo, faziam-no sentir-se realmente jovem. 
Annette andava sempre de viagem para Londres, a qualquer pretexto, de forma que ele tinha Fleur s para si, muito mais do que o ousaria esperar.  verdade que o 
jovem Mont adquirira o hbito de aparecer na sua motocicleta quase todos os dias. Graas a Deus, o rapaz rapara aquele bigode em forma de escova e j no parecia 
um saltimbanco! Com uma amiguinha de Fleur que estava hospedada em sua casa e um ou outro rapaz da vizinhana, eles compunham dois pares jovens, depois do jantar, 
e danavam no hall, ao som da pianola elctrica que tocava sem pianista os seus fox-trots, com um brilho esquisito na superfcie polida.
At mesmo Annette uma vez ou outra passava graciosamente pelo brao de um dos rapazes. E, Soames, chegando  porta da sala de estar, ficava a olh-los, procurando 
apanhar um sorriso de Fleur, depois voltava  sua cadeira, no meio da sala de estar, percorrendo com os olhos o Times ou um catlogo de preos de quadros para coleccionadores. 
E aos seus olhos sempre inquietos Fleur no dava sinal nenhum de recordar o passado capricho.
Quando ela o alcanou, na estrada empoeirada, ele agarrou-a pelo brao.
- Adivinhe, pap, quem veio fazer-lhe uma visita? No pde esperar. Adivinhe!
- Nunca adivinho - disse Soames, pouco  vontade. - Quem?
- Sua prima June Forsyte.
Inconscientemente, Soames apertou com fora o brao da filha.
- Que queria ela?
- No sei. Mas essa visita representa realmente uma quebra na intriga, no?
- Intriga? Que intriga?
- A intriga que existe na sua imaginao, querido. Soames soltou-lhe o brao. Estaria ela a troar ou quereria
arrast-lo a qualquer parte?
- Decerto queria que eu comprasse algum quadro - disse ele.
- No creio. Talvez fosse pura afeio de famlia..
- Ela  apenas minha prima - resmungou Soames.
- E filha do seu inimigo.
- Que  que voc quer dizer com isso?
- Peo-lhe perdo, querido. Pensei que ele era seu inimigo.
- Inimigo! - repetiu Soames. - isso  uma histria antiga. No sei onde consegue as suas informaes.
- De June Forsyte.
Viera-lhe uma inspirao: se ele pensasse que ela sabia, ou que estava prestes a saber, talvez falasse.
Soames estava estupefacto, mas Fleur subestimara o seu cuidado e a sua tenacidade.
- Se voc sabe - disse ele friamente -. para que est a atormentar-me?
Fleur viu que ele lhe atava as mos.
- No estou a atorment-lo, querido. Como voc diz, para que quero eu saber mais? E porque quero eu saber tudo a respeito desse "pequeno mistrio"? Je men fiche, 
como diria Profond.
- Aquele sujeito! - exclamou surdamente Soames.
O sujeito, com efeito, representava um papel considervel,
embora invisvel, naquela temporada de Vero - porque ele no
voltara l. Desde o domingo em que Fleur ficara a espi-lo no seu passeio pelo relvado.

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Soames pensara muito nele, e sempre em conexo com Annette - por nenhuma razo especial, apenas porque ela estava cada vez mais bonita, bonita como no a via h 
muito tempo. O seu instinto de proprietrio, subtil, menos formal, mais elstico desde depois da guerra, apanhava qualquer equvoco Oculto. Tal como algum que, 
na margem de um rio americano, fita o cenrio plcido e agradvel, sabendo que talvez haja um jacar escondido na lama, com a dentua pronta, confundindo-se com 
qualquer velho tronco atirado  beira da gua. assim Soames olhava a margem da sua prpria existncia, com a certeza subconsciente da presena de Monsieur Profond, 
mas recusando-se a ver mais que a suspeita da sua dentua. Naquela poca da vida, ele possua praticamente tudo com que sonhara - e sentia-se to feliz quanto a 
sua natureza o poderia permitir. Os seus sentidos estavam em repouso, as suas afeies recebiam todo o alimento de que careciam no carinho da filha, a sua coleco 
era famosa, o seu dinheiro estava muito bem colocado, a sua sade era excelente, salvo uma dorzinha no fgado, uma vez ou outra, e ele no comeara ainda a pensar 
seriamente no que poderia sobrevir depois da morte, inclinado a crer que nada sobreviria. Assemelhava-se a um dos seus prprios valores de fundos pblicos, garantidssimos, 
e perturbar aquela segurana procurando descobrir algo que poderia evitar parecia-lhe instintivamente perverso e retrgrado. Aquelas duas ameaas ocultas - o capricho 
de Fleur e a dentua de Monsieur Profond - acabariam por desaparecer se ele soubesse afund-los habilmente.
Mas naquela noite o Destino, que visita a vida at mesmo dos mais garantidos Forsytes, ps uma arma nas mos de Fleur. O pai desceu para o jantar sem trazer um leno 
e sentiu necessidade de assoar o nariz.
- Vou buscar-lhe um. paizinho - disse ela, correndo pela escada. No sachet onde ela foi tirar o leno havia dois compartimentos: um destinado aos lenos, enquanto 
o outro estava abotoado, contendo algo de grosso e rijo. Levada por um impulso meio infantil, Fleur desabotoou-o. Havia aLi uma, moldura, e nela um retrato seu quando 
pequenina. Fixou-o fascinada, movida por um obscuro pressentimento. O retrato deslizou um pouco sob o seu polegar. e ela viu que por baixo havia outra fotografia.

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Empurrou melhor o retrato de cima e percebeu um rosto, que supunha conhecer: uma mulher jovem, muito linda, com um vestido de noite  moda antiga. Repondo o seu 
retrato no lugar, ela agarrou um leno e desceu. E s quando estava na escada identificou aquele rosto: sem dvida nenhuma, era a me de Jon! A convico foi como 
um choque sbito. Ento parou, num turbilho de pensamentos. Sim, naturalmente! O pai de Jon casara com a mulher com quem seu prprio pai quisera casar, enganara-o, 
ludibriara-o na disputa, talvez. E ento, receosa de dar alguma demonstrao de que descobrira o segredo, recusou-se a pensar mais naquilo, e, agitando o leno de 
seda, entrou na sala de jantar.
- Escolhi o mais macio, pap.
- Hum! - disse Soames. - Eu sempre uso esses depois de um defluxo. Mas no importa!
Aquela noite, Fleur passou-a toda a reconstituir as peas do quebra-cabeas, rememorando a fisionomia do pai na confeitaria - um olhar estranho e profundo, esquisitssimo. 
Ele deveria ter amado de mais aquela mulher, para lhe guardar ainda o retrato durante todo esse tempo - mesmo depois de a ter perdido. Positiva, sem preconceitos, 
o seu esprito deteve-se ento nas relaes do pai com a me. Seria que ele algum dia a amara? Achava que no. Jon era o filho da mulher que ele realmente amara. 
Com certeza, ento, no se importaria que sua filha o amasse. Precisava apenas de se habituar quela ideia. E um suspiro de alvio foi abafado pelos folhos da camisa 
que ela ia enfiando pela cabea.

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CAPTULO III - ENCONTROS


A juventude s repara na idade por acessos irregulares, jon, por exemplo, nunca se apercebera da idade do pai at que regressou da Espanha. O rosto do quarto Jolyon, 
abatido pela espera, chocou-o profundamente - parecia to plido e to velho! E a mscara do pai estava to decomposta pela emoo do encontro que o rapaz pde facilmente 
perceber quanto ele deveria ter sentido a separao. Para se aliviar, disse a si mesmo, "Eu bem no queria ir!" Era uma coisa antiquada ver-se a juventude ceder 
diante da idade, mas jon no era o que se poderia dizer tipicamente moderno. O pai sempre fora to "correcto" com ele. e era desagradvel saber que recomearia imediatamente 
a conduta para cuja cura o pai sofrera aquele tormento de solido.
E ante a pergunta "E ento, meu velho, que tal achou a grande Goya", a sua conscincia picou-o profundamente. O grande Goya s existia porque criara um rosto semelhante 
ao de Fleur.
Na noite do regresso, Jon foi para a cama cheio de compuno, mas acordou cheio de desejos. Estava-se apenas a cinco de Julho, e no tinha nenhum encontro marcado 
com Fleur at ao dia nove. Tinha de passar trs dias em casa antes de voltar ao campo. Deveria haver uma maneira de se encontrar com ela!

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Existe na vida dos homens um ritmo inexorvel provocado pela necessidade de calas e coletes que nem mesmo os pais mais amantes podem negar. No segundo dia, portanto, 
Jon veio  cidade, e, depois de satisfazer a sua conscincia encomendando em Conduit Street tudo de que carecia, tomou a direco de Piccadily, Stratton Street, 
onde ficava o clube de Fleur, bem vizinha  Devonshire House. Seria uma sorte nica se ela estivesse l.
E Jon atravessou Bond Street com o corao aos pulos, apercebendo-se da superioridade que todos os outros rapazes mostravam sobre ele prprio. Vestiam-se com tal 
displicncia elegante, tinham uma tal segurana - eram adultos. E foi subitamente sufocado pela convico de que Fleur deveria t-lo esquecido. Absorvido pelo seu 
prprio sentimento por ela durante todas aquelas semanas desprezara essa possibilidade. Os cantos da boca descaram-lhe, as mos ficaram viscosas. Fleur, com todo 
o picante da mocidade e a graa do sorriso - Fleur incomparvel! Foi um mau momento. Jon, entretanto, tinha um credo: cada um deve ser capaz de fazer face ao pior. 
E atacou-se a si prprio com essa severa reflexo em frente de uma loja de antiqurio. Ante aquela exposio do que representara outrora a season londrina, no havia 
na rua nenhum sinal de que nova season estava novamente a correr alm de uma ou outra cartola cinzenta e o sol. Jon ps-se a andar, e, virando a esquina de Piccadilly, 
deu de cara com Val Dartie, que se dirigia para o Iseeum Club, onde acabava de ingressar.
- Ol! Que anda a fazer? Jon corou.
- Fui ao meu alfaiate.
Val olhou-o de cima a baixo.
- Muito bem! Eu ia encomendar uns cigarros. Venha comigo e vamos almoar.
Jon agradeceu. Quem sabe se conseguiria notcias dela por intermdio de Val!

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As condies da Inglaterra, esse pesadelo da imprensa e dos homens pblicos, eram encaradas em perspectiva muito diferente pelo vendedor que os atendeu.
- Muito bem, sir. So exactamente os mesmos cigarros que eu costumava fornecer ao senhor seu pai. Jesus! Mr. Montague
Dartie foi meu fregus desde., deixe-me ver,., desde o ano em que Melton venceu o Derby. Foi um dos meus melhores fregueses. - E um leve sorriso iluminava o rosto 
do vendedor. - Muita gorjeta me deu ele! Se bem me lembro, comprava dois pacotes de cem cigarros por semana, ano aps ano, e nunca mudava de marca. Um senhor muito 
delicado... trouxe-me uma boa poro de fregueses. Senti muito que ele houvesse sofrido aquele acidente. A gente sente a falta de um fregus assim.
Val sorriu. A morte do pai fechara uma conta que vinha a arrastar-se h muito tempo-provavelmente h mais tempo que qualquer uma outra. E num anel de fumo aspirado 
daquele cigarro de marca venervel pareceu-lhe rever o rosto do pai, moreno, bonito, com grandes bigodes, um pouco balofo, revestido da nica aurola  qual ele 
dava valor. De qualquer modo, seu pai deixara fama naquela zona - um homem que fumava duzentos cigarros por semana, que podia dar gorjetas e arrastar indefinidamente 
as suas contas! Para aquele vendedor, fora um heri! E, afinal, aquilo era uma certa distino que lhe vinha de herana!
- Pago  vista - disse ele. - Quanto ?
- Para o filho dele, sir, e pagando  vista, dez shillings e seis pence. Nunca esquecerei Mr. Montague Dartie. Parava aqui e ficava a conversar comigo mais de meia 
hora. J no vemos disso hoje, sir. Toda a gente tem pressa de mais. A guerra prejudicou muito as boas maneiras, sir, prejudicou muito as boas maneiras. O senhor 
esteve l, pelo que vejo.
- No - disse Val, batendo no joelho. - Apanhei isto na guerra anterior. Suponho, alis, que foi o que me salvou a vida. Quer cigarros, Jon?
- Voc sabe que eu no fumo - murmurou Jon envergonhado, vendo o vendedor torcer a boca, como se estivesse incerto em dizer: "Bom Deus!" ou " sorte sua, sir"
- Faz bem - disse Val. - Evite o fumo enquanto puder. Mas ter necessidade dele quando levar o primeiro choque. Ento este  na verdade o mesmo tabaco?
- Idntico, sir, apenas um pouco mais caro.  maravilhoso o nosso poder de conservao... do Imprio Britnico. Eu sempre disse isso.
- Ento envie-me cem cigarros todas as semanas para este endereo e mande a conta no fim do ms. Vamos, Jon.
Jon entrou no Iseeum com curiosidade. Excepto um almoo uma vez ou outra, no Hotch Potch, em companhia do pai, nunca entrara num clube londrino. O Iseeum, confortvel 
e despretensioso, no se modificara, nem o poderia fazer enquanto George Forsyte permanecesse no conselho de direco, onde a sua cincia culinria era quase a fora 
controladora. O clube levantara uma barreira contra os novos-ricos e fora necessrio todo o prestgio de George Forsyte e a sua garantia de que se tratava de um 
grande sportsman para ser concedida a entrada a Prosper Profond.
George e Profond estavam a almoar juntos quando os dois cunhados entraram na sala. E, chamados por um sinal que George fez com o indicador no ar, sentaram-se  
sua mesa. Val, com os seus olhos agudos e o sorriso agradvel, Jon fascinado pela atmosfera hipntica. O criado, correctssimo, servia-os com uma espcie de deferncia 
misteriosa. Parecia estar suspenso dos lbios de George Forsyte, espiar-lhe o claro aprovativo do olhar com uma espcie de simpatia, seguir apaixonadamente todos 
os movimentos da pesada prataria marcada com as armas do clube. O seu brao vestido na manga da libr e a voz confidencial alarmaram Jon quando misteriosamente os 
sentiu sobre o ombro.
Apenas uma vez George lhe dirigiu a palavra.
- Seu av ensinou-me alguns dos segredos dele. Era um conhecedor nico de charutos!
Afora isso, nem ele nem o outro ocupante da mesa pareceram tomar conhecimento da sua presena, e o rapaz foi-lhes grato por isso. A conversa girava em torno de criao, 
cotaes e preos de cavalos, e ele escutava-a vagamente a princpio, espantado de como era possvel reter tantos conhecimentos numa s cabea. No conseguia tirar 
os olhos de Monsieur Profond - tudo o que ele dizia era to definitivo e to desanimador, em palavras pesadas, estranhas, zombeteiras! Jon estava a pensar em borboletas, 
quando ouviu Profond dizer:
- Eu gostaria de ver Mr. Soames Forsyde tomar algum interesse por cavalos.
- O velho Soames!

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Ouvindo isto, Jon tentou no ficar vermelho, enquanto o belga prosseguia:
- A filha dele  uma moa muito interessante. Mr. Soames Forsyde  um pouco antiquado. Gostaria de v-lo um dia ter prazer em qualquer coisa.
George Forsyte fez uma careta.
- No se preocupe. Ele no  to desgostoso quanto parece. Nunca mostra que est a gostar de alguma coisa... tem medo de que lha tirem. Velho Soames! Gato escaldado 
de gua fria tem medo!
- Bem, Jon - disse Val apressadamente -, se j acabou, vamos l para fora, tomar um caf.
- Quem so aqueles? - perguntou Jon, na escada. - No pude, com efeito...
- O velho George Forsyte  primo de seu pai e do meu tio Soames. Est sempre aqui. O outro sujeito, Profond,  uma ave estranha. E, se no me engano, anda a rondar 
em torno da mulher de Soames!
Jon olhou, estupefacto.
- Isso seria uma vergonha... quero dizer, para Fleur.
- No creio que Fleur se preocupe muito com isso. Ela  muito moderna.
- Mas  a me dela!
- Voc  muito ingnuo. Jon. Jon ficou rubro.
- Quando se trata da nossa prpria me - disse ele, colrico-, tudo  muito diferente.
- Voc tem razo - disse Val de sbito -, mas as coisas j no so o que eram quando eu tinha a sua idade. Hoje toda a gente vive sob este pensamento: "Amanh, posso 
estar morto." E era isso que o velho George estava a dizer acerca do meu tio Soames: aquele no pensa que pode estar morto amanh.
- Que  que houve entre ele e meu pai? - perguntou vivamente Jon.
-  segredo, Jon. Tome o meu conselho, esquea isso. Voc no ganha nada em saber. Quer um licor?
Jon abanou a cabea.

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- Detesto esse costume das pessoas mais velhas: escondem as coisas de ns, e depois troam porque somos ingnuos.
- Bem, voc pode perguntar a Holly. E, se ela no quiser dizer-lhe, creio que h-de ficar certo de que no lhe convm saber.
Jon levantou-se.
- Tenho de ir. Muito obrigado pelo almoo.
Val sorriu-lhe, meio penalizado, um pouco divertido. O rapaz parecia to agitado.
- Muito bem. At sexta.
- No sei - murmurou Jon.
Aquela conspirao de silncio deixava-o desesperado. Era humilhante ser tratado como um garotinho! E refez a sua triste caminhada, atravs da Strattn Street. Pois 
ia ao clube dela, e liquidava logo o pior!  sua pergunta, responderam-lhe que Miss Forsyte no estava no clube. Talvez chegasse um pouco mais tarde. Raramente ela 
aparecia s segundas-Feiras - eles no poderiam garantir. Jon disse que voltaria mais tarde, e, atravessando o Green Park, sentou-se num banco sob uma rvore. O 
sol estava ardente e uma brisa leve agitava as folhas do jovem limoeiro sob o qual ele se abrigava, mas o corao doa-lhe. Uma espcie de escurido parecia ter 
envolvido toda a sua felicidade. Ouviu o Big-Ben bater trs pancadas, soando sobre o rumor do trfego. O som agitou-lhe qualquer coisa dentro, e, agarrando um pedao 
de papel, comeou a rabiscar com o lpis. Lanou uma estncia, e estava a procurar o tema de um novo verso quando uma Coisa lhe tocou o ombro - uma sombrinha verde. 
E de p, por trs do banco, estava Fleur!
- Disseram-me que voc tinha estado l, e que voltaria. Pensei ento que estaria a passar o tempo aqui. E c est!  uma maravilha!
- Oh, Fleur! Eu pensava que voc j me tinha esquecido.
- Eu no lhe disse que no o esqueceria? Jon agarrou-lhe o brao.
-  sorte de mais! Vamos para este lado. - E quase a arrastou atravs daquele parque ordenadssimo,  procura de um abrigo onde pudessem sentar-se e segurar na mo 
um do outro.

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- Apareceu algum no meu caminho? - perguntou ele, olhando fixamente os clios suspensos sobre a face da garota.
- Apareceu um idiotazinho, mas no conseguiu nada.
Jon sentiu um choque de compaixo - pelo jovem idiota.
- Sabe que tive uma insolao? No lhe mandei dizer.
- Na verdade! E  interessante?
- No. A mam foi um anjo. E nada aconteceu a voc?
- Nada. Excepto que eu creio ter descoberto o que h entre as nossas famlias, Jon. - O corao dele comeou a bater com grande rapidez. - Creio que meu pai quis 
casar com sua me, mas foi seu pai que o conseguiu.
- Oh!
- Descobri um retrato dela. Estava numa moldura, debaixo de um retrato meu. Naturalmente ele estava muito apaixonado, e deve ter ficado quase louco, no acha?
Jon pensou durante um minuto.
- No, se ela amasse mais ao meu pai.
- Mas suponha que eles estivessem noivos?
- Se ns estivssemos noivos, e eu descobrisse que voc amava um outro mais que a mim, eu poderia rebentar, mas no me agarraria a si.
- Pois eu agarrar-me-ia. Nunca me faa isso, Jon.
- Meu Deus! No h esse perigo!
- Creio que ele nunca fez muito caso de minha me - disse Fleur.
Jon guardou silncio. As palavras de Val - os dois sujeitos do clube!
- Escute, ns no podemos saber... - continuou Fleur. - Mas deve ter sido um choque terrvel. Ela deve ter procedido mal com ele. Isso acontece.
- Minha me no faria isso. Fleur ergueu os ombros.
- Eu acho que ns sabemos muito pouco acerca dos nossos pais. S os vemos  luz do procedimento deles em relao a ns. Mas eles conviveram com outros, antes que 
fssemos nascidos... com muita gente. Veja seu pai, com trs famlias separadas!

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- No existir um lugar - exclamou Jon - nesta estpida Londres onde a gente possa conversar a ss?
- S num txi.
- Ento vamos apanhar um.
Quando estavam no txi, Fleur perguntou subitamente:
- Voc vai voltar para Robin Hill? Gostaria de ver onde vive, Jon. Tenho de passar a noite em casa de minha tia, mas posso voltar a tempo para o jantar.  evidente 
que no entraremos na casa.
Jon olhou-a, maravilhado.
- Esplndido! Posso, do bosque, mostrar-lhe a casa, sem que encontremos ningum. H um comboio s quatro horas.

O deus da propriedade e os seus Forsytes grandes e pequenos - ricaos, funcionrios, comerciantes ou profissionais, tal como as classes operrias - ainda trabalhavam 
sete horas por dia. de forma que aqueles dois Forsyte da quarta gerao viajaram para Robin Hill num compartimento de primeira classe vazio, limpo e aquecido de 
sol, num comboio pouco procurado. Viajaram num abenoado silncio, agarrados  mo um do outro.
Na estao no viram ningum alm de carregadores e um ou outro agricultor, desconhecido de Jon, e caminharam atravs dos campos que cheiravam a poeira e a favos 
de mel.
Para Jon - certo agora dela e sem nenhuma separao a amea-los-, aquele era um miraculoso passeio, mais maravilhoso que todos os outros feitos atravs dos Downs 
ou ao longo do Tamisa. Sentia uma plenitude de amor, lia uma daquelas pginas iluminadas da vida onde cada palavra, cada sorriso, cada toque de luz eram como douradas, 
vermelhas e azuis borboletas e pssaros mgicos que se escapavam do texto, uma venturosa comunho, sem nenhum pensamento oculto - e que durou trinta e sete minutos. 
Chegaram ao bosque na hora da ordenha das vacas. Jon no quis lev-la at  granja. Apenas at onde ela pudesse avistar o relvado que subia para os jardins e a casa 
ao fundo. Deram uma volta por trs de uns arbustos, e subitamente, numa curva do caminho, deparou-se-lhes Irene, sentada sobre um velho tronco.
H vrias espcies de choque: o vertebral, o dos nervos, o da sensibilidade moral. E, mais potente e mais permanente, o da dignidade pessoal.

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E foi esse ltimo o choque sentido por Jon quando encontrou a me. Teve a conscincia sbita de que estava a praticar um acto indelicado. Se houvesse trazido Fleur 
abertamente - muito bem! Mas vir escondido assim! Rodo de vergonha, a sua fronte atingiu a colorao mxima do rubor.
Fleur sorria, com um leve ar de desafio, e a expresso de espanto da me mudava-se rapidamente noutra expresso mais impessoal e gentil.
Foi ela que disse as primeiras palavras.
- Ns no amos at casa - gaguejou Jon. - Quis apenas trazer Fleur para lhe mostrar onde moro.
- Vamos at casa, tomar um pouco de ch? - perguntou calmamente a me.
Sentindo que apenas agravara a sua falta de tacto, ouviu Fleur responder:
- Muito obrigada, mas tenho de voltar para o jantar. Encontrei Jon por acaso e pensmos que seria divertido dar uma olhadela  casa.
Como Fleur tinha presena de esprito!
- Naturalmente. Mas voc deve tomar ch connosco. Mandaremos lev-la  estao. Meu marido gostar de a ver.
Os olhos da me, demorando nele um momento, puseram Jon mais raso que o cho - fizeram-no sentir-se um verme. Ela ento comeou a andar e Fleur acompanhou-a. E ele 
sentia-se como um menino caminhando atrs delas, que conversavam amavelmente sobre a Espanha e Wansdon, sobre a casa que ficava atrs das rvores e os relvados. 
E ele espiava o olhar das duas que reciprocamente se examinavam - os dois entes que ele mais amava no mundo.
Avistou o pai sentado sob o carvalho. E sofreu antecipadamente o desconcerto em que iria cair aos olhos daquele homem tranquilo, de pernas cruzadas, magro, velho, 
elegante. At j podia ver a ironia transparente sob a sua voz e o seu sorriso.
- Esta  Fleur Forsyte, Jolyon. Jon trouxe-a para ver a casa. Vamos j tomar ch, porque ela tem de apanhar o comboio. Jon, pea o ch, querido, e telefone para 
o Drago a pedir um carro.
Era estranho deix-la em companhia deles, mas, como devia estar a pensar sua me,

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se ficassem todos ainda seria pior. E correu para a casa. Agora j no podia ficar a ss com Fleur, nem por um minuto, e no tinham combinado nenhum outro encontro! 
Quando voltou, cercado de criadas e utenslios de ch, no havia nenhum sinal de desastre sob a rvore: tudo se passava interiormente, mas nem por isso a complicao 
era menor. Estavam a falar sobre a galeria de Cork Street.
- Ns, os velhos, estamos ansiosos por descobrir porque  que no fomos capazes de apreciar a exposio. Voc e Jon  que nos devem explicar.
- Ela pretendia ser satrica? - perguntou Fleur. Jon viu o sorriso do pai.
- Satrica? Oh! Penso que  mais que isso. Que  que voc diz, Jon?
- No entendo nada daquilo - gaguejou Jon, vendo no rosto do pai uma sbita contraco.
- Os jovens esto cansados de ns, dos nossos deuses e dos nossos ideais. Fora com eles, dizem. Quebremos-lhes os dolos! E faamos que suba o nada. E, por Jpiter, 
fizeram exactamente isso. Jon  um poeta. Pois ele tambm ir calcar aos ps o que ns deixarmos. Propriedade, beleza, sentimentos.,, tudo se reduzir a fumo. No 
devemos possuir nada, actualmente, nem mesmo os nossos sentimentos. O que eles procuram  o nada.
Jon escutava, confuso, quase ultrajado pelas palavras do pai, por trs das quais sentia uma ameaa que no conseguia atingir. Ele no pretendia calcar nada aos ps!
- O nada  o deus hoje em dia - prosseguia Jolyon. - Voltamos aos russos de sessenta anos atrs, quando descobriram o niilismo.
- No, pap - exclamou subitamente Jon. - O que ns queremos  viver, e no sabemos como, por causa do passado. E isso  tudo!
- Por So Jorge! - disse Jolyon. - Isso  profundo, Jon.  ideia sua? O passado! Velhas posses, velhas paixes, e as suas consequncias. Passe-me os cigarros.
Consciente de que a me levara a mo aos lbios, como para abafar qualquer coisa, Jon ofereceu os cigarros. Acendeu o do pai,

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o de Fleur, depois um outro para si. Sofrera ele o choque em que Vall falara? O fumo era azul antes que ele o aspirasse e cinzento quando o soltava. Gostou da sensao 
no nariz e veio-lhe um sentimento de igualdade. Ficou satisfeito porque ningum lhe disse: "Ento comeou a fumar!" Sentia-se menos jovem.
Fleur olhou o relgio e ergueu-se. A me entrou com ela em casa. Jon ficou junto ao pai, aspirando o seu cigarro.
- Leve-a ao carro, meu velho - disse Jolyon. - E quando ela se for embora, diga a sua me que venha c.
Jon saiu. Esperou no hall, e viu Fleur entrar no carro. No houve oportunidade para uma nica palavra e mal apertaram as mos. Esperou durante todo o sero que lhe 
dissessem alguma coisa. No disseram nada. Nada aconteceria. Ele foi para a cama e mirou-se no espelho do toucador. No falou, nem a imagem falou to pouco. Mas 
ambos tinham o aspecto intensamente preocupado.

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CAPTULO IV - EM GREEN STREET


 impossvel dizer se a impresso reinante de que Prosper Profond era perigoso decorrera do facto de ele ter querido oferecer a Val a potra Mayfly ou de uma observao 
de Fleur: "Ele lembra as Hostes de Miriian: vive a rondar, a rondar" (1). Ou ainda da sua absurda pergunta a Jack Cardigan: "Para que quer o senhor viver em boa 
forma?" Ou simplesmente do facto de ser um estrangeiro, um aliengena, como se diz hoje. Era verdade que Annette andava agora particularmente bonita e que Soames 
lhe vendera um Gauguin, e depois lhe devolvera o cheque, pois o prprio Monsieur Profond declarara: "No pude trazer aquele pequeno quadro que comprei a Mr. Forsyde." 
Mas, apesar de estar debaixo de suspeio, continuava a frequentar a casinha sempre verde de Winifred em Green Street - com uma afvel obstusidade que ningum poderia 
confundir com ingenuidade, palavra dificilmente aplicvel a Monsieur Prosper Profond. Winifred ainda o considerava "interessante" e gostava de lhe escrever bilhetinhos 
neste estilo: "Venha gozar um pouco connosco", pois, para ela, escrever as palavras em moda era o mesmo que aspirar o verdadeiro sopro da vida.
O mistrio de que todos o viam cercado derivava, na verdade,

*1. Palavras de um hino religioso evanglico. (N. da T.)

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do facto de j haver ele feito, visto, ouvido e sabido - e no ter descoberto nada nisso tudo, o que era extraordinrio. O tipo ingls do desiludido era bastante 
familiar a Winifred, que sempre frequentara as rodas elegantes. E tal tipo d um certo cachet, de forma que muitos o exibem, mas no ver nada em coisa alguma, no 
por atitude, mas porque realmente no h "nada em nada", isso no era ingls. E o que no  ingls no se pode evitar de secretamente se supor perigoso, se no propriamente 
malcriado. Por exemplo, conservar os maus modos trazidos da guerra e sentar-se na nossa poltrona Imprio, escuro, pesado, sorridente, indiferente, escutando o que 
dizem, e nesse mesmo jeito responder  conversa atravs dos grossos lbios vermelhos, por sobre uma barbicha faunesta ou diablica. Conforme o exprimira Jack Cardigan, 
aquilo era "um pouco excessivo para o carcter britnico, pois, se nada h merecedor de um interesse mais vivo, restam os desportos, apesar de tudo, e  mister pratic-los".
Winifred, que de corao continuava Forsyte, sentia que no havia nada a tirar desse sentimento permanente de desiluso e que, portanto, ele no tinha realmente 
razo de ser. Monsieur Profond, com efeito, exibia muito abertamente os seus sentimentos num pas em que se velam decentemente tais realismos.
Quando Fleur, depois da sua apressada volta de Robin HilL chegou para o jantar naquela noite, Profond estava de p junto  janela da pequena sala de Winifred, olhando 
para Green Street com um ar de quem no estava a fazer nada ali. E Fleur olhou imediatamente para a lareira, com o ar de ver um fogo que no havia l.
Monsieur Profond saiu de junto da janela. Estava vestido a rigor, com colete branco e uma gardnia na lapela.
- Ento, Miss Forsyde - disse ele. - Estou encantado em v-la. Mr. Forsyde passa bem? Eu dizia ontem que gostaria de o ver sentir prazer por qualquer coisa. Ele 
vive preocupado.
- O senhor acha? - perguntou laconicamente Fleur.
- Vive preocupado - repetiu Monsieur Profond, acentuando o sotaque.
Fleur deu meia volta.
- Quer que eu lhe diga o que poderia dar prazer ao pap,

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- Mas as palavras "seria ver o senhor desaparecer" morreram ante a expresso da face dele. Todos os seus bonitos alvos dentes estavam  mostra.
- Contaram-me alguma coisa ontem, no clube, a respeito dessa velha briga de famlia...
Fleur abriu os olhos.
- A que se refere o senhor?
- Antes que voc fosse nascida, Miss Fleur... aquela "pequena" questo.
Certa embora de que Profond apenas quisera desviar-lhe a ateno da parte que ele tinha nas preocupaes de Soames, Fleur no pde evitar um estremecimento de curiosidade 
nervosa.
- Conte-me o que foi que lhe disseram.
- Porqu? - murmurou Monsieur Profond. - Tudo isso j  do seu conhecimento.
- Espero que sim. Mas gostaria de saber se o senhor no ouviu alguma verso falsificada.
- A primeira mulher dele... - murmurou Monsieur Profond. Engolindo as palavras "ele nunca foi casado antes", Fleur
disse:
- E ento que  que h acerca dela?
- Mr. George Forsyte estava a dizer-me o que houve... quando a primeira mulher de seu pai casou com o seu primo Jolyon. Deve ter sido bem desagradvel, creio eu. 
Vi o filho deles .... belo rapaz!
Fleur encarou-o. Monsieur Profond flutuava diante dela,

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pesado e diablico. Era aquela - a razo! Com o mais herico esforo que j exigira de si na sua vida inteira, procurou deter aquele vulto flutuante. No poderia 
dizer se ele percebera. E foi exactamente nessa altura que Winifred entrou.
- Oh, j esto ambos aqui. Eu e Imogen tivemos uma tarde divertidssima no bazar dos bebs.
- Que bebs? - perguntou mecanicamente Fleur.
- A "reserva dos bebs". E fiz uma aquisio, minha cara! Uma pea de velha cermica armnia de antes do Dilvio. Quero a sua opinio acerca dela, Prosper.
- Tia - sussurrou subitamente Fleur.
Ante o tom da voz da pequena, a tia aproximou-se. - Que sucedeu? No est a sentir-se bem? Monsieur Profond voltara para junto da janela, onde estava praticamente 
fora do alcance da voz delas.
- Tia... ele disse-me que o pap j foi casado antes,  verdade que ele se divorciou e que ela casou novamente com o pai de Jon Forsyte?
Nunca na sua vida de me de quatro pequenos Dartie, Winifred se sentira mais seriamente embaraada. O rosto da sobrinha estava to plido, os olhos to sombrios, 
a voz to surda e estrangulada!
- Seu pai no queria que voc soubesse - disse ela com todo o aplomb que pde arranjar. - Essas coisas acontecem. Eu sempre disse a ele que voc deveria ser informada 
de tudo.
- Oh! - disse Fleur.
E aquilo foi tudo, mas essa exclamao fez que Winifred lhe acariciasse o ombro - um ombro firme, branco e lindo. Ela nunca deixava de olhar e tocar com prazer na 
sobrinha, que precisava casar - mas no com o tal Jon.
- J nos esquecemos disso, durante estes anos todos - disse, tentando uma consolao. - Vamos jantar.
- No, tia. No me sinto bem. Posso ir l para cima?
- Minha querida - murmurou Winifred, consternada -, voc vai tomar isso to a peito? O qu! Ainda no se desfez dessa tolice? Esse rapaz  um garoto!
- Que rapaz? Estou apenas com dores de cabea. Mas no posso suportar aquele homem esta noite.
- Bem, bem - disse Winifred. - V e deite-se. Vou mandar-lhe um pouco de brometo e vou falar com Prosper Profond. Que  que ele tinha de mexericar sobre essas coisas? 
Embora eu sempre tenha achado que seria muito melhor que voc soubesse.
Fleur sorriu.
- Sim - disse ela, deslizando para o quarto.
Chegou l a cima com a cabea a girar, uma secura na garganta, um tumulto assustador no peito. Nunca na sua vida sofrera um to sbito pavor de no chegar a possuir 
aquilo que desejava. As sensaes da tarde haviam sido fortes e pungentes,
e a sua inaudita descoberta, acontecendo logo aps aquilo tudo, fazia-lhe realmente a cabea estalar. No era de admirar que o pai houvesse guardado aquela fotografia, 
to escondida por trs do seu prprio retrato- decerto se envergonhava de a haver conservado! Mas poderia ele odiar a me de Jon e conservar-lhe o retrato? E ela 
apertava a fronte entre as mos, procurando ver as coisas claramente. Teriam eles contado tudo a Jon, teria a sua visita a Robin Hill obrigado os pais a falar? Tudo 
agora girava em torno disso. Ela sabia, todos sabiam - excepto, talvez, Jon!
E a pequena passeava para trs e para diante no quarto, mordendo os lbios, desesperadamente preocupada. Jon adorava a me, Se eles lhe haviam falado, que teria 
ele feito? Ela no o poderia saber. Mas se eles nada haviam dito, seria que ela no poderia, no conseguiria atra-lo e faz-lo casar-se antes de saber a histria? 
E Fleur rebuscava as lembranas que lhe haviam ficado de Robin Hill. O rosto to passivo da me de Jon, com os seus olhos escuros, os cabelos que pareciam empoados, 
a sua reserva, o seu sorriso - e engan-lo. E o pai, bondoso, abatido, irnico. Instintivamente, a moa sentia que eles estremeciam ante a ideia de falar a Jon - 
mesmo agora, estremeciam ante a ideia de o magoar, porque, decerto, ele iria sofrer pavorosamente quando soubesse!
Podia convencer a tia a no dizer nada ao pai acerca do que lhe dissera Profond. E enquanto ela e Jon passassem por no saberem nada, ainda havia uma probabilidade 
- haveria liberdade para esconder as pegadas percorridas e apoderar-se daquilo que o seu corao pedia! Mas Fleur sentia-se quase sufocada pelo seu isolamento. Todos 
estavam contra ela - todos! Era exactamente tal como Jon dissera: eles queriam apenas viver, mas o passado barrava-lhes o caminho, um passado que eles no tinham 
partilhado e que no compreendiam! Oh, que vergonha! E subitamente ela lembrou-se de June. Seria que ela a ajudaria? Algo fizera a pequena supor que June era simptica 
ao amor deles e que se irritava com os obstculos. E ento, instintivamente, Fleur pensou: "No vou descobrir nada, nem mesmo a ela. No ouso. O que quero  obter 
Jon - contra eles todos."
Levaram-lhe uma sopa ao quarto e um dos comprimidos predilectos de Winifred,

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para dores de cabea. Ela engoliu ambos. Depois a prpria Winifred apareceu. Fleur abriu a sua campanha com estas palavras:
- Escute, tia, no quero que pensem que estou apaixonada por esse rapaz. Se mal o vi!
Winifred, embora experiente, no era fine. E aceitou a observao de Fleur com grande alvio. Claro que seria agradvel para a pequena ouvir a histria do escndalo 
da famlia, e ela tratou de lhe tirar toda a importncia, tarefa para que estava eminentemente qualificada, graas s lies prudentes da me, graas  convivncia 
com o pai, cujos nervos deviam sempre ser poupados, graas a ter sido, durante tantos anos, a esposa de Montague Dartie. A sua descrio foi uma obra-prima de exposio: 
a primeira mulher do pai de Fleur era muito leviana. Houve um caso com um rapaz que morreu de acidente, e ela abandonou Soames. Ento, anos depois, quando tudo ainda 
se poderia arranjar,, ela fugira com o primo deles, Jolyon. E, naturalmente, o pai dela fora obrigado a requerer o divrcio. Ningum recordava mais aquilo, excepto 
a famlia. E, afinal, tudo resultara no melhor: Soames tinha agora Fleur, Jolyom e Irene eram realmente felizes, segundo se dizia, e o filho era um belo rapaz.
-E Val, tendo casado com Holly, foi como um reboco escondendo tudo isso, no?
E, ao dizer essas palavras de alvio, Winifred fez festinhas no ombro da moa, pensando: "Ela  realmente linda!" E voltou para junto de Prosper Profond, que, a 
despeito de ter sido indiscreto, estava muito "interessante" naquela noite.
Durante alguns minutos, depois da partida da tia, Fleur ficou sob a influncia do calmante material e espiritual. Mas depois a realidade apareceu. A tia tinha desprezado 
todos os elementos de importncia - os sentimentos, o dio, o amor, os apaixonados coraes que nunca consentiriam em perdoar. Ela, que conhecia to pouco da vida, 
que apenas tocava a margem do amor, compreendia instintivamente que as palavras tm to pouca relao com os factos e sentimentos quanto a tem a moeda com o po 
que ela compra. "Pobre pap!", suspirou ela. "Pobre de mim! Pobre Jon! Mas no me importo, o que quero  ele!" Da janela
do seu quarto, mergulhado na escurido, ela avistava "aquele homem", que sara pela porta principal e vagueava pela rua fora. Se ele e sua me... Em que afectaria 
isso as suas probabilidades? Decerto aquilo faria que o pai se agarrasse mais  filha - de maneira que acabaria por consentir em tudo o que ela quisesse ou reconciliar-se-ia 
rapidamente com o que ela fizesse sem o seu conhecimento.
Apanhou um pouco de terra do vaso na varanda e atirou-o ao vulto que desaparecia. No o alcanou, mas a aco fez-lhe bem.
E uma leve aragem chegou at ela, vinda de Green Street, amarga,, cheirando a gasolina.

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CAPTULO V - NEGCIOS EXCLUSIVOS DOS FORSYTE


Soames, vindo  cidade com a inteno de passar no fim do dia por Green Street e apanhar Fleur de volta para casa, meditava. Scio comanditrio que era agora, raramente 
vinha  City, mas ainda mantinha para si uma sala no escritrio de Cuthcott, Kingson &. Forsyte, com um empregado seu - arranjo destinado ao trato exclusivo dos 
negcios dos Forsyte. E esses negcios estavam por assim dizer em mar crescente - pois o momento parecia auspicioso para a venda de propriedades imobilirias. Soames 
tinha de se desfazer das propriedades deixadas por seu pai e pelo tio Roger, e, at certo ponto, das que haviam sido deixadas pelo tio Nicholas. A sua natural e 
indiscutvel probidade em questes econmicas tornara-o uma espcie de autocracia em relao a tais assuntos. Se Soames pensava isto ou pensava aquilo a determinado 
respeito, o interessado, se queria defender os seus interesses, o melhor que faria seria pensar o mesmo. E ele representava por isso mesmo a garantia de irresponsabilidade 
de muitos Forsytes da terceira e da quarta gerao. Os seus clientes, tal como os primos Roger ou Nicholas, os primos afins Tweetman e Spender, o marido de Cecily, 
todos confiavam nele, ele assinava primeiro, e onde ele assinava primeiro os outros assinavam depois, e ningum perdia um penny com isso. At ento, tinham, pelo 
contrrio, ganho muitssimo mais pennies(*1) graas a tal confiana.

*1. Este termo estar incorrecto. O plural de penny  pence (N. da D.) 

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E agora mesmo, por exemplo, Soames andava a estudar vrias alteraes de emprego de capitais, como precauo contra a instabilidade dos tempos.
Depois de atravessar as zonas mais febris da City, entrava nas represas mais serenas de Londres, e reflectia. O dinheiro andava extraordinariamente apertado e a 
moralidade extraordinariamente frouxa! Fora a guerra a causa disso. Os bancos no mereciam confiana, os indivduos quebravam os contratos quase imediatamente depois 
de os terem assinado. Havia um sentimento no ar, e nos rostos um aspecto que no lhe agradava. O pas parecia prestes a lanar-se num abismo de aventuras e falncias. 
E sentia-se satisfeito por nem ele nem nenhum dos seus primos e clientes terem empregos de capital que apenas poderiam ser afectados por uma longa medida revolucionria 
sobre capitais. E se Soames tinha f em alguma coisa, seria no que ele achava "o bom senso britnico", o poder de possuir coisas, de um modo ou de outro. Podia Soames 
- tal como o dissera o pai, antes dele - dizer que no saberia para onde iam as coisas, mas no seu corao nunca acreditaria que elas caminhavam para a runa. Por 
culpa sua elas no ruiriam - e, afinal, ele no era mais que um ingls igual aos outros, silenciosamente agarrado quilo que possua, ciente de que nunca se separaria 
do que era seu sem receber algo mais ou menos equivalente em troca. O seu esprito era essencialmente equilibrado em assuntos materiais e o seu modo de encarar a 
situao nacional era difcil de refutar num mundo composto de seres humanos. Vissem o seu prprio caso, por exemplo! Ele era abastado. E isso prejudicava algum? 
No comia dez refeies por dia, talvez no comesse nem mesmo o que comeria qualquer pobreto. No gastava dinheiro com vcios, no respirava mais ar, nem gastava 
mais gua do que um mecnico ou um carregador. Na verdade, tinha algumas coisas bonitas junto de si, mas para as obter dera trabalho  mo-de-obra, e algum tem 
de fazer a mo-de-obra andar. Comprava quadros, mas a Arte precisa de ser estimulada. Ele representava, na verdade, um canal acidental por onde o dinheiro corria, 
empregando o trabalho. Que havia a objectar nessa sua funo? Na sua mo, o dinheiro movimentava-se mais rpida e utilmente do que nas mos do Governo

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ou nas de um bando de sanguessugas oficiais. Quanto ao que economizava todos os anos-'isso movimentava-se tanto como o que ele no economizava, pois ia engrossar 
o capital de empresas tais como o Waiter Board ou o Council Staks-ou algo identicamente til e sonoro. O Estado no lhe pagava nenhum salrio por gerir o seu dinheiro 
e o dos outros - ele fazia tudo aquilo grtis. Nisso jazia o seu argumento mais importante contra a nacionalizao: os proprietrios particulares trabalhavam de 
graa, e era deles que partia o principal incentivo para a rpida valorizao de tudo. Sob um regime de nacionalizao, seria exactamente o oposto! E, num pas afligido 
pelo oficialismo, ele sentia-se uma fora.
O que particularmente o aborrecia, ao entrar naquele reduto de paz perfeita, era pensar que um bando de inescrupulosos, trusts e monoplios estavam a aambarcar 
o mercado de toda a espcie de gneros e levando os preos a uma altura artificial. Esses elementos abusivos do sistema individualista eram verdadeiros rufies - 
provocadores de todas as perturbaes - e seria um verdadeiro prazer v-los ir por gua abaixo, se no fosse o perigo de todo o edifcio econmico ser arrastado 
na queda.
Os escritrios de Cuthcott, Kingson & Forsyte ocupavam o rs-do-cho e o primeiro andar de uma casa do lado direito. E, subindo para a sua sala, Soames meditava: 
" tempo de dar uma pintura nisto."
O seu velho empregado Gradman estava sentado onde sempre se sentava, numa alta escrivaninha com incontveis escaninhos. O escrevente estirou meio corpo na direco 
dele e estendeu-lhe um contrato do corretor relativo aos preliminares da venda da casa de Bryanston Square, do esplio de Roger Forsyte. Soames agarrou a nota e 
disse:
- Vancouver City Stock. Hum. Est baixo, hoje.
Com uma espcie de insinuao meio irritante, o velho Gradman respondeu:
- Sim. Mas tudo est a baixar, Mr. Soames.
E o meio corpo do escrevente recolheu-se. Soames prendeu o documento junto a uma poro de outros papis e pendurou o chapu.

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- Quero dar uma olhadela ao meu testamento e ao meu contrato de casamento, Gradman.
O velho Gradman, movendo-se at ao limite da sua cadeira giratria, tirou duas pastas do fundo de uma gaveta  esquerda. Recuperando o seu corpo, ergueu o rosto, 
de cabelos grisalhos, que ficara rubro com o esforo.
- Esto aqui as cpias, sir.
Soames agarrou-as, e ocorreu-lhe de repente quanto Gradman se parecia com o grande co ruidoso que eles mantinham preso  corrente, no ptio do Shelter. Um dia em 
que Fleur insistiu para que o soltassem, o co imediatamente mordeu o cozinheiro e tiveram de o matar. Se soltassem Gradman da corrente, seria que ele tambm morderia 
o cozinheiro?
Desprezando esses frvolos pensamentos, Soames mergulhou no seu contrato de casamento. J no tocava nele havia dezoito anos, desde que refizera o seu testamento, 
por ocasio da morte de seu pai e do nascimento de Fleur. Queria ver se as palavras "enquanto durar o estado matrimonial" estavam escritas nele. Estavam, sim-curiosa 
expresso quando se atentava nela, derivada decerto da linguagem dos criadores de cavalo! Juros de quinze mil libras - que ele pagava  mulher sem deduzir a taxa 
de imposto sobre a renda - enquanto ela fosse sua mulher, e depois, na viuvez dum casta, expresso arcaica e posta ali para garantir a conduta futura da me de Fleur. 
No seu testamento, ele destinava-lhe um rendimento de mil libras por ano, sob as mesmas condies. Muito bem! Devolveu as cpias a' Gradman, que as agarrou sem um 
olhar, rodou ha cadeira, reps os papis na gaveta e girou depois para cima.
- Gradman! No gosto das condies em que est o pas. H uma poro de gente completamente despida de juzo e bom senso. Queria descobrir um meio de salvaguardar 
Miss Fleur contra tudo o que possa acontecer.
Gradman escreveu o algarismo "2" no seu bloco de papel,
- Sim - disse ele. - As condies so pssimas.
- As garantias comuns contra adiantamentos no servem para  caso.
- No - disse Gradman.

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- Imagine se esses trabalhistas assumem o Poder... que horror! Essa gente cheia de ideias fixas  a mais perigosa. Olhe para a Irlanda!
- Ah! - disse Gradman.
- Imagine se eu depositar tudo em nome dela, reservando o usufruto para mim, eles no poderiam tirar-me nada alm dos juros... a menos,  claro, que alterem a lei.
Gradman moveu a cabea e sorriu.
- Ah! - disse ele. - Eles no faro isso!
- No sei - murmurou Soames. - No confio neles.
- Mas leva dois anos, sir, para qualquer coisa ter validade contra disposies testamentrias.
Soames fungou. Dois anos! Ele tinha apenas sessenta e cinco anos!
- Isso no  o ponto. Prepare uma minuta de transferncia de todas as minhas propriedades para os filhos de Miss Fleur, em partes iguais, com usufruto primeiro para 
mim e depois para ela, sem lhe conferir nenhum direito de fazer adiantamentos, e uma clusula segundo a qual, se acontecer qualquer coisa que a prive dos rendimentos 
do usufruto, novos rendimentos lhe sejam assegurados pelos testamenteiros,  absoluta discrio deles.
Gradman coou-se.
- Acho muito extremado, para a sua idade, sir. O senhor perde todo o controle.
- Isso  comigo - disse Soames rispidamente.
Gradman escreveu num pedao de papel "Usufruto, adiantamentos, privao rendimentos, absoluta discrio" e disse:
- Quem so os testamenteiros? H o jovem Mr. Kingson.  um rapaz de confiana.
- Sim. pode servir para um deles, tenho de arranjar trs. No h nenhum Forsyte, actualmente, que me merea confiana.
- Nem Mr. Nicholas filho? Ele  advogado. Temos-lhe dado alguns casos
- Esse no  capaz de nenhuma ousadia.
Um sorriso exsudou pelo rosto de Gradman, engordado por incontveis costeletas de carneiro - o sorriso de um homem que passa o dia sentado.

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- O senhor no pode esperar isso, na idade dele, Mr. Soames.
- Porqu? Que idade tem ele? Quarenta?
- Sim, ainda  muito novo.
- Bem, ento pode tambm tomar nota do nome de Nicholas filho. Mas quero que o terceiro testamenteiro seja algum que tome um interesse pessoal pelo caso. E no 
vejo ningum nessas condies.
- E Mr. Valerius, j que ele voltou a residir na Inglaterra?
- Val Dartie? Com aquele pai?
- Bem - disse Gradman. - O pai j morreu h sete anos... e, depois, as disposies do testamento sero to estritas que ele no poder...
- No - disse Soames -, no gosto da aproximao. Ergueu-se, e Gradman disse de sbito:
- Se eles impuserem um embargo nos capitais, agiro  revelia dos testamenteiros, sir. E o senhor fica na mesma. Eu tornaria a pensar nisso, se fosse o senhor.
- Isso  verdade - disse Soames. -  o que vou fazer. Que  que voc fez a respeito daquela comunicao de runa em Vere Street?
- Ainda no fiz nada. A litigante  muito velha. No h-de querer mudar-se na idade em que est.
- No sei. O esprito de inquietao ataca toda a gente.
- De qualquer forma, sir, s tenho encarado as coisas de um modo geral. Ela tem oitenta e um anos.
- O melhor  mandar a intimao - disse Soames - e ver o que ela diz. Oh! E Mr. Timothy? Est tudo em ordem, em caso de...
- O inventrio j est todo pronto, sir. Os mveis e quadros j foram avaliados, sentirei muito quando ele se finar! Valha-me Deus! J faz bastante tempo que eu 
vi Mr. Timothy pela primeira vez!
- No se pode viver sempre - disse Soames, agarrando o chapu.
- No - concordou Gradman -, mas, mesmo assim, ser uma pena... o ltimo da irmandade! Devo prosseguir naquele caso de prejuzos em Old Compton Street?
- Prossiga. Tenho de acompanhar Miss Fleur e quero apanhar o comboio das quatro horas. At logo, Gradman.

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- At logo, Mr. Soames. Espero que Miss Fleur.
- Vai muito bem, mas passeia de mais!
- Sim - disse Gradman -, ela  jovem.
Soames saiu cogitando: "Velho Gradman! Se ele fosse mais novo, punha-o como testamenteiro. No h ningum de quem eu possa esperar que tome um real interesse."
E, saindo da biliosa e matemtica exactido, da absurda paz daquela represa, pensou de repente: "Enquanto durar o estado matrimonial." E depois: "Porque no excluem 
antes sujeitos da marca de Profond, em vez de uma poro de alemes laboriosos?" E sentiu-se surpreso com a intensidade do mal-estar que um sentimento to antipatritico 
lhe provocava. Mas assim era! Ningum pode conseguir um instante de paz verdadeira. H sempre qualquer coisa s costas de uma pessoa! E encaminhou-se para Green 
Street.

Duas horas mais tarde, segundo o seu relgio, Thomas Gradman, desenrolando a cadeira giratria, fechou a ltima gaveta da sua mesa, e, pondo um molho de chaves no 
bolso do colete - to grande que lhe fazia uma protuberncia do lado do fgado-, escovou com a manga do casaco a sua velha cartola, agarrou o guarda-chuva e desceu. 
Baixo, grosso, inteiramente abotoado no seu casaco antiquado, caminhou em direco ao mercado de Covent Garden. Nunca perdia aquele passeio dirio, a caminho do 
metropolitano para Highgate. E s vezes realizava de passagem algumas transaces com legumes e frutas. Geraes podiam nascer, os chapus podiam mudar, guerras 
podiam ser feridas, Forsytes desvaneciam-se, mas Thomas Gradman, fiel e grisalho, tinha de dar o seu passeio dirio e comprar as suas hortalias quotidianas. Os 
tempos j no eram o que j haviam sido, seu filho perdera uma perna, j no davam aquelas cestinhas tranadas, to bonitas, para levar dentro as compras. Aqueles 
comboios subterrneos eram uma boa coisa - no podia queixar-se, a sua sade era boa, levando em conta a idade que tinha, h cinquenta e quatro anos que trabaLhava 
na Lei e agora recebia umas oitocentas libras por ano. Mas sentia-se apreensivo ultimamente, porque o seu ganho vinha quase todo de comisses sobre alugueres, e, 
com todas essas vendas de propriedades dos Forsyte,

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as suas comisses haveriam de minguar muito. Alm disso, o custo da vida estava cada vez mais alto, mas no adiantava preocupar-se, "o bom Deus fez-nos a todos", 
como tinha o hbito de dizer. E, por falar em propriedades de imveis em Londres - ele no sabia o que diriam Mr. Roger ou Mr. James se vissem as suas casas vendidas 
deste jeito. Parecia uma demonstrao de falta de f, mas Mr. Soames era medroso. Esperar uma vida, e esperar depois pela maioridade de entes ainda por nascer - 
j  muito. Alis, a sade dele era maravilhosa, Miss Fleur era uma criaturinha linda - breve casaria -, mas muita gente no tem filhos, hoje em dia. Ele tivera 
o seu primeiro filho aos vinte e dois anos, e Mr. Jolyon, que casara quando ele estava em Cambridge, vira nascer o seu filho no mesmo ano. Que lindo era Peter! Aquilo 
fora cerca de 1869, muitos anos antes de o velho Mr. Jolyon - grande entendido em propriedades imobilirias - ter retirado o seu testamento das mos de Mr. James. 
Naqueles tempos eles andavam a comprar casas para um lado e para outro e no havia nada desses espantalhos modernos para assustar os capitalistas. Os pepinos custavam 
dois pence, e um melo - os meles de outro tempo, que enchiam a boca de gua! Fazia cinquenta anos que ele entrara no escritrio de Mr. James, e Mr. James dissera-lhe: 
"Agora, Gradman, voc  apenas um pequeno empregado, mas cuide em si e quando menos esperar j est a ganhar quinhentas libras por ano."
E ele cuidara em si, e temera a Deus, e servira os Forsyte, e comera a sua dieta vegetariana na refeio da noite. E, tendo comprado um exemplar do John Buli - no 
que ele aprovasse aquele jornal extravagante -, entrou no metropolitano com o seu singelo embrulho de papel pardo e penetrou nas entranhas da cidade.

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CAPTULO VI - A VIDA PRIVADA DE SOAMES


No seu caminho para Green Street, Soames lembrou-se de que deveria ir  loja de Dumetrius, para indagar acerca das possibilidades do velho Crome dos Bolderby. Quase 
valera a pena arrostar-se a guerra para ter o Crome dos Bolderby  venda. O velho Bolderby morrera, o filho e o neto haviam sido mortos em combate, e o primo, que 
recebera a herana, tratava de vend-la, devido s condies da Inglaterra, diziam uns, devido  asma de que sofria, diziam outros.
Se Dumetrius j lanara mo do quadro, o seu preo deveria estar proibitivo, e Soames precisava justamente de descobrir se Dumetrius j o conseguira, antes de tentar 
obt-lo para si. Evidentemente que procurou o judeu sob o pretexto de discutir as possibilidades dos Monticelli, agora que era moda uma pintura que no fosse nada 
mais que pintura, e o futuro dos John, aproveitando para dar uma olhadela aos Buxton Knight. E s ao sair disse:
- Afinal, vendem ou no vendem o velho Crome dos Bolderby?
Com um profundo orgulho de superioridade racial, tal como Soames o calculara, Dumetrius respondeu:
- Oh! Eu o apanharei, Mr. Forsyte!
O seu bater de plpebras fortificou Soames na resoluo de escrever directamente ao herdeiro Bolderby, sugerindo-lhe que a nica maneira digna de negociar um Crome 
antigo era evitar negociantes.

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Disse portanto "Bem, at logo" e deixou o avisado Dumetrius.
Em Green Street, informaram-no de que Fleur sara e no voltaria antes da hora de dormir. Pretendia ficar toda a noite em Londres. Subiu decepcionado para um txi 
e apanhou o comboio.
Chegou a casa pelas seis horas. O ar estava pesado, ameaando trovoada. Apanhando a sua correspondncia, subiu ao quarto de vestir, para se limpar da poeira de Londres.
Correspondncia sem interesse. Um recibo, uma conta de compras feitas por Fleur, uma circular acerca de uma exposio de guas fortes.
E uma carta que comeava assim:

Sir,

Sinto-me no dever...

Devia ser um pedido, ou qualquer coisa igualmente desagradvel. E olhou a assinatura. No havia l nenhuma. Incredulamente, virou a pgina e examinou cada um dos 
cantos da carta. Como no era homem pblico, Soames nunca recebera uma carta annima. e o seu primeiro impulso foi rasg-la como uma coisa perigosa. O seu segundo 
impulso foi ler o papel - coisa ainda mais perigosa.

Sir,

Sinto-me no dever de o informar de que, apesar de no ser de minha conta, a sua senhora anda a com um estrangeiro...

Ao atingir esta palavra, Soames parou mecanicamente e examinou o carimbo. Tanto quanto lhe foi possvel descobrir atravs do impenetrvel carimbo com que o correio 
inutilizara o selo, havia qualquer coisa como "sea" no fim e um "t" pelo meio. Chelsea" No! Battersea? Talvez! E continuou a ler:

Esses estrangeiros so sempre os mesmos. Saqueiam tudo. O tal encontra-se com sua senhora duas vezes por semana. Sei isso por cincia prpria

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- e corta o corao ver um ingls como o senhor num tal papel. Treste ateno ao caso. e verifique se no estou a dizer a verdade. 'No me envolveria nisto se no 
estivesse imiscudo nele um estrangeiro imundo. Seu criado...

A sensao que invadia Soames ao deixar cair a carta era a mesma que o possuiria se, entrando no seu quarto de dormir, encontrasse a cama cheia de escaravelhos pretos. 
O anonimato da denncia dava ao momento uma fremente obscenidade. E o pior do caso era que a sua ameaa sempre lhe estivera presente no esprito desde a noite de 
domingo em que Fleur, apontando para Prosper Profond, que caminhava furtivamente pelo relvado, dissera: "Gatarro vagabundo!" No fora em conexo com essa suspeita 
que, hoje mesmo, ele verificara o seu testamento e o seu contrato matrimonial? E agora aquele rufio annimo, sem aparentemente tirar qualquer lucro daquilo - salvo 
dar sada ao seu despeito contra estrangeiros -, arrancara a suspeita da obscuridade em que ele desejara e quisera que ela permanecesse. Obrig-lo a uma convico 
dessas, na sua idade, acerca da me de Fleur! Apanhou o papel do tapete, rasgou-o ao meio, e, vendo que a carta ainda se mantinha unida pela folha das costas, parou 
de rasgar e releu. Tomava naquele momento uma das resolues definitivas da sua vida. No se deixaria forar a um outro escndalo! No! Fosse qual fosse o modo por 
que decidisse regular aquele assunto - e ele requeria as mais detidas e cuidadosas consideraes -, no faria nada que pudesse prejudicar Fleur. Tomada essa resoluo, 
o seu esprito recobrou a calma e ele iniciou as suas ablues. As mos tremiam-lhe enquanto as enxugava. Um escndalo no poderia ser dado, mas algo deveria ser 
feito para pr um fim a tais coisas! E ele dirigiu-se para o quarto da mulher e parou, olhando em torno de si. No lhe ocorrera sequer a ideia de procurar qualquer 
prova que a incriminasse e com a qual a pudesse ameaar. No devia haver nada - ela era muito prtica e expedita. A ideia de a mandar vigiar foi repelida antes de 
aparecer - lembrava-se muito bem da sua prvia experincia disso! No! No tinha nada alm daquela suja carta de um rufio annimo, cuja impudente intruso na sua 
vida privada

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to profundamente o ofendia. Era repugnante fazer uso daquilo, mas tinha de ser. Que sorte Fleur no estar em casa naquela noite! E uma pancada na porta livrou-o 
das suas penosas cogitaes.
- Mr. Michael Mont, sir, est na sala. O senhor pode receb-lo?
- No - disse Soames. - Sim. Vou descer.
Qualquer coisa servia, contanto que lhe afastasse o esprito daqueles pensamentos durante alguns minutos!
Michael Mont, metido num fato de flanela, estava na varanda, fumando um cigarro. Atirou-o fora quando Soamos apareceu e passou a mo pelos cabelos.
O sentimento de Soames em relao quele moo era singular. Era sem dvida um rapaz maluco, um irresponsvel, de acordo com o padro antigo, mas tinha qualquer coisa 
de agradvel no extraordinrio entusiasmo com que emitia as suas opinies.
- Entre - disse ele. - J tomou ch? Mont entrou.
- Pensei que Fleur j havia voltado, sir. Mas estou contente por no a encontrar em casa. O facto  que estou terrivelmente apaixonado por ela, to terrivelmente 
apaixonado que achei melhor que o senhor soubesse disso. Tal comunicao est fora da moda,  claro, mas pensei que o senhor me perdoaria o anacronismo. Falei com 
o meu pai, e ele disse que, se eu me estabelecer, se me instalar, ele me transferir tudo. Na verdade, aprovou inteiramente a ideia. Falei-lhe no seu Goya, sir.
- Oh - disse Soames, expressivamente seco. - Ento ele aprovou?
- Sim, sir. E o senhor aprova? - Soames sorriu debilmente. - O senhor compreende - prosseguiu o rapaz, torcendo o chapu de palha, enquanto os cabelos, as orelhas 
e as sobrancelhas pareciam ficar de p, de excitao -, quando a gente vem da guerra, no pode evitar ter pressa.
- Pressa em... casar... e em dissolver o casamento depois - disse Soames lentamente.
- No com Fleur, sir. Imagine-o, se o senhor fosse eu!

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Soames pigarreou Ligeiramente. Aquela maneira de apresentar as coisas era bastante expedita.
- Fleur  muito moa - disse ele.
- Oh, no, sir Ns hoje em dia somos espantosamente velhos. O meu pai parece um beb perfeito, o seu aparelho de pensamento no mudou num cabelo. Mas  um baronight, 
 claro, e isso atrasa-o.
- Baronight - repetiu Soames. - Que  isso?
- Baronete... serei baronete algum dia, mas compensarei isso, sir.
- Pois v, e compense - disse Soames. O jovem Mont implorou:
- Oh, no, sir. Tenho de ficar a rondar em torno dela, seno no terei a menor probabilidade. Creio que o senhor deixa que Fleur faa sempre o que quer.
- Com efeito! - disse Soames, gelado.
- O senhor, na verdade, no est a complicar a situao, pois no?
E o rapaz parecia to infeliz que Soames sorriu.
- Vocs podem pensar que so muito velhos - disse Soames -, mas parecem-me extremamente jovens. Vociferar a respeito de tudo no  prova de maturidade.
- Muito bem, sir. Devolvo ao senhor a sua idade. Mas, para lhe mostrar que estou a levar a coisa a srio, comunico-lhe que arranjei um emprego.
- Estimo saber isso.
- Trabalho com um editor. O meu pai d as garantias. Soames tapou a boca com a mo. Estivera prestes a dizer:
"Deus proteja o editor!" E os seus olhos cinzentos perscrutavam o agitado moo.
- O senhor no me desagrada, Mr. Mont, mas Fleur  tudo para mim. Tudo... compreende?
- Compreendo, sir. Mas ela tambm  tudo para mim.
- Isso pode ser. Estimo que me tenha falado, de qualquer modo. E agora, creio que nada mais h a dizer.
- Compreendo que o resto depende dela, sir.
- E espero que dependa ainda por muito tempo.
- O senhor no  animador, sir - disse Mont de repente.

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- No - retorquiu Soames. - A minha experincia da vida no me ensinou a casar as criaturas  pressa. Boa noite, Mr. Mont. No falarei a Fleur em nada do que me 
disse.
- Oh - murmurou Mont, muito plido. - Sou capaz de fazer saltar os miolos por causa dela. E ela sabe disso muito bem.
- Creio que sim.
E Soames estendeu a mo. Um olhar perdido, um suspiro forte, e logo depois o som da motocicleta do rapaz evocou-lhe vises de nuvens de poeira e ossos quebrados.
"A nova gerao!", exclamou ele sozinho, saindo para o relvado. Os jardineiros tinham andado por l e sentia-se um cheiro de relva recentemente cortada - o ar pesado 
mantinha os cheiros todos mais prximo da terra. O cu estava de um tom purpurino, os lamos negros. Dois ou trs barcos passavam no rio, com os remadores apressando-se 
para chegarem a um abrigo antes da tempestade. "Trs dias de bom tempo", pensou Soames, "e depois um temporal!" Onde estaria Annette? Com aquele sujeito, pelo que 
ele sabia. Afinal, ela era uma mulher nova! Impressionado com a profunda caridade desse pensamento, entrou na estufa de Vero e sentou-se. A verdade era que Fleur 
tanto valia para ele que a mulher valia-lhe muito pouco - pouqussimo. Francesa, nunca passara de uma amante, e ele cada dia ficava mais indiferente a essa espcie 
de coisas! Era engraado como, com todo o seu cuidado visceral por empregos seguros de capital, Soames sempre depunha todos os seus ovos emocionais na mesma cesta! 
Primeiro Irene - agora Fleur. E sentia-se obscuramente consciente daquilo, consciente desse curioso perigo. Aquilo arrastara-o outrora a um escndalo, mas agora 
- agora vinha justamente salv-lo de um novo escndalo. Ele preocupava-se de mais com Fleur para admitir que sobreviesse novo escndalo. Se pudesse agarrar o correspondente 
annimo, ensin-lo-ia a no trazer o lodo para a superfcie da gua que ele fazia questo de manter estagnada! Um relmpago longnquo, um rudo surdo, e grandes 
gotas de chuva esmagaram-se contra o tecto que o cobria. E ele mantinha-se indiferente, desenhando com a ponta do dedo na superfcie empoeirada de uma mesa rstica. 
O futuro de Fleur! "O que quero  preparar um futuro risonho para ela", pensava o pai. "Nada mais tem importncia, na minha idade."

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Que negcio solitrio  a vida! Por mais que uma pessoa faa, nunca  senhor de si mesmo! Se se desfaz de uma, logo vem outra tomar o lugar vazio! Nunca se est 
seguro! Ergueu-se e afastou uma rosa vermelha que se desviara do grande ramo que bloqueava a janela. As flores nasciam e desfolhavam-se - a Natureza era bem estranha! 
O trovo rugia e estalava, caminhando por sobre o rio, e os plidos relmpagos deslumbravam-lhe os olhos. Os cimos dos lamos pareciam agudos e densos contra o cu, 
e uma pesada cortina de gua envolvia e velava a casinhola onde ele estava, indiferente e pensativo.
Quando o temporal acabou, Soames deixou o seu retiro e caminhou pelo caminho ensopado at  margem do rio.
Viam-se dois cisnes, que se tinham abrigado sob os juncos. Ele conhecia bem aquelas aves, e ficou a olhar a dignidade dos seus pescoos curvos, a cabea to semelhante 
 de uma cobra, "No tem dignidade o que eu preciso de fazer!" E tinha de tratar disso j, antes que o pior acontecesse. Annette j deveria estar de volta - donde 
quer que tivesse andado-. porque j estava perto da hora do jantar. E, vendo aproximar-se o momento em que se defrontaria com ela, aumentavam as dificuldades de 
escolher o que diria e como o diria. Um novo e pungente pensamento lhe ocorreu. Imagine-se se ela quisesse a sua liberdade para casar com o tal sujeito! Bem, se 
ela a quisesse, ele no lha daria. No casara com ela para isso. E a imagem de Prosper Profond apareceu diante dele, animando-o. No era homem capaz de casar! No, 
no! E a clera substituiu esse pavor momentneo. "O melhor que ele faz  sair do meu caminho", pensou. Aquele homem representava... mas que representava Prosper 
Profond? Nada que tivesse realmente uma significao. E ao mesmo tempo, representava bastante, neste mundo - a imoralidade desencadeada, a desiluso do vagabundo. 
-Annette apanhara dele a expresso "Je m'en fiche!" Um fatalista! Um continental, um cosmopolita, um produto da poca! Se havia condenao mais completa, Soames 
no a conhecia.
Os cisnes tinham voltado a cabea e estavam a olh-lo,  distncia. Um deles soltou um pequeno silvo, agitou a cauda. virou-se como se respondesse a um desafio, 
depois continuou a
nadar. O outro seguiu-o. Os corpos brancos, os pescoos estendidos, saram-lhe da vista, e ele voltou para casa.
Annette estava na' sala de estar, j preparada para o jantar, e ele pensou enquanto subia a escada: "Correcto  quem correctamente procede." Correcto! Excepto para 
trocar comentrios acerca das cortinas da sala e da tempestade, no houve praticamente nenhuma conversa durante a refeio, em que se distinguia exactido da quantidade 
e perfeio da qualidade. Soames no bebeu. Seguiu depois a mulher  sala de estar, e encontrou-a a fumar um cigarro sentada no sof que ficava entre as duas venezianas. 
Ela estava reclinada, com um vestido preto decotado, as pernas cruzadas, os olhos azuis meio fechados. Um fumo azulado escapava-lhe por entre os lbios vermelhos 
e cheios, uma rede cingia-lhe os cabelos castanhos. Calava finssimas meias de seda e sapatos de salto muito alto, que lhe dificultavam o andar. Um lindo ornato 
para qualquer sala! Soames, que apertava a carta meio rasgada, com a mo profundamente enfiada no bolso de lado do dinner-jacket, disse:
- Vou fechar a janela. Est a entrar humidade.
Fechou-a e ficou um momento a fitar um David Cox que enfeitava a parede prxima, pintada de creme.
Em que estaria ela a pensar? Ele nunca compreendera mulher nenhuma em toda a sua vida - excepto Fleur... e Fleur, nem sempre! O corao batia-lhe apressado. Mas, 
se ele queria fazer o que tencionava, o momento era aquele. Voltando as costas ao David Cox, mostrou a carta amarrotada:
- Recebi isto.
Os olhos dela abriram-se, fitaram-no e endureceram. Soames estendeu-lhe a carta.
- Est rasgada, mas pode ler.
E voltou a olhar o David Cox. uma marinha de tons muito bons, mas sem movimento bastante. "Queria saber que  que aquele sujeito est a fazer neste momento", pensava 
ele. "Creio que se espantaria se me visse agora." Com o canto do olho espiava Annette, que segurava rigidamente a carta. Os olhos dela moviam-se de lado para lado 
sob os clios escurecidos e os olhos escurecidos tambm.

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Deixou cair a carta, .soltou um ligeiro assobio, sorriu e disse:
- Imundo!
- Concordo consigo - disse Soames. -  degradante.  verdade?
Ela mordeu o lbio vermelho.
- E se fosse? Era descarada!
-  tudo o que tem a dizer?
- No.
- Ento fale!
- Qual  a vantagem de falar sobre isso?
- Ento voc admite a verdade disso? - perguntou Soames gelidamente.
- No admito nada. Voc  um louco em perguntar. Um homem como voc no faz perguntas.  perigoso.
Soames deu uma volta pela sala, dominando a sua clera crescente.
- Voc lembra-se - perguntou, erguendo-se em frente dela - do que era quando casei consigo? A caixa de um restaurante.
- E voc lembra-se de que eu no tinha metade da sua idade?
Soames evitou o duro cruzar dos olhos dela e voltou aa David Cox.
- No quero trocar palavras. Exijo que voc liquide essa... amizade. Sou de opinio que isso prejudicar imensamente Fleur.
- Ah... bem!
- Sim - disse Soames obstinadamente. - Fleur. Ela  tanto sua filha como minha.
- Que bondade a sua em admitir isso!
- Voc vai fazer o que eu disse?
- Recuso-me a discutir o caso.
- Ento terei de obrig-la. Annette sorriu.
- No, Soames - disse ela. - Voc  impotente contra isso. No diga coisas que pode depois lamentar. - A clera entumeceu as veias na testa de Soames. Ele abriu 
a boca para dar sada a essa emoo,


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e no pde. Annette continuou: - No haver mais dessas cartas, prometo-lhe. E isso  bastante.
Soames debatia-se contra o sentimento de que aquela mulher estava a trat-lo como a uma criana - aquela mulher que merecia nem ele sabia o qu.
- Quando duas pessoas so casadas e vivem como ns vivemos, Soames, o melhor que elas fazem  guardar um silncio recproco. H coisas que a gente no deve expor 
 zombaria dos outros. Voc deve ficar calado, pois. No por mim... mas por voc prprio. Est a ficar velho... e eu ainda no comecei a envelhecer. E voc tornou-me 
muito prtica...
Soames, que chegara ao limite do choque, repetiu estupidamente:
- Exijo que voc acabe com essa amizade.
- E se eu no acabar?
- Ento... ento exclu-la-ei do meu testamento.
Algo lhe disse que aquilo no era a expresso adequada para o momento.
- Voc ainda viver por muito tempo, Soames - retorquiu Annette, rindo.
- Voc... voc  uma mulher ruim - disse Soames de repente.
Annette encolheu os ombros.
- No penso assim. A vida na sua companhia matou muitas coisas em mim,  verdade, mas no sou uma mulher ruim. Sou sensvel... e nada mais. E assim o julgar voc, 
quando mais tarde pensar nisto tudo.
- Vou procurar esse homem e entender-me com ele.
- Mon cher, voc  engraadssimo. Voc no quer saber de mim, sempre teve de mim tudo o que quis, e quer que todo o resto da minha pessoa fique morto. No admito 
nada, mas no vou ficar morta, Soames, na minha idade. De forma que o que voc faz de melhor  calar-se, como lhe digo. Por mim, nunca darei escndalo. Nunca. E 
agora, no direi mais nada, faa voc o que fizer.
Ergueu-se, apanhou uma novela francesa numa mesinha e abriu-a. Soames olhava-a, silenciado pelo tumulto dos seus sentimentos. E veio-lhe o pensamento de que aquele 
homem estava quase a obrig-lo a desej-la.

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Aquilo era uma revelao nas relaes de ambos, desvendada a algum muito pouco dado a filosofia introspectiva. Sem dizer mais nenhuma palavra, encaminhou-se para 
a galeria dos quadros. "Isto acontece a quem se arrisca a casar com uma francesa! E, apesar disso, sem ela eu no teria Fleur!" Servira aos seus propsitos. "Ela 
tem razo", continuou a pensar. "No posso fazer nada. E eu nem mesmo sei se h alguma coisa de verdade nisto tudo." O instinto de autodefesa ordenava-lhe que fechasse 
o cerco em torno de si, para matar o fogo por falta de ar. Enquanto no se acredita que exista qualquer coisa, ela no existe.
Naquela noite, entrou no quarto da mulher. Ela recebeu-o do modo mais natural, como se no se houvesse passado nenhuma cena entre ambos. E ele voltou para o seu 
prprio quarto com um curioso sentimento de paz. Se algum no procurar ver, no v. E ele no queria ver - no futuro no veria nada. No ganharia nada com aquilo 
- nada! Abrindo uma gaveta, apanhou o sachet de lenos e uma fotografia emoldurada de Fleur. Depois de a contemplar um instante, desviou o retrato da filha, e l 
estava outro retrato - aquela velha fotografia de Irene. Um mocho piou enquanto ele ficou  janela olhando o retrato. O mocho piava, as rosas vermelhas pareciam 
ficar com uma cor mais profunda e subia at ele um aroma de flores de limeira. Deus do Cu! Como aquilo fora diferente!
Paixo! Lembranas! Poeira!

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CAPTULO VII - JUNE AUXILIA


Um escultor eslavo, que residira durante algum tempo em New York, egosta, pauprrimo, estava uma certa tarde no estdio de June Foreyte, que ficava na margem do 
Tamisa, em Chiswick. Na tarde, pois, de 6 de Julho, Boris Strumo-lowski - de quem vrios trabalhos vinham sendo expostos ali, pois eram avanados de mais para serem 
expostos em qualquer outro lugar - comeara bem, com aquele ar longnquo e silencioso que se casava maravilhosamente com o seu rosto jovem, redondo, de mas salientes, 
emoldurado em cabelos louros, cortados como os de uma rapariga. June j o conhecia h trs semanas e ele ainda lhe parecia a principal encarnao do gnio e a esperana 
do futuro: uma espcie de Estrela do Oriente que se extraviara por um Ocidente incapaz de o apreciar. At quela noite, ele reduzira as suas demonstraes de conversa 
a recordaes dos Estados Unidos, cuja poeira ele acabava de sacudir dos ps - pas, na sua opinio, to completamente brbaro que no lhe comprara praticamente 
nada, e at o mantivera sob imediata vigilncia da polcia, um pas, dizia ele, sem raa prpria, sem liberdade, igualdade ou fraternidade, sem princpios, sem tradies, 
sem gosto - numa palavra - sem alma. Deixara-o de motu prprio, e dirigira-se para o outro nico pas onde poderia viver bem. June, por azar, descobrira-o num dos 
seus poucos momentos de folga

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e detivera-se diante das suas criaes - assustadoras, mas poderosas e simblicas depois de compreendidas. E ele, aureolado pelos cabelos cor de ouro, que o tornavam 
semelhante a uma figura de um dos primitivos italianos, absorvido no seu gnio com excluso de tudo o mais - o nico sinal,  claro, pelo qual se pode distinguir 
o gnio autntico-, nem por isso deixava de ser um "desvalido", agitando o corao clido de June, com excluso quase de Paul Post. E ela comeou a tomar providncias 
para desocupar a sua galeria, com o desgnio de ocup-la com as obras-primas de Stru-molowski. Imediatamente encontrara obstculos: Paul Post escoiceara e Vospovitch 
atormentara-a. Com toda a nfase do gnio - qualidade que ela no lhes negara ainda-, pediram-lhe mais uma demora de seis semanas de exposio na galeria.
A corrente americana, fluindo ainda internamente, no demoraria a fluir para fora. E a corrente americana era o nico direito deles, a sua nica esperana, a sua 
salvao - desde que, neste "estpido" pas, ningum se preocupa com a Arte. June recuara diante da demonstrao. Afinal, Boris no se importaria que eles beneficiassem 
do afluxo da corrente americana, que ele to violentamente desprezava.
Naquela noite ela expusera isso mesmo a Boris, sem ningum presente, excepto Hannah e Hobdey. a medievalista, e Jimmy Portugal, director do Neo-Artist. June fazia-lhe 
a sua exposio com aquela ingnua confiana que a convivncia constante com o mundo neo-artstico no conseguira estancar na sua natureza ardente e generosa. E 
no havia mais de dois minutos que ele quebrara o seu silncio messinico, quando June comeou a agitar os olhos azuis de um lado para outro, como um gato que agita 
a cauda. Ele dizia: "Isto  bem caracterstico da Inglaterra, o pas mais egosta do mundo, o pas que suga o sangue das outras naes, que destri o crebro e o 
corao dos Irlandeses, dos Hindus, dos Egpcios, dos Boers, dos Birmanos, de todas as melhores raas do mundo. Taurina, hipcrita Inglaterra!" Era exactamente isso 
que ele esperara, vindo para tal pas, onde o clima se definia pelo fog e os habitantes eram todos comerciantes, inteiramente cegos  Arte, afundados no lucro e 
no mais grosseiro materialismo.
Consciente de que Hannah Hobdey murmurava "Veja s!

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Veja s!" e que Jimmy Portugal sufocava o riso, June ficou rubra e subitamente explodiu:
- Ento porque foi que voc veio para c? No o chammos. A pergunta representava uma to estranha variante daquilo
que ele esperava dela que Strumolowski estendeu a mo e agarrou um cigarro.
- A Inglaterra nunca chama um idealista - disse ele.
Mas algo primitivamente ingls fora abalado em June e o remoto sentimento de justia do velho Jolyon erguera-se dentro dela.
- Voc vem para c viver  nossa custa, e ainda por cima nos diz desaforos. Se acha que isso est certo, eu no acho.
E ela descobria agora o que muitos outros j haviam descoberto antes: a espessura do couro sob o qual a sensibilidade do gnio fica em geral resguardada. A face 
ingnua e jovem de Strumolowski transformou-se na encarnao do escrnio.
- Ningum vive  custa de ningum. Tomamos apenas o que nos pertence, um dcimo do que nos pertence. A senhora vai arrepender-se do que disse, Miss Forsyte.
- Oh, no - gritou June. - No me arrependerei.
- Ah, ns os artistas conhecemos isso muito bem... a senhora procura tirar de ns tudo o que pode. Eu por mim no quero nada de si. - E atirou para o ar o fumo dos 
cigarros de June.
A deciso, num sopro gelado, ergueu-se no turbilho de vergonha que a possua.
- Muito bem. ento pode levar as suas coisas daqui.
E, quase no mesmo instante, ela pensou: "Pobre rapaz! Mal tem uma gua-furtada para morar e no dispe sequer do dinheiro para um txi. E na frente dessa gente. 
 positivamente uma misria!"
O jovem Strumolowski abanou violentamente a cabea, mas os seus cabelos espessos, lisos, unidos como uma bandeja de ouro, no se desmancharam.
- Posso viver do nada-disse ele asperamente. - J o tenho feito, por amor da minha arte. So vocs, burgueses, que nos obrigam a gastar dinheiro.
A palavra feriu June como uma pedrada nas costas. Depois de tudo o que ela fizera pela arte, depois de toda a sua identificao com a arte e os seus filhos desprotegidos!

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E ela lutava por encontrar as palavras adequadas, quando a porta se abriu e a sua austraca murmurou:
- Uma moa, gnadiges Frukin.
- Onde?
- Na salinha de refeies.
Com um olhar para Boris Strumolowski, para Hannah Hobdey e Jimmy Portugal, June no disse nada e saiu, procurando no se exaltar. Entrando na "salinha de refeies", 
viu que a moa era Fleur - muito bonita, apesar de plida. Naquele momento de desencanto, uma "desvalida)) da sua prpria raa era bem-vinda a June, to homeoptica 
por instinto.
A pequena deveria ter vindo, naturalmente, por causa de Jon, ou, seno, pelo menos para lhe arrancar qualquer coisa. E June compreendeu mais uma vez que a nica 
coisa suportvel deste mundo era auxiliar algum.
- Ento voc lembrou-se de vir - disse ela.
- Sim. Que casinha bonitinha a sua! Por favor, no se prenda comigo, se tem outros convidados.
- Absolutamente - disse June. - Quero mesmo deix-los algum tempo a cozer no seu prprio caldo. Veio para falar acerca de Jon?
- Disse que ns deveramos ser informados de tudo. Pois bem, eu j descobri o que houve.
- Oh - disse June, empalidecendo. - No  uma histria bonita, pois no?
Tinham-se postado de um lado e do outro da mesinha onde june tomava as suas refeies. Um vaso, sobre ela, estava cheio de papoulas da Islndia. A pequena levantou 
a mo e tocou-as com o dedo enluvado. E June agradou-se de repente do vestido de Fleur, folhado nos quadris, estreito nos joelhos, de uma cor encantadora, azul de 
linho.
"Ela constitui um quadro", pensou June. A sua salinha, com as paredes caiadas, o cho e a lareira de tijolos rosa antigo, as rtulas atravs das quais o sol ainda 
luzia, tinha-se tornado encantadora, animada por aquele lindo vulto, de rosto branco, embora levemente preocupado!

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E June recordou com repentina intensidade como ela prpria havia sido bonita nos velhos tempos em que o seu corao fora dado a Philip Bosinney, aquele amante morto, 
que rompera com a noiva para destruir o casamento de Irene com o pai daquela rapariga. Seria que Fleur tambm conhecia esse facto?
- Bem - disse ela -, que  que voc vai fazer? S alguns segundos depois Fleur respondeu:
-- No quero que Jon sofra. Desejo v-lo apenas uma vez para acabar com tudo.
- Quer realmente acabar com tudo?
- Que hei-de eu fazer?
De repente, a moa pareceu a June intolervelmente destituda de esprito.
- Talvez tenha razo - murmurou. - Sei que meu pai .tambm pensa assim, mas eu nunca o faria. No posso deitar fora certas coisas.
- Podem pensar que estou apaixonada - retorquiu Fleur.
- E no o est?
Fleur encolheu os ombros. "Eu devia ter previsto isto" pensou June. "Ela  filha de Soames. E, apesar disso, ele..."
- Para que  ento que precisa de mim? - perguntou ela com uma espcie de repulsa.
- Ser que eu poderei avistar-me amanh com Jon, aqui, quando ele for para a casa de Holly? Se lhe mandar um bilhete, ele passar por aqui. E talvez mais tarde, 
se anunciar calmamente em Robin Hill que est tudo acabado, eles no precisaro de contar a Jon a histria da me dele.
- Muito bem! - disse abruptamente June. - Vou escrever, e voc pode pr a carta no correio. Amanh, s duas e meia. Eu no estarei em casa.
E sentou-se na pequena escrivaninha que ocupava um dos cantos. Quando ela levantou os olhos depois do bilhete escrito, Fleur ainda tocava as papoulas com o seu dedo 
enluvado.
June colou o selo na carta.
- Bem, c est. Se no est apaixonada,  evidente que nada mais h a dizer. Jon tem sorte.
Fleur recebeu o envelope.

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- Muitssimo obrigada!
"Criatura gelada!", pensou June. Jon, filho de seu pai, amar e no ser amado pela filha de Soames! Era humilhante!
-  tudo?
Fleur fez um gesto de assentimento e os folhos da sua saia agitaram-se enquanto ela deslizava em direco  porta.
- Adeus!
- Adeus! - "Manequinzinho de modas!", resmungou June, fechando a porta. Que famlia!" E voltou para o estdio.
Boris Strumolowski reassumira o seu silncio messinico e Jimmy Portugal vociferava contra toda a gente, excepto o grupo de que dependia o Neo-Artist. Entre os condenados 
estava Eric Cobbley e vrios outros do cl dos "desvalidos" que noutros tempos haviam merecido o primeiro lugar no repertrio de auxlio e adorao de June. E ela 
experimentou um sentimento de futilidade e repugnncia e foi para a janela para que o vento do rio varresse aquelas speras palavras.
Quando afinal Jimmy Portugal acabou, ela voltou a sentar-se, e durante meia hora amansou o jovem Strumolowski, prometendo-lhe pelo menos um ms da corrente americana, 
de forma que ele saiu com a sua aurola em perfeita ordem.
"A despeito de tudo", pensou June. "Boris  maravilhoso."

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CAPTULO VIII - FREIO NOS DENTES


O sentimento de se ter colocado mal na opinio de algum , para certas naturezas, um sentimento de alvio. Fleur no sentia remorsos quando deixou a casa de June. 
Lendo nos olhos azuis da prima um ressentimento e uma condenao, sentia-se satisfeita por a ter enganado, desprezando June porque aquela idealista j idosa no 
fora capaz de lhe descobrir os desgnios.
Ora acabar com tudo! Breve mostraria a todos eles que estava apenas a comear! E sorria para si mesma, do alto do nibus que a levava de volta para Mayfair. Mas 
o sorriso morreu, vencido por uma sbita angstia e ansiedade. Seria que ela teria foras para dominar Jon? Ela tomara o freio nos dentes, mas poderia obrig-lo 
a fazer o mesmo? Conhecia a verdade, e o perigo real que existia numa demora... e ele no sabia de nada. Havia naquilo uma tremenda diferena.
"Imagine-se que eu lhe conto tudo", pensava ela. "Ser realmente o modo mais seguro de agir?" Aquele desgraado azar no tinha o direito de lhes estragar o futuro 
- e ele devia compreender isso! Eles no podiam consentir naquilo. Toda a gente se curva sempre perante um facto consumado. E daquele retalho de filosofia, excessivamente 
profundo para a idade dela, passou para outra considerao no menos filosfica. Se persuadisse Jon a realizar um casamento rpido e secreto, e ele descobrisse depois 
que ela j conhecia a verdade desde antes? Que sucederia ento?

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Jon odiava todos os subterfgios, de maneira que no seria melhor contar-lhe logo tudo? Mas a lembrana do rosto da me dele interceptou aquele impulso. Fleur tinha 
medo. A me tinha poder sobre ele, mais poder, talvez, que ela prpria. Era um risco grande de mais. Mergulhada profundamente nesses clculos instintivos, passou 
por Green Street e foi at ao Hotel Ritz. Desceu do nibus e voltou a p para os lados de Green Park. A tempestade levara todas as rvores, que ainda gotejavam, 
e caam sobre ela pesadas gotas, provocando-lhe arrepios, e, para as evitar, saiu do parque, ficando sob as vistas do Iseeum Club. Arriscando-se a olhar para cima, 
viu Monsieur Profond, em companhia de um homem alto e gordo, numa das sacadas. E, virando para Green Street, Fleur ouviu o seu nome chamado por algum, vendo ento 
aquele "vagabundo" acompanhando-a. Ele tirou o chapu, um feltro lustroso, coisa que ela particularmente detestava.
- Boa tarde, Miss Forsyde. No h nenhuma "pequena coisa" que eu possa fazer por si?
- Sim, v para o outro lado.
- Imagine! Porque  que no gosta de mim?
- No gosto?
- Parece que sim.
- Bem, talvez porque o senhor me faa sentir que a vida no vale a pena ser vivida.
Monsieur Profond sorriu.
- Escute, Miss Forsyde, no se amofine. Tudo acabar bem. Nada  duradouro.
- Pelo menos comigo - exclamou Fleur -, tudo  duradouro. Especialmente isto de simpatias e antipatias.
- Pois isso faz-me um pouco infeliz.
- Nunca imaginei que nada no mundo fosse capaz de o fazer feliz ou infeliz.
- No gosto de aborrecer os outros. Vou embarcar no meu iate.
Fleur olhou-o, estupefacta.
- Para onde?
- Uma pequena viagem aos Mares do Sul, ou algures. Fleur sentiu ao mesmo tempo um sentimento de alvio e um sentimento de que a insultavam.

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Era evidente que ele estava a pretender insinuar que aquilo era um rompimento com a me dela. Como ousava ele ter qualquer coisa a romper e como ousava romper aquilo?
- Boa noite, Miss Forsyde. D cumprimentos meus a Mrs. Dartie. No sou, na verdade, to mau como pensa. Boa noite!
Fleur deixou-o de p, com o chapu na mo. Olhando depois para trs, viu-o deslizar - imaculado e volumoso - de volta para o clube.
"Ele no  capaz nem de amar com convico. Que ir fazer a mam?".
Os sonhos dela, naquela noite, eram infindveis e aflitivos. Levantou-se mais fatigada ainda, e foi logo para a biblioteca,  procura do Whitake's Almanack. Todos 
os Forsyte tm a noo instintiva de que os factos  que so os elementos cruciais de qualquer situao. Ela precisava de vencer os preconceitos de Jon, mas, sem 
os instrumentos adequados para completar a sua resoluo desesperada, nada poderia acontecer. Graas ao inestimvel livro, informou-se de que ambos precisavam de 
ter vinte e um anos, de contrrio, seria preciso o consentimento de algum, o que, logicamente, era impossvel de obter. E perdeu-se ento em pargrafos referentes 
a licenas, certificados, avisos, distritos, chegando finalmente  palavra "perjrio". Mas aquilo eram disparates! Quem se importaria realmente se eles dessem uma 
idade falsa, se estavam a casar-se por amor! Quase no comeu ao pequeno-almoo e voltou ao Whitaker. E quanto mais o estudava, menos segura se sentia, at que, voltando 
rapidamente as pginas, chegou  Esccia. L, as pessoas podiam casar-se sem nenhuma daquelas tolices. Precisava apenas de ir para l e demorar-se vinte e um dias. 
Jon chegaria ento, e na frente de duas testemunhas eles declarar-se-iam casados. Era o que eles fariam! No poderia haver melhor soluo. E imediatamente ela comeou 
a fazer um inventrio das suas colegas. Havia Mary Lambe, que morava em Edinburgh e era uma pequena alinhada. E ela tinha um irmo. Fleur poderia ir para a casa 
de Mary Lambe-e Mary e o irmo .serviriam de testemunhas. Compreendia muito bem que muitas pequenas considerariam tudo aquilo desnecessrio

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e tudo o que ela e Jon precisavam de fazer era fugirem juntos durante um fim-de-semana e depois declarar aos pais: "Estamos casados perante a Natureza. Convm agora 
que nos casem perante a lei." Mas Fleur era Forsyte bastante para considerar duvidoso esse procedimento e para recear a cara do pai quando ouvisse tal declarao. 
Alm disso, no acreditava que Jon fosse capaz de tal faanha. Ele tinha uma to elevada opinio sobre ela que lhe era foroso no cair no seu conceito. No! Mary 
Lambe era prefervel, e aquela era justamente a poca do ano propcia s temporadas na Esccia. Mais  vontade, Fleur arrumou as suas coisas, evitou a tia e apanhou 
o nibus para Chiswick.
Era muito cedo, e a moa dirigiu-se ao Kew Gardens. No se acalmou passeando por entre os canteiros, as rvores rotuladas e os grandes espaos relvados, e, depois 
de almoar uma sanduche de anchovas e caf, voltou a Chiswick e tocou a campainha da casa de June. A austraca levou-a  "salinha das refeies".
Agora, que ela conhecia o motivo que a afastava de Jon, a sua saudade por ele era ainda mais forte, como se ele fosse um brinquedo de pontas aguadas ou pintado 
com tintas venenosas, como muitos que lhe haviam tirado na infncia. Se no pudesse realizar o seu desejo e apoderar-se de Jon para sempre, sentia que era capaz 
de morrer de desgosto. De qualquer modo, tinha de o obter. Um espelho redondo, escuro e antigo, pendia sobre a chamin de tijolos. E a pequena parou a mirar-se, 
reflectida nele, plida, com grandes olheiras. Pequenos arrepios percorriam-lhe os nervos. Foi ento que ouviu tocar a campainha e, chegando furtivamente  janela, 
viu Jon, de p,  entrada, alisando os cabelos e mordendo os lbios, como se tambm procurasse dominar os nervos agitados.
Estava sentada numa das duas cadeiras de vime, de costas para a porta, quando ele entrou, e disse imediatamente:
- Sente-se, Jon, quero falar seriamente consigo. - Jon sentou-se  mesa, ao lado dela, e, sem olhar para ele, a pequena continuou: - Se no quer perder-me, temos 
de nos casar.
- Porqu? Houve alguma coisa de novo? - perguntou Jon.
- No, mas eu senti isso em Robin Hill e junto da minha famlia.

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- Mas - gaguejou Jon -, em Robin Hill tudo correu muito bem... e eles no me disseram nada.
- Mas querem separar-nos. O rosto de sua me dizia isso claramente. E o de meu pai tambm.
- Voc j o viu depois daquele dia?
Fleur fez sinal que sim. Que importncia tinham umas pequenas mentiras acessrias?
- Mas - acrescentou calorosamente Jon - no posso compreender como  que eles procedem assim, depois de passados tantos anos.
Fleur levantou os olhos para ele.
- Talvez voc no me ame bastante.
- No a ame bastante! Porqu... eu...
- Ento garanta o seu direito sobre mim.
- Sem dizer nada a eles?
- S depois de tudo.
Jon ficou calado. Como parecia muito mais velho que h uns escassos dois meses, quando o vira pela primeira vez! Com efeito, estava uns dois anos mais velho!
- Isso magoaria horrivelmente minha me.
Fleur estendeu a mo.
- Voc tem o direito de escolher.
Jon deslizou da mesa e caiu de joelhos.
- Mas porque no dizer nada a eles? Eles no podem impedir-nos, Fleur!
- Podem. Estou a dizer-lhe que podem.
- Como?
- Ns dependemos inteiramente deles... e eles podem fazer presso econmica e muitas outras maneiras de presso. E eu no sou paciente, Jon.
- Mas isso  iludi-los. Fleur ergueu-se.
- Voc no pode gostar de mim. De contrrio, no hesitaria. Quem ama no hesita.
Erguendo as mos at  cintura dela, Jon obrigou-a a sentar-se novamente. E ela apressou-se a dizer:

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- Eu j tinha planeado tudo. Basta que vamos  Esccia. Quando estivermos casados, eles tero de concordar. Toda a gente concorda com factos consumados. Voc no 
compreende, Jon?
- Mas isso iria mago-los horrorosamente! Ento ele preferia antes mago-la que aos seus!
- Muito bem, ento. Deixe-me ir! Jon levantou-se e encostou-se  porta.
- Creio que tem razo - disse ele lentamente. - Mas quero pensar melhor nisso.
Ela compreendeu que ele estava a borbulhar de pensamentos que queria exprimir, mas no tencionava ajud-lo. Odiava-se a si prpria naquele momento, e quase o odiava 
tambm. Porque cabia a ela todo o trabalho de garantir o amor de ambos? No era justo. E foi ento que viu os olhos dele adorando-a, desesperados.
- No me olhe dessa maneira! O que eu quero apenas  no o perder, Jon!
- Voc no pode perder-me enquanto me quiser.
- Oh, sim, posso.
Jon ps-lhe as mos nos ombros.
:-Fleur, voc ter sabido de alguma coisa que no quer contar-me?
Era aquele o ponto nevrlgico, a pergunta que ela temera, mas olhou-o firmemente e respondeu:
- No.
Queimara todos os seus navios, mas que importava isso, se o obtivesse? Ele perdoar-lhe-ia. E, rodeando-lhe o pescoo com os braos, beijou-o nos lbios. Estava a 
vencer! Sentia-o pelas pancadas do corao dele contra o seu, pelos olhos que ele fechara
- Quero ficar segura! Quero uma certeza - sussurrou ela. - Prometa!
Jon no respondeu. Havia no seu rosto o tremor da extrema confuso. E por fim disse:
- Isso ir atorment-los. Preciso de pensar um pouco, Fleur. Na verdade, preciso muito de pensar um pouco.
Fleur desenlaou-se dos braos dele.
- Oh! Muito bem!
E subitamente rompeu em lgrimas de desapontamento, de vergonha e esgotamento.

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Seguiram-se cinco minutos de infelicidade aguda. O remorso e a ternura de Jon no conheciam limites, mas no prometeu nada. Apesar da sua vontade de gritar "Muito 
bem, j que voc no me ama o bastante, adeus!", ela no ousava faz-lo. Acostumada desde que nascera a fazer o que queria, essa recusa partida de uma criatura to 
jovem, to terna, to amorosa, assustava-a e surpreendia-a. Queria expuls-lo de si, ver o que fariam a clera e a frieza, mas no o ousava. A compreenso de que 
estava  pretender atir-lo cegamente no irreparvel enfraquecia tudo - enfraquecia a sinceridade do pundonor, a sinceridade da paixo. Nem mesmo os seus beijos 
tinham o impulso sincero que ela queria dar-lhes. E aquele pequeno encontro tempestuoso terminou sem um desenlace.
- Quer um pouco de ch, gndiges Frulein? - perguntou a austraca, que entretanto entrara na salinha das refeies.
Afastando Jon de si, ela exclamou:
-No, no! Muito obrigada. Vou sair j.
E, antes que ele o pudesse evitar, ela partira.
Chegou a casa da tia furtivamente, enxugando as faces vermelhas e abatidas, assustada, colrica, profundamente infeliz. Levara Jon a extremos to perigosos e nada 
de definitivo fora prometido ou combinado! Porm, quanto mais incerto e inseguro o futuro, mais a vontade de vencer lhe enterrava os tentculos na carne do corao.
No estava ningum em Green Street. Winifred sara com Imogen para assistir a uma pea que uns diziam ser alegrica e outros "muito excitante".
E fora por causa do que uns e outros diziam que Winifred e Imogen haviam ido v-la. Fleur dirigiu-se para Paddington. Entrava pela janela do comboio o ar das olarias 
de West Drayton e o cheiro dos ltimos campos de feno, banhando-lhe as faces ainda abatidas.
As flores s nascem para serem colhidas, mas agora, no entanto, apresentavam-se cobertas de espinhos. Mas nem por isso parecia menos desejvel, ao seu esprito tenaz, 
aquela flor dourada defendida pela corola de farpas agudas.

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CAPTULO IX - LEO SOBRE O FOGO


Ao chegar a casa, Fleur encontrou ali uma atmosfera to estranha que penetrava at a aura perplexa da sua vida particular. A me entrincheirara-se inacessivelmente 
no seu boudoir e o pai contemplava o destino no vinhedo. Nenhum dos dois lhe deu uma palavra. "Ser por minha causa? Ou por causa de Profond?"
- Que sucedeu ao pap? - perguntou  me, que respondeu com um encolher de ombros. E ao pai: - Que sucedeu  mam? - E o pai respondeu:
- Que sucedeu? Que  que pode ter sucedido? - E lanou-lhe um olhar acerado.
"Pelo que vejo", murmurou para si Fleur, "Monsieur Profond j est a fazer a pequena viagem pelos Mares do Sul, no seu iate."
Soames examinou um ramo onde no crescia nenhuma uva.
- Este vinhedo  um fracasso - disse ele. - Ontem esteve aqui aquele rapaz Mont. E perguntou-me uma coisa referente a si.
- Oh! Que acha dele, pap?
- Ele...  um produto da poca... como todos esses outros moos.
- Como era o pap na idade dele, querido?

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Soames sorriu amargamente.
- Ns trabalhvamos, no pensvamos unicamente em divertimentos... remando, guiando, namorando.
- O pap nunca namorou?
Ela evitou olhar para ele enquanto dizia isto, mas via-o muito bem. O seu rosto plido corara e as sobrancelhas escuras, que j estavam riscadas de branco, uniram-se 
numa linha nica.
- No tinha tempo nem inclinao para peralvilho.
- Talvez tenha tido alguma grande paixo. Soames olhou-a intensamente.
- Sim... j que o quer saber... e muito ganhei com isso! E ps-se a caminhar ao longo dos canos de gua quente. Fleur
andava nas pontas dos ps, silenciosamente, atrs dele.
- Conte-me esse caso, pap! Soames imobilizou-se.
- Que  que quer saber acerca dessas coisas, na sua idade?
- Ela  viva?
Ele fez sinal que sim.
- Casada?
- Sim.
-  a me de Jon Forsyte, no ? E foi a sua primeira mulher.
Aquilo foi dito num relmpago de intuio. Decerto a oposio do pai partia do desejo de ocultar a Fleur aquela velha ferida do seu orgulho, mas a moa sentiu-se 
estupefacta ao ver aquele homem to velho e to calmo abater-se assim de sbito e ao ouvir a nota de dor que lhe marcava a voz.
- Quem lhe contou isso? Se foi sua tia... no posso suportar que se comente esse caso.
- Mas, querido - disse meigamente Fleur-, isso j se passou h tantos anos!
- H muitos anos ou no, eu... -Fleur agarrou-lhe o brao. - Procurei esquecer - disse ele subitamente. - E no gosto que me relembrem. - E ento, como se desse 
sada a uma longa e secreta irritao, acrescentou: - Nos tempos de agora, ningum compreende. Grande paixo, com efeito! No, ningum sabe o que isso .

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- Eu sei - disse Fleur quase num suspiro.
Soames, que lhe voltara as costas,, virou-se rapidamente.
- De que  que voc est a falar... uma criana como !
- Talvez eu tenha recebido isso de herana, pap.
- O qu?
- Pelo filho dela.
Ele estava plido como linho, e ela compreendeu que o magoara. Os dois contemplavam-se dentro do ar pesado de vapor cheio de odor de musgo que vinha da terra, dos 
gernios nos vasos e das vinhas.
- Isso  uma loucura - disse finalmente Soames por entre os lbios secos.
E, mal movendo os lbios, ela murmurou:
- No se zangue, pap. No posso lutar contra isso.
Mas ela via muito bem que ele no estava zangado, apenas aflito, profundamente aflito.
- Acho que tudo isso  loucura - murmurou ele - e que tudo ser esquecido.
- Oh, no! Aumentou dez vezes, em vez de diminuir.
Soames deu um pontap no caldeiro de gua. E aquele movimento incongruente comoveu-a... a ela, que no tinha medo do pai.
- Papzinho!-disse ela. - O que tem de ser feito... o que tem de ser... o senhor sabe o que .
- Tem de ser feito! - repetiu Soames. - Voc no sabe o que est a dizer. Esse rapaz j sabe de tudo?
O sangue subiu s faces da rapariga.
- Ainda no.
Ele voltara-se de novo para a filha, com um dos ombros descado, ainda a Olhar fixamente para os canos de gua quente.
-  a coisa mais desagradvel que poderia suceder-me - disse ele de repente. - No pode haver nada mais desagradvel. Filho daquele sujeito! Isso ... ... perverso!
Ela atentara, quase inconscientemente, em que ele no dissera "filho daquela mulher", e novamente a sua intuio ps-se em campo.

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Seria que o fantasma daquela grande paixo ainda jazia em algum recanto do seu corao?
E a moa deslizou a mo sobre o brao do pai.
- O pai de Jon est muito velho e doente. Vi-o anteontem.
- Voc?
- Sim, fui l com Jon, vi-os a ambos.
- Bem, e que lhe disseram eles?
- Nada. Foram muito delicados.
- Tinham de ser. - Ele Voltou  sua contemplao dos canos, e disse subitamente: - Tenho de ' pensar nisto mais tarde.  noite falarei consigo.
Ela sabia que aquele era o momento final, e fugiu, deixando-o ainda a olhar para os canos de gua quente. Vagueou pelo pomar, por entre as moitas de framboesas e 
groselhas, sem entretanto apanhar nem morder fruta nenhuma. Dois meses atrs vivia to descuidada! Mesmo dois dias antes desfrutava a mesma paz, at Prosper lhe 
ter falado. Agora sentia-se presa numa rede - uma rede de paixes, de direitos de posse, de laos de amor e dio. E naquele sombrio momento de desnimo tudo parecia 
- mesmo a uma natureza tenaz como a sua - no ter qualquer sada. Como deslindar aquilo, como dobrar as coisas  sua vontade e satisfazer o desejo do seu corao? 
E subitamente, ao virar o canto da alta sebe, avistou a me, que caminhava rapidamente, com uma carta aberta na mo. O seio dela arfava, os olhos estavam dilatados, 
as faces vermelhas. Instantaneamente, Fleur 'pensou: " o iate! Pobre mam!"
Annette lanou-lhe um olhar vago e assustado e disse:
- Vai la migraire.
- Sinto muito, mam.
- Oh, sim! Voc e seu pai... sentem muito!
- Pobre mam... eu sinto realmente. Sei o que isso .
Os olhos assustados de Annette abriram-se mais, escancararam-se. E ela disse:
- Pobre inocente!
Sua me, com tanto domnio de si, to ajuizada - a falar assim! Era assustador! O pai, a me, ela prpria! E apenas dois meses atrs eles pareciam ter tudo o que 
se poderia desejar neste mundo.
Annette amarrotou na mo a carta e Fleur compreendeu que deveria fingir no ter ouvido o seu suspiro.

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- Quer que lhe arranje alguma coisa para a sua dor de cabea, mam?
Annette sacudiu a cabea e ps-se a andar, agitando os quadris.
"Isto  cruel", pensava Fleur. "E eu que tinha ficado contente! Aquele homem! Porque andam os homens a rondar as criaturas, perturbando tudo? Naturalmente est cansado 
dela. Que direito tem ele de estar cansado de minha me? Que direito?" E a esse pensamento, to natural e to disparatado, soltou uma pequena risada amarga.
Claro que deveria estar contente, mas, afinal, que havia ali para a alegrar? O pai no dava importncia! Entrou no pomar e sentou-se sob a cerejeira. Uma brisa soprava 
nos ramos mais altos. O cu, visto atravs de todo aquele verde, parecia muito azul, com as nuvens muito brancas - aquelas pesadas nuvens brancas sempre presentes 
na paisagem da beira do rio. As abelhas, abrigadas do vento, sorviam docemente o mel das flores e sobre a relva espessa saa a sombra das fruteiras, plantadas pelo 
pai vinte e cinco anos antes. Os pssaros estavam quase em silncio, os cucos j no cantavam, mas os pombos bravos arrulhavam. O zumbir dos zanges, os arrulhos 
dos pombos, aquela fora de Vero, no serviram por muito tempo para sedativo aos nervos excitados da moa. E, sentada sobre as pernas, comeou a traar planos. 
O pai deveria vir em auxlio dela. Com que se importaria ele mais, uma vez que ela fosse feliz? Ela no vivera j dezanove anos para compreender que o seu futuro 
era a nica coisa que o preocupava? E o que lhe restava, pois, era convenc-lo de que o seu futuro nunca seria feliz se lhe tirassem Jon. Ele supunha aquilo apenas 
um capricho. Como eram loucos os velhos ao pensarem que podiam falar acerca do que sentem os jovens! Ele prprio no confessara que - quando jovem - tivera a sua 
grande paixo? Deveria compreender agora! "Ele junta o dinheiro para mim", cismava ela, "mas para que me servir, se no posso ser feliz?" O dinheiro, e tudo o que 
ele compra, no podem trazer felicidade. S o amor a traz. As margaridas do pomar, que lhe do s vezes um aspecto enluarado, crescem selvagens e felizes e tm a 
sua hora. "Eles no deveriam ter-me posto o nome de Fleur",

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continuava a cismar a rapariga, "se no tencionavam conceder-me a minha hora, para ser feliz enquanto ela durar." Nenhum obstculo real se interpunha  sua felicidade 
- tal como pobreza ou doena -, mas apenas o sentimento, o fantasma de um passado infeliz! Jon tinha razo. Os velhos no querem deixar que os moos vivam! Erram, 
cometem crimes, e querem que os seus filhos paguem por isso! A brisa que agitava os ramos das cerejeiras morreu, e ela ergueu-se, apanhou um cacho de madressilva 
e foi-se embora.
A noite estava quente. Ela e a me trajavam ambas vestidos leves, claros e decotados. As flores da mesa tambm eram claras, e Fleur impressionou-se com o aspecto 
plido de tudo: as plidas faces do pai, os ombros da me, as plidas paredes apaineladas, o tapete de um verde plido, a luz da lmpada, at a sopa era plida. 
No havia uma nota de cor em toda a sala, nem mesmo o vinho nos plidos copos, porque ningum o bebia. O que no era plido era negro - as roupas do pai, as roupas 
do mordomo, o co estirado exausto na soleira, as cortinas escuras com bordados creme. Uma mariposa aproximou-se, e tambm era descorada. E aquele jantar meio fnebre 
decorria em silncio, no meio do calor.
O pai chamou-a no momento em que ela acompanhava a me para fora da sala. Sentou-se  mesa, ao lado dele, e, tirando do alfinete o ramo de madressilvas, levou-o 
ao nariz.
- Estive a pensar - disse ele. -Sim, querido?
-  extremamente penoso para mim falar acerca deste assunto, mas no posso evit-lo. No sei se compreende bem tudo o que representa para mim... nunca falei sobre 
isso, nunca o imaginei necessrio... mas... mas... voc  tudo para mim. Sua me... - Soames calou-se e ficou a contemplar o seu clice de cristal de Veneza.
- Sim?
- S a tenho a si. Nunca tive... nunca desejei outra coisa desde que voc nasceu.
- Eu sei - murmurou Fleur. Soames mordeu os lbios.

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- Voc pode pensar que aquele assunto  uma coisa que eu posso deixar de lado e arranjar tudo a seu contento. Mas engana-se. Eu nada posso fazer. - Fleur no respondeu. 
- Sem levar absolutamente em conta os meus prprios sentimentos - prosseguiu Soames com mais resoluo -, aqueles dois nunca sero levados  menor concesso. Eles... 
eles odeiam-me, como sempre nos odeiam aqueles que nos fizeram mal.
- Mas ele... Jon...
-  da mesma carne e do mesmo sangue...  o filho nico deles. Provavelmente significa para ela o que voc significa para mim.  um beco sem sada.
- No - exclamou Fleur. - No, pap!
Soames encostou-se ao espaldar da cadeira, a imagem da plida pacincia, como se estivesse resolvido a no trair nenhuma emoo.
- Escute! - disse ele. - Voc est a pr os sentimentos de dois meses... dois meses!... contra os sentimentos de trinta e cinco anos! Que vantagem pensa ter? Dois 
meses... o seu primeiro caso sentimental... questo de meia dzia de encontros, algumas conversas e passeios, alguns beijos... contra... contra o que voc nem pode 
imaginar, que ningum pode imaginar, a menos que no o tenha atravessado! Por favor, seja razovel, Fleur!  uma loucura!
Fleur despedaou a madressilva em pedacinhos.
- A loucura  deixar o passado estragar tudo o que existe agora. Porque se preocupam com o passado? Trata-se das nossas vidas, no das vossas!
Soames ergueu a mo at  fronte, onde de repente o suor comeara a brilhar.
- De quem  voc filha? De quem  ele filho? O presente  estreitamente 'ligado ao passado, e o futuro com ambos, ao presente e ao passado. Ningum pode fugir de 
nenhum.
Jamais ela ouvira antes a filosofia passar atravs daqueles lbios.
Impressionada, apesar da sua agitao, Fleur ps os cotovelos sobre a mesa e o queixo entre as mos.
- Mas, pap, considere isso praticamente. Ns gostamos um do outro. Por mais dinheiro que se possua, nada tem importncia seno o sentimento. Deixe que o passado 
fique enterrado, pap.

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- A resposta dele foi um suspiro. - Alm disso - disse Fleur meigamente -, no pode evitar o que ns fizermos.
- No creio - disse Soames - que, se isso fosse deixado a mim, eu tratasse de os separar. Seria obrigado a pr de lado muitas coisas, por amor da afeio de vocs. 
Mas no sou eu que controlo o caso.  isso que eu quero que voc compreenda, antes que seja tarde de mais. Se continuar a pensar que acabar por vencer e deixar 
crescer esse seu sentimento, o golpe ser muito maior depois, quando descobrir que tudo  impossvel.
- Oh - exclamou Fleur -, ajude-me, pap! Sabe que pode ajudar-me!
Soames fez um movimento espantado de negativa.
- Eu? - disse ele amargamente. - Ajud-la? Sou eu o impedimento... exactamente a causa do impedimento.,. no  assim que se diz? Voc tem o meu sangue nas veias. 
- E ergueu-se.- Bem, o leo j est lanado sobre o fogo. Se persiste na sua obstinao, s poder queixar-se de si mesma. Por favor! No seja louca, minha filha! 
Minha nica filha!
Fleur encostou a testa ao ombro do pai.
Tudo dentro dela estava em turbilho, mas no adiantava mostr-lo, no adiantava nada! Afastou-se dele, caminhou para a obscuridade de fora, perturbada, mas no 
convencida. Tudo estava indeterminado e vago dentro dela, tal como os contornos e as sombras no jardim, excepto a sua vontade de vencer. Um lamo alongava-se atravs 
do cu azul-escuro e chegava at uma estrela branca. O orvalho ensopava-lhe os sapatos e arrepiava-lhe os ombros nus. Ela caminhou para o rio e ficou a olhar o rasto 
do luar na gua escura. Subitamente sentiu um cheiro de cigarro e -uma figura branca emergiu, como se fora criada pelo luar. Era o jovem Mont no seu fato de flanela 
branca, de p no barco. E ela ouviu o dbil chiar do cigarro ao extinguir-se na gua.
- Fleur - disse o rapaz-, no seja dura para com um pobre diabo! Estou aqui  espera h horas.
- Para qu?
- Venha para o meu barco!
- Eu... no.
- Porque no?

199

- No sou uma ninfa do rio.
- No h nenhuma dose de romantismo em si? No seja to moderna, Fleur!
E ele apareceu no caminho, a um metro dela.
- V-se embora!
- Fleur, no sabe que a amo? Fleur! Fleur soltou uma risadinha breve.
- Pode vir, ento. Enquanto eu no realizo o meu desejo.
- Qual  o seu desejo?
- Pergunte outra coisa.
- Fleur - disse Mont, com uma voz que soava estranhamente-, no troce de mim! Mesmo os ces vivissecados tm um tratamento melhor, antes de os matarem de todo!
Fleur abanou a cabea, mas os seus lbios tremiam.
- Voc no pretender fazer-me concordar com isso. D-me um cigarro.
Mont deu-lhe um cigarro, acendeu-o, depois acendeu outro para ele.
- No quero dizer tolices. Mas, por favor, imagine todas as tolices que os namorados j disseram at hoje, e as minhas estaro entre elas!
- Obrigada, estou a imaginar.
Ficaram um momento encarando-se  sombra de uma accia, cujas flores o luar banhava, e o fumo dos seus cigarros misturava-se no ar entre eles.
Fleur virou-se abruptamente em direco  casa. No relvado parou e olhou para trs. Michael Mont agitava os braos por sobre a cabea, viu-os mesmo tocar os ramos 
enluarados da accia. A voz dele chegou at ela: "Lindeza, lindeza!" Fleur teve pena. Como poderia consol-lo? J tinha complicaes de mais, sozinha. Na varanda, 
parou de repente. A me estava  sua mesa de escrever, na sala de estar, inteiramente s. No havia nada de notvel na expresso do seu rosto, excepto a imobilidade. 
Mas parecia desolada! Fleur subiu a escada.  porta do quarto, parou. Ouvia as passadas do pai, para trs e para diante, na galeria de quadros.
"Sim", pensou ela. "Lindeza! Oh, Jon."

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CAPTULO X - DECISO


Quando Fleur o deixou, Jon ficou a encarar a austraca. Era uma mulherzinha magra, de cara morena, com a expresso inquieta de quem estava  espreita de todas as 
pequenas alegrias que a vida antes lhe furtara.
- No quer ch? - perguntou ela.
Sensvel ao desapontamento que havia na voz dela, Jon murmurou:
- No, realmente. Muito obrigado.
- Uma chvena s. J est pronto. Uma chvena e um cigarro.
Fleur fora-se embora! E jaziam diante dele horas de remorso e indeciso! E, com um pesado sentimento de desproporo, sorriu e disse:
- Bem! Obrigado!
Ela trouxe numa bandeja um bule de ch, duas pequenas chvenas e uma caixa de prata com cigarros.
- Acar? Miss Forsyte tem muito acar... ela compra o meu acar e o acar dos meus amigos. Miss Forsyte  uma senhora muito boa. Sinto-me feliz por servi-la. 
O senhor  irmo dela?
- Sim - disse Jon, pondo-se a fumar o segundo cigarro da sua vida.

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- Um irmo muitssimo mais novo - disse a austraca com um pequeno sorriso, que lhe fez lembrar o agitar da cauda de um co.
- Quer tambm tomar ch? - disse ele. - Sente-se, por favor. A austraca abanou a cabea.
- Seu pai  um cavalheiro muito bondoso... o mais bondoso que jamais conheci. Miss Forsyte falou-me nele. Vai melhor?
As palavras dela ecoaram em Jon como uma censura. -Oh, sim, creio que vai muito bem.
- Gostaria de v-lo outra vez - disse a austraca, pondo uma das mos sobre o peito. - Ele tem um corao bondosssimo.
-Sim- disse Jon. E mais uma vez as palavras dela lhe pareceram uma censura.
- Nunca deu trabalho a ningum e sorria to gentilmente.
- Ah, sim?
- E s vezes olhava para Miss Forsyte com uma expresso to engraada. Contei-lhe toda a minha histria e ele teve muita pena. E sua me... ela vai bem?
- Sim, muito bem.
- Vi o retrato dela no quarto dele. Muito linda.
Jon engoliu o ch. Aquela mulher, com a sua cara inquieta e as suas palavras evocativas, era como um primeiro e um segundo assassino.
- Obrigado - disse ele. - Tenho de ir-me embora. Posso... posso deixar-lhe isto? - E, com a mo indecisa, ps uma nota de dez shillings na bandeja, abriu a porta 
e saiu. Ouviu a austraca suspirar e apressou-se a fugir. Tinha o tempo exacto para apanhar o comboio, e no caminho para a Victoria Station via na cara de toda a 
gente amantes obstinados que esperavam contra toda a esperana. Ao chegar a Wonthing, ps a bagagem no comboio local e dirigiu-se para Wansdon atravs dos Downs, 
procurando abafar a sua dolorosa irresoluo com a caminhada. E enquanto andou, realmente, pde apreciar a beleza das encostas verdes, parando aqui e ali para se 
estirar na relva, para admirar a perfeio de uma rosa silvestre ou escutar o canto de um melro. Mas a guerra de motivos dentro dele apenas fora adiada - a saudade 
de Fleur, a raiva da decepo.

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Chegou  velha pedreira do Wansdon com o esprito to abatido como antes. Porque a qualidade de ver ao mesmo tempo os dois lados de uma questo constitua a fraqueza 
e a fora de Jon. E ele mergulhou nisso, at que o primeiro gongo para o jantar soou. Tomou um banho apressado e desceu, encontrando Holly sozinha. Val fora  cidade 
e s voltaria no ltimo comboio.
Desde que Val lhe dera o conselho de perguntar a Holly o que houvera entre as duas famlias, acontecera tanta coisa - a revelao de Fleur, no Green Park, a visita 
dela a Robin Hill, o encontro daquele mesmo dia - que lhe parecia no haver mais nada a perguntar. E ele falou da Espanha, da sua insolao, dos cavalos de Val, 
da sade do pai deles ambos. Holly sobressaltou-o ao dizer que no lhe parecia que o pai estivesse bem de sade. Estivera duas vezes em Robin Hill, durante a ltima 
semana, e ele parecera-lhe assustadoramente lnguido, sofrendo dores s vezes, embora se recusasse sempre a falar de si prprio.
- Ele  extraordinariamente bom e esquecido de si mesmo, no acha, Jon?
Sentindo-se muito longe de ser bom e esquecido de si, Jon
respondeu:
- Se acho!
- Tanto quanto posso recordar, no creio que alguma vez tenha existido um pai to bom.
- Sim - disse Jon humildemente.
- Nunca interferiu em nada e sempre mostrou compreender tudo. Nunca esquecerei como me permitiu que fosse para a frica do Sul, na guerra dos Boers, quando eu namorava 
Val.
- Isso foi antes de ele casar com a mam, no foi? - perguntou Jon de repente.
- Sim. Porqu?
- Oh, por nada. Mas ela no foi antes noiva do pai de Fleur? Holly deps a colher e ergueu os olhos. A sua expresso era
grave. Que saberia o rapaz? Saberia o bastante para melhor lhe contar tudo? Ela no poderia diz-lo. Jon parecia estranho e atormentado, como que envelhecido, mas 
aquilo poderia ser efeito da insolao.
- Houve algo, realmente - disse ela. - Evidentemente que,

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como estvamos no estrangeiro, de nada soubemos. - Ela no ousava arriscar-se. O segredo no era seu. Alm disso, nada sabia acerca dos sentimentos dele actualmente. 
Antes da viagem  Espanha, poderia garantir que ele estava apaixonado, mas rapazes so rapazes. J se haviam passado sete semanas e a Espanha inteira viera depois 
daquilo. Mas viu que ele compreendera muito bem que ela lhe estava a sonegar a verdade e acrescentou: - Fleur contou-lhe alguma coisa?
- Contou.
O rosto de Jon disse-lhe naquele instante muito mais que as mais demoradas explicaes. Ento ele no esquecera! E ela disse calmamente:
- Fleur  muitssimo atraente, Jon, mas... nem eu nem Val gostamos muito dela.
- Porqu?
- Na nossa opinio, ela tem uma natureza avassaladora de mais.
- Avassaladora? No compreendo o que quer dizer. Ela... ela... - E ele empurrou o prato da sobremesa, ergueu-se e caminhou at  janela.
Holly ergueu-se tambm e ps o brao na cintura do irmo.
-No se zangue, Jon. No podemos ver as pessoas com os mesmos olhos, pois no? Creio que somente uma ou duas pessoas podem ver o que h de melhor em ns e fazer 
valer isso. Quanto a si, acho que essa pessoa  sua me. Vi-a uma vez a ler uma carta sua... e era maravilhoso ver-lhe o rosto. Penso que ela  a mulher mais linda 
que j vi... o tempo parece que no a afecta.
O rosto de Jon abrandou-se, mas depois voltou  tenso anterior. Toda a gente! Toda a gente estava contra ele e Fleur! E aquilo reforava o apelo que ela lhe fizera: 
"Ento garanta o seu direito sobre mim. Case comigo, Jon!"
Ali, onde passara aquela maravilhosa semana em companhia dela, sob a aco do seu encanto, a dor no seu corao aumentava de minuto a minuto, vendo que a magia da 
presena da moa no estava ali para transformar a sala, o jardim, o prprio ar. Seria capaz de continuar a viver sem a ver? E fugiu depressa dali. recolhendo-se 
cedo  cama. A fuga no o melhoraria,

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no o faria sentir-se mais aliviado ou mais feliz, mas ao menos aproxim-lo-ia da lembrana de Fleur no seu trajo de fantasia. Ouviu a chegada de Val, os estampidos 
do Ford. Depois a calma da noite de Vero novamente caiu sobre tudo - cortada apenas pelo balir distante de um cordeiro ou o grito de um pssaro nocturno. Saiu da 
cama. Lua fria, ar quente, e os Downs parecendo feitos de prata! Pequenas asas batendo, um riacho sussurrando, as rosas vadias! Deus do Cu! Como tudo parecia vazio 
sem ela! Na Bblia est escrito: "Deixars teu pai e tua me e acompanhars - Fleur!"
Precisava de ter coragem e dizer tudo a eles! No poderiam impedi-lo de casar com ela - no haveriam de querer isso, quando soubessem o que ele sentia. Sim, ele 
o faria - franca e abertamente! Fleur no tinha razo!
O pssaro nocturno calou-se, o cordeiro calou-se tambm. O nico som que se ouvia na escurido era o murmrio do regato. E Jon deitou-se e dormiu, liberto do pior 
mal da vida - a indeciso.

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CAPTULO XI - TIMOTHY PROFETIZA


No dia em que deveria realizar-se o cancelado encontro entre Fleur e Jon na National Gallery, celebrava-se o segundo aniversrio da ressurreio do orgulho e da 
glria da Inglaterra, ou, mais sucintamente, a ressurreio da cartola. O Lord's (1), festivall que a guerra suspendera, desfraldava pela segunda vez as suas vistosas 
bandeiras azuis, exibindo quase o mesmo aspecto do passado glorioso. E, no recinto festivo, no intervalo destinado ao almoo, viam-se todas as espcies de chapus 
femininos e uma nica espcie de chapu masculino, protegendo os mltiplos tipos de rosto associados com as "classes". Um Forsyte observador poderia discernir, espalhados 
pelas cadeiras, um certo nmero de chapus de coco, mas esses dificilmente se arriscavam pelo relvado. A velha escola, ou antes, as escolas, podiam alegrar-se ainda, 
porque o proletariado no se opunha ainda a pagar a indispensvel meia coroa. Via-se ainda ali uma carruagem fechada, a nica para tanta gente - pois os jornais 
calculavam a assistncia numas dez mil pessoas. E todos os dez mil, animados por uma nica esperana, perguntavam uns aos outros: "Onde vai almoar?" E havia algo 
maravilhosamente tranquilizador

*1. Assim  designado o match anual de cricket entre as equipas de Eton e Harrow.

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e elevado na cara dos que faziam essa indagao. Realmente, que poder de reservas tinha o Imprio Britnico - suficientes pombos, lagostas, carneiros, maionese de 
salmo, morangos e garrafas de champanhe para alimentar todo aquele bando! Nenhum milagre em perspectiva, nenhum caso de alguns pes e alguns peixes - a f apoiava-se 
em bases mais slidas. Seis mil cartolas e quatro mil sombrinhas seriam tirados ou enrolados, e aquelas dez mil bocas, que falavam todas o mesmo ingls, ficariam 
cheias. A vida recuperara o seu antigo ritmo! Tradio! E, mais uma vez, tradio! Como era forte e como era elstica! As guerras poderiam assolar, os impostos pesar, 
as Trade Union armar barreiras, a Europa perecer  mngua, mas dentro dos seus muros redondos, estirados na relva verde, usando as suas cartolas- eles continuavam 
a reunir-se. O corao batia, o pulso mantinha-se regular. Eton! Eton! Har-r-o-oo-o-w!
Entre os inmeros Forsytes presentes por direito pessoal ou por procurao, estava Soames com a mulher e a filha. Ele nunca frequentara nem Eton, nem Harrow, no 
tinha qualquer interesse pelo cricket, mas queria que Fleur mostrasse os seus trajos e queria usar a sua cartola - exibindo-se novamente com ela em plena paz, por 
entre os seus pares. E caminhava sedativamente, levando Fleur entre ele e Annette. Mulher nenhuma as sobrepujava, pelo menos tanto quanto o podia ver. Ambas podiam 
andar ou ficar de p: havia substncia na sua beleza. As mulheres modernas no tm formas, nem busto, nem nada! E recordou de repente com que intoxicao de orgulho 
ele comparecia quela festa em companhia de Irene, nos primeiros anos do seu primeiro casamento. Costumavam almoar na carruagem que sua me exigira que o marido 
possusse, porque era "to chique"! S se usavam carruagens ento, e no esses malcheirosos e horrendos automveis! Como Montague Dartie bebia ento! Soames supunha 
que o povo de agora tambm bebia de mais, mas isso j no tinha o sentido que tinha outrora. Lembrava-se de George Forsyte - cujos irmos Roger e Eustace haviam 
estado em Eton e Harrow - trepado no alto da carruagem e agitando uma bandeirinha azul-clara numa das mos, uma bandeira azul-escura na outra e berrando "ETOn - 
HARROw" quando toda a gente estava calada - palhao que ele sempre fora!

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E Eustace, pelo contrrio, fazia questo de no exibir nenhuma cor, nem tomar nenhum interesse. E Irene com um vestido de seda cinzento-chumbo, enfeitado de verde-plido! 
E ele olhava de esguelha para o rosto de Fleur. Inteiramente desanimada, sem alegria, sem cor! Aquele namoro estava a tomar conta dela - mau negcio! E olhou para 
o rosto da mulher, um pouco mais expressiva que de costume, um pouco desdenhosa - embora no tivesse nada a desdenhar, pelo menos tanto quanto ele sabia. Ela estava 
a receber o abandono de Profond com uma calma curiosa - ou seria a "pequena viagem" dele apenas uma simulao? Se o fosse, ele recusava-se a tomar conhecimento disso! 
Depois de passearem pela estacada e defronte do pavilho, viram a mesa de Winifred, na tenda do Bedouin Qub. Aquele clube, uma novidade, "galo e galinha" como lhe 
chamavam, fora fundado, para estimular viagens, por um gentleman de velho nome escocs, cujo pai, estranhamente, se chamava Levi. Winifred ingressara nele, no porque 
viajasse, mas porque o instinto lhe dizia que aquele clube, com tal nome e tal fundador, deveria ir longe, e, se uma pessoa no entra logo, perde para sempre a oportunidade 
de entrar. A tenda do clube, com um texto do Coro pintado sobre campo cor de laranja e um pequeno camelo verde bordado na entrada, era a mais vistosa do recinto. 
Dentro dela encontraram Jack Cardigan com uma gravata azul-escura - ele jogara outrora por Harrow - batendo com a sua bengala de malaca, para mostrar como deveria 
ter batido na bola um certo jogador. E ele guiou-os atravs da tenda. Reunidos no canto de Winifred estavam Imogen, Benedict, com sua jovem esposa, Val Dartie, sem 
Holly, Maud e o marido. Depois de Soames e os seus se sentarem, ficou ainda um lugar vazio.
- Estou  espera de Prosper - disse Winifred. - Mas ele anda to ocupado com o seu iate.
Soames olhou de lado: nenhum movimento no rosto da mulher! Evidentemente ela sabia muito bem se o tal sujeito deveria ou no aparecer ali. E no lhe escapou que 
Fleur tambm olhara para a me. Se Annette no respeitava os sentimentos dele, devia ao menos pensar nos de Fleur! A conversa, muito inconstante, era sincopada por 
Jack Cardigan, citando o nome de vrios mid-off.

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Citava todos os grandes mid-off que houvera desde o comeo dos tempos, como se eles fossem uma entidade racial definida entre a composio do povo ingls. Soames 
acabara a sua lagosta, e estava a comear um pombo quando ouviu estas palavras: "Estou um pequeno atrasado, Mrs. Dartie." E viu que j no havia nenhum lugar vago. 
"Aquele sujeito" estava sentado entre Annette e Imogen. Soames comia rapidamente, com uma palavra ocasional a Maud ou a Winifred. A conversa zumbia em torno dele. 
E ouviu a voz de Profond dizer:
- Creio que a senhora est enganada, Mrs. Forsyde. Eu... eu apostaria que Miss Forsyde concorda comigo.
- Em qu? - perguntou a clara voz de Fleur, atravs da mesa.
- Eu estava a dizer que as moas de hoje so muito semelhantes s moas de sempre... a diferena  muito pequena.
- O senhor sabe muito acerca delas?
Aquela resposta aguda caiu nos ouvidos de todos, e Soames agitou-se pouco  vontade na sua estreita cadeira verde.
- Bem, no sei. Penso que elas querem fazer a sua "pequena" vontade, e creio que sempre o fazem.
- Com efeito!
- Oh, mas Prosper - interveio pacificamente Winifred -, as pequenas da rua, as pequenas que trabalharam nas fbricas de munies, as pequenas klappers das lojas... 
as maneiras delas, na verdade, entram como punhos pelos olhos da gente.
Ante a palavra "punhos", Jack Cardigan parou na sua enumerao, e Monsieur Profond disse, no silncio que se fez:
- O que havia outrora estava escondido, hoje est  mostra.  essa a diferena.
- Mas a moral delas! - exclamou Imogen.
-  a mesma que tiveram sempre, Mrs. Cardigan, mas agora tm mais oportunidades.
E aquele dito, to tipicamente cnico, foi acolhido por uma risadinha de Imogen, um ligeiro abrir de boca de Jack Cardigan e um estalo da cadeira de Soames.
- Isso  muito feio, Prosper - disse Winifred.

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- Que  que a senhora diz, Mrs. Forsyde? No acha que a natureza humana  sempre a mesma?.
Soames dominou um sbito desejo de erguer-se e esmurrar o sujeito. Ouviu sua mulher responder:
- A natureza humana na Inglaterra no  a mesma que nos outros pases.
- Bem, no conheo muito acerca deste "pequeno" pas. "No, graas a Deus!", .pensou Soames.
- Mas ouso dizer que a gua ferve sempre ao fogo, em qualquer parte. Ns todos queremos o prazer, e sempre o conseguimos.
Maldito sujeito! O seu cinismo era... era ultrajante!
Quando o almoo acabou, ergueram-se todos os pares para um passeio digesttivo. Muito orgulhoso para mostrar que o notara, Soames sabia perfeitamente que Annette 
e aquele sujeito tinham sado juntos e Fleur estava com Val. Escolhera-o, decerto, porque ele conhecia aquele rapaz. Ele tinha Winifred por companheira. E passearam 
por entre a vistosa e circulante correnteza de gente, um pouco corados e estafados, durante alguns minutos at que Winifred suspirou:
- Queria que estivssemos uns quarenta anos atrs, menino. Diante dos olhos do esprito dela, uma interminvel procisso dos seus prprios elegantssimos vestidos 
ia passando, pagos pelo dinheiro do pai, para cobrir alguma crise.
- Era bem divertido, afinal. Muitas vezes eu chego a desejar que Monty ainda estivesse vivo. Que  que voc pensa da gente de hoje, Soames?
- Um estilozinho precioso. As coisas comearam a estragar-se com as bicicletas e os automveis. E a guerra acabou o servio.
- Pergunto a mim mesma o que est para chegar - disse Winifred numa voz sonhadora. - No me admiro se voltarmos s crinolinas e s saias travadas. Olhe para aquele 
vestido!
Soames abanou a cabea.
- H dinheiro, mas no h f nas coisas. Ningum se preocupa com o futuro. Estes jovens s cuidam em que a vida  curta e tratam de a fazer alegre.
- Olhe aquele chapu! - disse Winifred. - No sei...

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mas quando a gente pensa em tanta gente morta e o mais que aconteceu na guerra, acha tudo maravilhoso. E em mais nenhum outro pas  assim. Prosper disse-me que 
esto todos falidos, excepto a Amrica. E  claro que os homens de l sempre copiaram os seus figurinos masculinos dos nossos.
- Aquele sujeito - perguntou Soames - vai realmente partir para os Mares do Sul?
- Oh! A gente nunca sabe o que Prosper vai realmente fazer!
- E isso, nele,  um sinal dos tempos - resmungou Soames. - E, se lhe agrada...
A mo de Winifred agarrou-lhe o brao.
- No volte a cabea - disse ela em voz baixa -. mas olhe  direita, a fila em frente do stand.
Soames olhou o melhor que pde sob aquela limitao. Um homem de cartola cinzenta, barba grisalha, com as faces magras e batidas, uma certa elegncia de atitude, 
sentava-se ao lado de uma mulher de vestido verde-claro, cujos olhos escuros estavam fixos no companheiro. Soames desceu rapidamente os olhos para os ps. Como se 
movem engraadamente os ps. um depois do outro! A voz de Winifred disse-lhe ao ouvido:
- Jolyon parece estar muito doente, mas sempre teve estilo. Ela  que no muda... excepto nos cabelos.
- Porque falou voc a Fleur acerca desse caso?
- No falei. Ela soube por a. Eu sempre disse que ela descobriria por si.
- Bem, foi uma complicao. Ela no se esquece daquele rapaz.
- Pequena astuta - murmurou Winifred. - Tentou despistar-me a esse respeito. Que  que voc vai fazer, Soames?
- Vou deixar-me guiar pelos acontecimentos. Continuaram a caminhar, em silncio, por entre a multido
compacta.
- Na verdade - disse de repente Winifred -, isso parece coisa do destino. Apenas est to fora da poca, tudo isto! Olhe, l esto George e Eustace!
O vulto taurino de George Forsyte parara em frente deles.
- Ol, Soames! Acabo de encontrar Prosper Profond e sua mulher.

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Voc no os alcanar se continuar nesse passo. Foi ver afinal o velho Timothy?
Soames fez sinal que sim, e as ondas da multido afastaram-nos.
- Eu sempre gostei do velho George - disse Winifred. -  to engraado.
- E eu nunca gostei dele. Onde so os seus lugares? Tenho de procurar os meus. Fleur pode j ter voltado.
Depois de ter sentado Winifred, voltou ao seu lugar, percebendo indistintamente pequenas figuras brancas que corriam, batiam a bola, os vivas e os assobios. Nem 
Fleur, nem Annette! Hoje em dia no se pode esperar nada de mulheres! Elas tm direito de voto. Esto "emancipadas", e muito bem isso est a fazer-lhes! Se Winifred 
pudesse voltar a trs, quereria ela recomear tudo com Dartie? Se fosse possvel recuperar o passado - se lhe fosse possvel sentar-se de novo onde se sentara em 
83 e 84, antes de saber que o seu casamento com Irene fora um fracasso, antes de o antagonismo dela comear a mostrar-se to claramente, que at a maior boa vontade 
do mundo no o poderia ignorar! Vendo-a em companhia do marido, todas as velhas lembranas lhe tinham acorrido em tropel. At mesmo hoje, no podia compreender porque 
fora ela to implacvel. Ela pudera amar outro homem, e a ele prprio, a nica pessoa a quem devera amar, recusara sempre o seu corao. E parecia-lhe, fantasticamente, 
quando olhava para trs, que todo esse relaxamento moderno do casamento - embora as suas frmulas e leis fossem as mesmas do tempo em que ela casara com ele-, parecia-lhe 
que toda essa desmoralizao actual se originara na revolta de Irene. Parecia-lhe, absurdamente, que fora ela quem desencadeara tudo aquilo - at que toda a posse 
decente desaparecesse ou estivesse a ponto de desaparecer. Tudo provinha dela! E agora - um lindo estado de coisas! Lares! Como era que se podia ter um lar sem a 
recproca posse dos cnjuges? Era verdade que ele nunca possura um verdadeiro lar. Mas fora culpa sua? Fizera tudo ao seu alcance. E a sua recompensa eram aqueles 
dois que estavam sentados no stand e aquele caso de Fleur.
Apavorado pela solido, Soames pensou: "No posso esperar mais!

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Elas que descubram sozinhas o caminho de volta para o hotel... se pretendem voltar para l!" E, chamando um txi, fora do campo, disse:
- Leve-me a Bayswater Road.
As suas velhas tias nunca o haviam abandonado. Para elas, sempre representara um visitante bem-vindo, e, embora tambm j houvessem partido, ainda l estava Timothy.
Smither estava de p junto da porta aberta.
- Mr. Soames! Eu estava a tomar um pouco de ar! A cozinheira vai ficar to alegre!
- Como vai Mr. Timothy?
- Nestes ltimos dias j no  o que sempre foi, sir; est a falar muito. Ainda hoje de manh esteve a dizer: "Meu irmo James est a ficar velho." Est a ficar 
caduco, Mr. Soames, e quer falar nos irmos. E fica assustado com as aces. No outro dia disse assim: "Meu irmo Jolyon no quer saber dos consolidados..." Parece 
que se preocupa muito com isso. Entre, Mr. Soames, entre.  uma novidade to agradvel t-lo aqui!
- Sim - disse Soames -. mas s por alguns minutos. Ele tem estado bem?
- No - respondeu Smither do hall, onde o ar tinha a frescura singular do ambiente de fora -, no estamos satisfeitos com ele, nesta ltima semana. Sempre deixava 
a sobremesa para o fim. mas desde segunda-Feira  o que come primeiro. Se o senhor reparar num co que est a jantar, Mr. Soames, notar que ele come primeiro a 
carne. Ns sempre pensmos que era um bom sinal. na idade em que est Mr. Timothy, ele deixar o doce para o fim, mas agora parece que j perdeu todo o domnio de 
si, e isso far que v perdendo tudo o mais. O doutor no d importncia a isso, mas - Smither abanou a cabea - parece que ele quer comer o doce primeiro para o 
caso de no poder com-lo depois! Isso e as conversas dele tm-nos inquietado muito.
- Ele disse alguma coisa de importante?
- No gosto de o dizer, Mr. Soames, mas voltou-se contra o testamento. Fica rabugento por causa dele, o que parece engraado, pois durante anos e anos exigia v-lo 
todas as manhs. Disse no outro dia: "Eles querem o meu dinheiro", e isso aflige-me muito,

213

porque, como eu disse a ele mesmo, ningum lhe quer o dinheiro, tenho a certeza. E  uma dor de corao que ande a pensar em dinheiro, na idade em que est. Agarrei 
na minha coragem com as duas mos e disse: "Escute, Mr. Timothy. A minha finada patroa - foi Miss Ann Forsyte, Mr. Soames, que me educou - nunca se preocupou com 
dinheiro, tudo nela era carcter." Ele olhou para mim, nem lhe posso dizer com que jeito esquisito, e disse muito seco: "Ningum quer saber do meu carcter." Imagine, 
ele dizer-me uma coisa destas! Mas de vez em quando Mr. Timothy diz dessas coisas, mais ferinas e sentidas do que tudo.
Soames, que estava de p diante de uma velha gravura pensando "Isto valorizou-se!", murmurou:
- Vou subir para o ver, Smither.
- A cozinheira est com ele - respondeu Smither de sobre os seus espartilhos. - Ela ficar contente em v-lo.
Soames subiu lentamente, pensando: "No vale a pena viver at esta idade."
No segundo andar, parou e bateu. A porta abriu-se e ele viu a cara redonda e ingnua de uma mulher de sessenta anos.
- Mr. Soames! - disse ela. - Oh! Mr. Soames! Soames fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Muito bem, muito bem! - disse ele, entrando. Timothy estava reclinado na cama, as mos juntas sobre o
peito, os olhos fixos no tecto, onde voejava uma mosca. Soames ficou de p aos ps da cama, encarando-o.
- Tio Timothy - disse ele, elevando a voz. - Tio Timothy! - O olhar de Timothy deixou a mosca e baixou at ao visitante. Soames pde ver-lhe a lngua plida passando 
sobre os lbios escurecidos. - Tio Timothy - repetiu ele -, no posso fazer nada pelo senhor? No h nada que o senhor queira dizer-me?
- Ah! - exclamou Timothy.
- Vim aqui para o ver e verificar se est tudo em ordem. Timothy fez com a cabea um gesto de assentimento. Parecia
que estava a querer acostumar-se  apario que lhe surgira  frente.
- O senhor tem tudo o que quer?
- No - disse Timothy.

214

- Posso trazer-lhe alguma coisa?
- No - disse Timothy.
- Sou Soames, no v? O seu sobrinho Soames Forsyte. O filho de seu irmo James. - Timothy fez novo sinal de assentimento.- Gostaria muito de fazer qualquer coisa 
pelo senhor.
Timothy fez-lhe um aceno. Soames aproximou-se.
- Voc - disse Timothy, numa voz que parecia ter perdido todo o tom - diga a eles todos, da minha parte. . diga a eles todos - e o seu dedo batia no brao de Soames 
- que se agarrem aos seus. Agarrem-se! Os consolidados vo subir! - E trs vezes ele baixou a cabea.
- Est bem! - disse Soames. - Direi.
- Sim - disse Timothy. E, fixando novamente os olhos no tecto, acrescentou: - Esta mosca!
Estranhamente comovido, Soames olhou para a agradvel e gorducha cara da cozinheira, um pouco tostada pela proximidade constante do fogo.
- Isto vai dar-lhe uma alegria enorme, sir.
Veio um resmungo de Timothy, mas ele estava evidentemente a falar para si prprio, e Soames saiu em companhia da cozinheira.
- Gostaria de fazer um creme rosado para o senhor, Mr. Soames. O senhor gostava tanto, antigamente! Adeus, sir. Foi realmente um prazer.
- Tome cuidado com ele. Est to velho!
E, apertando-lhe a mo grossa, desceu a escada. Smither ainda estava a tomar ar  porta de entrada.
- Que tal o achou, Mr. Soames?
- Bum! - murmurou Soames.
- Eu estava com medo que, vindo de fora, o senhor no o estranhasse.
- Smither - disse Soames -, todos ns lhe estamos agradecidos.
- Oh, no, Mr. Soames, no diga isso.  uma alegria... ele  um homem to extraordinrio!
- Bem, adeus! - disse Soames, subindo para o txi. "Os consolidados vo subir", pensava ele. "Vo subir!"

215

Ao chegar ao hotel, em Knightsbridge, foi para a sala de estar do seu apartamento e tocou a pedir ch. Nenhuma delas chegara ainda. E novamente o possuiu o mesmo 
sentimento de solido. Aqueles hotis! Que lugares monstruosamente grandes eram agora! Soames recordava o tempo em que no havia nada maior que o Long, ou o Brown, 
ou o Morley, ou o Tavistock - e a gente que abanava a cabea ante o Langham e o Grand. Hotis e clubes - clubes e hotis - no havia fim para eles agora E Soames, 
que estivera exactamente a assistir no Lord's a um milagre de tradio e continuidade, caiu em cisma, recordando aquela Londres na qual ele nascera sessenta e cinco 
anos atrs. Quer os consolidados estivessem a subir ou no, Londres tornara-se uma propriedade terrvel. No havia nenhuma propriedade que se lhe assemelhasse no 
mundo, a no ser New York. Havia uma espcie de histeria nos jornais de agora, mas todos os que, como ele pudessem recordar Londres de cinquenta anos atrs, e v-la 
agora, compreenderiam a fecundidade e a elasticidade da fortuna. Tinham apenas de manter a cabea segura e deixar-se levar firmemente. Ele lembrava-se do calamento 
de pedras redondas na rua e da palha malcheirosa no soalho das cabs. E o velho Timothy - que no poderia ele contar-lhes se houvesse conservado a memria! As coisas 
estavam abaladas, as criaturas tomadas de desnimo ou de pressa, mas c estava Londres, c estava o Tamisa e l alm estava o Imprio Britnico e os confins do mundo.
"Os consolidados vo subir!" Isso no o surpreenderia. O que importava era a raa. E tudo aquilo parecia imobilizar-se como um buldogue nos olhos cinzentos de Soames, 
at que eles se distraram com a reproduo de uma pintura vitoriana numa das paredes, O hotel comprara trs dzias delas. As velhas gravuras de caa dos antigos 
hotis eram agora altamente cotadas - mas aquilo.,. A verdade era que o vitorianismo morrera. "Diga-lhes que se agarrem!", recomendara o velho Timothy, Mas que iriam 
eles agarrar, naquele moderno redemoinho dos "princpios democrticos"? Se at mesmo a vida privada estava ameaada! E ante o pensamento de que at isso se arriscava 
a perecer, Soames deps a chvena e foi at  janela. A imaginao do homem no possua mais da Natureza que aquilo que a multido, l fora,

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possua das flores, rvores e lagos do Hyde Park! No, no! A propriedade particular apenas valorizava melhor aquilo que possua. O mundo perdera um pouco do seu 
juzo, tal como ces que ficam meio loucos nas noites de lua cheia e desandam a correr pelos caminhos. Mas o mundo, tal como o co, sabe que o seu po tem manteiga 
e que o seu leite  quente, e volta necessariamente ao nico lar seguro que possui - a propriedade privada. O mundo actualmente estava a atravessar um perodo de 
segunda infncia - tal como o velho Timothy a comer primeiro o doce!
Ouviu um som atrs de si e viu a mulher e a filha, que entravam.
- Ento voltaram! - disse ele.
Fleur no respondeu, ficando um instante a olhar para o pai e para a me, e depois entrou no seu quarto. Annette encheu uma chvena para ela.
- Vou a Paris visitar minha me, Soames.
- Oh! A sua me?
- Sim.
- Por quanto tempo?
- No sei.
- E quando pretende ir.
- Segunda-feira.
Iria ela realmente visitar a me? Era engraado como ele se sentia indiferente perante essa pergunta. E era engraado como ela percebia a indiferena dele - conquanto 
que no houvesse escndalo! E subitamente entre ele e a mulher Soames viu distintamente aquele rosto que avistara horas antes: Irene.
- Quer dinheiro?
- Obrigada. Tenho bastante.
- Muito bem. Avise quando estiver de volta.
Annette deps o bolo que mordiscava e, olhando atravs dos seus clios escuros, perguntou:
- Quer algum recado para a mam?
- Lembranas minhas.
Ela apertou as mos contra o peito e disse em francs:
- Que sorte voc nunca me ter amado, Soames!
Depois, erguendo-se, deixou tambm a sala.

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Soames estimara que ela houvesse falado em francs -pois aquilo, dito assim, parecia no exigir rplica. E de novo via aquele outro rosto, plido, de olhos escuros, 
ainda lindo! E dentro dele despertou o fantasma de um ardor, como brasas dormindo sob um monto de cinzas. E Fleur apaixonada pelo filho dela! Sorte estranha! Sim! 
Existiria isso - sorte? Um homem vem pela rua. cai-lhe um tijolo na cabea. Ah, isso  sorte, no h dvida. Mas aquilo! "Herana", dissera a pequena. Ela - ela 
o que estava era a "agarrar-se"!

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TERCEIRA PARTE

CAPTULO 1 - AS RECORDAES DE JOLYON



Um duplo impulso fizera Jolyon dizer  esposa, durante o pequeno-almoo: "Vamos ao Lord's!" Queria algo que diminusse a ansiedade em que os dois tinham ficado durante 
as sessenta horas subsequentes  visita de Fleur. Queria tambm algo que suavizasse os tormentos das recordaes em algum que sabia que deveria perd-las qualquer 
dia!
Havia cinquenta e oito anos, Jolyon tornara-se aluno de Eton, pois fora desejo do velho Jolyon que ele se graduasse com o mximo possvel de despesas. Ano aps ano, 
comparecera ao Lord's, saindo de Stanhope Gate em companhia do pai, cuja juventude, decorrida no decnio de 1820, no fora aperfeioada pelo jogo do cricket. O velho 
Jolyon falava abertamente de swipes, fulitosses, haif-ball e three-quarter-ball, e Jolyon filho, com o ingnuo snobismo da juventude, tremia, com receio de que por 
acaso algum escutasse o que o pai dizia. Mas era apenas nessa matria de cricket que ele se sentia nervoso, porque seu pai - que usava ento suas, segundo a moda 
trazida pela guerra da Crimeia - sempre o impressionara como o beau ideal, pois, embora sem nenhum diploma universitrio, o bom gosto, o refinamento natural e o 
equilbrio do velho Jolyon sempre o haviam posto a salvo da vulgaridade. Que delcia, depois de ter berrado horas seguidas, sob a cartola, num calor sufocante, ir 
para casa em companhia do pai, de carruagem, tomar banho, vestir-se e ir jantar ao Clube Desunio - espargos, costeletas, torta -. e, findo o jantar, os dois janotas,

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pai e filho, com luvas de cabrito cor de alfazema, irem  pera ou ao teatro dramtico. E na segunda-feira, quando o torneio acabava, com a sua cartola devidamente 
amarrotada, dirigir-se em companhia do pai num carro especial at ao Crown and Sceptre, com o seu terrao sobre o rio. Dourada dcada de 60, quando o mundo era simples, 
os dandies sedutores, a democracia no nascera ainda e os livros de Whyte Melville apareciam, grossos e substanciosos.
Uma gerao depois, quando seu filho Jolly usava as centureas de Harrow na botoeira - por desejo do velho Jolyon, o neto fora educado num instituto menos rico-, 
novamente Jolyon experimentara o calor e as inconvenincias do dia de festa e voltara depois para a frescura e para os canteiros de morangos de Robin Hill, para 
o seu bilhar ao sero - onde o seu rapaz dava tacadas de cortar o corao e fazia todos os esforos possveis para se mostrar lnguido e crescido. Durante aqueles 
dois dias, todos os anos, ele e o filho ficavam a ss um com o outro, entre o mundo inteiro - e a democracia mal acabava de nascer!
E hoje, pois, desempoeirara uma cartola cinzenta, pedira a Irene um pedao de fita azul-clara e escrupulosamente, constipando-se no carro, no comboio e no txi, 
chegara a Lord's Ground. L, ao lado dela, trajada num vestido verde-claro com pequenos enfeites pretos, assistira ao jogo e sentira a velha emoo vibrar dentro 
de si.
A passagem de Soames estragou o dia: o rosto de Irene deformara-se pela compresso dos lbios, e no valia a pena continuar sentado, sob o perigo do aparecimento 
de Soames, ou mesmo da filha. E ele disse:
- Bem, querida, se j viu bastante, vamo-nos!
 noite, Jolyon sentiu-se exausto. E, no querendo que a mulher o visse assim, esperou que ela comeasse a tocar e fugiu para o pequeno escritrio. Abriu a janela 
para deixar entrar ar e a porta para poder ouvir a msica. E instalou-se na velha cadeira de braos do pai. de olhos fechados, a cabea encostada ao couro queimado 
do estofo. Igual quela passagem da sonata de Cesar Frank, assim fora a sua vida com ela - um divino terceiro movimento. E agora aquele caso de jon - aquele mau 
caso!

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Resvalando para a margem da inconscincia, Jolyon dificilmente poderia dizer se era em sonhos que sentia aquele cheiro de charuto e que tinha a impresso de ver 
o pai, na escurido, diante dos seus olhos fechados. A sombra formava-se, desvanecia-se, novamente se formava, e, na prpria cadeira em que ele estava sentado, via 
o pai, vestido de negro, de pernas cruzadas, um copo oscilando entre o polegar e o indicador, via-lhe os bigodes brancos, os olhos profundos sob a ampla testa - 
olhos que pareciam procur-lo, que pareciam falar. "Est a hesitar, Jo? Cabe a voc decidir. Ela  mulher!" Ah, como ele reconhecia o pai naquela frase, como todo 
o vitorianismo estava includo nela! E a sua prpria resposta: "No, acovardei-me. Acovardei-me de mago-la, a Jon e a mim mesmo. Tenho o corao fraco. Acovardei-me." 
Mas os velhos olhos, to mais velhos e to mais novos que os seus, insistiam: "Trata-se da sua mulher e do seu filho: do seu passado. Tenha coragem, meu rapaz!" 
Seria a mensagem de um esprito errante, ou apenas os instintos do velho que reviviam nele? E novamente apareceu aquele cheiro de fumo de charuto, do velho couro 
saturado dele. Bem, ele iria criar coragem, escrever a Jon e pr tudo no preto e no branco! E de repente comeou a respirar com dificuldade, com uma sensao de 
sufocamento, como se o seu corao quisesse parar. Ergueu-se e foi at ao ar livre. As estrelas luziam. Atravessou o terrao, dobrou a esquina da casa, at que, 
atravs da janela da sala de msica, pde ver Irene ao piano, com a luz da lmpada banhando-lhe os cabelos empoados. Parecia absorta, os olhos escuros fixados diante 
de si, as mos indolentes. Jolyon viu-a erguer as mos e apert-las ao peito. " em Jon que ela pensa", murmurou ele. "Tudo para Jon! Eu estou a morrer longe dela 
-  natural!"
E, procurando cuidadosamente no ser pressentido, afastou-se dali.
No dia seguinte, depois de uma noite m, sentou-se para realizar a sua tarefa, e escreveu dificilmente, com inmeras rasuras:

Meu filho muito querido,

Voc j tem bastante idade para compreender como  difcil para os velhos abrirem-se com os mais novos. Especialmente quando

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- como  o meu caso e o de sua me, embora eu sempre tenha pensado nela como uma moa - os nossos coraes pertencem quele a quem nos devemos confessar. No posso 
dizer que tenhamos conscincia de haver propriamente pecado - na vida real os homens raramente pecam, creio eu -, mas muita gente dir que ns pecmos, e, atravs 
de todos os acontecimentos, a nossa conduta, errada ou no, pode servir-lhes de argumento, A verdade  que, meu querido, ns ambos temos o nosso passado - passado 
que me cabe agora revelar-lhe, j que ele to profundamente e to dolorosamente afecta o seu futuro. H muitos, muitos anos atrs - em 1883, com efeito, quando tinha 
apenas vinte anos -, sua me teve a desventura de fazer um casamento infeliz... no comigo, Jon. Sem dinheiro, entregue a uma madrasta - parente prxima de Jezabel 
-, era muito infeliz em casa, em solteira. Foi com o pai de Fleur - meu primo Soames Forsyte - que ela casou. Ele perseguiu-a tenazmente e -  preciso dizer para 
lhe fazer justia - amou-a profundamente. Com uma semana de casada, j ela compreendera o tremendo engano em que cara. No era culpa dele; fora um erro de julgamento 
dela - a sua m sorte.

At ento, Jolyon assumira um certo tom de ironia, mas agora o assunto arrastava-o.

Jon, eu quero explicar-lhe, se o puder - e isso  dificlimo -, como  que um casamento infeliz, igual a esse, pode ser to facilmente realizado. Voc dir, naturalmente: 
"Se ela no o amava, como pde casar com ele?" Voc teria razo, se no fossem uma ou duas terrveis consideraes. Desse engano inicial dela todos os desastres 
subsequentes, dores e tragdias decorreram, de forma que tenho de o esclarecer. Voc sabe, Jon, que, naquele tempo, e mesmo hoje em dia - com efeito, apesar de tudo 
o que se diz sobre esclarecimento, no sei como poderia ser diferente -, muitas raparigas casam-se ignorantes do lado sexual da vida. E, mesmo quando sabem o que 
ele significa, nunca o experimentaram. E isso  crucial. E  a falta de experincia, apesar de todo o conhecimento verbal que tenham, que constitui toda a diferena 
e todo o perigo. um grande nmero de casamentos - e o de sua me foi um deles

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- as moas no sabem, nem podem saber, se amam ou no o homem com quem casam. E no o sabero at que se consume o acto de unio que constitui a realidade do casamento. 
Em muitos casos, talvez nos mais duvidosos, esse acto cimenta e fortalece a inclinao recproca, mas noutros casos - e o de sua me foi um desses - ele  a revelao 
de um engano, a destruio de toda a atraco que pudesse existir antes. No h nada mais trgico na vida de uma mulher que tal revelao, tornando-se cada dia, 
cada noite, mais clara. Gente sem sentimentos e sem miolos est sempre pronta a rir desses enganos e a dizer: "Tanto barulho por nada!" Gente de mentalidade estreita 
e severa, capaz apenas de julgar a vida dos outros pela sua prpria, est pronta para condenar aqueles que cometem esse trgico erro - conden-los perpetuamente 
 priso que eles arranjaram para si prprios. Voc conhece a expresso: "Quem faz a cama, deita-se nela!"  uma expresso indecorosa, indigna na verdade de um gentleman 
ou de uma senhora, na verdadeira acepo dessas palavras., e no posso fazer-lhes mais dura condenao. Eu no fui o que se chama um homem "moral", mas no quero 
dizer-lhe qualquer palavra que o induza a pensar levianamente acerca de compromissos ou contratos a que voc se obrigue. Deus no o permita! Porm, com a experincia 
da vida por trs de mim, ouso dizer que aqueles que condenam as vtimas desses trgicos enganos, que as condenam sem lhes estenderem a mo em socorro, so desumanos, 
ou s-lo-iam se possussem compreenso para entender o que esto a fazer. Mas no tm essa compreenso! Deix-los! So para mim to excomungados como eu o sou para 
eles. Fui obrigado a dizer isto tudo porque o vou colocar numa situao em que voc ser obrigado a julgar sua me, e voc  muito jovem e sem nenhuma experincia 
do que  a vida. Mas continuemos a histria. Depois de trs anos de esforos para dominar a sua resistncia - eu ia a dizer a sua repulsa, e a palavra no era forte 
de mais, porque a resistncia depressa se transforma em repulsa, sob certas circunstncias -, trs anos que, para uma natureza sensvel e apaixonada da beleza como 
a de sua me, constituram um tormento, ela encontrou um rapaz que por ela se apaixonou. Foi ele o arquitecto desta casa em que moramos, que a construiu para que 
ela e o pai de Fleur aqui morassem

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- nova priso para Irene, em lugar da outra em que habitava, em Londres. Talvez esse facto tenha desempenhado um certo papel no que aconteceu depois, mas, de qualquer 
modo, ela tambm se apaixonou por ele. Sei que no preciso de lhe explicar que ningum escolhe precisamente aquele por quem se apaixona. Isso acontece. Muito bem! 
Pois aconteceu. Posso imaginar - embora ela nunca me tenha dito muito a esse respeito - a luta que ento a possuiu, porque, Jon, ela fora educada severamente e no 
tinha ideias ousadas - absolutamente. De qualquer modo, tudo isso foi vencido e eles amaram-se de facto tanto quanto se amavam em esprito. Ento aconteceu uma espantosa 
tragdia. Tenho de lhe falar disso, porque, se o no fizer, voc nunca poder compreender a situao que vai encarar. O homem com quem ela casara - Soames Forsyte, 
o pai de Fleur-, certa noite, no auge da paixo dela por aquele rapaz, exerceu  fora os direitos que tinha sobre a mulher. No dia seguinte ela encontrou o amante 
e contou-lhe o que houvera. Se ele se suicidou, ou se foi morto acidentalmente, no desespero em que estava, ns nunca o soubemos. Mas morreu! Pense em como estaria 
sua me na noite em que soube dessa morte. Aconteceu-me v-la. Seu av tinha-me mandado oferecer-lhe algum auxlio, se fosse possvel. Mal a vi, antes que a porta 
me fosse batida na cara pelo marido. Mas nunca lhe esqueci o rosto, e agora mesmo o vejo. Eu ainda no a amava ento. S doze anos depois a amei, mas nunca o esqueci. 
Meu filho querido, no  fcil escrever isto. No entanto, voc v que  minha obrigao. Sua me absorveu-se completamente em voc, inteiramente, apaixonadamente. 
No quero falar com rudeza acerca de Soames Forsyte. No penso mal dele. Durante muito tempo lamentei-o; talvez o lamente mesmo agora. Segundo o julgamento do mundo, 
ela  que errava, ele  que estava no seu direito. Ele amava-a - ao seu modo. Ela era propriedade dele.  essa a compreenso que ele tem da vida, dos sentimentos 
e dos coraes humanos: propriedade. No era culpa dele - trouxera isso ao nascer. A mim tal ponto de vista sempre me causou horror - e sinto isso tambm desde que 
nasci. E, conhecendo a si como conheo, creio que o abominar tal como eu. Deixe-me continuar a histria. Sua me fugiu de casa do marido nessa noite, e durante 
doze anos viveu silenciosamente, s, sem companhia de qualquer espcie,

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at que em 1899 o marido dela - voc v que ele ainda era marido dela, pois no quisera divorciar-se, e ela, evidentemente, no podia requerer o divrcio -, o marido 
dela, pois, comeou a sentir a falta de descendncia, e iniciou uma longa tentativa para induzi-la a voltar para casa e dar-lhe um filho. Eu era ento procurador 
de Irene, em cumprimento do testamento do seu av, e assisti a isso tudo. E, enquanto assistia, afeioei-me a ela, afeioei-me apaixonadamente. A presso do marido 
aumentou, at que um dia ela me procurou e entregou-se praticamente  minha proteco. O marido, que vivia informado de todos os movimentos dela, tentou separar-nos, 
ameaando-nos com um processo de divrcio. No sei se realmente tencionava faz-lo, mas, de qualquer modo, os nossos nomes estavam publicamente reunidos. Isso decidiu-nos 
e unimo-nos realmente. Veio o divrcio, ela casou comigo, voc nasceu. Temos vivido em perfeita felicidade - eu pelo menos tenho, e creio que sua me tambm tem 
sido feliz. Soames, pouco depois do divrcio, casou com a me de Fleur, e ela nasceu.  esta a histria, Jon. Contei-lha porque, dada a afeio que, segundo vimos, 
voc concebeu pela filha daquele homem, est a caminhar cegamente para o que mais radicalmente destruir a felicidade de sua me, se no a sua prpria. No falo 
em mim, porque na minha idade no adianta pensar que ocuparei lugar ainda muito tempo - e, alis, o que eu sofrer, principalmente, ser por causa dela e por sua 
causa. Porm, o que eu quero que voc compreenda bem  esse sentimento de horror e de averso que no  dos que podem ser enterrados ou esquecidos. Ainda hoje esto 
muito vivos dentro de sua me. Ainda ontem, no Lord's, avistmos por acaso Soames Forsyte. E o rosto dela, se voc o tivesse visto, convenc-lo-ia. A ideia de o 
ver casado com a filha daquele homem  um pesadelo para sua me, Jon. Nada tenho a dizer contra Fleur, seno que ela  filha dele. Mas seus filhos, se casar com 
ela, sero os netos de Soames, do homem que possuiu um dia sua me como se possui uma escrava. Pense no que isto significa. Por esse casamento, ingressar no campo 
dos que mantiveram sua me prisioneira, dos que lhe devoraram o corao. Voc est apenas no limiar da vida, s conhece essa moa h dois meses, e, por mais profundamente 
que imagine am-la, suplico-lhe que rompa tudo - imediatamente.

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No proporcione a sua me essa mgoa tremenda, essa humilhao para todo o tempo que lhe restar de vida. Embora ela sempre me tenha parecido jovem, j tem cinquenta 
e sete anos. Excepto ns dois. ela no tem ningum no mundo. Breve apenas ter a si. Tome coragem, jon, e rompa. No ponha essa nuvem, essa barreira, entre vocs 
dois. No despedace o corao de sua me! Deus o abenoe, meu querido filho, e perdoe-me a mgoa que lhe causar esta carta. Ns tentmos poup-lo a isso, mas, ao 
que parece, a Espanha de nada serviu.

Seu pai afectuoso,

Jolyon Forsyte

Depois de terminar a sua confisso, Jolyon, com a magra face encostada  mo, releu-a toda. Havia ali coisas que o magoavam muito quando evocava Jon a l-las - e 
isso quase o fez rasgar a carta. Falar de tais coisas a um rapaz - seu prprio filho -, falar delas em relao  sua prpria mulher,  prpria me do rapaz, parecia 
pavoroso  alma pouco expansiva de um Forsyte. Mas, sem falar delas, como faria Jon compreender a realidade, a profunda ferida, a inapagvel cicatriz? Sem isso, 
como justificar essa interferncia no amor do filho? Seria ento melhor no escrever nada!
Dobrou a confisso e guardou-a no bolso. Era sbado, graas a Deus! Tinha at domingo  tarde para reflectir naquilo, porque, mesmo que a pusesse no correio hoje, 
apenas chegaria s mos de Jon na segunda-feira. E ele sentiu um curioso alvio ante esse adiamento e ante o facto de, posta ou no no correio, a carta j estar 
escrita.
No roseiral, que tomara o lugar da velha fernery, viu Irene com a tesoura de poda na mo e uma cestinha no brao. Nunca estava inactiva, e ele, que j no se ocupava 
em nada, invejava-a. Caminhou at ela. Irene arrancou a luva encardida e sorriu. Uma charpe de renda, atada sob o queixo, escondia-lhe os cabelos e o seu rosto 
oval parecia ainda muito jovem.
- As pragas esto terrveis este ano, e ainda faz frio. Voc est com o ar abatido, Jolyon.

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Jolyon tirou do bolso a confisso.
- Estive a escrever isto. Creio que deve ler.
- Para Jon? - O rosto de Irene mudou inteiramente no mesmo instante, ficando quase desvairado.
- Sim. Descubro o crime todo.
Entregou o escrito  mulher e ps-se a passear por entre as roseiras. Depois, vendo que acabara a leitura e continuava imvel com as folhas da carta encostadas  
blusa, voltou para junto dela.
- E ento?
- Est maravilhosamente dito. No sei como poderia ser contado de melhor maneira. Obrigada, querido.
- H a alguma coisa que voc quereria que fosse omitido? Ela abanou a cabea.
- NO. ele tem de saber tudo, se quisermos que compreenda.
- Foi o que pensei... mas... odeio isso!
Ele tinha o sentimento de que odiava aquilo mais que ela. Para ele, o sexo era muito mais fcil de mencionar entre homem e mulher do que entre homem e homem, e ela 
sempre fora mais natural e franca, nunca to profundamente fechada como a sua prpria alma de Forsyte.
- No sei ainda se Jon comprender. mesmo agora, Jolyon. Ele  to novo; choca-se sempre ante o lado fsico das coisas.
- Herdou isso do meu pai, que era pudico como uma donzela a esse respeito. Seria melhor reescrever tudo e contar-lhe apenas que voc odeia Soames?
Irene abanou a cabea.
- dio  apenas uma palavra. No serve absolutamente. No.  melhor como est.
- Muito bem. Mandarei amanh.
Ela estendeu o rosto para Jolyon e, ante as inmeras janelas cobertas de trepadeiras da grande casa, ele beijou-a.

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CAPTULO II - CONFISSO


No fim daquela mesma tarde, Jolyon adormeceu na velha cadeira de braos. Tinha nos joelhos La Rotisserie de La Reine Pdauque e pouco antes de dormir pensara: "Ser 
que um povo como o nosso nunca poder gostar sinceramente dos Franceses? E eles podero alguma vez gostar de ns?" Quanto a si, sempre apreciara os Franceses, dando-se 
perfeitamente com o esprito, com o gosto e com a cozinha francesa. Irene e ele haviam feito muitas visitas  Frana antes da guerra, quando Jon estava no colgio 
interno. O seu romance com ela comeara em Paris - o seu ltimo e mais duradouro romance. Mas os Franceses - nenhum ingls pode gostar deles se no souber v-los 
de certo modo sob os olhos desprendidos da esttica! E, ante essa melanclica concluso, acabou por adormecer.
Quando acordou, viu Jon, de p, entre a caldeira e a janela. O rapaz evidentemente entrara pelo jardim e estava  espera de que ele acordasse. Jolyon sorriu, ainda 
meio adormecido. Como era agradvel olh-lo - sensvel, afectuoso, correcto! E ento o seu corao deu um salto louco e um tremor possuiu-o. Jon! Aquela confisso! 
Controlou-se com esforo.
- Ento, Jon, donde veio?
Jon inclinou-se e beijou-lhe a testa, sendo s ento que ele percebeu a expresso do rosto do rapaz.
- Voltei para lhe falar numa coisa, pap.

228

Com toda a sua vontade, Jolyon tentava dominar a sensao de sobressalto, de borboto, dentro do seu peito.
- Bem, sente-se, meu velho. J viu sua me?
- No.
O rubor do rapaz deu lugar  palidez. Sentou-se no brao da velha cadeira, como outrora Jolyon costumava sentar-se ao lado do pai, instalado no seu regao. At que 
chegasse o dia da ruptura de relaes entre ambos, ele costumava instalar-se ali - e chegara agora idntico momento, com o seu prprio filho! Durante a vida inteira 
odiara cenas, evitara disputas, seguira calmamente o seu caminho e deixara cada um seguir o seu. Mas agora- parecia que exactamente no fim de tudo - tinha diante 
de si uma cena muito mais penosa que todas as que evitara. Mascarou a sua emoo e esperou que o filho falasse.
- Pap - disse Jon suavemente -, Fleur e eu estamos noivos.
- Realmente! - exclamou Jolyon, respirando com dificuldade.
- Sei que o pap e a mam no aprovam. Fleur disse-me que a mam foi noiva do pai dela antes de casar consigo.  claro que no sei o que aconteceu, mas isso j se 
deu h sculos. Gosto imenso dela, pap, e ela diz que tambm gosta de mim do mesmo modo.
Jolyon abafou um murmrio, meio riso, meio gemido.
- Voc tem dezanove anos, Jon, e eu tenho setenta e dois. Como poderemos entender-nos num assunto como este?
- O pap ama a mam, e deve compreender o que sentimos e que no ser fcil para ns consentirmos que velhas coisas estraguem a nossa felicidade.
Posto diante da necessidade da sua confisso, Jolyon resolveu-se a execut-la de qualquer modo. E levou a mo ao brao do filho.
- Oua, Jon! Eu poderia responder dizendo que vocs ambos so muito moos e ainda no sabem o que querem, e tudo o mais. Mas vocs no me escutariam. Alis, tem 
de ser assim, pois, infelizmente, a juventude deve aprender por si. Voc fala levianamente a respeito dessas "velhas coisas", no sabendo nada, como o confessa, 
nada do que aconteceu. E agora escute: j lhe dei alguma razo de dvida do meu amor por si ou da minha palavra?

229

Num momento menos angustioso, ele ter-se-ia divertido com o conflito que as suas palavras despertavam - o abrao enrgico do filho como resposta s suas perguntas 
e o receio que se lia no rosto do rapaz, receio do que aquela resposta poderia trazer de volta -, mas apenas pde sentir-se grato pelo amplexo.
- Pois ento pode acreditar no que lhe digo. Se voc no liquidar esse namoro, tornar sua me desgraada enquanto ela viver. Acredite-me, meu filho, o passado no 
pode ser enterrado, seja ele qual for... no o pode, com efeito.
Jon saiu do brao da cadeira.
" a pequena que est diante dele", pensava Jolyon, "como uma verdadeira imagem da vida: ardente, linda, apaixonada!"
- No posso, pap. Como poderia eu... s porque o pap diz isso?  claro que no posso!
- Jon, se conhecesse a histria, acabaria com isso tudo sem hesitao. E deve faz-lo! No me acredita?
- Como pode dizer o que pensarei? Pap, eu amo essa moa mais que a tudo no mundo.
O rosto de Jolyon crispou-se, e ele disse com dolorosa lentido:
- Mais que  sua me, Jon?
Pelo rosto do rapaz, pelos seus punhos cerrados, Jolyon pde perceber a luta em que ele se debatia.
- No sei - exclamou Jon -, no sei! Mas abandonar Fleur por nada, por algo que eu no posso compreender, por uma coisa que eu no acredito possa significar tanto 
assim, isso faria... faria...
- Faria voc considerar-nos injustos ao pormos uma barreira... sim. Mas  melhor que continuar com isso.
- No posso. Fleur ama-me, eu amo-a. Querem que eu confie em vocs. Porque no confia em mim, pap? Ns no quereramos saber de nada., no deixaramos que isso 
trouxesse a menor diferena. Apenas aconteceria que amaramos o pap e a mam com redobrado amor.
Jolyon levou a mo ao bolso do peito, mas retirou-a de l ainda vazia, e disse, sentindo a lngua meio entravada:

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- Pense no que sua me tem sido para si, Jon! Ela no tem ningum alm de si. Eu no durarei muito mais tempo!
- Porque no? No deve apelar para... Porque no?
- Porque - disse friamente Jolyon - os mdicos me disseram que no viverei. S por isso.
- Oh, pap! - exclamou Jon, rompendo em lgrimas. Aquele pranto do filho, que ele no via chorar desde que
passara os dez anos de idade, comoveu terrivelmente Jolyon. Reconhecia amplamente como era afectuoso o corao do rapaz, quanto estava ele fadado a sofrer naquele 
caso e na vida em geral. E estendeu desamparadamente a mo - no desejando e, na verdade, no ousando levantar-se.
- Meu velho - disse ele -, no faa isso, voc vai fazer-me mal!
Jon dominou o seu paroxismo e ficou imvel, com o rosto desviado do pai.
"E agora?", pensava Jolyon. "Que poderei dizer para o persuadir?
- Alis, peo-lhe que no fale nisso  sua me. Basta este seu caso para a afligir. Compreendo como  que voc se sente. Mas, Jon, voc conhece-nos muito bem para 
compreender que no seramos capazes de pretender roubar-lhe a sua felicidade levianamente. Porque, meu filho, ns apenas nos preocupamos com a sua felicidade. Isto 
... eu s cuido de voc e de sua me, e ela s de si. E  todo o futuro de vocs ambos que est em risco.
Jon voltou-se. Tinha o rosto mortalmente plido. Os olhos, enterrados nas rbitas, pareciam arder.
- Que ? Mas que ? No me tratem dessa maneira! Jolyon, que compreendeu que estava batido, meteu a mo
no bolso do peito e ficou um momento imvel, respirando com dificuldade, os olhos fechados. Um pensamento atravessou-lhe o esprito: "J tive muitos momentos amargos 
- mas este  o pior!" Depois retirou a mo, trazendo a carta, e disse, com uma espcie de fadiga:
- Bem, Jon, se voc no houvesse chegado hoje, eu ter-lhe-ia mandado isto. Eu quis poup-lo, quis poupar sua me e a mim.

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mas vejo que no posso. Leia e medite, enquanto vou ao jardim.
- E tentou levantar-se.
Jon, que recebera a carta, disse rapidamente:
- No, vou eu. - E saiu.
Jolyon reclinou-se na cadeira. Uma mosca escolheu aquele momento para vir zumbir em torno dele com uma espcie de fria. O som era rude, mas era melhor que nada. 
Para onde teria ido o rapaz ler a carta? A desgraada carta - a desgraada histria! Um caso cruel - cruel para Irene, cruel para Soames, para aqueles dois meninos, 
para ele prprio! O corao batia-lhe desordenadamente, doa-lhe. A vida: amor, trabalho, beleza, dor - e fim! Um bom tempo, um lindo tempo, a despeito de tudo, 
at... que uma pessoa lamente mesmo ter nascido. A vida despedaa-nos, mas, mesmo assim, no nos traz vontade de morrer - e esse  o pior mal! Que erro ter um corao! 
Novamente a mosca recomeou a zumbir, trazendo consigo todo o calor e o aroma do Vero
- sim, at mesmo o aroma de frutos maduros, ervas ressequidas, arbustos cheios de seiva, o hlito de baunilha das vacas. E l fora, no meio dessas fragrncias, Jon 
deveria estar a ler a carta, virando e amarrotando as pginas na sua perturbao - desvario e perturbao-, despedaando o corao com aquilo! E esse sentimento 
fez que Jolyon se sentisse agudamente infeliz. Jon tinha o corao to afectuoso e to terno, era ao mesmo tempo to consciencioso-e aquilo era to injusto, to 
injusto! Lembrava-se de que Irene lhe dissera certa vez: "Nunca nasceu ningum mais amante e mais amvel que Jon!" Pobre Jon! O seu mundo derrudo inteiramente, 
a meio daquela tarde de Vero! A juventude sofre tanto com tudo! E, magoado, atormentado por aquela viso da juventude a sofrer, Jolyon ergueu-se da cadeira e caminhou 
para a janela. Mas no viu o filho. E Jolyon saiu para o jardim. Se algum pudesse ajud-lo!
Passou pelo bosquete, olhou para o jardim murado - nem sinal de Jon! Nem no pomar, onde as pras e os damascos comeavam a tomar cheiro e cor. Passou pelas rvores 
exticas do pequeno prado, escuras e espiraladas. Para onde teria ido o rapaz? Teria ido at ao bosque - o seu velho campo de caa? Jolyoa passou junto s medas 
de feno - tinham de fazer secar melhor o feno

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e guard-lo antes que a chuva o estragasse. Quantas vezes pai e filho haviam atravessado aquilo juntos, de mos dadas, quando Jon era ainda um garoto! Ai dele! A 
idade de ouro acaba quando se completa dez anos! Chegou ao tanque, onde brincavam moscas e liblulas sobre a superfcie lustrosa, semeada de juncos. Depois entrou 
no bosque. Estava frio, com um cheiro de relva. E nada de Jon! Chamou. No recebeu resposta. Sentou-se no velho tronco derrubado, inquieto, esquecendo as suas prprias 
dores fsicas. Fizera mal em deixar o rapaz sair com aquela carta. Devia t-lo guardado sob a sua vista enquanto lia! E, perturbadssimo, ps-se a desandar o seu 
caminho. Nos estbulos chamou ainda e olhou para dentro da escura vacaria. L, no frio, no cheiro de baunilha e amnia, livres das moscas, as trs vacas Alderney 
ruminavam silenciosamente. Acabavam de ser ordenhadas e espe-ravam que as levassem de novo para o campo de baixo. Uma delas virou a cabea indolente, o olho lustroso, 
e Jolyon pde ver-lhe a baba a escorrer do beio escuro. Via tudo com uma apaixonada nitidez, na agitao dos seus nervos, tudo aquilo que, no seu tempo, ele adorara 
e tentara pintar - maravilha de luz, de forma e de cor. No era de admirar que a lenda houvesse posto Cristo numa manjedoura - que coisa mais devota h que os olhos 
e os chifres lunares de uma vaca que rumina  sombra tpida! Chamou de novo. Nenhuma resposta! E saiu quase a correr do estbulo., passou o tanque, subiu a encosta. 
Era curiosamente irnico como pensara logo que Jon Iria devorar a carta reveladora naquele mesmo bosque onde sua me e Bosinney haviam outrora descoberto que se 
amavam! Onde ele prprio, sentado no velho tronco, numa manh de domingo., ao voltar de Paris, descobrira que Irene valia para ele o mundo inteiro! E ali seria o 
lugar que a ironia escolhera para tirar o vu de diante dos olhos do filho de Irene! Mas Jon no estava l! Para onde teria ido? Era preciso encontrar o pobre rapaz!
Um fulgor de sol banhava tudo. ampliando a beleza da tarde, das altas rvores com as suas sombras compridas, das nuvens azuis e brancas, do cheiro do feno, do arrulho 
dos pombos. E as folhas estiravam-se nos caules rijos. Jolyon entrou no roseiral, e a beleza das rosas naquele sol inesperado parecia quase extraterrena. "Rosas, 
sis, espanholas!"

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Palavras maravilhosas! Fora ali que ela parara, junto quela moita de rosas vermelho-escuras, para ler a carta e decidir que Jon deveria tomar conhecimento de tudo! 
E agora ele sabia de tudo! Seria que ela decidira mal? Inclinou-se e cheirou uma rosa, e as ptalas da flor roaram-lhe o nariz e os lbios trmulos. Nada h mais 
suave no mundo que a ptala aveludada de uma rosa - salvo o colo dela, de Irene! E Jolyon caminhou atravs do relvado, em direco ao carvalho. O cimo da rvore 
ainda brilhava, pois o Sol escondia-se por trs da casa. A sombra debaixo dele era espessa, abenoadamente fria - e ele estava esfalfado. Parou um momento, com a 
mo na corda do balouo. Joly, Holly, Jon! O velho balouo! E de sbito sentiu-se horrivelmente, mortalmente doente. "Fatiguei-me de mais", pensava ele. "Por Jpiter! 
Fatiguei-me de mais!" Atravessou o terrao, arrastou-se nos degraus e caiu contra a parede da casa, com o rosto encostado  madressilva, com a qual ela e ele tinham 
gasto tantos cuidados. E o cheiro das flores misturava-se  dor que sentia. "Meu amor", pensou ele, "e o meu filho!" E, com um grande esforo, arrastou-se ainda 
atravs da varanda e caiu na cadeira do velho Jolyon. O livro estava l, um lpis dentro dele. Agarrou-o, escreveu uma palavra na pgina aberta... A sua mo caiu... 
Era ento assim... era assim?
Veio-lhe um grande arquejo - depois, a escurido.

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CAPTULO III - IRENE


Quando Jon correu para fora, com a carta na mo, atravessou o terrao e dobrou a esquina da casa, presa do medo e da confuso. E, encostado  parede, segurou a carta. 
Era longa, longa! Aquilo aumentou-lhe o medo, e ele comeou a ler. Quando chegou s palavras "Foi com o pai de Fleur que ela casou", tudo se ps a girar em frente 
dele. Estava junto a uma porta, e, atravessando a sala de msica e o hall, subiu ao seu quarto. Depois de molhar o rosto com gua fria, sentou-se na cama e continuou 
a leitura, depondo cada pgina j lida no colcho, ao seu lado. A caligrafia do pai era fcil de ler - conhecia-a to bem, embora nunca houvesse recebido uma carta 
dele que tivesse nem um quarto do tamanho daquela. Leu-a com o esprito meio obnubilado, a imaginao a trabalhar apenas pela metade. O que mais o impressionara 
na primeira leitura fora a dor que deveria ter custado ao pai escrever tal carta. Deixou cair a ltima pgina e, numa espcie de desamparo moral e mental, voltou 
 primeira folha. E tudo lhe parecia repulsivo - morto e repulsivo. Ento, de repente, uma onda ardente de horrorizada emoo ressoou dentro dele. Escondeu o rosto 
nas mos. Sua me! E o pai de Fleur! Agarrou de novo a carta e continuou a ler, mecanicamente. E novamente lhe veio o sentimento de que tudo aquilo era repulsivo 
e morto. O seu amor era to diferente!

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Aquela carta dizia que sua me... e o pai dela! Uma carta pavorosa: Propriedade! Haveria realmente homens que olhassem para as mulheres como para propriedades suas? 
Caras vistas na rua e no campo apinhavam-se diante do rapaz, caras vermelhas, caras magras, speras, estpidas, caras afectadas, secas, violentas - centenas, milhares 
delas! Como podia ele saber o que pensariam, o que fariam os homens donos daquelas caras?
Segurou a cabea entre as mos e ps-se a gemer. A sua me! Agarrou a carta e releu: "Horror e averso - vivos nela ainda hoje.,, seus filhos... netos... de um homem 
que possuiu um dia sua me como se possui uma escrava." Levantou-se da cama. Aquele passado cruel e sombrio, emboscando-se assim para matar o seu amor e o de Fleur, 
tinha de ser verdadeiro, ou nunca o seu pai o teria escrito. "Porque no me contaram eles tudo?", pensava Jon. "no dia em que vi Fleur pela primeira vez? Eles sabiam 
que eu a tinha visto. Tiveram medo, e agora - eu j teria vencido isso!" Dominado por um sentimento de infelicidade grande de mais para permitir um pensamento ou 
um raciocnio, deixou-se cair num canto escuro do quarto e ficou sentado no soalho. Ficou ali como um animalzinho infeliz. Havia uma certa consolao na escurido 
e no soalho - como se houvesse voltado ao tempo em que travava as batalhas dos seus soldados naquele mesmo cho. Deixou-se estar sentado ali, desordenadamente, os 
cabelos arrepiados, as mos enroladas em torno dos joelhos, nem soube por quanto tempo. E foi acordado da sua desgraa pelo som da porta que dava para o quarto da 
me e que se abria.
O quarto, fechado na ausncia dele, tinha ainda as cortinas corridas e donde ele estava apenas podia ouvir um roagar de saias, os passos dela. Depois viu-a parar 
defronte  mesa de toilette. Trazia qualquer coisa na mo. Ele mal respirava, esperando que ela no o visse e se fosse embora. Viu-a tocar os objectos da mesa, como 
se eles guardassem em si alguma virtude especial e depois viu-a olhar para a janela - cinzenta da cabea aos ps, como um fantasma. Se desse uma pequena volta  
cabea, poderia v-lo! E os lbios de Irene moveram-se: "Oh, Jon!" Falava consigo prpria e o tom da sua voz perturbou o corao do filho. Viu na mo dela uma pequena 
fotografia. E Irene aproximou-a da luz,

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olhando-a - to pequena, Jon conhecia-a - era um retrato seu quando menino, que ela sempre trazia na bolsa. O corao batia-lhe mais depressa. E subitamente, como 
se o ouvisse, Irene volveu os olhos e viu Jon. Ante o arquejo que ela soltou e o movimento das mos apertando o retrato contra o peito, ele disse:
- Sim, sou eu.
Ela caminhou para a cama e sentou-se ali, junto dele, as mos ainda apertadas ao peito, os ps entre as folhas da carta que haviam escorregado para o cho. Jon olhou-a: 
agora as suas mos agarravam-se ao espaldar da cama. Sentava-se muito erecta, os olhos escuros fixos nele.
- Bem, Jon, vejo que j sabe - disse finalmente.
- Sim.
- Esteve com seu pai?
- Sim.
Houve um longo silncio, at que ela disse:
- Oh, meu querido!
- Est tudo bem.
As emoes, dentro dele, eram to violentas e to confusas que no ousava comover-se, apenas sentindo ressentimento, desespero, e ao mesmo tempo o estranho alvio 
provocado pela mo da me na sua fronte.
- Que  que vai fazer?
- No sei.
Houve um novo silncio, e ento ela levantou-se. Ficou um momento parada, imvel, fez um pequeno movimento com a mo e disse:
- Meu filhinho querido, meu filho adorado, no pense em mim... pense s em si.
E, deslizando junto  cama, entrou no seu quarto.
Jon voltou-se, enrolado numa espcie de bola, como um ourio, no canto da parede.
Devia ter passado uns vinte minutos assim, quando um grito chegou at ele. Vinha do terrao, l em baixo. Ergueu-se, assustado. E novamente ouviu o grito:
- Jon!
Era sua me que o chamava! Atirou-se pela escada,

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atravessou a sala de jantar vazia e entrou no escritrio. Irene ajoelhara-se defronte da velha cadeira de braos, e seu pai estava reclinado, muito branco, a cabea 
no peito, uma das mos cada sobre um livro aberto, com um lpis preso entre os dedos - a coisa mais estranha que ele jamais vira. Irene olhou em torno, perdidamente, 
e disse:
- Oh, Jon, ele est morto... morto!
Jon lanou-se de joelhos, e, agarrando-se ao brao da cadeira onde se sentara h pouco, beijou a testa do pai. Fria de gelo, Como era possvel - como seria possvel 
que o pai estivesse morto, quando apenas uma hora antes... Os braos da me rodeavam os joelhos do morto e ela apertava o peito contra eles. "Porque no estava eu 
junto dele?", ouviu-a murmurar. Ento Jon viu a palavra, "Irene" trmulamente riscada na pgina aberta. - e aquilo acabou de o derrubar.
Era a primeira vez que via um homem morto, e aquela inaltervel imobilidade bloqueava nele qualquer outra emoo. Tudo o mais, ento, nada era seno o preparativo 
daquilo! Todo o amor, toda a vida, a alegria, a inquietao, a tristeza, todo o movimento, luz e beleza, no eram mais que o comeo daquela terrvel imobilidade! 
E aquilo traou uma assustadora marca dentro dele. De repente, tudo lhe parecia pequeno, ftil, mesquinho. Conseguiu por fim dominar-se e ergueu a me.
- Mam! No chore, mam!

Algumas horas depois, quando tudo o que se devia fazer fora feito e sua me estava deitada, ele ficou sozinho com o pai agora deitado na cama, coberto por um lenol 
branco. Longamente esteve olhando aquele rosto que nunca se mostrara colrico - sempre espiritual e bondoso. "Ser bom, e no desanimar at ao fim - nada mais h 
alm disso", ouvira o pai dizer certa vez. E como Jolyon realizara maravilhosamente essa filosofia! Compreendia agora que o pai h muito tempo sabia que o fim chegaria 
subitamente - sabia-o, e no dissera uma palavra. E o filho fitava-o com uma assustada e apaixonada reverncia. A solido daquela ameaa - para poupar a me dele, 
Jon. E os seus desgostos pareciam-lhe pequenos enquanto olhava aquele rosto. A palavra escrita na pgina do livro! A palavra de adeus!

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Agora sua me no tinha ningum alm do filho. jon aproximou-se da face morta, sem nenhuma mudana, na verdade, e no entanto absolutamente mudada. Ouvira uma vez 
o pai dizer que no acreditava em sobrevivncia depois da morte, ou, se isso acontecia, deveria ser uma sobrevincia que s ia at que o natural limite de idade 
do corpo fosse atingido - o termo natural da vitalidade inerente. Assim, se o corpo era esmagado por um acidente, por um excesso, por uma doena repentina, a conscincia 
deveria persistir at que a Natureza, no seu curso, interferisse com ela e naturalmente a apagasse. Aquilo impressionara-o, porque nunca ouvira nenhuma outra pessoa 
dizer uma coisa semelhante. E quando o corao falhava, como falhara em Jolyon - decerto a morte no era absolutamente natural! Talvez essa sobrevivncia do esprito 
do pai ainda estivesse no quarto, junto dele. Sobre a cama, pendia um retrato do pai de seu pai, e talvez aquele tambm ainda sobrevivesse ali. E o seu irmo, o 
seu meio-irmo, que morrera no Transval? Estariam todos eles reunidos em torno daquela cama? Jon beijou a testa do pai e fugiu para o seu quarto. A porta que o separava 
do quarto da me estava entreaberta. Ela evidentemente estivera ali - tudo estava pronto a esper-lo, at mesmo alguns biscoitos e leite morno, e a carta j no 
jazia no cho. Jon comeu os biscoitos e bebeu o leite, vendo a ltima luz apagar-se. No procurava olhar para o futuro - fitava apenas os ramos escuros do carvalho 
que ficavam ao nvel da sua janela e sentia-se como se a vida houvesse parado de sbito.
Uma vez, durante a noite, revolvendo-se no seu sono pesado, teve a noo de que algo branco e imvel estava diante da sua cama e levantou-se.
- Sou eu, Jon, meu querido - disse a voz da me.
A mo dela empurrou-lhe docemente a cabea sobre o travesseiro e o vulto branco desapareceu.
S! E novamente caiu pesadamente no sono, vendo em sonhos o nome da me gravado na madeira da sua cama.

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CAPTULO IV - SOAMES MEDITA


A notcia, publicada no Times, relativa  morte do seu primo Jolyon, afectou precariamente Soames. Ento morrera! Em tempo algum, na vida de ambos, houvera estima 
entre um e outro. Esse sentimento ardente, o dio, percorrera o seu caminho no corao de Soames, e ele, que se recusara a permitir alguma recrudescncia, no podia 
entretanto deixar de considerar aquela morte prematura como uma prova de justia potica. Durante vinte anos, aquele indivduo gozara a reverso da sua mulher e 
da sua casa - e agora estava morto! O necrolgio, que apareceu um pouco depois, consagrava a Jolyon, no seu julgamento, uma ateno excessiva. Falava daquele "diligente 
e agradvel pintor, cujos trabalhos deviam ser encarados como exemplos tpicos do que havia de melhor em aguarelas no ltimo perodo vitoriano". .Soames, que quase 
mecanicamente preferia Mole, Morpin e Cawell Baye, e sempre fungara audivelmente quando encontrava um quadro do primo nalguma exposio, virou o Times com um estalar 
de folhas.
Tinha de ir  cidade naquela manh para tratar de negcios dos Forsyte, e percebeu muito bem os olhares de vis que Gradman lhe atirou atravs dos culos. O velho 
escrevente tinha em torno de si uma aura de condolncias. Parecia cheirar a tempo antigo e podia-se quase ouvi-lo pensar: "Mr. Jolyon, sim... tinha exactamente a 
minha idade, e j se foi! Valha-me Deus! Ouso dizer que ela deve estar sentida.

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Era uma mulher lindssima! No somos nada! E deram uma boa notcia sobre ele nos jornais. Imagine!" E o ambiente ali fez que Soames alinhavasse alguns emprstimos 
e converses com excepcional rapidez.
- E quanto ao capital posto em nome de Miss Fleur, Mr. Soames?
- Pensei melhor acerca disso - respondeu Soames.
- Ah! Isso alegra-me. Sempre pensei que o senhor se tinha precipitado um pouco. Os tempos mudaram.
De que maneira Fleur seria afectada por aquela morte? Essa interrogao comeava a perturbar Soames. Ele no tinha a certeza de que ela j soubesse a notcia. Mal 
lia os jornais, e, quando os lia, nunca olhava as notcias de nascimentos, casamentos e mortes.
Liquidou rapidamente o que tinha a fazer e dirigiu-se a Green Street, para o almoo. Winifred estava quase de luto e Jack Cardigan rebentara um guarda-lamas em condies 
pssimas e no estaria "em forma" durante algum tempo. Ela no conseguia habituar-se quela ideia.
- Profond foi-se embora? - perguntou subitamente Soames.
- Foi-se embora - respondeu Winifred. - Mas para onde, no sei.
- Sim, com ele  impossvel saber qualquer coisa! - No que ele desejasse saber. As cartas de Annette vinham de Dieppe, onde ela e a me passavam uma temporada. 
- Viu a notcia da morte daquele indivduo?
- Sim - disse Winifred-, e lamentei por... por causa dos filhos. Ele era muito afectuoso.
Soames abafou uma exclamao profunda. Sempre suspeitara de que os homens, neste mundo, so julgados antes pelo que so do que pelo que fazem, e esse sentimento 
veio de novo atorment-lo.
- Sei que existia uma superstio acerca disso - resmungou.
- Temos de lhe fazer justia, agora que ele est morto.
- Eu gostaria de lhe ter feito justia antes - disse Soames. - Mas nunca tive essa oportunidade. Voc tem a um barone-tage?(1)

*1 Espcie de almanaque da nobreza. (N. da T.)

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- Sim. naquela prateleira do fundo.
Soames agarrou um grosso livro vermelho e percorreu-lhe as pginas: Mont - Sir Lawrence - Nono baronete, nascido em 1620. filho de Sir Geoffrey, oitavo baronete, 
e de Lavinia, filha de Sir Charles Muskham, baronete de Muskham Hall. Casou em 1890 com Emily, filha de Conway Charwell, squire de Condaford Grange, Um filho e herdeiro, 
Michael Conway, nascido em 1895, duas filhas. Residncia: Lippinghall Manar, Folwell, Bucks. Clubes: Snooks. Caf: Aeroplane. Ver Bidlicott."
- Hum!- resmungou Soames. - Voc j conheceu algum editor?
- O tio Timothy.
- Vivo, quero dizer.
- Monty conheceu um no clube. Trouxe-o uma vez para jantar em casa. Mont)- pensou sempre em escrever um livro sobre o mtodo de ganhar dinheiro no turf. E tentou 
interessar esse homem.
- E ento?
- Deu-lhe o palpite de um cavalo, para o prmio de duas mil libras. Nunca mais o vimos. Era um homem fino, se bem me lembro.
-E ganhou?
- No. Mas deve lembrar-se de que Monty era realmente muito entendido nessas coisas.
- Sim? Voc consegue descobrir alguma conexo entre um baronete ainda de mama e uma casa editora?
- Hoje em dia, toda a gente faz qualquer espcie de coisa - respondeu Winifred. - A grande preocupao  no parecer indolente... to diversa do nosso tempo. A regra, 
ento, era no fazer nada. Mas creio que ela ainda voltar.
- Esse jovem Mont de quem estou a falar gosta muitssimo de Fleur. Se fosse possvel acabar com aquele outro assunto, eu animaria este.
-  um rapaz interessante?
- No  um homem bonito, mas  agradvel, um pouco cabea de vento. Tem uma boa poro de terras, creio eu. E parece sinceramente afeioado  pequena. Mas no sei.
- No - murmurou Winifred. -  muito difcil. Eu sempre
achei que no se deve fazer nada. Foi um aborrecimento, essa histria de Jack. Apenas poderemos sair depois do feriado bancrio. Afinal, essa gente vive a divertir-se. 
Irei ao Park olh-los.
- Se fosse a si - disse Soames -, teria um cottage no campo, e viveria livre de cuidados com acidentes e feriados.
- O campo aborrece-me - respondeu Winifred - e acho os acidentes de estrada muito excitantes.
Ela sempre fora conhecida pelo seu sangue-frio.
Soames despediu-se. Durante todo o caminho de volta para Reading, debateu consigo se deveria ou no contar a Fleur a morte do pai do rapaz. Aquilo no alterava a 
situao - excepto que o tornaria independente e agora ele s teria de enfrentar a oposio da me. Iria entrar na posse de bastante dinheiro, talvez da casa - a 
casa construda para ele prprio e para Irene, a casa cujo arquitecto fora o causador da sua runa domstica. Sua filha - dona daquela casa! Isso seria uma justia 
potica! E Soames abafou um pequeno riso irnico. Ele planeara aquela casa para restabelecer a sua unio vacilante, destinara-a a ser a manso dos seus descendentes 
- se pudesse induzir Irene a dar-lhe um descendente. O filho dela e Fleur! E os filhos deles seriam, de certo modo, a resultante da unio entre Soames e Irene!
O teatralismo daquele pensamento era repulsivo  sua sobriedade. E, no entanto, era aquela a maneira mais fcil e mais segura de resolver o impasse, agora que Jolyon 
morrera. A reunio das fortunas de dois Forsyte tinha um trao de conservantismo encantador. E ela, Irene, mais uma vez estaria ligada a ele. Extravagncia! Absurdo! 
Mas expulsou do pensamento aquelas cismas.
Ao chegar a casa, ouviu o bater das bolas de bilhar e, atravs da janela, viu o jovem Mont estirado sobre a mesa verde. Fleur, com o seu taco apoiado no quadril, 
olhava-o a sorrir. Como estava linda! No era de admirar que o rapazinho estivesse doido por ela. Um ttulo - e terras. No que terras hoje em dia valessem muito, 
e talvez menos ainda um ttulo. Os velhos Forsyte mostraram sempre uma certa espcie de desprezo por ttulos - coisas remotas e artificiais que no valiam o dinheiro 
que custavam e dependiam da corte. Todos eles tinham esse sentimento em diferentes propores... Soames lembrava-se bem. Swithin, com efeito, nos seus tempos mais 
expansivos,

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esperara uma "apresentao" na corte. Mas desistira, dizendo que no ia perder tempo com "aquelas ninharias". Desconfiou-se de que ele ficaria desproporcional de 
mais - gigantesco que era - em cales curtos e meias de seda-. Soames lembrava-se de quanto a me desejara ser apresentada, apetecendo as elegncias da corte, e 
como o pai se opusera sempre a isso com invencvel deciso. Que queria ela com aquele pavoneamento - s gastar tempo e dinheiro!
O instinto que deu e manteve a posse aos Comuns do principal poder do Estado - um sentimento de que o seu prprio mundo  bastante bom, e talvez um pouco melhor 
que qualquer outro, j que  o "seu mundo" - mantivera sempre os velhos Forsyte singularmente libertos dessas ninharias, como Nicholas costumava chamar a tais aspiraes.
A gerao de Soames, mais confiante em si e mais irnica, salvara-se graas  cmica evocao de Swithin em cales curtos. Quanto  terceira e  quarta gerao, 
essa, segundo lhe parecia, ria de tudo.
Entretanto, no havia mal nenhum em que o rapaz fosse herdeiro de um ttulo e de uma propriedade - coisa que ningum pode evitar. E entrou silenciosamente na sala 
de jogo, exactamente quando Mont perdia a jogada.
Notou os olhos do rapaz, intensamente presos a Fleur, que se inclinava com o taco em riste - e a adorao que leu naqueles olhos quase o comoveu.
Ela parou, com o taco preso  mo, e sacudiu os caracis do cabelo curto, castanho-escuro.
- No consigo.
- No perde nada em arriscar.
- Muito bem. - O taco avanou e a bola correu. - L est!
- M sorte! No se importe! Viram-no ento, e Soames disse:
- Vou fazer as marcaes.
Sentou-se na cadeira baixa junto ao quadro de marcaes, correcto e cansado, estudando furtivamente aquelas duas caras jovens. Quando o jogo terminou, Mont dirigiu-lhe 
a palavra.
- J comecei a trabalhar, sir. Jogo divertido os negcios, hem?

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Creio que o senhor, como advogado, adquiriu uma boa experincia da natureza humana, no?
-  verdade.
- Vou dizer-lhe o que tenho notado: essa gente est inteiramente errada quando oferece menos do que pode dar. Deviam oferecer mais, e depois ir diminuindo a oferta.
Soames ergueu as sobrancelhas.
- E imagine que o mximo  aceite?
- No tem grande importncia.  muito mais fcil abater um preo do que aument-lo. Por exemplo: ns oferecemos uma boa proposta a um autor e, naturalmente, ele 
aceita. Ns ento verificamos que no podemos fazer a publicao com um rendimento razovel e explicamos isso ao nosso homem. Ele, que depositou confiana em ns, 
porque nos mostrmos generosos, concorda como um cordeiro e aceita o nosso golpe. Porm, se, de incio, lhe fazemos uma oferta mesquinha, ele no aceita, e fica 
imediatamente a considerar-nos uns ladres.
- Experimente comprar quadros por esse sistema - disse Soames. - Uma oferta aceite  um contrato. J aprendeu isso?
O jovem Mont voltou a cabea para o lado onde estava Fleur, de p junto  janela.
- No - disse ele. - Gostaria de ter aprendido. Mas h ainda outra coisa: dispense sempre o fregus de um negcio, se ele deseja ser dispensado.
-  uma advertncia? - perguntou secamente Soames.
- Claro que , mas s a disse em princpio.
- A sua firma trabalha de acordo com essa linha de conduta?
- Ainda no - disse Mont -, mas trabalhar.
- E ir por gua abaixo.
- No, sir. Ando a fazer inmeras observaes, e todas elas confirmam a minha teoria. A natureza humana  fortemente subestimada nos negcios, e isso faz que toda 
a gente se prive de uma considervel soma de prazer e lucros.  claro que o senhor pode mostrar-se perfeitamente sincero e franco, mas, se o senhor sente isso, mais 
fcil lhe ser mostr-lo. Quanto mais humanos e generosos ns formos,

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mais probabilidades teremos de vencer nos negcios.
Soames ergueu-se e perguntou:
- Voc j  scio?
- S daqui a seis meses, sir.
- O resto da firma o melhor que tem a fazer  apressar-se a retirar.
Mont riu.
- O senhor vai ver - disse ele. - Ser uma grande mudana. O princpio possessivo vai ficar de boca fechada.
- O qu? - perguntou Soames.
- A casa est para alugar! Adeus, sir.
Soames viu a filha estender-lhe a mo, viu-a encolher-se ao aperto que recebeu e escutou distintamente o suspiro do rapaz, ao sair. Fleur afastou-se ento da janela 
e ps-se a fazer arabescos com o dedo no mogno da mesa de bilhar. E, olhando-a, Soames compreendeu que ela ia perguntar-lhe qualquer coisa.
O dedo da moa parou num ngulo e ela ergueu os olhos.
- Tomou qualquer providncia para impedir que Jon me escreva, pap?
Soames abanou a cabea.
- Ento no o tem visto? O pai dele morreu faz hoje exactamente uma semana.
- Oh!
E no rosto perturbado e sombrio de Fleur ele viu o esforo para apreender a significao futura daquilo.
- Pobre Jon! Porque no mo disse, pap?
- Nunca sei de nada que se passa consigo - disse Soames suavemente. - Voc no confia em mim.
- Confiaria se me ajudasse, querido.
- Talvez eu a ajude. Fleur crispou as mos.
- Oh, querido, quando uma pessoa quer terrivelmente uma coisa no pensa nos outros. No se zangue comigo.
Soames estendeu a mo como se lhe lanasse a bno.
- Ando a pensar - disse ele. - O jovem Mont ainda continua a insistir?

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Fleur sorriu.
- Oh. Michael! Anda sempre a insistir, mas no  mau rapaz. No me incomodo com ele.
- Bem - disse Soames -, estou cansado. Vou dormitar um pouco antes do jantar.
E, subindo para a sua galeria de pintura, estirou-se num div e fechou os olhos. Que responsabilidade terrvel aquela sua filha, cuja me era... Ah! Que seria ela? 
Uma responsabilidade terrvel! Ajud-la - como poderia ajud-la? No podia alterar o facto de ser seu pai. Ou o facto de Irene... Que fora que o jovem Mont dissera... 
um disparate acerca do instinto de propriedade... de boca fechada... e para alugar? Maluquices!
O ar opressivo, carregado de um cheiro doce de erva, do rio e das rosas, atordoava-lhe os sentidos, embriagava-o.

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CAPTULO V - IDEIA FIXA


A ideia fixa, que  responsvel por muito mais loucuras que qualquer outra espcie de desvario humano, nunca apresenta mais velocidade e vigor do que quando assume 
a vida mscara do amor.
A nada a ideia fixa do amor presta ateno, nem a sebes, nem a valados, nem a portas, nem a entes humanos sem ideias fixas, nem mesmo a outros padecentes da mesma 
doena. Corre com os olhos presos na sua prpria luz, esquecida de todas as outras estrelas. E todos os outros que tambm tm a sua ideia fixa - os que pensam realizar 
a felicidade humana com a prpria arte, com a vivisseco de ces, com o dio aos estrangeiros, com o pagamento de novos impostos, continuando ministros, fazendo 
que as rodas girem, evitando que os seus vizinhos se divorciem, opondo objeces de conscincia, dedicando-se a razes gregas, aos dogmas da Igreja, a paradoxos, 
ao sentimento da sua superioridade sobre os mais humanos -, todas as outras formas de egomania so instveis, comparadas  daquele ou daquela cuja ideia fixa  possuir 
uma ela ou um ele.
E embora Fleur, naqueles frios dias de Vero, prosseguisse na vida dispersa de uma pequena Forsyte cujos vestidos so pagos por outrem e cuja obrigao  o prazer, 
ela mantinha-se, como diria Winifred, usando a locuo ento em moda, "sem trair o esprito indiferente a tudo aquilo". Quando estava na cidade

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esperava horas seguidas pela Lua que vagueava pelo cu frio sobre Green Park. Trazia sempre no seio as cartas de Jon, enroladas em seda cor-de-rosa, e nestes tempos 
em que os decotes so to grandes, o sentimento  to desprezado e os bustos esto fora de moda, talvez ela no pudesse dar melhor prova de ideia fixa.
Quando soube da morte de Jolyon, escreveu ao namorado, e recebeu a resposta dele trs dias depois, ao voltar de um piquenique na margem do rio. Era a primeira carta 
de Jon depois do encontro em casa de June. Abriu-a com receio e leu-a desolada:

Depois de t-la visto, j soube de tudo acerca do passado. Nada lhe contarei - pois creio que voc no o ignorava quando nos encontrmos em casa de June. Ela diz 
que voc j o sabia. Se isso era verdade, Fleur, voc deveria ter-mo dito. Creio que conhece apenas a verso de seu pai. Eu ouvi a de minha me,  terrvel. E agora, 
que ela est to triste, no ouso fazer nada que a magoe ainda mais.  evidente que morro de saudades de si o dia inteiro, mas no acredito que alguma vez possamos 
viver juntos, pois h algo de muito forte a separar-nos.

Ento... A decepo que lhe trouxera a entrevista fizera-a esquecer a sua mentira. Mas Jon - ela sentia-o - perdoara aquilo. Era o que ele dizia acerca da me que 
lhe trazia o rubor ao rosto e aquele tremor s pernas.
O seu primeiro impulso foi responder... o segundo, no responder. E esses impulsos reproduziram-se constantemente nos dias seguintes, enquanto o desespero crescia 
dentro dela. No era  toa que era filha de seu pai. A tenacidade, que ao mesmo tempo fizera e destrura Soames, constitua tambm a espinha dorsal da moa, enfeitada 
e embelezada pela graa e pela vivacidade francesa. Instintivamente, ela conjugava o verbo "ter" sempre com o pronome "eu", mas escondia todos os sinais de desespero 
crescente e prosseguia nos seus prazeres campestres, tanto quanto o permitiam as chuvas e o vento daquele desagradvel ms de Julho, como se no tivesse outros cuidados 
neste mundo. E nunca um filho de baronete negligenciou tanto os seus deveres de editor como o seu fiel e suspirante Michael Mont.

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Para Soames, ela era um enigma. Sentia-se quase decepcionado com a descuidada alegria da filha. Quase - porque no deixou de notar os olhos dela frequentemente fixos 
no vazio ou a rstia de luz que lhe saa da janela j com a noite bastante avanada. Que estaria ela a planear, em que cuidaria, nas horas em que deveria estar a 
dormir? Mas ele no ousava interrog-la, e desde a pequena conversa na sala de bilhar ela no dissera mais nada.
Nessa taciturna fase do assunto, sucedeu que Winifred os convidou para um almoo e para irem depois a "uma peazinha muito interessante", a pera dos Pobres. Queriam 
levar outro cavalheiro, para fazer dois pares? Soames, cuja atitude em relao a teatros era nunca l ir, aceitou, porque a atitude de Fleur era ir a tudo. Foram, 
pois, de automvel, levando Michael Mont, que, sentindo-se no stimo cu, foi considerado "muito interessante" por Wiinifred. A pera dos Pobres intrigou Soames. 
As personagens eram muito desagradveis e toda a pea muito cnica. Winifred tambm se sentia "intrigada"... mas pelos vestidos. A parte musical tambm no lhe desagradou. 
Na noite anterior, chegara cedo de mais  pera, para o Ballet Russe, e encantara o palco invadido por cantores, que durante uma hora inteira ensaiaram, plidos 
ou apoplcticos pelo receio de sarem do tom. E essa experincia de bastidores fazia-a agora atentar na msica. Michael Mont estava deslumbrado com a pea. E todos 
trs perguntavam a si mesmos o que estaria a pensar Fleur daquilo. Mas Fleur, simplesmente, no pensava naquilo. A sua ideia fixa assentara-se no palco, cantara 
com Polly Peachum, gesticulara com Philoh, Jenny Diver, imobilizara-se com Lucy Lockit, beijara, rodopiara, abraara com Maoheat. Os seus lbios podiam sorrir, as 
suas mos aplaudir, mas a velha obra-prima cmica no fez mais impresso sobre ela do que o faria uma obra pattica, tal como uma revista moderna. Quando subiram 
para o carro, de volta, ela sofreu porque Jon no estava sentado a seu lado, em lugar de Michael Mont. Quando, por ocasio de um choque, o brao do rapaz tocou o 
seu como por acaso, ela pensou apenas: "Se fosse o brao de Jon!" Quando a voz calorosa dele, comovida pela proximidade da amada, murmurou abafada pelo rudo do 
carro, ela sorriu e respondeu pensando: "Se fosse a voz de Jon!" E quando uma vez ele disse: "Fleur, voc parece um anjo com esse vestido",

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ela respondeu: "Oh, gosta dele?", pensando: "Se Jon pudesse v-lo!"
E durante o percurso de automvel tomou uma resoluo. Iria a Robin Hill v-lo - iria s. Iria no carro, sem uma palavra antes a preveni-lo e sem prevenir tambm 
o pai. J haviam passado nove dias depois da carta dele, e ela j no podia esperar mais. Iria na segunda-feira! E a deciso tornou-a bem disposta em relao ao 
jovem Mont. Com alguma perspectiva  sua frente, ela podia toler-lo e conversar, e ele podia ficar para o jantar, declarar-se-lhe como sempre, danar com ela, apertar-lhe 
a mo, suspirar - fazer o que quisesse. S a incomodava quando interferia com a sua ideia fixa. Tinha at pena dele, tanto quanto lhe era possvel naquele momento 
ter pena de algum, alm dela prpria. Ao jantar, Mont falou com mais vivacidade que habitualmente sobre o que ele chamava "a morte da carruagem fechada". Fleur 
dedicou-lhe pouca ateno, mas o pai prestou-lhe muita, tendo no rosto o seu sorriso que significava oposio, se no clera.
- A gerao mais nova no pensa como o senhor pensa, Sir. No , Fleur?
Fleur encolheu os ombros - a nova gerao era apenas Jon, e ela no sabia o que ele pensava.
- Os jovens pensaro como eu quando tiverem a minha idade, Mr. Mont. A natureza humana no se modifica.
- Admito isso, sir, mas as formas de pensamento mudam com os tempos, A corrida atrs do interesse prprio est a desaparecer.
- Com efeito! Mas preocupar-se com os seus prprios interesses no  um pensamento,  um instinto, Mr. Mont.
"Sim, quando o interesse  Jon!"
- Mas que  o interesse de cada um, sir? Esse  que  o ponto. Os interesses de todos esto a transformar-se no interesse de cada um. No , Fleur? - Fleur sorriu 
apenas. - E, se essa transformao no se der - acrescentou o jovem Mont -, haver sangue.
- Desde tempos imemoriais que se fala nisso.
- Mas h-de admitir, sir, que o instinto de propriedade est a morrer.

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- Direi antes que est a crescer entre aqueles que nada possuem.
-Bem, veja-me a mim! Sou herdeiro de uma propriedade vinculada. E j no quero isso. Amanh cortarei esse vnculo.
- O senhor ainda no  casado e no sabe ainda do que est a falar.
Fleur viu os olhos do moo voltarem-se lastimosamente para ela.
- O senhor acha realmente que o casamento... - comeou ele.
- A sociedade est construda sobre o casamento - disse Soames por entre os lbios semicerrados - e sobre as suas consequncias. E o senhor quer acabar com isso?
O jovem Mont fez um gesto distrado. O silncio desceu sobre a mesa de jantar, coberta com talheres de prata que tinham gravado o faiso dos Forsyte, sob a luz elctrica 
que caa de um globo de alabastro. L fora a tarde escurecia  beira do rio, carregada de pesada humidade e doces perfumes.
"Segunda-feira", pensava Fleur. "Segunda-feira!"

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CAPTULO VI - DESESPERO


As semanas que se seguiram  morte do pai foram vazias e muito tristes para o nico Jolyon Forsyte restante. As cerimnias e formalidades necessrias, a leitura 
do testamento, avaliao do inventrio, distribuio dos legados, eram realizadas  sua revelia, pois ele ainda no atingira a idade necessria para as presidir. 
Jolyon foi cremado. Por desejo expresso seu, ningum assistiu  cerimnia, nem se ps luto por ele. A sucesso da sua propriedade, de certo modo controlada ainda 
pelo testamento do velho Jolyon, deixava a viva na posse de Robin Hill, com uma renda vitalcia anual de duas mil e quinhentas libras. Alm disso, os dois testamentos 
reuniam-se para garantir, de um modo mais ou menos complicado, a posse de cada um dos trs filhos de Jolyon, em partes iguais, da herana do av e do pai, no futuro 
e no presente. Reservava-se a Jon, em considerao ao seu sexo, o controle do seu capital, quando ele chegasse  maioridade, enquanto June e Holly receberiam apenas 
o rendimento, de modo que os seus filhos recebessem o capital por morte delas. No caso de no terem filhos, o dinheiro voltaria para Jon, se ele lhes sobrevivesse. 
E, como June j tinha cinquenta anos e Holly quase quarenta, em Lincoln's Inn Field's diziam que, se no fosse a crueldade do imposto sobre a renda,

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Jon chegaria a ser um homem to abastado como o era seu av quando morrera. Isso pouco significava para Jon, e muito menos para sua me. E foi June que fez tudo 
o que era necessrio para o arranjo dos negcios que o pai j deixara perfeitamente em ordem. E quando ela se foi embora e os dois novamente se viram ss na grande 
casa, ss com a morte a reuni-los e o amor a separ-los, Jon passou dias muito penosos, secretamente desapontado consigo. A me olhava para ele com uma paciente 
tristeza, que tinha entretanto em si uma certa dose de orgulho instintivo, como se ela estivesse a reservar-se para a sua defesa. Se ela lhe sorria, ele ficava irritado 
por o seu sorriso, em resposta ao dela, ser to triste e pouco natural. No a julgava nem a condenava. Tudo aquilo era to remoto, e, com efeito, a ideia de a julgar 
nunca lhe ocorrera. E, se se mostrava triste e pouco natural, era porque, por causa dela, no podia ter aquilo que o seu corao pedia.
Eram pois um alvio as inmeras tarefas que tinham de realizar relativamente  carreira artstica do pai, o que no poderia ser confiado a June, embora ela se houvesse 
oferecido para isso. Tanto Jon como a me haviam sentido que, se ela tivesse levado consigo as pastas de desenhos do pai, os trabalhos no exibidos e inacabados, 
aquelas relquias ficariam expostas s frias rajadas de desprezo de Paul Post e outros frequentadores do estdio de Chiswick, rajadas que depressa enregelariam at 
mesmo o ardente corao de June. Na sua maneira antiquada e no seu gnero, a pintura de Jolyon era boa, e eles no podiam suportar a ideia de algum o levar a ridculo. 
Uma exposio especial dos seus trabalhos era a nica homenagem que eles poderiam prestar quele a quem tinham amado, e gastaram muitas horas juntos na preparao 
dela. Jon sentia o seu respeito pelo pai curiosamente engrandecido. A silenciosa tenacidade com que Jolyon convertera um talento medocre em algo realmente individual 
era uma das descobertas que fazia nas suas pesquisas. Havia ali uma grande quantidade de trabalho, com uma continuidade singular no progresso em profundidade e em 
agudeza de observao. Nada,  verdade, seria muito profundo, nem atingia muito alto, mas, tal como era, o trabalho apresentava-se consciencioso e completo.

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E, recordando a absoluta ausncia de pretenso na personalidade do pai, a humildade e a ironia com que ele aludia sempre aos seus prprios esforos, chamando-se 
sempre a si mesmo "um amador", Jon no podia deixar de sentir que nunca o conhecera realmente. O princpio invarivel da vida de Jolyon fora levar-se a si mesmo 
a srio, sem nunca entretanto dar aos outros a impresso de que o fazia. E havia nisso algo que atraa singularmente o rapaz, fazendo aceitar do corao o comentrio 
da me: "Ele tinha um refinamento autntico, no podia impedir-se de pensar nos outros, fizesse o que fizesse. E, quando tomava uma resoluo que ia contra todos, 
fazia-o com um mnimo de desafio. "Muito diferente da poca, no lhe parece? Duas vezes na vida teve de romper com tudo e isso nunca o tornou mais amargo." Jon viu 
que as lgrimas lhe rolavam pelo rosto, e ela afastou-se imediatamente. Guardava tal silncio acerca da perda que sofrera que, s vezes, o filho cogitava intimamente 
se realmente ela a sentira muito. Agora, olhando-a, sentia quo pouco compreendera o poder de reserva e dignidade que havia em seu pai e em sua me. E, correndo 
para ela, rodeou-lhe a cintura com os braos. Ela beijou-o rapidamente, mas com uma espcie de paixo, e saiu da sala. O estdio onde eles trabalhavam, escolhendo 
os desenhos e catalogando-os, fora outrora a sala de aulas de Holly, dedicada aos seus bichos-de-seda, ramos de alfazema seca, msica e outras formas de instruo. 
Agora, no fim de Julho, apesar das janelas que a sala abria para nordeste e leste, um ar quente e sonolento passava atravs das desbotadas cortinas de linho lils. 
Para dar de novo um pouco do esplendor perdido quele compartimento cujo dono o abandonara, Irene pusera sobre a mesa manchada de tinta um vaso de rosas vermelhas. 
As rosas e o gato favorito de Jolyon, que ainda vagueava pelo seu habitat deserto, eram as nicas notas agradveis no desarrumado e triste estdio. Jon, debruado 
 janela do norte, aspirando o ar misteriosamente perfumado de morangos, ouviu um carro que subia a encosta. De novo os advogados, para alguma tolice! Porque o fazia 
sofrer aquele aroma? E donde vinha ele? No havia canteiros de morangos naquele lado da casa. Instintivamente, tirou do bolso um pedao de papel e escreveu algumas 
palavras.

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Um calor espalhou-se-lhe pelo peito e esfregou uma na outra as palmas das mos. J conseguira rabiscar isto:

If I could make a little song
A little song to scothe my heart!
I'd make it all of little things
The plash of water, nul of wings,
The puffing of dandie's arown,
The hiss of raindrop spilling down,
The purr of a cat, the trill of a bird!
And every whispering I've heard,
From wiHy wind I leaves and grass,
And all the distant drones that ipass,
A song as tender and as ilight
As flower or butterfly in flight,
And whem'saw it opening,
I'd let it fly and sing! (1)

E estava ainda  janela, murmurando a sua cantiga para si mesmo, quando ouviu algum cham-lo pelo nome, e, voltando-se, viu Fleur. Ante aquela espantosa apario, 
ele, a princpio, no fez nenhum movimento, no emitiu nenhum som,

*1. Se eu pudesse fazer uma cantiga
Uma cantiga que me acalmasse o corao!
Haveria de faz-la de coisas pequeninas
Um pingo de gua, um roar de asa,
O desabrochar de uma corola,
O suave cair de uma gota de chuva,
Um ronronar de gato, o trinado de um pssaro!
E cada murmrio que eu ouvisse
Do vento, agitando as folhas e a relva,
E os zanges que passam ao longe, zumbindo.
Uma cantiga to terna e to leve
Como uma flor ou uma borboleta em voo.
E quando a visse desdobrada,
Deix-la-ia partir, voando e cantando!

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enquanto o claro e vivo olhar dela lhe arrebatava o corao. At que finalmente caminhou at  mesa, dizendo:
- Como foi gentil em vir!
E viu-a dobrar-se, como se ele lhe houvesse atirado alguma coisa.
- Perguntei por si - disse ela -, e mandaram-me para aqui. Mas posso ir-me embora j.
Jon agarrou-se  mesa manchada de tintas. O rosto da moa, o vulto envolvido no vestido leve, gravara-se com tal intensidade nos olhos dele que, mesmo se mergulhasse 
subitamente no soalho, ainda a veria.
- Sei que lhe disse uma mentira, jon. Mas disse-a por amor.
- Oh, sim, sim! Isso no tem importncia!
- No respondi  sua carta. Que adiantava... no havia nada a responder. Preferi, em lugar disso, v-lo em pessoa.
E ela estendeu-lhe ambas as mos, que ele agarrou por sobre a mesa. Procurou dizer alguma coisa, mas toda a sua ateno estava concentrada no cuidado de no magoar 
as mos da pequena. As suas eram to duras, as dela to macias.
E Fleur disse, quase num desafio:
- Essa velha histria...  assim to terrvel?
- Sim. - E na voz dele havia tambm uma nota de desafio. Ela retirou as mos.
- Eu no sabia que nos tempos de hoje os rapazes ainda viviam agarrados s saias das mes. - O queixo de Jon ergueu-se, como se lhe houvessem batido. - Oh, no quis 
dizer isso, Jon, Que coisa horrvel de se dizer! - E vivamente aproximou-se dele. - Jon, querido, eu no quis dizer o que voc pensa.
- Est bem.
Ela pusera as mos nos ombros dele e encostara  testa do rapaz a sua. Os cabelos de Fleur tocavam o pescoo do rapaz, e isso fazia-o estremecer. Mas, numa espcie 
de paralisia, ele no lhe deu qualquer resposta. Ela soltou-lhe os ombros e afastou-se.
- Bem, vou-me embora, j que no quer saber de mim. Mas nunca pensei que voc me deixasse.

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- No a deixei! - exclamou Jon, voltando subitamente  vida. - No posso! Vou tentar ainda.
Os olhos da moa luziram, e ela inclinou-se de novo sobre ele.
- Jon... eu gosto de si. No me abandone! Se me deixar... no sei... estou to desesperada! Que significa todo esse passado, comparado com isto?
E agarrava-se a ele. Ele beijou-lhe os olhos, as faces, os lbios, mas enquanto a beijava revia as folhas da carta cadas no cho, no seu quarto de dormir, a face 
morta do pai, a me ajoelhada diante dele.
- Convena-a! Prometa-me! Oh, Jon, experimente! - murmurou Fleur.
E aquilo pareceu-lhe infantil. Sentia-se curiosamente velha.
- Prometo! - murmurou ele. - Apenas... voc no compreende.
- Ela quer estragar as nossas vidas s porque!
- Sim? Porqu?
Outra vez aquela ameaa na voz dele, e ela no respondeu. Os braos de Fleur novamente o apertaram, e Jon retribua-lhe os beijos, mas, mesmo quando se rendia, o 
veneno trabalhava dentro dele, o veneno da carta. Fleur no sabia, no compreendia - ela julgava mal sua me, ela vinha do campo inimigo! To adorvel! Amava-a tanto, 
mas, ao receber-lhe o abrao, no podia fugir  lembrana das palavras de Holly: "Acho que ela tem uma natureza avassaladora de mais"-e s de sua me: "Meu filho 
querido, no pense em mim, pense em si!"
Quando ela desapareceu, como um sonho apaixonado, deixando a sua imagem nos olhos dele, nos lbios os seus beijos e uma dor to funda no corao, Jon debruou-se 
na janela, escutando o rudo do carro que a levava. E de novo sentia o cheiro quente dos morangos, de novo os murmrios do Vero com os quais queria fazer a sua 
cano, de novo todas as promessas de juventude e felicidade naquele brilhante e mutvel alvoroado ms de Julho - e o seu corao despedaava-se, os desejos aumentavam 
dentro dele, a esperana crescia, embora com os olhos baixos, como envergonhada. Que desgraada tarefa via diante de si! Se Fleur estava desesperada, tambm ele 
o estava

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- olhando para o movimento das folhas do lamo, as nuvens brancas que passavam, a luz do sol sobre o mato rasteiro,
Esperou durante toda a tarde, at depois do jantar, passado quase em silncio - at que sua me tocasse para ele -, e depois ainda esperou, sentindo que ela sabia 
do que ele estava  espera para dizer. A me beijou-o e subiu para o quarto, e ele demorou-se a olhar a Lua, as mariposas e a irrealidade do colorido de que se vestem 
as noites de Vero. Daria muito para poder voltar ao passado - apenas trs meses atrs -, ou ento para avanar de sbito muitos anos pelo futuro dentro. O presente, 
com a sombria e cruel exigncia de uma deciso - para um lado ou para outro -, parecia-lhe impossvel. E agora ele compreendia muito mais claramente o que a me 
sentia do que o compreendera a princpio: era como se a histria contada na carta possusse um venenoso germe que gerava uma espcie de febre de partidarismo de 
forma que ele realmente sentia que existiam dois campos - o de sua me e o seu, o de Fleur e o do pai. Talvez aquela velha intriga fosse uma velha histria, mas 
as velhas histrias guardam o seu veneno at que o tempo as liquide. E at o seu amor, sentia-o manchado, menos rico de iluses, mais terrestre, infiltrando-se nele 
a traioeira dvida de que Fleur, igual ao pai, tambm o quisesse possuir. Dvida no articulada, que se insinuava, horrivelmente perversa, pelo ardor das suas recordaes, 
e tocava com o seu hlito malfico a limpidez e a graa daquele rosto, daquele corpo - uma dvida que no era bastante real para o convencer da sua presena, mas 
que era real bastante para desflorar a sua f perfeita. E para Jon, que ainda no fizera vinte anos, uma f perfeita era essencial. Ele ainda dispunha do ardor da 
mocidade, que tem duas mos para oferecer e nada tem para tomar, que d tudo. amorosamente, a outrem, a algum que partilhe da sua mesma generosidade impulsiva.
Decerto ela a partilhava! Ergueu-se do banco da janela e ps-se a vaguear pela grande sala fantasmal, cujas paredes eram revestidas de um forro prateado. Aquela 
casa - como o dissera seu pai na carta escrita  beira da morte - fora feita para que nela vivesse sua me... com o pai de Fleur! E ele estendeu a mo na semiobscuridade, 
como para segurar a sombria mo do morto.

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E cerrou-a, procurando sentir os magros e evanescentes dedos do morto. Queria apert-los, garantir-lhe que ele estava do lado de seu pai. As lgrimas, prisioneiras 
dentro dele, tornavam-lhe os olhos secos e quentes. Voltou  janela. Estava mais quente, menos ferico, mais consolador, l fora, com uma grande Lua no alto, uma 
Lua que dentro de trs dias seria cheia. E a liberdade da noite era consoladora. Se ele e Fleur se houvessem encontrado numa ilha deserta, sem passado, com a Natureza 
a servir-lhes de lar! Jon ainda tinha esse anelo por ilhas desertas, onde cresce a rvore do po, onde as rvores so azuis sobre os recifes de coral. A noite era 
profunda, livre, tentadora. Trazia em si uma seduo, uma promessa, um refgio contra os obstculos - e amor! Menino maricas, agarrado s saias da me! As faces 
dele ardiam. Fechou a janela, cerrou as cortinas, apagou a luz e subiu a escada. A porta do seu quarto mantinha-se aberta, a luz baixa. A me, ainda com o vestido 
de jantar, estava em p  janela. Voltou-se e disse:
- Sente-se, Jon, vamos conversar. - Sentou-se no banco junto  janela, Jon na cama. Estava virada de perfil para o filho, e a beleza e a graa da sua figura, a linha 
delicada da testa, do nariz, do pescoo, aquele estranho e como que remoto refinamento dela, comoviam-no. Sua me nunca pertencia ao que a rodeava. Chegava, vinda 
sempre de outra parte, de outro lugar... pelo menos dava sempre essa impresso! Que iria dizer-lhe, a ele que trazia no corao tantas coisas para dizer a ela? - 
Sei que Fleur esteve aqui hoje. No me surpreendi. - Era como se ela houvesse acrescentado: " filha do pai!" E o corao de Jon magoou-se. Irene continuou serenamente: 
- Guardei a carta de seu pai. Apanhei-a aqui, naquela noite, e tenho-a comigo. Quer que a devolva, querido? - Jon abanou a cabea. - Evidentemente que a li, antes 
que ele a entregasse a si. E ele no faz justia ao meu criminoso procedimento.
- Mam! - rompeu dos lbios de Jon.
- Ele apresentou tudo muito suavemente, mas eu sei que, casando sem amor com o pai de Fleur, cometi um mal terrvel. Um casamento infeliz pode estragar a vida de 
muitas outras pessoas, alm da nossa. Voc ainda  assustadoramente jovem, meu querido,

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e assustadoramente afectivo. Acha que pode ser feliz com essa moa?
Fitando os olhos escuros dela, mais escuros ainda com a mgoa que os afogava, Jon respondeu:
- Oh, sim... se a mam tambm pudesse ser feliz. Irene sorriu.
- Admirao pela beleza e desejo de posse no so amor. Se vocs forem um caso igual ao meu... as coisas mais profundas sufocadas, os corpos unidos, mas os espritos 
em luta!
- Porque seria assim, mam? Pensa que ela  igual ao pai, mas no o . J o verifiquei.
Novamente o sorriso voltou aos lbios de Irene e qualquer coisa se afundou dentro de Jon tal era a ironia e a experincia daquele sorriso.
- Voc  dos que do tudo, Jon, ela  dos que tomam tudo. Aquela mesquinha dvida, aquela terrfica incerteza de novo!
E ele disse com veemncia:
- Ela no  assim... no  assim. E apenas porque eu no posso suportar v-la infeliz, mam, agora que o pap... -E encostou os punhos  testa.
Irene ergueu-se.
- Eu j lhe disse, meu filho, no se preocupe comigo. Fao questo disso. Pense em si e na sua prpria felicidade. Eu poderei suportar... j abafei tudo dentro de 
mim.
E novamente a exclamao "Mam!" rompeu por entre os lbios de Jon.
Ela aproximou-se do filho, ps as mos sobre ele.
- Di-lhe a cabea, querido? - Jon fez sinal que sim. O que sentia era no peito... uma espcie de dilaceramento dividindo-o entre aqueles dois afectos. - Sempre 
hei-de gostar de si da mesma maneira. Jon, faa voc o que fizer. Voc no perder nada.
Acariciou-lhe gentilmente os cabelos e saiu do quarto.
Ele ouviu a porta fechar-se e, rolando para a cama, ficou estirado sobre ela, sufocando a respirao, com um terrvel sentimento de paralisia dentro de si.

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CAPTULO VII - EMBAIXADA


Perguntando pela filha,  hora do ch, Soames soube que ela sara no carro s duas. Trs horas de ausncia! Onde teria ido? Para Londres, sem lhe dizer uma palavra? 
Ele nunca se habituara inteiramente a automveis. Aceitara-os em princpio - como emprico de nascena, Forsyte que era -, aceitando todos os sintomas do progresso, 
 medida que apareciam, com este comentrio: "Bem, agora j no poderamos passar sem eles." Porm, na verdade, considerava-os uma coisa perigosa, grande, malcheirosa. 
Obrigado por Annette a comprar um - um Rolhar, com almofadas cinzento-prola, luz elctrica, pequenos espelhos, cinzeiros, vaso de flores -, olhava-o de modo muito 
semelhante ao que olhava para o cunhado, o falecido Montague Dartie. Aquilo sintetizava tudo que havia de rpido, inseguro e subcutaneamente oleado na vida moderna. 
E quanto mais a vida moderna se ia tornando apressada, descuidada, jovem, mais Soames ia ficando velho, lento, magro, acentuando a sua semelhana - em linguagem 
e sentimentos - com o velho James. Velocidade e progresso cada dia lhe agradavam menos, e, alm disso, no uso de um carro de luxo havia uma ostentao que ele considerava 
provocadora dos sentimentos prevalecentes dos trabalhistas. Numa certa ocasio, um seu colega, Sims, atropelara a propriedade nica de um trabalhador: um co.

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Soames numca esquecera o procedimento do dono do animal enquanto algumas pessoas no interferiram para liquidar o caso. Ele sentira pena do co. e estava pronto 
a tomar partido contra o motorista se a atitude daquele rufio no fosse to insolente.
Quatro horas depressa se transformaram em cinco, e ainda nada de Fleur! E todos os seus velhos receios sobre automveis, que ele experimentara em pessoa e acerca 
dos seus, voltaram a possu-lo, enquanto uma sensao de vertigem lhe saa da boca do estmago. s sete horas fez um telefonema interurbano para Winifred. No! Fleur 
no estivera em Green Street. Ento onde estaria ela? E comearam a assombr-lo vises de sua linda filha atirada ao cho, com os seus vestidinhos leves, toda manchada 
de sangue e poeira nalguma horrenda catstrofe. Foi at ao quarto dela, procurou entre os seus objectos. Ela no levara nada - nem malas, nem jias. E aquilo, se 
o aliviava num certo sentido, aumentava o seu medo de um acidente. Era terrvel sentir-se impotente quando a nica coisa que amava estava talvez perdida, especialmente 
tratando-se de quem, como ele, no podia suportar nenhum desses espectculos de publicidade! Que faria se ela no estivesse ainda de volta ao cair da noite?
Quando faltava um quarto para as oito, ouviu um carro. Um grande peso saiu-lhe do corao e correu para baixo. Ela descia, plida e cansada, mas sem nada de anormal. 
Encontrou-a no hall.
- Voc assustou-me. Onde esteve?
- Fui a Robin Hill. Sinto muito, querido. Tinha de ir. Depois falo-lhe sobre isso. - E, atirando-lhe um beijo, subiu para o quarto.
Soames esperou-a na sala de estar. A Robin Hill! Que agouraria aquilo?
No era um assunto que eles pudessem discutir ao jantar - consagrado s susceptibilidades do mordomo. A aflio por que os nervos de Soames haviam passado, o alvio 
que sentira ao v-la a salvo, diminuam a sua capacidade de condenar o que ela fizera ou de resistir ao que ela pretendia fazer. E, num torpor covarde, esperava 
pela revelao. A vida  um negcio estranho. Ali estava ele. aos sessenta e cinco anos de idade, inteiramente  merc de certas coisas, como se no houvesse gasto 
quarenta anos de vida a construir a sua segurana!

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 impossvel um homem garantir-se definitivamente!
Trazia no bolso uma carta de Anmette. Ela deveria voltar dentro de quinze dias, e ele nada sabia acerca do que a mulher estaria a fazer por l. E sentia-se satisfeito 
por o ignorar. A ausncia dela fora um alvio. Fora da vista, estava tambm fora das suas preocupaes. E agora ia voltar. Novos aborrecimentos. Alm disso, perdera 
o Crome de Bolderby - Dumetrius apanhara-o - s porque aquela carta annima o desviara dos seus cuidados normais. Notava furtivamente o ar tenso do rosto da filha, 
como se ela tambm estivesse a olhar para um quadro que no podia adquirir. Quase chegava a desejar que a guerra recomeasse. As preocupaes, ento, no tinham 
a mesma importncia de agora. Pela carcia que sentia na voz de Fleur, pela expresso do seu rosto, ficou certo de que ela queria pedir-lhe alguma coisa, incerto 
entretanto se poderia dar-lhe o que ela desejava. Empurrou, sem lhe tocar, a sobremesa, e acompanhou mesmo a filha num cigarro.
Depois do jantar, Fleur ligou a pianola elctrica, e ele augurou o pior quando ela se sentou aos seus ps numa almofada e lhe ps as mos nos joelhos.
- Pap, seja bonzinho comigo. Eu tinha de ir ver Jon. . ele escrevera-me. Vai tentar tudo o que puder junto da me. Mas eu estive a pensar. Na verdade, est tudo 
nas suas mos, pap. Se a persuadisse de que no se trata de modo algum de reatar o passado! Que eu continuarei a ser sua e Jon continuar a ser dela. que o pap 
nunca procurar ver nem a ele, nem a ela, nem ela nunca precisar de o ver a si ou a mim! S voc pode persuadi-la, querido, porque s voc pode prometer. Ningum 
pode prometer pelos outros. E espero que, agora que o pai de Jon est morto, no ser to penoso para si voltar a v-la unicamente por esta vez!
- Penoso? - repetiu Soames. - Mas tudo isso  absurdo.
- Sabe muito bem - continuou Fleur sem levantar os olhos - que no o incomodar muito v-la.
Soames guardou silncio. As palavras da filha haviam exprimido uma verdade por de mais profunda para que ele a admitisse.

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E ela enfiou por entre os dedos dele os seus dedos, tpidos, macios, vivos, apertando-os. Aquela sua filha era capaz de abrir caminho atravs mesmo de uma muralha!
- Que ser de mim se recusar, pap? - disse ela meigamente.
- Eu sou capaz de fazer qualquer coisa pela sua felicidade - disse Soames. - Mas isso no ser para sua felicidade.
- Oh, , !
- Eu iria apenas tornar as coisas mais tensas - disse ele amargamente.
- Mas elas j esto tensas de mais. E o que  preciso  acalm-los. Faz-la compreender que se trata das nossas vidas, o que no tem nada que ver com a sua ou a 
dela. Pode fazer isso, pap! Sei que pode.
- Voc ento sabe muito - foi a resposta irritada de Soames.
- Se quiser, Jon e eu esperaremos um ano... dois anos, at.
- Segundo me parece - murmurou Soames -, voc no se preocupa nada com o que eu sinto.
Fleur apertou a mo dele contra a face.
- Preocupo-me, querido. Mas voc no gostar de me ver horrivelmente infeliz.
Como ela sabia manobrar para atingir os seus fins! E, por mais esforos que fizesse para acreditar que ela realmente se preocupava com ele, no podia ter a certeza 
- no tinha a certeza.
Ela s se preocupava com o rapaz! E porque a ajudaria ele a obter o tal rapaz que estava a matar a afeio que ela lhe tinha? Porque o faria? Segundo a lei dos Forsyte, 
aquilo era Uma loucura! Nada se conseguiria com aquilo - nada! Entreg-la quele rapaz! Pass-la para o campo inimigo, p-la sob a influncia da mulher que to profundamente 
o ferira! Lentamente, inevitavelmente, ele acabaria por perder a flor da sua vida! E subitamente percebeu que a sua mo estava molhada. O corao deu-lhe um salto 
penoso. No podia suportar v-la chorar. Ps vivamente a sua outra mo sobre a dela. e uma lgrima tambm caiu sobre essa mo. No podia continuar assim!

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- Bem, bem - disse ele. - Vou pensar nisso e fazer o que puder. Vamos, vamos!
.Se ela precisava daquilo para a sua felicidade, estava bem, ele no podia recusar-se a ajud-la. E, receoso de que ela comeasse a agradecer-lhe, levantou-se da 
cadeira e foi para junto da pianola - que fazia um barulho ensurdecedor! Mas o barulho diminuiu quando ele se aproximou. A caixa de msica dos seus tempos de menino, 
tocando O Ferreiro Harmonioso ou O Glorioso Torto, sempre o deixava infeliz quando a me a punha a tocar nas tardes de sbado. C estava ela de novo, a mesma coisa, 
apenas maior e mais cara, e tocando agora  loucas Mulheres - e hoje ele, Soames, j no vestia um fatinho de veludo preto com a gola branca. "Profond tem razo", 
pensou. "No h nada nisso tudo. Todos ns caminhamos para o tmulo!" E com esse surpreendente comentrio mental saiu da sala.
No voltou a ver Fleur naquela noite, mas ao pequeno-almoo do dia seguinte os olhos dela seguiram-no com um apelo a que ele no podia fugir - e que nem sequer lhe 
ocorreu tentar. No! Ele j preparara o esprito para aquele enervante assunto. Iria a Robin Hill - quela casa de lembranas. Agradvel lembrana - a ltima! Fora 
l para separar Irene e o pai daquele rapaz servindo-se de uma ameaa de divrcio. E desde ento muitas vezes pensara que fora aquilo que firmara a unio deles. 
E agora ia l para assegurar a unio do filho deles com a sua filha. "No sei o que fiz", pensava ele. "para ter tais coisas sobre os ombros!" Fez os dois percursos 
de comboio, e, ao sair da estao, caminhou pelo longo campo marginal, ainda muito semelhante ao que era trinta anos atrs. Engraado - to perto de Londres! Algum, 
evidentemente, estava a pretender fazer o loteamento das terras. E aquela especulao aliviou-o enquanto caminhava lentamente por entre as altas sebes, para no 
se cansar, apesar de o dia estar bastante frio. Depois de tudo que fora dito e feito, havia algo de real na terra, algo imutvel. Terra e bons quadros! Os valores 
podiam flutuar um pouco, mas, em conjunto, estavam sempre a subir - aquisio segura num mundo em que tudo era um monto de irrealidade, construes baratas, modas 
mutveis, tudo dentro de um esprito que se traduzia por "hoje aqui, amanh alm".

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Os Franceses tinham razo, talvez, com o seu amor  propriedade camponesa, embora ele no tivesse boa opinio dos Franceses. Um pedao de terra! Havia algo slido 
nisso! Ouvira descrever os proprietrios de terras como um bando de cabeudos, ouvira o jovem Mont chamar ao pai "leitor cabeudo do Morning Post" - jovem demnio 
irreverente que ele era. Bem, havia coisas piores do que ser cabeudo e ler o Morning Post. Havia Profond e a sua tribo, e todos esses trabalhistas, os polticos 
berradores e as "loucas, loucas mulheres". Uma poro de coisas piores! E subitamente Soames teve a conscincia de que estava fraco, com calor e abatido. Pssimos 
nervos para a entrevista que tinha defronte de si! Como diria a tia Ann, repetindo as palavras do "Superior Dosset", "tinha os nervos esticados como cordas". J 
podia ver a casa entre as rvores, a casa a cuja construo ele assistira, preparando-a para si e para aquela mulher, que, graas a um destino estranho, fora afinal 
viver para l com outro! E ps-se a pensar em Dumetrius, em emprstimos locais e noutras formas de emprego de capital. No podia tolerar a ideia de a encontrar com 
os seus nervos em tal estado - ele que, na Terra, representava para ela o Juzo Final, tal como devia existir no Cu, ele, a personificao do proprietrio legtimo, 
encontrando a encarnao da beleza sem lei. A sua dignidade exigia impassibilidade durante aquela embaixada destinada a vincular os filhos de ambos, os quais, se 
ela no houvesse prevaricado, seriam irmo e irm. Aquele lamentoso estribilho " loucas, loucas mulheres" zumbia-lhe permanentemente na cabea, naquela cabea onde 
por regra nunca zumbia um estribilho. Passando pelos lamos em frente da casa, pensou: "Como cresceram! Fui eu que os plantei!"
Uma criada atendeu ao toque da campainha.
- Diga que ... Mr. Forsyte... para tratar de um assunto muito importante.
Se ela desconfiasse de que era ele, provavelmente no o receberia.
"Coa breca", pensou ele, " um caso completamente de pernas para o ar!"
Entretanto a criada voltara perguntando se o cavalheiro poderia explicar qual o assunto que desejava tratar.

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- Diga que  a respeito de Mr. Jon - disse Soames.
E mais uma vez estava s naquele hall, com o seu tanque de mrmore branco, desenhado pelo primeiro amante dela. Ah! Ela fora bem m - amara dois homens, e no a 
ele. Lembrar-se-ia disso, mais uma vez, quando estivesse a encar-la. E subitamente viu-a na fenda que se abria atravs das longas e pesadas cortinas de prpura, 
deslizando, como hesitante - a mesma perfeita pose de antigamente, a mesma linha, o antigo olhar escuro e grave, a mesma voz calma e defensiva de outrora.
- Quer entrar, por favor?
Ele passou pela cortina que ela sustinha. Como na galeria de pintura e na confeitaria., ela ainda lhe parecia bela. E aquela era a primeira vez, a primeira, na verdade, 
desde que a desposara, h trinta e sete anos, em que ele lhe falava sem o direito legal de lha chamar sua. No estava vestida de preto - decerto uma das ideias revolucionrias 
do marido.
- Tenho de pedir desculpa por ter vindo aqui - disse ele severamente -, mas este assunto tinha de ser resolvido de uma maneira ou de outra.
- Quer sentar-se?
- No, obrigado.
A clera pela sua posio falsa e a impacincia pela cerimnia que havia entre ambos dominavam-no. e a voz de Soames ergueu-se, surda:
- Foi uma infelicidade infernal. Fiz tudo o que pude para impedir isto. Considero minha filha louca, mas adquiri o hbito de condescender sempre com ela. Eis porque 
estou aqui. Suponho que voc gosta muito do seu filho.
- Imensamente.
- E ento?
- Isso  com ele.
Soames teve a impresso de estar a ser burlado. Sempre, sempre ela troara dele, mesmo nos longnquos primeiros dias do seu casamento.
-  uma noo errnea - disse ele.
- Se voc tivesse apenas... Bem. . eles podiam ter sido


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- E Soames no acabou a frase: "irmo e irm, e tudo estaria salvo". Mas viu-a encolher os ombros como se ele houvesse articulado o seu pensamento. E, aguilhoado 
por isso, encaminhou-se at  janela. Ali, as rvores no haviam crescido... no podiam, eram velhas de mais! - Tanto quanto depender de mim - disse ele-, voc pode 
ficar despreocupada. No desejo v-la a si, nem ao seu filho, se esse casamento se realizar. Os jovens, nos dias de hoje, so... so inexplicveis. Mas no posso 
suportar a ideia de ver a minha filha infeliz. Que devo dizer a Fleur, quando voltar?
- Diga-lhe, por favor, isso que eu lhe disse: a deciso cabe a Jon.
- Voc ento no se ope?
- Com todo o meu corao, mas no com os meus lbios. Soames ficou de p, mordendo a unha.
- Lembro-me de uma tarde - disse ele subitamente. E ficou silencioso depois. Que  que havia... que  que havia naquela mulher que no cabia nos quatro cantos do 
seu dio ou da sua condenao? E prosseguiu: - Onde est ele... o seu filho?
- Creio que est l em cima, no estdio do pai.
- Talvez pudesse mand-lo chamar.
Viu-a tocar a campainha, viu a criada chegar.
- Diga a Mr. Jon que estou a cham-lo.
- Se a deciso cabe a ele - disse apressadamente Soames, quando a criada saiu -, quero crer que posso considerar certo que esse casamento antinatural se realizar. 
E, nesse caso, tudo o mais sero formalidades. Com quem devo tratar... com Herring?
Irene fez sinal que sim.
- Voc no pretende viver com eles? Irene abanou a cabea.
- E esta casa?
- Ser o que Jon decidir.
- Esta casa - disse Soames de repente. - Eu tinha esperanas quando a comecei. Se eles viverem aqui... os filhos deles. Dizem que h uma entidade chamada Nmesis. 
Acredita nela?
- Sim.
- Oh! Acredita!
Ele deixara a janela e estava junto de Irene, que,

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encostada  curva do seu piano de cauda, parecia como que entrincheirada.
- Provavelmente nunca mais a verei - disse ele lentamente. - Quer apertar-me a mo - os lbios dele tremiam, as palavras saam aos repeles - e deixar que o passado 
fique morto? - E estendeu a mo.
O rosto plido de Irene ficou mais plido, os olhos, to escuros, demoraram-se imveis nos dele, e as mos continuaram crispadas na saia. Ele ouviu um som e voltou-se. 
O rapaz estava de p na abertura das cortinas. Parecia muito esquisito, difcil de reconhecer como o mesmo rapaz que ele vira na galeria de Cork Street - muito esquisito: 
muito mais velho, sem nenhuma mocidade no rosto, desvairado, rgido, os cabelos revoltos, os olhos profundamente enterrados nas rbitas. Soames fez um esforo e 
disse com um retorcer de lbios que no era nem um sorriso nem uma careta:
- Bem! Vim aqui por causa de minha filha. Parece que a deciso cabe a si. Sua me entrega tudo nas suas mos. - O rapaz continuava a olhar para o rosto da me. e 
no respondeu. - Por amor de minha filha, consenti em vir aqui - continuou Soames. - Que devo dizer-lhe quando voltar?
Olhando ainda para a me, o rapaz disse calmamente:
- Diga a Fleur que  impossvel. Tenho de obedecer  vontade expressa por meu pai antes de morrer.
- Jon!
- Est tudo bem, mam.
Presa de uma espcie de estupefaco, Soames olhava de um para outro. Ento, agarrando o chapu e o guarda-chuva que depusera numa cadeira, caminhou para as cortinas. 
O rapaz ergueu-as para lhe dar passagem. Soames atravessou-as e ouviu o ranger das argolas quando as cortinas novamente se fecharam. O som libertou qualquer coisa 
no seu peito.
"Ento  assim!", pensou ele, atravessando a porta de entrada da casa.

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CAPTULO VIII - A CANTIGA SOMBRIA


Enquanto Soames caminhava, de volta da casa de Robin Hill, o sol atravessara, numa irradiao enevoada, a cinzenta frieza da tarde. Tanto o absorviam as paisagens 
em pintura que raramente olhava a srio para os efeitos da Natureza fora de casa, mas impressionou-o aquela sinistra refulgncia, que era como uma celebrao sombria, 
de acordo com os seus prprios sentimentos.
Vitria na derrota. A sua embaixada fora negativa, mas desembaraara-se daquela gente e recuperara a filha, embora  custa da felicidade dela. Que iria dizer-lhe 
Fleur? Acreditaria que ele fizera tudo o que pudera? E, sob o sol que brilhava sobre os ulmeiros, as aveleiras, os azevinhos e os campos incultos, Soames sentia 
receio. Ela ficaria terrivelmente abalada! Tinha de apelar para o seu orgulho. O rapaz abandonara-a. Declarara-se abertamente ao lado daquela mulher que, tantos 
anos atrs, igualmente abandonara o pai - o pai dela, Fleur. Soames crispou as mos. Abandonara-o, porqu? Que havia de errado nele? E mais uma vez sentiu a impresso 
caracterstica daqueles que se contemplam a si mesmos atravs dos olhos de outrem, tal como um co que olha o seu reflexo no espelho e se sente intrigado e inquieto 
ante aquela coisa inacessvel.
Sem pressa de chegar a casa, jantou na cidade, no Connoisseurs.

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Enquanto comia uma pra, ocorreu-lhe subitamente que, se no houvesse ido a Robin Hill, talvez o rapaz no tivesse tomado aquela deciso. Lembrava-se da expresso 
do rosto de Jon quando viu a me recusar-se a apertar a mo que Soames lhe estendia. Que estranho, que perturbador pensamento! Teria Fleur estragado os seus projectos 
por excessivo cuidado em garantir-lhes a segurana?
Chegou a casa s nove e meia. Quando o carro passava por um dos portes, ouviu o rudo de uma motocicleta passando pelo outro.
Era decerto o jovem Mont. De forma que Fleur no ficara sozinha. No entanto entrou em casa com o corao assustado. Na sala de estar, pintada de creme, ela estava 
sentada, com os cotovelos nos joelhos, o queixo entre as mos crispadas, defronte de um p de camlias brancas que ocupava o lugar do fogo, na lareira. E aquele 
olhar  filha, antes que ela o visse, aumentou-lhe o receio. Que estava ela a ver por entre aquelas camlias brancas?
- E ento, pap?
Soames abanou a cabea e as palavras faltaram-lhe. Era uma tarefa assassina! Viu os olhos dela dilatarem-se, os lbios tremerem,.
- Que foi? Que foi? Depressa, pap!
- Minha querida - disse Soames -, fiz o que pude. - E novamente abanou a cabea.
Fleur correu para ele e ps uma das mos em cada um dos seus ombros.
- Ela?
- No - murmurou Soames. - Ele. Eu tinha-lhe dito que no adiantava. Ele tem de cumprir a vontade expressa pelo pai antes de morrer. - E segurou os pulsos da filha. 
- Venha, queridinha, no consinta que essa gente a faa sofrer. No valem o seu dedo-mnimo.
Fleur libertou-se das mos dele.
- Voc no fez... voc no deve ter tentado... Voc... voc traiu-me, pap! - Amargamente ferido, Soames olhou para a apaixonada figura que se contorcia na sua frente. 
- Voc no tentou... fui uma louca... no acredito que ele tenha podido... ele nunca poderia! Ainda ontem ele... Oh! Para que lhe pedi eu isso?

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- Sim - disse calmamente Soames -, para que me pediu? Calquei os meus sentimentos, fiz o que pude por si, contra o meu prprio juzo... e a est a minha recompensa. 
Boa noite!
E, com cada nervo do corpo tenso a ponto de rebentar, caminhou para a porta.
Fleur correu atrs dele.
- Ele desprezou-me? Quis dizer isso? Pap!
Soames voltou-se e obrigou-se a si mesmo a responder:
- Sim.
- Oh! - gritou Fleur. - Que ter voc... que ter voc feito nesse passado?
O sufocante sentimento de uma injustia realmente monstruosa cortou a palavra na garganta de Soames. Que tinha ele feito! Que lhe haviam eles feito! E, com uma dignidade 
inconsciente, ps a mo no peito e olhou para a filha.
-  uma vergonha! - exclamou apaixonadamente Fleur. Soames saiu, subindo  sua galeria de pintura, lento e gelado,
para se acalmar entre os seus tesouros.
Era atroz, atroz! Ela fora amimada de mais! E quem a estragara assim? Soames parou diante da cpia de Goya. Habituada a fazer a sua vontade em tudo. A flor da sua 
vida! E agora, que no podia obter o que queria... Dirigiu-se  janela, para respirar um pouco de ar fresco. A luz do dia ia desaparecendo, a Lua subia, dourada, 
por entre os choupos. Que som era aquele? A pianola! Uma msica sombria, surda e palpitante. Ela pusera-a a tocar - que consolao poderia receber daquilo? Os seus 
olhos viram um movimento l em baixo no campo, sob os ramos das rosas trepadeiras e das jovens accias, onde o luar caa. Fleur estava ali, caminhando para trs 
e para diante. O corao deu-lhe um pequeno salto doloroso. Que faria ela, sob aquele golpe? Que poderia ele dizer-lhe? Que sabia ele dela? Apenas a amara desde 
o dia em que nascera, considerara-a a menina dos seus olhos! No sabia nada... no descobria nada. L estava ela, e aquela msica sombria e a margem do rio brilhando 
sob o luar!
"Devo ir l para fora", pensou ele.
Atravessou apressadamente a sala de estar, iluminada tal como a deixara antes,

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com a pianola a moer a valsa, ou fox-trot, ou o que quer que lhe chamavam, e passou para a varanda.
Onde poderia vigi-la sem que ela o visse? E passou furtivamente atravs do pomar at  casa dos barcos. Estava agora entre ela e a margem do rio, e o seu corao 
sentiu-se mais aliviado. Fleur era filha dele e de Annette... no iria cometer nenhuma loucura, mas diante daquilo - ele no sabia! Da janela da casa dos barcos 
podia ver a ltima accia e a saia dela, quando ela dava a volta na sua caminhada incessante. A msica acabara por fim - graas a Deus! Soames atravessou a sala 
em que estava e foi olhar, atravs da janela que dava para o rio, para a gua que flua lentamente por entre os lrios aquticos. Borbulhava um pouco em torno deles, 
brilhante quando um raio do luar a banhava. Soames lembrou-se subitamente daquela madrugada que passara na casa dos barcos, na noite em que seu pai morrera, exactamente 
aps o nascimento de Fleur - dezanove anos atrs! E at mesmo agora ele recordava o estranho mundo em que despertara, o estranho sentimento que o possura ento. 
Naquele dia comeara a segunda paixo da sua vida - por aquela filha que passeava febrilmente sob as accias. Que consolao ela representara paira o pai! E toda 
a mgoa e sentimento de ultraje o abandonaram. Se ainda pudesse faz-la feliz, no se importava com coisa alguma! Um mocho passou por ele, perseguindo um morcego, 
enquanto a luz do luar iluminava e ampliava a gua. Quanto tempo levaria ainda ela a andar daquela maneira? Ento voltou  janela, e de repente viu-a a caminhar 
em direco ao rio, ficando em p no desembarcadouro. E Soames vigiava-a, crispando as mos. Deveria falar-lhe? A sua excitao era intensa. A imobilidade do vulto 
da rapariga, a sua juventude, a sua absoro no desespero, na saudade. Sempre recordaria aquilo - aquele luar, o doce rumor da gua do rio, o tremular das folhas 
dos salgueiros. Tudo que podia dar-lhe, ela possuao - excepto uma nica coisa,que ela no podia possuir exactamente por causa dele! A perversidade daquilo magoouo 
naquele momento, como o magoaria uma espinha na garganta.
Ento, com infinito alvio, viu-a regressar para casa. Que poderia oferecer-lhe como compensao? Prolas, viagens, cavalos,

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outro rapaz... tudo que ela quisesse, tudo que o fizesse esquecer o vulto da moa sozinha junto do rio! L se pusera ela de novo a tocar aquela msica! Porqu? Era 
uma obsesso! Sombria, surda, desfalecente, invadindo a casa toda. Era como se ela dissesse: "Se no tiver algo que me desvie o pensamento, morro disso!" E Soames 
compreendia-o obscuramente. Bem, se aquilo a ajudava, que tocasse durante a noite inteira! E, insinuando-se sob as rvores do pomar, chegou  varanda. Embora j 
estivesse resolvido a procur-la e a falar com ela, ainda hesitava, sem saber o que dizer, procurando a custo lembrar-se do que se sente ante um amor trado. Ele 
devia saber, devia lembrar-se - e no podia. Estavam desaparecidas todas as recordaes reais, lembrava-se apenas de que aquilo o fizera sofrer horrivelmente. E 
ficou de p, na escurido, passando o leno pelas mos e pelos lbios muito secos.
Estendendo a cabea, podia ver Fleur, de p, com as costas apoiadas  pianola, que ainda remoa a sua msica, os braos cruzados sobre o peito, um cigarro aceso 
entre os lbios, com o fumo a velar-lhe o rosto. E a expresso daquele rosto era estranha a Soames. os olhos brilhantes e parados, cada feio animada de uma espcie 
de desdm magoado e de clera. Uma ou duas vezes ele vira Annette com uma expresso assim, e o rosto estava vivo de mais, nu de mais, naquele momento no era o rosto 
da sua filha. No ousou aparecer, compreendendo a futilidade de qualquer tentativa de consolao. E sentou-se na sombra do caramancho.
Monstruosa partida que o destino lhe pregara! Nmesis! Aquele velho casamento infeliz. E, em nome de Deus, porqu? Como iria ele saber, quando desejara to violentamente 
Irene e ela consentira em ser sua, que ela nunca o amaria? A msica morreu e foi renovada, depois tornou a morrer, e Soames continuava ainda sentado na sombra, esperando 
no sabia o qu. A ponta do cigarro de Fleur passou atravs da janela, caiu na relva, e ele viu-a consumir-se, queimar-se a si prpria. A Lua abrigara-se por trs 
dos choupos e filtrava a sua irrealidade pelo jardim. Luz desconsoladora, misteriosa, escondida - igual  beleza daquela mulher que nunca o amara, cobrindo a vingana 
e as suas flechas com vestes que no eram deste mundo. Piores!

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E a sua flor to infeliz! Ah! Porque no pode uma pessoa colocar a felicidade em aplices, porque no se pode garanti-la contra a fuga?
A luz deixara agora de sair pela janela da sala de estar. Tudo l estava silencioso e escuro. Teria ela subido? Ergueu-se e entrou em casa, na ponta dos ps. Parecia 
que sim! Entrou. A varanda afastava a luz do luar e a princpio Soames apenas pde ver as silhuetas dos mveis, mais negros que a escurido. E encaminhou-se para 
a janela, para a fechar. O p bateu numa cadeira, ouviu um arfar. L estava ela, enroscada no canto do sof! As mos tactearam. Aceitaria Fleur a sua consolao? 
E ficou de p, olhando para aquela bola de vestido, cabelos e graciosa juventude, tentando abrir caminho atravs da tristeza. Por fim tocou-lhe os cabelos e disse:
- Venha, minha querida, o melhor  ir para a cama. Hei-de cur-la disso, de qualquer forma!
Que fatuidade! Mas que poderia ele dizer?

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CAPTULO IX - SOB o VELHO CARVALHO


Quando Soames desapareceu, Jon e a me ficaram imveis, sem falar, at que ele disse subitamente: - Eu devia t-lo acompanhado  sada.
Mas Soames j estava na estrada, e Jon subiu para o estdio do pai, pouco confiante em si.
A expresso da me ao enfrentar o homem com quem fora casada, selara a resoluo que crescia nele desde que ela o deixara na noite anterior. Aquilo dera a tudo o 
ltimo toque de realidade. Casar com Fleur seria como bater na face da me, seria trair seu pai morto! No podia ser! Jon tinha a natureza menos capaz de ressentimentos 
deste mundo e no sentiu qualquer rancor contra os pais nas suas horas de amargura. Para uma criatura to jovem, era um poder extraordinrio aquele seu de ver as 
coisas com tais propores. Era pior para Fleur, pior at mesmo para sua me, do que para ele. Pior que abandonar era ser abandonado ou ser a causa forada do abandono 
para algum que se ama! E ele no podia, no queria mostrar rancor! E, enquanto olhava da janela a luz tardia do comeo da noite, novamente teve aquela repentina 
viso do mundo que o impressionara na noite anterior. Mares e mares, pases e pases, milhes e milhes de pessoas, todas com as suas vidas, as suas energias, as 
suas alegrias, sofrimentos e mgoas - todas com coisas que eram foradas a abandonar,

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todas com as suas lutas separadas pela existncia. E, mesmo que ele se propusesse abandonar tudo por amor da nica coisa que no conseguia obter, seria um louco 
se pensasse que os seus sentimentos importavam muito num mundo to vasto e procedesse como um garoto choro ou um rstico ignorante. Cismava nas pessoas que nada 
possuam - os milhes que haviam perdido a vida na guerra, os milhes a quem a guerra deixara apenas a vida e pouco mais, as crianas famintas, os homens mutilados, 
os prisioneiros, todas as espcies de desventurados. E eles no o ajudavam muito. Se algum vai perder uma refeio, que consolao acha em saber que muitos outros 
vo sofrer a mesma perda? Via mais distraco no pensamento de se atirar por esse mundo fora, do qual conhecia to pouco. No poderia continuar ali, emparedado e 
abrigado, com tudo to suave e confortvel, sem nada para fazer alm de meditar e pensar no que no pudera ser. No queria voltar para Wansdon, para junto das lembranas 
de Fleur. Se a visse de novo, no poderia confiar em si mesmo, e, se ficasse em Robin Hill, ou se voltasse para Wansdon, seguramente a encontraria. Enquanto estivessem 
um ao alcance do outro, isso fatalmente aconteceria. A nica coisa a fazer era ir para longe, e depressa. Mas, por mais que amasse a me, no queria ir em companhia 
dela. No entanto, supondo-se brutal por esse pensamento, resolveu desesperadamente propor irem juntos para a Itlia. Durante duas horas, no estdio melanclico, 
procurou dominar-se, e depois vestiu-se solenemente para o jantar.
A me fizera o mesmo. Comeram pouco, lentamente, e falaram do catlogo do pai. A exposio estava marcada para Outubro, e, alm de alguns pormenores materiais, nada 
mais havia a fazer.
Depois do jantar, ela ps um abrigo, e foram para o jardim. Passearam um pouco, conversaram um pouco, depois pararam em silncio sob o velho carvalho. Dominado pelo 
pensamento "Se eu mostrar qualquer coisa, mostro tudo", Jon enlaou o seu brao no dela e disse despreocupadamente:
- Mam, vamos para a Itlia.
Irene apertou-lhe o brao e disse tambm com naturalidade:
- Seria muito bom, mas estive a pensar que  melhor voc ir sozinho.

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Ver mais coisas e far mais coisas do que lhe seria possvel na minha companhia.
- Mas assim fica sozinha.
- J vivi s durante mais de doze anos. Alm disso, gostarei de estar aqui para assistir  abertura da exposio de seu pai.
A mo de Jon agarrou-se mais ao brao dela. No se deixava enganar.
- No pode ficar sozinha aqui. Tudo  grande de mais.
- Aqui, talvez no. Vou para Londres, e poderei ir para Paris depois da abertura da exposio. Deve passar um ano a viajar, Jon, e ver o mundo inteiro.
- Sim, gostaria de ver o mundo e lutar com ele. Mas no quero deix-la s.
- Meu filho, eu vivo por si. Se  para o seu bem, ser tambm para o meu. Porque no marca a partida para amanh? J tem o seu passaporte.
- Sim. Se tenho de ir, o melhor  ir j. Apenas, mam, se eu resolver morar em qualquer parte... na Amrica ou noutro lugar... importa-se de ir tambm para l?
- Irei para onde e quando me chamar. Mas no me chame antes de realmente precisar de mim.
Jon soltou um fundo suspiro.
- Acho a Inglaterra sufocante.
Demoraram-se mais alguns minutos sob o carvalho, olhando para a frente, para o Grand Stand de Epson, velado pela noite. Os ramos encobriam o luar, que brilhava sobre 
o resto das coisas, sobre os campos distantes, nas janelas fechadas da casa, que em breve estaria para alugar.

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CAPTULO X - O CASAMENTO DE FLEUR


Os jornais mundanos de Outubro, ao anunciarem o casamento de Fleur Forsyte com Michael Mont, pouco se aperceberam da simblica significao desse acontecimento. 
Na unio da bisneta do "Superior Dosset" com o herdeiro de um nono baronete estava o inegvel e visvel sinal da fuso de classes que serve de base  estabilidade 
poltica de um pas. Chegara a altura em que os Forsyte eram obrigados a renunciar ao seu natural ressentimento contra as frioleiras que no lhes pertenciam por 
nascimento e aceit-las como mais naturalmente devidas ao seu instinto de propriedade. Alm disso, tinham de subir para dar lugar a todos os outros de fortuna muito 
mais recente. Naquela cerimnia discreta, mas de bom gosto, realizada em Hanover Square, terminada depois entre os mveis de Green Street, seria impossvel, entre 
os que no os conhecessem, distinguir o contingente Forsyte do contingente Mont - to longe estava j o "Superior Dosset". Seria que havia no corte das calas, na 
expresso do bigode, no sotaque, no brilho da cartola, num alfinete sequer, alguma diferena entre Soames e o baronete? No seria Fleur to senhora de si, to viva, 
to bonita e to difcil como as Muskham, Mont ou Charwell ali presentes? Esse nada que caracteriza a alta classe, os Forsyte possuam-no nos seus trajos, no seu 
aspecto, nas suas maneiras. Porque eles haviam-se tornado tambm "alta classe",

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e agora o nome dos Forsyte apareceria no Stud Book, com a cifra da sua fortuna junto  descrio das suas terras. Se isso era um pouco tardio e se aquelas recompensas 
do instinto de propriedade - terras e dinheiro eram destinados ao cadinho de fuso-, essa questo, apesar de to debatida, ainda no se debatera suficientemente. 
Afinal, Timothy dissera que os consolidados estavam a subir. Timothy, o ltimo, o elo perdido, Timothy, in extremis em Bayswater Road, segundo contara Francie. Murmurava-se 
que o jovem Mont era uma espcie de socialista muito vago, e, afinal, servia como elemento de segurana futura, levando-se em conta os tempos de hoje. E no havia 
nenhuma inquietao a recear nesse socialismo do moo. As classes latifundirias produzem de vez em quando essas suaves loucuras, dedicadas a empregos seguros e 
confinadas  teoria. Como George comentou com sua irm Francie:
- Breve tero filhos... e isso assentar-lhe- a cabea.
A igreja, ornada de brancos ramos de flores e com qualquer coisa azul na janela de leste, parecia extremamente casta, como tentando empreender um contra-ataque  
rudeza do servio religioso, calculado a levar o pensamento de todos para a questo da prole. Os Forsyte, os Hayman e os Tweetyman postaram-se na ala esquerda, os 
Mont, os Charwell e os Muskhan,  direita, enquanto as colegas de escola de Fleur e os colegas de guerra de Michael se espalhavam indiscriminadamente de um lado 
e de outro. E trs comadres abrigavam-se no fundo, em companhia de dois criados dos Mont e da velha ama de Fleur. Dada a situao alterada do pas, era uma igreja 
mais cheia do que se poderia esperar.
Mrs. Val Dartie, que estava sentada com o marido na terceira fila, apertou-lhe a mo mais de uma vez durante a cerimnia. Para ela, que conhecia o enredo daquela 
tragicomdia, esse seu dramtico momento era-lhe quase penoso. "Queria saber se Jon adivinha", pensava ela, "Jon, l longe na Colmbia Britnica." Recebera naquela 
mesma manh uma carta dele. que a fizera sorrir e dizer:
- Jon est na Colmbia Britnica. Val, porque queria estar na Califrnia. Gosta muito de l.

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- Oh - disse Val -. ento j est de novo capaz de dizer um gracejo.
- Comprou umas terras e mandou chamar a me.
- Que ir ela fazer longe daqui?
- Ela s se preocupa com Jon. Voc cr que essa mudana ser feliz?
Val apertou os olhos at mostrar apenas dois pontos cinzentos entre os clios escuros.
- Fleur no teria consentido em acompanh-lo. No teve boa educao.
- Pobre Fleur! - suspirou Holly.
Ah! Era bastante estranho aquele casamento! O rapaz, Mont, apanhara-a no refluxo, naquele desamparo de quem naufragou. E tal mergulho no poderia ser... como Val 
bem disse...
Havia pouco a dizer sobre o espectculo das costas cobertas com o vu que a prima lhe mostrava, e Holly revia os aspectos gerais daquelas bodas. Ela, que fizera 
um casamento por amor, tinha horror a matrimnios infelizes. Aquele poderia no dar nisso, no fim, mas era claramente como uma moeda atirada ao ar, que podia dar 
cara ou coroa. E consagrar daquele modo uma aposta de cara ou coroa com uma uno fictcia diante de uma multido de elegantes livre-pensadores parecia a Holly uma 
coisa to parecida com pecado quanto seria permitido evocar tal palavra numa era que a aboliu. Os olhos dela vagueavam no prelado, nas suas vestes de festa - um 
Charwell, pois os Forsyte ainda no haviam dado nenhum prelado-, para Val, ao seu lado, a pensar - ela tinha a certeza - na potra de Mayfly que estava cotada a quinze 
para um para o Cambridgshire. Depois os olhos de Holly apanharam o perfil do nono baronete, contrafeito ante o esforo de ajoelhar-se. Via bem o vinco que ele dera 
s calas, repuxando-as acima dos joelhos, para no as amarrotar, e pensou: "Val no puxou as dele!" Os seus olhos passaram para o banco  frente, onde o vulto substancial 
de Winifred estava trajado com apaixonada elegncia, e pousou depois em Soames e Annette, ajoelhados lado a lado. Um leve sorriso chegou-lhe aos lbios - Prosper 
Profond, de volta dos Mares do Sul via canal da Mancha, deveria estar igualmente ajoelhado, uns seis bancos atrs. Sim!

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Era realmente um engraado "pequeno" negcio, desse no que desse, realizava-se na igreja adequada e seria noticiado adequadamente pelos jornais na manh seguinte.
Comeara-se um hino, e ela via o nono baronete a cantar as Hostes de Midian. O seu dedo mnimo tocou o polegar de Val - seguravam o mesmo livro de hinos -, e um 
leve estremecimento atravessou-a, sempre o mesmo, depois de vinte anos. E ele sussurrou:
- Voc lembra-se do rato?
Era o rato que aparecera no casamento deles, na colnia do Cabo, e limpara os bigodes defronte da mesa do registo. E entre o terceiro dedo e o mnimo ela apertou 
fortemente o polegar
de Val.
O hino acabara, o prelado comeou a fazer a sua alocuo. Falou dos perigosos tempos em que vivemos e da vergonhosa conduta da Cmara dos Lordes em relao ao divrcio. 
"Todos somos soldados", disse ele, "nas trincheiras dos que sofrem os venenosos ataques do Prncipe das Trevas, e temos de ser valentes. A finalidade do casamento 
so os filhos, e no uma mera e pecadora felicidade."
Um diabinho danou nos olhos de Holly - os clios de Val tinham-se encontrado. Acontecesse o que acontecesse, ele no deveria ressonar. O seu polegar e o indicador 
beliscaram-no to fortemente que ele se agitou, incomodado.
O discurso acabara, passara o perigo. Estavam agora a assinar na sacristia.
Atrs dela, uma voz disse:
- Ser que ela aguenta a corrida?
- Quem ? - sussurrou Holly.
- O velho George Forsyte.
Holly deteve-se, examinando aquela cara, de quem j ouvira falar muito. Recm-vinda da frica do Sul, e desconhecendo a parentela e os amigos, nunca via nenhum deles 
sem uma curiosidade quase infantil. George era muito grande e muito tratado, e os olhos dele deram-lhe a curiosa sensao de estar pouco vestida.
- Esto a sair - ouviu-o dizer.
E eles vieram, caminhando ao som do coro.

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Holly olhou em primeiro lugar para o rosto do jovem Mont. Os lbios e as orelhas dele contraam-se, os olhos corriam inquietos desde os prprios ps at  mo de 
mulher pousada no seu brao, e paravam subitamente defronte de si, como para encarar um peloto de fuzilamento. Deu a Holly a impresso de que estava delirantemente 
apaixonado. Mas Fleur! Ah! Era diferente. A moa mostrava-se perfeitamente serena, mais bonita que nunca no seu vestido branco e sob o longo vu que lhe cobria os 
cabelos castanhos mantendo as plpebras descidas sobre os olhos cor de avel. Exteriormente, parecia toda ali, mas, interiormente, onde estaria ela? Quando passaram, 
Fleur levantou as plpebras - e a inquieta luz daquelas pupilas ficou gravada na memria de Holly como o dbil bater de asas de um pssaro prisioneiro.
Em Green Street, Winifred recebia os convidados um pouco menos serena que habitualmente. O pedido de Soames para lhe utilizar a casa chegara num momento profundamente 
psicolgico, Sob a influncia de um comentrio de Prosper Profond. ela comeara a trocar os seus mveis Imprio por outros, expressionistas. Havia  venda no Mealard 
os mais interessantes conjuntos, em violeta e verde, com ornatos laranja. Dentro de um ms, a mudana estaria completa. At agora, porm, os recrutas por de mais 
"curiosos" que ela alistara no marchavam muito bem com a velha guarda. Era como se o regimento dela estivesse metade de caqui e metade de l escarlate e barretes 
de pele de urso. Mas o seu carcter forte e decidido fez o melhor arranjo que pde na sala de estar, que caracterizava, muito mais do que talvez a dona o imaginasse, 
o semibolchevizado imperialismo do seu pas. Afinal, aquele era um dia de fuso, e ningum poderia queixar-se do excesso de uma coisa to salutar! E os olhos da 
dona da casa percorriam satisfeitos os seus hspedes. Soames encostara-se ao espaldar de uma cadeira embutida e o jovem Mont estava defronte daquele "interessantssimo" 
biombo cujo desenho ningum ainda fora capaz de lhe explicar. O nono baronete estava atrs de uma mesa redonda, escarlate, coberta com um vidro forrado por asas 
azuis de borboletas australianas, encostando-se ao seu armrio Lus XV,

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Francie Forsyte apoiava-se  nova prateleira da chamin, finamente esculpida com bonequinhos grotescos, sobre fundo de bano, George, encostado ao velho piano, segurava 
um livrinho azul-celeste, como se estudasse apostas. Prosper Profond brincava com o trinco da porta aberta, preta, com painis azul-pavo, e, perto dele, Annette 
punha as mos na prpria cintura. Dois dos Muskhan, na varanda, inclinavam-se sobre as plantas, como se as cheirassem, Lady Mont, magra e intrpida, segurava a sua 
luneta de longo cabo e fixava o grande candeeiro central, marfim e alaranjado, listrado de magenta-escuro, como se os cus se abrissem ali. Toda a gente, na verdade, 
parecia interessada em qualquer coisa. Apenas Fleur, ainda vestida de noiva, se desligava de qualquer apoio, atirando palavras e olhares  direita e  esquerda. 
A sala estava cheia do borbulhar dissonante das conversas. Ningum podia ouvir nada do que algum dizia, e isso parecia de pouca importncia, pois ningum esperava 
por uma coisa to certa como uma resposta. A conversa moderna parecia a Winifred to diferente dos tempos da sua mocidade, quando a grande moda era falar arrastado, 
balbuciando quase! Mas assim mesmo era "interessante" - o que, afinal, era s o que tinha importncia. Mesmo os Forsyte falavam com extrema rapidez - Fleur e Christopher, 
Imogen, o filho mais novo de Nicholas filho, Patrick. Soames, evidentemente, mantinha-se em silncio, mas George, por sobre o piano, trocava ruidosos comentrios 
com Francie, ainda apoiada  consola da chamin. Winifred aproximou-se do nono baronete. Ele parecia prometer um certo descanso, com o seu nariz fino e um pouco 
cado, tal como os bigodes grisalhos, e ela disse, destacando as palavras atravs do sorriso:
- Esteve tudo esplndido, no lhe parece?
A resposta explodiu como uma bolinha de po atravs do sorriso que ele devolvia:
- A senhora recorda-se, em Frazer, da tribo que enterrava a noiva at  cintura?
Falava to depressa como os outros! Tinha uns olhinhos escuros e vivos agarrando tudo em redor, como os de um padre catlico.

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Winifred sentiu imediatamente que ele diria cousas que eu haveria de lamentar.
- So sempre to interessantes os casamentos!
Ento ela caminhou para junto de Soames. O irmo estava curiosamente imvel e Winifred viu imediatamente o que ditava a sua atitude.  direita, tinha George Forsyte 
e  esquerda Annette e Prosper Profond. No podia mover-se sem ver aqueles dois juntos ou o reflexo deles nos olhos chocarreiros de George Forsyte E ele tinha toda 
a razo em no tomar conhecimento do caso.
- Dizem que Timothy est nas ltimas - disse ele lugubremente.
- E onde ir p-lo, Soames?
- Em Highgate. - E contou pelos dedos. - Com ele sero doze os que l esto, incluindo as noras. Que tal acha Fleur?
- Notavelmente bonita.
Soames concordou. Nunca a vira to linda, e no entanto no podia afastar-se do pensamento de que aquele casamento era anti-natural, recordando-se ainda do vulto 
enrodilhado no canto do sof. Desde aquela noite at ao dia de hoje no recebera dela qualquer confidncia. Soube pelo motorista que ela fizera mais uma tentativa 
em Robin Hill, mas fracassara ao dar com a casa vazia, sem ningum l. Sabia que recebera uma carta, mas ignorava o que vinha escrito nela, excepto que a obrigara 
a esconder-se e chorar. E notava s vezes que Fleur o olhava, quando pensava que o pai no o percebia, como se cismasse ainda no que teria ele feito outrora para 
que aquela gente o odiasse tanto. Bem, fora isso mesmo! Annette voltara, e as coisas prosseguiram a sua marcha, tristemente, at que subitamente Fleur lhe comunicou 
que ia casar com o jovem Mont. E mostrara-lhe um pouco mais de afeio quando lhe dissera isso. Ele curvara-se - que adiantava opor-se? Deus sabia que ele nunca 
pretendera opor-se-lhe em nada! E o rapaz parecia completamente louco por Fleur. No havia dvida de que ela estava num estado de esprito absurdo, e era jovem, 
absurdamente jovem. Mas, se se opusesse  vontade da filha, no sabia absolutamente o que ela poderia fazer. Tudo o que lhe poderia sugerir era que enveredasse por 
uma profisso - mdica ou advogada - ou qualquer outra extravagncia,

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ela no tinha aptido nem para a pintura, nem para escrever, nem para a msica, na sua opinio as nicas ocupaes legtimas para mulheres celibatrias, se elas 
acham que nos dias de hoje, so obrigadas a fazer qualquer coisa. Afinal, estava mais segura casada, porque ele via muito bem como ela andava febril e inquieta dentro 
de casa. Annette tambm fora favorvel ao casamento. Annette, por trs do vu da recusa dele em tomar conhecimento do que ela estava disposta a fazer, caso estivesse 
disposta a fazer quallquer coisa, Annette dissera: "Deixe-a casar com esse rapaz.  muito bom rapaz, muito menos louco do que parece." Donde tirara ela essa opinio 
ele no o sabia, mas a posio dela abrandara-lhe as dvidas. A esposa fosse qual fosse a sua conduta, tinha olhos perspicazes e uma quantidade quase deprimente 
de bom senso. Ele depositara cinquemta mil libras em nome de Fleur, tomando cuidado em no haver desvio de dinheiro no caso de o casamento no dar certo. Poderia 
no dar certo? Ela no esquecera ainda o outro rapaz, Soames sabia-o bem. Iam passar a lua-de-mel em Espanha. E ele sentir-se-ia ainda mais s depois de ela partir. 
No entanto, mais tarde, ela esqueceria e voltaria para ele!
A voz de Winifred interrompeu-lhe a cisma.
- Qu! No pode ser! June!
E um pouco alm, vestida num djibbah - que coisas ela vestia -, os cabelos presos numa rede, Soames viu a prima e Fleur encaminhando-se para a cumprimentar. As duas 
desapareceram para os lados da escada.
- Realmente - disse Winifred -, ela faz as coisas mais absurdas! Imagine, vir aqui!
- Porque a convidou? - resmungou Soames.
- Porque pensei que ela no aceitava,  evidente.
Winifred esquecera que a norma de conduta das criaturas se rege sempre pelo lado principal do carcter ou. por outras palavras, esquecera que Fleur era agora uma 
"desvalida".
Ao receber o convite, june pensara a princpio: "Por nada no mundo me meteria com eles!" Mas depois, certa manh, despertara de um sonho em que Fleur lhe aparecia 
a navegar em sua direco,

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dentro de um barco, fazendo-lhe gestos de desespero. E isso alterou-lhe a deciso.
Quando Fleur se aproximou e lhe disse "Vamos l acima, enquanto mudo o vestido", ela seguira-a pela escada. A moa guiou-a para o antigo quarto de dormir de Imogen 
e sentou-se junto do toucador.
June sentou-se na cama, magra e erecta, tal como um pequeno esprito. Fleur fechou a porta e ficou de p, diante de June, tirando o vestido de noiva. Como era linda!
- Creio que me considera uma louca - disse ela por entre os lbios trmulos - quando isto deveria ter sido com Jon. Mas que importa? Michael gostava de mim, e eu 
no me importo. E ele tira-me de casa. - Mergulhando a mo no peito, tirou uma carta. - Jon escreveU-me isto.

Lago Okanagen - Colmbia Britnica. Ndo voltarei a Inglaterra.

Deus a abenoe.

Jon

- Veja, como ela se garantiu - comentou Fleur. June devolveu a carta.
- Isso no  justo para Irene. Ela sempre disse que Jn poderia resolver como quisesse.
Fleur sorriu amargamente.
- Escute, ela no estragou tambm a sua vida? June olhou-a.
- Ningum pode estragar uma vida, minha querida. Isso  um disparate. As coisas acontecem, mas ns somos superiores a elas.
Com uma espcie de terror, viu a pequena cair de joelhos e esconder o rosto no djibbah. E um soluo estrangulado chegou aos ouvidos de June.
- Est bem, est bem - murmurou ela. - No chore! Ento, ento...


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Mas o queixo da rapariga comprimia-se mais fortemente contra ela e o som dos soluos era cada vez mais assustador.
Bem, bem! Aquilo tinha de acontecer. Depois ela sentir-se-ia melhor, June acariciou os cabelos curtos da cabecinha bem feita, e todo o seu disperso sentimento maternal 
se concentrou dentro dela, passando, atravs das pontas dos seus dedos, para a cabea da moa.
- No se escravize a isso, minha querida-disse ela finalmente. - Uma pessoa no pode controlar a vida, mas pode lutar com ela. Procure ver o lado melhor das coisas. 
Foi assim que fiz. Sofri, como voc. E chorei, como voc est a chorar. E olhe agora para mim!
Fleur levantou a cabea e um soluo afogou-se-lhe num leve riso. Na verdade, o que ela estava a ver era um delgado, selvagem, quase devastado esprito, mas com uns 
olhos corajosos.
- Muito bem!--disse ela.-Sinto muito. Creio que hei-de esquec-lo, se for para bastante longe e depressa.
E, erguendo-se, caminhou para o lavatrio.
June via-a remover com gua fria as marcas da emoo. Salvo um ligeiro rubor, j no se percebia nada quando ela se ps diante do espelho. June ergueu-se da cama, 
agarrando uma almofadinha de alfinetes, e a nica coisa que soube fazer para mostrar a sua piedade foi cravar dois alfinetes em lugares errados.
- D-me um beijo - disse ela quando Fleur ficou pronta, comprimindo o queixo contra a tpida face da rapariga.
- Quero fumar um cigarro - disse Fleur. - No espere. June deixou-a sentada na cama, com o cigarro entre os lbios,
os olhos semicerrados, e desceu a escada. Na porta de entrada da sala de estar estava Soames, como que inquieto com a demora da filha. June dirigiu-se para a entrada.. 
A sua prima Francie estava l.
- Olhe! - disse June, apontando com o queixo para Soames. - Aquele homem fatal!
- Que quer voc dizer? - perguntou Francie. - Fatal? June no respondeu.
- No esperarei pela sada - disse ela finalmente. - Adeus!
- Adeus! - disse Francie. E os seus olhos de um azul de celta arregalaram-se.

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Aquela velha intriga! Com efeito, era absolutamente romntica!
Soames, saindo de junto  escada, viu June ir-se embora e soltou um suspiro de satisfao. Porque no aparecia Fleur? Acabavam por perder o comboio. Aquele comboio 
ia roubar-lha, mas ele no podia deixar de se inquietar ao pensar que os noivos se arriscavam a perd-lo. Ento ela apareceu descendo a escada, envergando um vestido 
de tom queimado, com um chapeuzinho de veludo preto, e passou por ele em direco  sala. Viu-a beijar a me, a tia, a mulher de Val, Imogen, e depois voltar-se 
na sua direco, rpida e linda como sempre. Como iria trat-la naquele derradeiro momento da sua vida, de rapariga? Ele no podia esperar muito!
Os lbios dela comprimiram-lhe a face.
- Paizinho! - disse ela afastando-se.
Paizinho! J no lhe chamava assim h anos. Ele soltou um longo suspiro e acompanhou lentamente o grupo. E ainda era preciso atravessar toda a loucura dos confetti 
e o mais, mas ele queria ver se ainda lhe apanhava um sorriso, se ela se voltasse para trs, embora aqueles loucos fossem capazes de lhe acertar com um sapato se 
no tomassem cuidado.
A voz de Michael disse-lhe fervorosamente ao ouvido:
- Adeus, sir, e obrigado! Estou horrivelmente aturdido!
- Adeus - respondeu Soames. - No perca o comboio. Ficou de p no terceiro degrau, a fim de poder ver por sobre
as cabeas - os ridculos chapus e as cabeas. Os noivos j estavam no carro. Houve aquela algazarra, e ento atiraram o sapato. Uma onda de algo indefinvel avassalou 
Soames, e ele no sabia... no podia ver!

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CAPTULO XI - O LTIMO DOS VELHOS FORSYTE


Quando chegaram para preparar a toilette fnebre daquela criatura terrivelmente simblica - Timothy Forsyte, o nico individualista ainda vivo, o nico homem que 
no tomara conhecimento da grande guerra -, acharam-no maravilhoso. Nem mesmo a morte liquidara a sua sade.
Para Smither e a cozinheira, aquela preparao representava a prova do que elas nunca haviam suposto possvel - o fim terrestre da velha gerao dos Forsyte. Pobre 
Mr. Forsyte. Agora devia segurar a sua harpa e cantar em companhia de Miss Forsyte, de Mrs. Juley, de Miss Hester, com Mr. Jolyon, Mr. Swithin, Mr. James, Mr. Roger 
e Mr. Nicholas tambm na festa. Se Mrs. Hayman estaria l, no se poderia garantir, pois fora cremada. Secretamente, a cozinheira supunha que Mr. Timothy ficaria 
alterado, pois ele sempre se irritara com realejos. Quantas vezes ele dissera: "Maldita coisa! L vem de novo! Smither, o melhor que voc faz  ir ver o que pode 
fazer." Por ela, teria apreciado muito a msica, se no soubesse que Mr. Timothy tocaria imediatamente a campainha dizendo: "Tome meio penny e mande tocar mais longe." 
Muitas vezes eram obrigadas a acrescentar trs pence do seu prprio bolso, antes que o homem resolvesse ir-se embora, pois Timothy sempre subestimara o valor da 
emoo. Felizmente, nos ltimos anos, ele tomara os realejos por zumbidos de moscas, o que era uma consolao,

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e assim elas podiam ouvir a msica a gosto. Mas uma harpa! A cozinheira cismava. Era uma grande mudana! E Mr. Timothy nunca gostara de mudanas. No entanto, no 
falou acerca disso com Smither, que tinha os seus prprios conceitos em relao ao Cu, e esses conceitos eram capazes de irritar qualquer pessoa.
Chorou enquanto Timothy estava a ser preparado e todos beberam o sherry da garrafa de Natal, que a partir de agora j no seria necessria. Ah, Senhor! Ela estava 
ali h quarenta e cinco anos e Smither h quarenta e trs! E agora tinham de ir para uma casinha de Tooting, vivendo das suas economias e do que Miss Hester to 
bondosamente lhes deixara. Porque no se empregariam novamente, depois do glorioso passado! No! Mas gostariam de voltar a ver Mr. Soames ainda uma vez, e Mrs. Dartie, 
e Miss Francie, e Miss Euphemia. E, mesmo que tivessem de pagar o prprio txi, ambas achavam que deveriam comparecer ao funeral. Durante seis anos, Mr. Timothy 
fora o beb delas, tornando-se cada dia mais criana, at que finalmente ficara criana de mais para viver.
Passaram as horas regulares de espera polindo e espanando tudo, apanhando o nico rato que cara na ratoeira e asfixiando o ltimo escaravelho, a fim de deixarem 
tudo limpo - discutindo uma com a outra o que comprariam no leilo. A caixa de trabalho de Miss Ann, o lbum de algas de Miss Juley, o guarda-fogo favorito de Miss 
Hester e os cabelos de Mr. Timothy - pequenos rolinhos louros guardados numa moldura preta. Oh! Tinham de comprar aquilo, mas tambm era verdade que o preo das 
coisas subira tanto!
Coube a Soames distribuir convites para o funeral. Mandou-os preparar por Gradman, no escritrio. S aos parentes prximos e nada de flores. Encomendaram-se seis 
carros. E o testamento seria lido depois em casa.
Chegou s onze horas para ver se estava tudo pronto. Um quarto de hora depois o velho Gradman chegou, de luvas pretas, com um crepe no chapu. Ele e Soames ficaram 
 espera na sala de estar. s onze horas chegaram os carros, numa longa fila. Mas ningum mais apareceu.

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- Isto surpreende-me, Mr. Soames - disse Gradman. - Eu mesmo pus os convites no correio.
- No sei - disse Soames. - Ele tinha perdido todo o contacto com a famlia.
Soames reparara, nos velhos tempos, que a sua famlia se aproximava muito mais na morte que na vida, mas, agora, a maneira como ela se reunira toda para o casamento 
de Fleur e faltava para o funeral de Timothy parecia-lhe uma amostra de mudana vital. Naturalmente havia outra razo, pois Soames sabia que, se ele no conhecesse 
o contedo do testamento de Timothy, talvez tambm se afastasse, por delicadeza. Timothy deixara uma boa fortuna, sem ningum de especial a quem a legar, e eles 
pareceriam estar  espera de alguma coisa.
s doze horas o cortejo deixou a porta. Timothy ia sozinho, na primeira carruagem. Depois, Soames s, depois, Gradman s, depois, a cozinheira e Smither juntas. 
Comearam o percurso a passo, mas em breve puseram-se a trotar sob o sol brilhante.  entrada do cemitrio de Highgate, pararam para o servio fnebre na capela. 
Soames preferia ter ficado do lado de fora. No acreditava numa palavra daquilo, mas, por outro lado, era uma forma de garantia que no podia ser negligenciada, 
no caso de, afinal, haver alguma coisa.
Caminharam de dois em dois - ele e Gradman, Smither e a cozinheira - at ao mausolu da famlia. No era muito distinto, para o funeral do ltimo dos velhos Forsyte.
Trouxe Gradman no seu carro, na viagem de volta para Bayswater Road, com um certo calor no corao. Tinha uma surpresa para o velho que servira os Forsyte durante 
cinquenta e quatro anos - uma surpresa que preparara sozinho. Lembrava-se bem de ter dito a Timothy, no dia seguinte ao funeral da tia Hester: "Bem. tio Timothy, 
e ainda temos Gradman. Tem tido os maiores trabalhos com a famlia. Que  que o senhor diz de lhe deixar cinco mil libras?" E enorme fora a sua surpresa quando Timothy 
concordara, conhecendo como conhecia a dificuldade de obter que o tio deixasse qualquer coisa para algum. E agora o velhote ficaria imensamente alegre, pois Soames 
sabia que Mrs. Gradman sofria do corao e o filho deles perdera uma perna na guerra.

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Era extraordinariamente agradvel para Soames o facto de ter reservado para ele cinco mil libras do dinheiro de Timothy. Sentaram-se ambos na pequena sala de estar, 
cujas paredes, como uma viso celeste, eram azul-celeste e dourado, com cada moldura de quadro espantosamente brilhante, cada mvel livre do menor gro de poeira, 
para lerem aquela pequena obra-prima - o testamento de Timothy. Com as costas para a luz, sentado na cadeira da tia Hester, Soames encarava Gradman, que voltava 
o rosto para a luz, no sof da tia Ann. E, cruzando as pernas, comeou:

Este  o testamento onde esto contidas as ltimas vontades do abaixo assinado, Timothy Forsyte, do Bower, Bayswater Road. Nomeio o meu sobrinho Soames Forsyte, 
do Shelter, Mapledurham, e Thomas Gradman, de Folly Road, Highgate, como meus testamenteiros e executores do dito testamento. Para o dito Soames Forsyte deixo a 
soma de mil libras, livres de imposto de transmisso, e ao dito Thomas Gradman deixo a soma de cinco mil libras, igualmente livres do imposto de transmisso.

Soames parou. O velho Gradman estava inclinado para a frente, convulsivamente agarrado a um dos joelhos com cada uma das mos magras. A boca abrira-se, de forma 
que lhe apareciam as obturaes de ouro nos dentes, os olhos piscavam, e duas lgrimas rolaram lentamente deles. Soames continuou a ler rapidamente:

Deduzidos esses legados e as somas necessrias ao pagamento das minhas despesas funerrias e mais gastos em conexo com este testamento, lego a soma total restante 
ao descendente varo de meu pai, Jolyon Forsyte, por seu casamento com Ann Tierce, o qual descendente, aps a morte de todos os descendentes masculinos ou femininos 
de meu citado pai, havidos do citado casamento, e que j estavam em vida por ocasio da minha morte, seja o ltimo a atingir a idade de vinte e um anos.  minha 
vontade expressa que todas as minhas propriedades sejam conservadas, at ao extremo-limite permitido pelas leis da Inglaterra, em benefcio desse descendente de 
linha masculina acima descrito.

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Soames leu a enumerao dos ttulos e outras clusulas secundrias, e, tendo terminado, olhou para Gradman. O velhote enxugava a testa com um grande leno de cor, 
que dava uma inesperada nota festiva  cerimnia.
- Pa-lavra de honra, Mr. Soames! - disse ele. E era claro que o advogado matara nele o homem. - Palavra de honra! Porque temos agora dois bebs e alguns meninos 
maiores, se algum deles viver at aos oitenta anos - no  uma idade avanada de mais -, e some-se a isso vinte e um anos... faz um sculo. E os haveres de Mr. Timothy 
montam a cento e cinquenta mil libras, limpas de todos os nus. A um juro de cinco por cento, estaro duplicadas em catorze anos. Em catorze anos, trezentas mil 
libras, seiscentas mil em vinte e oito anos, um milho e duzentas mil em quarenta e dois, dois milhes e quatrocentas mil em cinquenta e seis anos, quatro milhes 
e oitocentas mil em setenta anos, nove milhes e seiscentas libras em oitenta e quatro anos. Que, em cem anos, sero vinte milhes! E no estaremos vivos para ver 
isso! Que testamento!
- Nada disso acontecer - disse secamente Soames. - O Estado tomar posse da herana. So capazes de tudo, nos tempos de hoje.
"E eu contei cinco por cento", disse Gradman para si mesmo. "Esqueci-me de que os valores de Mr. Timothy so todos em consolidados, pelo que teremos de despender 
mais de dois por cento, com essa taxa de imposto sobre a renda,. Para ficar certo, digamos oito milhes. Ainda assim,  um bom dinheirinho."
Soames ergueu-se e estendeu-lhe o testamento.
- Voc vai para a cidade. Tome conta disso e faa o que for necessrio. Avise, mas no h credores. Quando ser o leilo?
- De tera-feira a uma semana-disse Gradman. - A vida dos que esto vivos e mais vinte e um anos  bastante tempo. Mas fico contente que tenha sido legado  famlia...
O leilo, que no foi feito por Jobson, dada a natureza vitoriana dos objectos  venda, foi muito mais concorrido que o funeral, embora no comparecessem a ele nem 
Smither nem a cozinheira, pois Soames encarregara-se de lhes garantir os objectos que o seu corao desejava. Winifred estava presente, Euphemia e Francie,

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e Eustace veio no seu carro. As miniaturas, os Barbizons e os desenhos assinados "j. R.". foram comprados por Soames e as relquias sem valor monetrio foram postas 
de lado para serem dadas s pessoas da famlia que apreciavam lembranas. Foram estas as nicas restries  venda, caracterizada por um quase trgico langor. Nenhum 
dos mveis, nenhum dos quadros ou bibelots interessava o gosto moderno. Os pssaros empalhados haviam cado como folhas de Outono quando foram tirados donde estavam 
h sessenta anos. Era triste para Soames ver as cadeiras onde as tias se tinham sentado, o grande piano onde nunca haviam praticamente tocado, os livros cujas capas 
elas haviam olhado, os bibelots que haviam arrumado, as cortinas que elas corriam, o tapete em frente da lareira onde aqueciam os ps, e acima de tudo os leitos 
onde haviam dormido e morrido, vendidos a pequenos revendedores e a donas de casa de Fulham. Mas que se podia fazer? Comprar tudo e guardar os trastes num sto? 
No. Era melhor que seguissem o destino de toda a carne e de todos os mveis e se acabassem pelo uso. No entanto, quando apregoaram o sof da tia Ann e iam bater 
o martelo por trinta shillings, Soames exclamou de repente:
- Cinco libras!
A sensao foi considervel e o sof passou a ser seu.
Quando se acabou a venda na pequena sala bolorenta do leiloeiro e todas aquelas cinzas vitorianas foram varridas, ele ps-se a caminho, por entre a enevoada luz 
do sol de Outubro, com a impresso de que toda a tranquilidade acabava de morrer no mundo e se erguera sobre tudo este letreiro: "Aluga-se". Revolues no horizonte, 
Fleur em Espanha, nenhuma consolao em Annette, j no existia Timothy em Bayswater Road. Na irritvel desolao em que ficara a sua alma, dirigiu-se para a Goupenor 
Gallery. As aguarelas de Jolyon estavam expostas l. E ele disps-se a examin-las, esperando tirar disso alguma precria satisfao. Por intermdio de june, que 
transmitira a notcia  mulher de Val, e de Val, que a contara  me, e esta a Soames, ele soubera que a casa - a fatal casa de Robin Hill - estava  venda e Irene 
partira para morar com o filho na Colmbia Britnica, ou coisa parecida. E, num momento rpido de delrio, este pensamento ocorreu a Soames: "Porque no a comprarei, 
por minha vez? Destinei-a aos meus..."

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Mas to depressa veio esse sentimento como partiu. Seria um triunfo lgubre de mais, com muitas lembranas excessivamente humilhantes tanto para ele, como para Fleur. 
Ela nunca quereria viver ali depois do que acontecera. No, era melhor que a casa fosse parar s mos de algum lorde ou de algum especulador. Ela fora, desde o princpio, 
a espinha dorsal da contenda, a prpria casca da intriga e agora, com a partida daquela mulher, era uma casa vazia. " venda" ou "Aluga-se". E com os olhos do esprito 
Soames avistava esse letreiro aposto na parede coberta de hera que ele fizera erguer.
Passou pela primeira das duas salas da galeria. Realmente, era uma poro regular de trabalho! E agora, que aquele indivduo estava morto, no parecia to trivial. 
Os desenhos eram bastante agradveis, com um senso real de atmosfera e algo individual no trabalho de pincis. "O pai dele e o meu pai, ele e eu, o filho dele e 
a minha filha", pensava Soames. E assim tudo aquilo acabara E tudo por causa daquela mulher! Abrandado pelos acontecimentos da semana que passara, afectado pela 
melanclica beleza daquele dia de Outono, Soames aproximou-se mais do que nunca lhe fora antes possvel da compreenso desta verdade que ultrapassa o entendimento 
de um Forsyte puro: o corpo da Beleza tem uma essncia espiritual, apenas capturvel graas a um devotamento que no pense em si mesmo. Afinal, ele j andava muito 
prximo dessa verdade no seu devotamento pela filha,- e talvez aquilo o fizesse compreender um pouco a razo por que ele perdera o prmio. E ali, por entre os desenhos 
do seu adversrio, que conseguira atingir aquilo que procurava, Soames pensou nele e nela com uma tolerncia que o surpreendeu. Mas no comprou nenhum desenho
Exactamente quando passava pelas cadeiras dos visitantes de volta para o exterior, teve de enfrentar uma contingncia que no estivera inteiramente ausente do seu 
esprito quando se encaminhara para a galeria:, Irene, em pessoa, aproximava-se. Ento no partira ainda e fazia as suas visitas de adeus s relquias daquele indivduo! 
Dominou o pequeno salto involuntrio do seu subconsciente, a reaco mecnica dos seus sentidos contra o encanto daquela mulher possuda outrora. e passou por ela 
desviando os olhos. Mas quando se distanciou,

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no poderia, nem pelo preo da prpria vida, deixar de olhar para trs. Aquilo ento era o fim: o calor e o significado da sua vida, a tristeza e a saudade por uma 
certa coisa, a nica derrota que sofrera, tudo estaria terminado quando ela lhe desaparecesse da vista daquela vez. E mesmo tais lembranas tm o seu prprio e doloroso 
valor. Ela tambm olhara para trs. E de repente ergueu a mo enluvada, os seus lbios sorriram debilmente. os seus olhos escuros pareceram falar. Chegara a vez 
de Soames no responder quele sorriso e quele ligeiro gesto de adeus, e saiu para a rua tremendo dos ps  cabea. Comprendia o que ela quisera dizer: "Agora, 
que saio para sempre do alcance de si e dos seus, perdoe-me. Desejo-lhe bem." Era esse o sentido, era o ltimo sinal daquela terrvel realidade que afrontara a moral, 
o dever, o bom senso - a averso dela contra ele, que possura o seu corpo, mas nunca conseguira atingir o seu esprito ou o seu corao. E aquilo magoava-o, sim, 
magoava-o muito mais profundamente do que se ela houvesse mantido uma mscara imvel e a mo cada.
Trs dias depois, naquele fim amarelo de Outubro, Soames apanhou um txi para o cemitrio de Highgate e caminhou por entre a branca floresta de mrmores at ao mausolu 
dos Forsyte. Junto ao p de cedro, sobre as catacumbas, o tmulo erguia-se como um monumento ao sistema da livre competio. Soames recordava uma discusso de famlia 
durante a qual Swithin advogara a adio do faiso herldico na face de mrmore do mausolu. A proposta fora rejeitada em favor de uma coroa de pedra sobre estas 
palavras esculpidas: "Mausolu da famlia de Jolyon Forsyte: 1850". Estava em boa ordem. Todos os sinais do recente enterramento j haviam sido removidos e o seu 
cinzento sbrio era repousante,  luz do sol. Toda a famlia jazia agora ali. excepto a mulher do velho Jolyon, que fora enterrada, por exigncia da gente dela, 
no mausolu familiar de Suffolk, o prprio velho Jolyon, que repousava em Robin Hill, e Susan Hayman, cremada, de modo que ningum sabia onde poderia estar. Soames 
contemplava o tmulo com satisfao - macio, exigindo poucos cuidados. E isso era importante, pois sabia muito bem que ningum se preocuparia com o mausolu

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depois que ele, Soames, houvesse desaparecido, e ele prprio, mais cedo ou mais tarde, teria de cuidar do seu alojamento ali. Ainda podia ter vinte anos diante de 
si, mas ningum pode prever nada. Vinte anos sem uma tia nem um tio, com uma mulher de quem era melhor no saber nada, com a filha fora de casa. O seu esprito inclinava-se 
 melancolia e  retrospeco.
Aquele cemitrio estava cheio, diziam, de nomes extraordinrios, enterrados com extraordinrio gosto. E, alm disso, tinha dali uma bela vista sobre Londres. Certa 
vez, Annette, dera-lhe para ler uma histria escrita por um francs, Maupassant, de enredo muito lgubre, contando que todos os esqueletos emergem do tmulo numa 
certa noite e todas as piedosas inscries das lpides so substitudas pelas descries dos seus pecados. No era absolutamente uma histria verdica. Ele pouco 
conhecia acerca dos Franceses, mas no havia na verdade muito mal nos Ingleses - excepto nos seus dentes e no seu gosto, que era inegavelmente deplorvel.
MAUSOLU DA FAMLIA DE JOLYON FORSYTE: 1850. Uma poro de gente ali fora enterrada desde ento - uma poro de vida de ingleses transformada em poeira e em hmus! 
O rudo de um avio, passando entre as nuvens douradas, f-lo erguer os olhos. Aquele amaldioado progresso ascendia sempre! Mas tudo viria acabar no cemitrio - 
um nome e uma data sobre uma sepultura. E ele pensou, com curioso orgulho, que a sua famlia havia feito muito pouco ou nada em favor dessa expanso febril. Bons 
e slidos homens medianos tinham abandonado o trabalho pela dignidade de dirigir e possuir. O "Superior Dosset" construra, com efeito, num perodo calamitoso, e 
Jolyon pintara num perodo dbio, mas, to longe quanto ele podia recordar, nunca nenhum deles maculara as mos com a criao de qualquer coisa - a menos que se 
contasse Val Dartie, com os seus cavalos. Coleccionadores, advogados, procuradores, comerciantes, editores, agentes territoriais, at mesmo soldados - tudo haviam 
sido! O pas expandira-se, mas expandira-se a despeito deles. Tinham emitido cheques, controlado, defendido e aproveitado o processo de expanso. E quando se pensava 
que o "Superior Dosset" comeou a sua vida praticamente do nada e os seus descendentes viriam a possuir

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o que o velho Gradman estimara em milhes e milhes - no era assim to mau! E, no entanto, muitas vezes ele pensava que o impulso da famlia se relaxara e que o 
seu instinto de possuir estava a morrer. Pareciam incapazes de ganhar dinheiro - esses da quarta gerao. Procuravam a arte, a literatura, a agricultura ou o exrcito, 
ou limitavam-se a viver do que herdavam - no tinham nem vigor nem tenacidade. E morreriam disso, se no tomassem cuidado.
Soames voltou as costas ao tmulo e ofereceu o rosto ao vento. O ar dali seria delicioso se ele pudesse libertar o esprito do pensamento de toda aquela mortalidade 
em torno de si. Fixava irresistivelmente as cruzes e as urnas, os anjos, as perptuas, as flores vivazes ou murchas. E de repente percebeu um local que parecia to 
diferente de tudo o mais ali em torno que se sentiu obrigado a caminhar os poucos metros necessrios para o apreciar.
Uma pedra sbria com uma cruz macia, bizarramente cortada em granito cinzento e spero, guardada por quatro escuros teixos. O espao era livre da presso dos outros 
tmulos, com um pequeno jardim quadrado, rodeado de grades e tendo em frente uma vidoeira dourada, Aquele osis no deserto de tmulos convencionais falava ao senso 
esttico de Soames. e ele sentou-se um pouco, gozando o sol. Por sob as trmulas folhas douradas da vidoeira, olhava para Londres e recuava nas vagas da memria. 
Pensou em Irene, em Montpellier Square, quando os seus cabelos eram um toso dourado e os seus alvos ombros eram seus - Irene, presa da sua paixo amorosa, resistindo 
 sua posse. Viu o corpo de Bosinney jazendo no necrotrio e Irene, sentada no sof, olhando para o vcuo, como um pssaro moribundo. Lembrou-se ainda dela, junto 
 pequena Nobe verde do Bois de Boulogne, repelindo-o mais uma vez. A memria levou-o depois ao seu passeio pela margem do rio. naquela tarde de Novembro em que 
Fleur deveria nascer, as folhas, derrubadas pelo vento e represadas pelo desembarcadouro, que flutuavam na gua esverdeada como coisas mortas. Levou-o  janela aberta 
para a noite gelada que cobria Hyde Park. quando o pai morrera. Levou-o depois  Cidade do Futuro, junto da qual Fleur e aquele rapaz se tinham encontrado pela primeira 
vez, ao rasto azulado do charuto de Prosper Profond e a Fleur a apontar para o caminho por onde aquele indivduo vagueava. A viso de Irene e o
marido, agora morto, sentados lado a lado no stand do Lord's. Ela e o filho em Robin Hill. O sof em cujo canto Fleur se enrodilhava e os lbios dela comprimidos 
contra o seu rosto, a sua palavra de adeus: "Paizinho." E subitamente voltou a ver a mo enluvada de Irene acenando-lhe o seu ltimo gesto de libertao.
Continuou sentado ali muito tempo, revivendo a sua carreira, fiel aos desgnios do seu instinto de propriedade, aquecendo-se at mesmo com os seus fracassos.
O letreiro "Alugasse" estava pregado  era. dos Forsyte e ao seu modo de viver,  poca em que um homem possua a sua alma, os seus capitais, a sua mulher, sem contestao 
nem disputa. E agora o Estado possua ou queria possuir os seus capitais, a sua mulher era dona de si mesma e s Deus sabia quem lhe possua a alma. "Aluga-se" esse 
credo so e simples!
As guas renovadoras j vinham correndo, trazendo a promessa de novas formas mal a onda distribuidora passasse. E ele sentava-se ali. com o sentimento subconsciente 
dessa aproximao, mas com os pensamentos resolutamente entregues ao passado, tal como um homem que teimasse em cavalgar numa noite escura com o rosto voltado para 
a cauda da sua montada galopante. Por fora dos diques vitorianos, as guas arrastavam a propriedade, as maneiras, a moral, juntamente com as velhas formas de arte 
- guas que deixavam na sua boca um gosto salgado de sangue, lambendo os ps daquela colina de Highgate onde o vitorianismo estava enterrado. E sentado ali, elevado 
no seu ponto mais individualista, Soames, tal como a figura do Capital, recusava-se a ouvir os rugidos incansveis daquela mar. Instintivamente recusava-se a lutar 
com ela - havia nele muito da sabedoria primeva do homem, o animal possessivo. Ela acalmar-se-ia depois de haver satisfeito a sua febre de desapropriar e destruir, 
e, quando as criaes e as propriedades dos outros estivessem suficientemente quebradas e atiradas fora, viria a baixamar, e novas formas se ergueriam, baseadas 
no instinto mais velho que a febre da mudana - o instinto do Lar.
"Je m'en fiche", dizia Prosper Profond. Soames no dizia "je m'en fiche" - a frase era francesa e aquele indivduo era uma espinha na sua garganta -, mas sabia obscuramente 
que a mudana
significava apenas um intervalo de monte entre duas formas de vida. destruio necessria para dar lugar  nova propriedade
Porque pensar que tudo acabara, que acabara o conforto? Algum viria depois e recome-lo-ia.
Apenas uma coisa realmente o perturbava, sentado ali - uma melancolia que lhe tomava o corao-, porque o sol era como um encantamento no seu rosto, nas nuvens, 
nas folhas da vidoeira, e o soprar do vento era to macio, os teixos eram to escuros. o semicrculo da Lua empalidecia no cu.
Ele podia desejar, desejar, porque nunca mais o empolgariam a beleza e o amor!


FIM DO TERCEIRO E LTIMO VOLUME


COLECO DOIS MUNDOS


A FAMLIA FORSYTE - JOHN GALSWORTHY


Publicado em Portugal com um sucesso sem precedentes -  edio esgotada em 15 dias -, adaptado  televiso num filme que obteve o mais largo xito, este romance 
de John Galsworthy conhece, em todo o mundo, a consagrao mais alta que um escritor pode ambicionar. A distino que lhe foi concedida - o Prmio Nobel da Literatura 
- e o nmero elevado de edies que o romance tem alcanado ao longo do tempo - best-seller invisvel embora sem parangonas - fizeram de Galsworthy um nome de primeiro 
plano na literatura
        mundial. Acerca dele escreveu Rachel de Queiroz estas palavras de extrema lucidez: "A meu ver, a base do talento de Mr. John Galsworthy est no seu poder 
de introspeco irnica, combinada com um olhar extremamente penetrante e fiel para todos os fenmenos da vida externa dos seus personagens.
        Esses so os poderes da sua imaginao, cujo servo  um estilo claro, directo, so, iluminado por
